terça-feira, 6 de julho de 2010

CHEIO DE PENAS


Roda a vida em sua roda invisível
O mundo desperta na claridade da manhã
Um pio primeiro é pronúncio de canto
Uma boca solta uma palavra vã

O nevoeiro partiu no dia
Uma árvore solta os seus dourados presentes
Um ribeiro acolhe o cantarolar das águas
Um coração arroxa de repletos sentimentos

Esta ilha não tem fortuna
Trocou-a por um curioso mistério
Este irreal e intenso verde
Que inunda o olhar mais sério

Nesta ilha há um beijo na tua procura
Nesta ilha as pedras não têm idade
Nesta ilha as juras são lançadas à maresia
Nesta ilha o sonho é janela da verdade

Por isso e por muito mais
É feliz o cantador
Canta melodias feitas ao acaso
Tecidas dos fios da sua dor

Tear que range em protesto
Tecelão de fio branco e negro
O que guarda este manto de mágoa
Onde guardas este precioso segredo?

Onde poisam as gaivotas ao fim do dia?
Porque volta sempre esta suave maré?
Porque presenteia as pedras com colar de espuma?
Porque navegas à bolina sem olhar p'rá ré?

Porque me sinto tão longe do mundo?
Porque sei, sabendo, que perversa é esta viagem
Será que imaginei, imaginando-te?
Será que o teu sorriso é difusa miragem?

Sigo adiante, mesmo em contemplação
Sinto bater no peito mil saudades
Sinto a vida acolher-me em azul sorte
Sinto que fui criança em sete idades

E em sete vezes parti no chegar
Vi rezar na promessa muita alma em novenas
Meu coração chora no embalo do embora
Deito o corpo na noite, adormeço...cheio de penas...

terça-feira, 22 de junho de 2010

O FEITIÇO QUE HÁ EM TI


Este sol que vence o nevoeiro
Recolhe as gotas do sereno da manhã
Este grito que se perdeu na noite
Transformou-se em palavra vã

Aromas errantes soltos no ar
Esta terra molhada tem a promessa de pão
As uvas são amargas em Julho
O Setembro é pintado da cor do coração

As palavras nem sempre são bem ditas
Nem sempre vindas do profundo da alma
Umas caem por terra estéreis
Outras envolvem o sentir da calma

Julguei ser a ilha um navio à deriva
Sem velas, sem vento nos brandais
Julguei-me numa viagem perpétua
Inventei um grande e colorido cais

Que roubei às asas de uma brisa brincalhona
Tracei as formas que me ditaram a vontade
Não saiu à primeira, talvez aí por volta da nona

Pois é, a loucura tem um fraquinho por mim
Entra e sai a seu belo prazer
Às vezes penso ser gerada por um irado deus
Que faz tudo para me roubar o ver

Vi!
Estou sempre a ver coisas estranhas
Estou sempre a sentir à minha volta
Uma roda de dores tamanhas

Estou sempre na mira do pensamento incomum
Estou sempre tão cheio de comoventes verdades
Estou sempre a chorar o lado escuro do mundo
Estou sempre na procura de um partir sem saudades

E parto no embalo do fim do dia
Não levo bagagem para o viver dos sonhos
Levo apenas esta força imensa
Que ofusca até os seres bisonhos

São tantos os caminhos que percorro
Neste infinito mágico há algo que senti
O deslumbramento preso a um sorriso
Gerado no...Feitiço que há em Ti...

sábado, 5 de junho de 2010

O COMEÇO DA ETERNIDADE


O Sol reflecte seus raios
No espelho de água desta Lagoa
Tal como pássaro em voo diurno
Tens em ti uma alma que voa

Voa sobre este verde de emoção
Da terra brota o azul hortênsia em cabeleira
Este teu sono de sonhar na ilha
Tem o Mar por cabeceira

Ah esta ilha, qual barco à deriva
Velas silenciosas, mastros a prumo
Esta bússola enlouqueceu
Tem a marca de enganoso rumo

Sete distantes destinos
Sete vontades expressas
Em sete mágoas por dizer
Na resposta a sete promessas

Sete!
Desci às Sete Cidades e inventei mais uma
Na Baía do Silêncio celebrei uma jura
Envolto numa suave bruma

Feiticeiro da dor
Fazedor destes constantes nevoeiros
Ao cais nenhum amor chegará
No anoitecer dos dias primeiros

As pedras têm esculpidas em si
Mil fúrias de esquecidas tempestades
Desenhos de azul sal
Fazendo lembrar cidades

Casas sem janelas
Portas abertas de par em par
Uma árvore com frutos de pão
Na espera do chegar

Ensaiei a partida a cada dia
Contei as pegadas de toda a amargura
Vi cada por-do-sol incendiar o céu
Vi nas nuvens as formas da vil loucura

Preparei a alma para receber o infinito
Enchi o coração da mais pura verdade
E descobri que o verdadeiro amor
É...O Começo da Eternidade...

domingo, 23 de maio de 2010

OS TEUS OLHOS


Sinto a frescura deste orvalho
Bebi na sede, seca do brilho do Sol
Pisei o pó desta terra estéril
Apanhei no olhar um lago de água feito lençol

Não sei porque as vagas vindas de longe
Transportam este sal que me escorre no rosto
Não sei porque uma lágrima tem o mesmo sal
Que mergulha minha alma no Sol-posto

Espadas que ferem um corpo nu
Pano sem cor, talhado a cru
Chicote de revolta, assombração
Uma prece, uma mágoa, tu

Tu, saberás que as manhãs não podem ser interrompidas
Que um relógio quando pára, foge o tempo
Que a saudade é degredo de todas a emoções
Que a felicidade se mede apenas por um momento

Eu nada sei
Nem sei se soube saber quem sou
Sei sabendo apenas o rumo
De uma alva graça que em mim poisou

Na minha procura de rumos
Encontrei aquilo que penso ser o Graal
Por isso pinto a cada momento
O belo para afugentar o mal

Pintor, alquimista da cor
Crente do amor, companheiro da dor
Anjo perdido entre a terra e o celeste
Pétala esvoaçante de uma rubra flor

Hoje perdi-me na cidade do pensamento
A vida correu-me na frente em corropio
Hoje um pássaro descobriu o voar
Hoje senti na emoção a força de um rio

Segui para nascente fugindo à noite
Inventei um cavalo branco voador
Despi-me da obrigação de ser outro
Afastei da viagem a sombra do desamor

O verde ficou mais verde
As hortências caíram do céu aos molhos
O celeste vestiu-as do mais puro azul
Tudo isto transbordou das janelas...dos teus olhos...

sábado, 8 de maio de 2010

PENITÊNCIA


Um foguete rasga o azul
Um anjo acorda repentinamente
O incenso vagueia em errante aroma
Uma reza faz-se ouvir perdidamente

Perdi os acordes tangentes do sino
Que ecoaram na madrugada
O Templo teve o calor de mil almas
Em fervor de reza assombrada

Uma vela arde, outra e outra
Chama que guia no caminho da fé
Cruzei sentires com caminhantes
Soltei um surdo grito e pôs-me de pé...

Para ver passar a procissão
Murmurei uma reza de encontro ao andor
Percorri este rio de imensa mágoa
Pedi, o perdoei, que me dará o Senhor

Estranho!
Os pássaros vestiram-se de silêncio azul
Será que o Santo os aprisionou na viagem?
Será que este ano a chuva cairá a sul?

Hoje ofereci as cores da minha paleta
A uma amiga na sua dor
Ouvi seu choro ao meu ouvido
No fatalismo do desamor

Hoje o sono acordou-me
A nostalgia agitou suas asas cinzentas
Esqueci no acordar o ultimo abraço
E contei as nuvens que eram tantas

De joelhos vi gente percorrer um caminho
Por juras e perdão prometidos à muito
Vi sangue sangrando do peito
De uma Mãe de olhar muito aflito

Vejo tanta coisa que ninguém vê
É uma sina tatuada na estrada que piso
O basalto frio toca-me em arrepio
Neste mundo às vezes paro, outras deslizo

Para onde terei eu mais que ordenar o passo
Há um combate em mim de raiva e sapiência
Coloco as mãos postas e ergo este cálice
E verto toda a paixão desta...Penitência...

terça-feira, 27 de abril de 2010

ONDE MORAM OS ANJOS


Uma aragem vinda do sul
Percorre o labirinto do erguido verde
Uma melodia trina nas folhas
Um pássaro ensaio o voo primeiro a medo

O mar continua enraivecido
Neptuno decidiu perpetuar a dança das ondas
E mesmo com o vento adormecido
A tempestade varre este cais de mágoas

Hoje o Sol abandonou a vontade da luz
As nuvens são a capa de um gigante
Os pássaros esconderam o canto
Uma deusa de barro chora o amante

Hoje deu-me para voar
Cavalgar as palavras sem destino
Quisera abraçar a liberdade das asas
Voltar a olhar o mundo pelo ver de menino

É tão pequeno este Mundo
Gostaria de inventar um novo azul
Às vezes as estrelas soltam-se do celeste
Voam rasante as casas do sul

Às vezes sonho com infinitos
Onde a música veste cada criatura
Às vezes fico a pensar baixinho
Às vezes fecho os olhos à formosura...

...Mas abro a alma para acolher
O errante perfume da palavra sincera
Que nasce de um olhar de amor
No derradeiro instante de uma espera

Não me lembro da última espera
Perdi o vapor de uma madrugada passada
Perdi-me no Mundo dos desencontros
Fui dar a uma praça cheia de nada

Sentei-me bem no meio, na terra batida
Soltei pesares guardados em mil anos
Desenhei no barro os meus anseios
Afastei de vez os meus frios desenganos

Olhei para alto e indaguei em voz alta
Lancei à Lua uma mão de beijos
E ocorreu-me perguntar-lhe uma tolice
Será que sabes...Onde Moram Os Anjos...?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O APANHADOR DE ESTRELAS


Este vento que me toca bravio
Esta chuva miúda ensopa e acalma
Esta cor cinza no celeste
Esmorece a minha pobre alma

Pobre poeta!
A palavra ficou vazia de cor
A rima foi levada numa rajada
Ficou em teu peito, apenas uma fria dor

Dorido coração!
Percorrendo uma rua vazia
Nesta cidade inventada por mim
A noite aprisionou o dia

Eram azuis os dias que inventei
A casa dos meus sonhos feita de chocolate
A criançada nunca esgotava a gargalhada
Um cão de meigo olhar não fala, mas late

Uma gaiola dourada
Uma papagaio papagueando sem parar
O amor tatuado em cada canto
Para teres a certeza, no teu chegar

Mas a calmaria acontece
Estende o tapete à magia que virá
Olhos brilhantes, ávidos da ternura
Uma cartola, um coelho azul a procura achará

Estrelas!
Quantas contará o meu olhar
Tenho uma feita de cartolina branca
Que me esqueci de te enviar

Escrevi numa das pontas paixão
Na outra a palavra quero-te tanto
A terceira “É mesmo verdade”
As outras duas deixei-as em branco...

...Para que derramasses nelas o teu querer
Na volta, recebi algo como um novelo
A estrela tinha presa a ela
Uma madeixa dourada do teu cabelo

Tudo isso inventei numa mirada
No espelho de água de uma poça de mar límpida como as janelas
Era na altura uma criança que tinha um sonho
Ser...Um Apanhador de Estrelas...

sábado, 3 de abril de 2010

ENTRE O CÉU E ESTA ILHA


Algures entre este verde de desesperança
E este cinza celeste que me envolve a alma
Há um lugar onde moram os sonhos
No espelho de água de uma lagoa calma

Algures sei que te vou encontrar no desencontro
Numa rua ladrilhada de contradições
Com pedras de basalto duro e frio
Onde habita o desalento de dois corações

Uma viola de dois corações
Tem doze cordas que guardam as notas
Ansiando pelos dedos do tocador
Na espera de serem soltas

Mas hoje apenas se ouvem ave-marias
Saídas da boca quem tem a fé mais pura
Um bordão no amparo do corpo
Uma viagem que no coração perdura

Cantei à Virgem Nossa Senhora
A Jesus Cristo o Omnipotente
Deixei marcas tatuadas em cada passo
Deixei de mim a dor presente

Deixei que me vissem a humildade
Abandonei a vaidade tonta
Expurguei os pecados que pequei
E deixei a alma limpa e pronta

Para partir!?
Partimos sempre para algum lugar
Chegamos sempre a uma chegada
Um morrer será apenas um parar?

Às vezes paro para olhar em frente
Às vezes paro no teu olhar
Às vezes chego a nenhuma razão
Porque o meu querer quer aqui estar

Barco à deriva esta minha alma
Sem velas, sem o amparo do rumo
Procuro um Sol que me ilumine e aqueça
E encontro o astro sorrindo a prumo

Procuro a razão deste sentir na alegria e dor
Pinto a vida com uma coroa de maravilha
Porque no adormeço deixo sempre a esperança
Que habita...Entre o Céu e Esta Ilha...

terça-feira, 23 de março de 2010

ALMA POR ALMA


Procurei a minha perdida ilha
Por mares e ares, numa demanda
Será Antília, será uma senhora de nome Atlântida?
Que me deu em sonhos esta carta de marear estranha

Na bolina enganei o Vento
Seguro firme este leme que não largarei mais
Tatuei meus sonhos na brandura das velas
Fiz juras de amor junto aos brandais

Conferi o rumo com um golfinho zombeteiro
Uma baleia branca sorriu em brancura
Um bando de voadores peixes cruzou comigo
Um peixe-anjo subiu na vaga e sorriu com ternura

Contei cada vaga que me afagou o olhar
Lancei em sorte uma esperança esquecida
Quanto sal tem a beleza da maresia?
Para onde viajam os sonhos de uma gaivota adormecida?

Para onde vão as palavras bonitas
Para onde partem os corações sem rumo?
Para onde caminha um Poeta louco
Quando o Sol se põe a prumo?

Não sei!
Nunca saberei domar esta maldita razão
Que me invade esta enganosa paz
Que enlouquece a pena em minha mão

E depois a noite, mãe das sombras
Tudo pára no adormeço, solta-se o medo
Apenas uma réstia de vigília em meus olhos
Brota do fundo de mim um antigo segredo

Uma bizarra história!
Com duas marionetas em palco nu
Uma que foi levada nas asas dum ceifeiro de almas
E eu que fiquei neste mundo frio e cru

Porque era preciso um fito acabar
Encher mil corações de sublime luz
Lavrar as palavras em cristal água
Escrever a magia que me seduz

Então partiste sobre o meu choro
Mas invadiu-me uma estranha calma
Já sabia que teríamos em sorte o imenso
Uma troca divina...Alma por Alma...

sábado, 13 de março de 2010

O VALE DOS VENDAVAIS


Estarão loucos os deuses?
A calmaria tomou o verde de assalto
Ai este céu que arroxa a ilha
Um milhafre decidiu voar bem lá no alto

O vento enfureceu na noite
Escutei os sons do embalo árvores
A manhã chegou ao som de um tímido pio
Era um pássaro que anunciava mil dores

O caminho afagou-me os pés
O acaso tomou como sua a razão
O sentimento decidiu fazer-se sentir
Deslumbrou-me a alma, contraiu meu coração

Soltei a palavra adormecida
Chamei a deusa da poesia para me abençoar
Cantei as virtudes da alegria
Vi o poiso da garça no fim do voar

Vi, vejo tanta coisa que ninguém vê
Imagino-te plena de radiosa luz
Com um vestido feito de ar
Com este olhar que me seduz

Imagino o canto maternal das baleias
Como doce e sentida balada
Imagino um beijo na procura
De uma fugidia criatura amada

Um domador de ventos e tempestades
Uma viagem de aventuras repleta
Serei eu um herói de comédia de enganos?
Ou apenas um pobre e louco poeta

Serei, sou qualquer coisa
O Mundo conhece este meu dom
Inundar a vida dar cor ao sonho
É a sina de um anjo bom

Sempre me atraíram os anjos pintados de negro
Sempre achei aconchegante um xaile da mesma cor
Sempre achei que o negro que veste a noite
É pano de cena para o amor

É pedra que sustenta um cais de espera
É capa de mágico, é nevoeiro escuro nos brandais
É a minha alma em dia chuvoso
É meu errante coração no...Vale dos Vendavais

domingo, 28 de fevereiro de 2010

ALIANÇA


O Mundo não pára
O tempo corre em louca vertigem
O sortilégio da luz inunda o dia
A água corre na sua eterna viagem

Saberás que o encantamento
Que um olhar de amor liberta todas as mágoas
Saberás que a plenitude é miragem difusa
No espelho de água de sete Lagoas

Folhas de mandrágora colhidas ao coração da noite
Feitiço feito de mil quereres depositados no sonho verdadeiro
Coração de Arlequim, lágrima presa ao canto do olho
A paixão maior nasce sempre do amor primeiro

A primeira vez, a primeira dor
A primeira ida, a chegada primeira
Uma tempestade assola as casas do sul
Um coração decide calar-se em batida derradeira

Um arco-íris aponta a morada dos seres feitos de água
Os jardineiros da terra suspiram de pena
Uma gaivota soltou as penas, cancelou o voo
Que actor sou, deixei muda e esta sentida cena?

Soluços de gotas caídas do alto
Estão mudas as estrelas, o vento parou um momento
As pedras da ilha estão brancas de maresia
Uma mulher abre a alma e solta um lamento

Ou será um chamamento?
Esta constante procura do sitio da paixão
Esta flor de sal doce de travo triste
Esta falta de ti envolta em solidão

Caminhante, caminheiro, assombração
Poeta rimando o passar das horas
O errante perfume das rosas toldou-me o pensamento
Porque ris de mim, porque ris com riso e por dentro choras?

Palavras, escrevo tantas
Que fervor é este meu Deus
Porque me enlouquece a alma às vezes
Porque sinto o mundo pintado de pecados meus?

Talvez por te ter e não ter
Talvez seja apenas um ser de esperança
Talvez lá bem fundo perdida no tempo
Ainda floresça uma...Aliança...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

PERDIDAMENTE


Um aroma selvagem inundou a manhã
São de fogo as auroras de Abril
Uma nuvem adormeceu no celeste
Um bando de pardais soltam trinados mil

Um relógio canta os quartos
Uma flor acolhe a irreverência da abelha feliz
O feitiço da luz envolve o verde
Que acolhe os pés descalços de um petiz

Apetece-me pintar a musica
Que me afaga a alma, desperta os sentidos
Apetece-me pintar-te o sorriso
Unir-te aos meus anseios antigos

Uma tela, universo ávido de um deus
Será o pintor o criador da cor do dia?
Um salteador das sombras da noite?
Ou apenas um semeador da nostalgia

Vibrantes pinceladas tomam de assalto o branco
Alvas são as partidas para a pureza dos sonhos
A paixão nasce sempre do lado esquerdo do sentir
O amor também abraça os seres bisonhos

Que ser é este que abre os braços ao vento?
Voa sobre o mar na procura de perdida ilha
Vê em cada criatura a esperança renovada
Uma estrela criada por deus que ainda brilha

Pedras brancas, negras são as noites sem Lua
As gaivotas são sentinelas de Neptuno o rei
São mensageiras da chegada tempestade
São anjos num reino em que a bondade é lei

Divagações deste louco poeta
Hoje não acerto com a história prima
A pena enlouqueceu não obedece à alma
Apenas se diverte cavalgando a rima

Esta era para ser uma história de amor
Uma tela de apaixonada paixão
Um arrebatador grito de exaltação
Uma viagem pelo sublime da sensação

Uma lagoa de marés vivas
Um fechar de olhos de forma dolente
Um dizer-te simplesmente
Que te sinto...Perdidamente...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O MUNDO AO CONTRÁRIO


Chove no Mundo
O céu envolveu o verde com seu manto
Será que os Anjos andam a brincar com as nuvens
Ou é apenas um deus que verte seu pranto

Chove no Mar, água na água
A maresia ostenta um diadéma de sal azul
Uma bruma envolve o meu querer
Há um pronúncio de saudade vinda do sul

O caminhante não tem medo da chuva
A loucura não teme a razão
O ódio é tão parecido com o amor
A palavra amar mora na casa da paixão

Mas...
O estranho tomou-me de assalto
A noite tomou conta do dia
A lua e o Sol enlouqueceram no alto

Atirei a mão na procura do gesto
As Estrelas decidiram morar no Mar
Um anjo descobriu o caminho secreto dos pássaros
O mesmo que levei sete dias para encontrar

Sete são as maravilhas
Sete são os sortilégios encontrados
Sete serão os teus anseios perdidos
Sete são as cidades dos mal-amados

Lagos de fogo e luz
Um golfinho tocador de bandolim
Uma baleia branca a rodopiar no areal
Um cavalo marinho a galope no princípio, zombando do fim

Um homem branco vestido de branco
Um homem negro com desgosto de ser preto
Uma mulher a fazer de conta que o amor é bom
Um homem que não se importa porque lhe dá jeito

E solta-se o desatino
O gozo fugiu de um corpo faminto
Boca que deixa fugir um pedaço de dor
O tempo para por um momento

A quietude invadiu a alma deste pobre poeta
Na passagem beijei a mão a um Vigário
Acordei em sobressalto com amargo gosto na alma
Sonhei que...O Mundo Estava ao Contrário...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

METADES


Chove bem no meio do mar
São de fogo as manhãs na ilha
A seda púrpura é lençol de amantes
Os olhos roubam a virtude à maravilha

Enchi a taça com absinto
Ergui o braço, toquei uma nuvem carmim
Ensaiei um passo de dança
Senti que os pássaros riam de mim

Senti o resto da geada em descalços pés
Calei minha viola de dois corações
Deixei entrar no peito o tamborilar de perdidas gotas
Senti o sabor sal das minhas emoções

Andei, caminhei sem parar no acaso
Esventrei a terra na procura da semente do amor
No barro apenas encontrei mil dúvidas
E num gesto de mão enterrei minha dor

Fiz do meu querer caminhante
Cantarolei melodias sem notas
Inventei os sons por inventar
Senti a liberdade de mil raivas soltas

De tanto andar fui parar à beira-mar
É assim quando o passo não tem destino
Dei por mim a mirar-me numa poça de água
E vi de novo meu rosto de menino

Vi a vida rodar em carrocel
Vi meus sentimentos voarem em corcel azul
Vi tanto rosto terno de vidas perdidas
Uma nuvem acabou com meu ver, vinda do sul

Senti a fria doçura da espuma afagar-me o corpo
Deixei que uma gaivota me tocasse o ombro
Mergulhei no reino de Neptuno com destemor
Uma sereia cantou-me uma canção de assombro

Fui no embalo das eternas vagas
No infinito procurei e encontrei a baía dos meus medos
Um cáis de espera esperava a minha chegada
Não tinha mala, no coração trazia apenas os meus segredos

Sentei-me no meio desta aventura inventada
Percorri com os olhos da alma um jardim de verdades
Descobri finalmente que a palavra amor
Só floresce se semeada em...Metades...

sábado, 23 de janeiro de 2010

O HOMEM QUE EMBIRRA COM AS NÚVENS


Este espesso tapete que cobre a ilha
Arrocha-me a alma, em sobressalto
É pronúncio de mil calamidades
Um negro manto plantado a alto

Sopro no vazio da incerteza
Esta calmaria orvalhada parada no tempo
Esta ansiedade sem ordem para ser ansiada
Este medo inquietante neste momento

Lancei meu grito no vale dos milhafres
Toquei meu tambor de toque que some
Vesti as vestes berrantes de espantalho
Para limpar do céu este negrume

Como pode haver amor no ar?
Como podem as flores vestirem-se de cores?
Como podem ser felizes os pássaros?
Como pode a vida ganhar novos sabores…?

Se este céu nublado continuar assim
Se esta dorida dor continuar cravada em mim
Se este andar de rumo incerto cravado em meu caminhar
Um dia encontrará um princípio sem o fim?

Com estas malditas nuvens, duvido!
Hoje percorri a ilha toda na procura de uma réstia de luz
Onde pára o verde, aquele verde esperança
Onde param as hortênsias que me fazem feliz?

A fruta não medra sem sol
Meu pé de laranja lima esqueceu-se de florir
Um melro negro poisou no basalto negro
Zombou de mim e voou no partir

Invejei-lhe as asas
As penas que colhi na vida não têm cor
Será que o seu cantar na madrugada
É singelo chamamento para o amor

Mas como posso eu amar alguma coisa?
Moinhos de vento que sopram a norte
Velas de barco na dança de salgadas ondas
Redes lançadas na procura da sorte

Cavalos-marinhos, tempestades medonhas
Quantos dores perdidas na tua alma tens?
Todas geradas debaixo deste negro manto
Mesmo sobre a cabeça…Deste homem que embirra com as núvens…

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

QUE MUNDO MEU DEUS


A noite caíu no Mundo
O Sol encolheu seus raios e foi embora
A terra protestou novamente
Uma alma soluça e chora

A noite foi agitada de estranho jeito
Uma dor surgiu do nada, arroxou-me o peito
Caí no escuro das profundezas do sono
Vi surgirem luzes de um brilho incompleto

Vi surgir multidões de gente atordoada
Vi em seus rostos um sofrimento atroz
Vi tantos, tantos que não contei o contar
Vi a vida na partida do chegar

Vi solta a miséria de sorriso miserável
A pobreza esvair-se sem ter um corpo para consumir
Ouvi o som imenso de mil lamentos
Fiquei quedo, aprisionei o grito ao sentir

O troar do trovão, esta incessante chuva
As estrelas choram todas as mágoas na terra
Onde param os Anjos, porque não nos acodem os Santos
O mal e o bem porfiam esta eterna guerra

As casas do sul ruiram todas
Tal como a esperança desesperada
Toquei no rosto de uma criança triste
Senti uma paz surgir do nada

Para onde vai tanta alma de uma só vez?
Para o mesmo céu que se desfez em pranto?
Será que o Deus acolhe todos em seus braços?
Ou será que ser pobre não vale tanto?

Será que ser é ser-se apenas o que é?
De quantos actos se compõe uma vida em sorte?
Será que esta peça foi escolhida por mim?
Será que para este actor no fim vence a morte?

Vence sempre!
Nem sempre o aplauso acontece
O cantador de acasos canta para si
O coração assim palpita, não esmorece

Que noite confusa vivi
Entre o sonho e uma realidade que só eu sei e os meus
Chorei na verdade, na partida de crentes e ateus
Abri os olhos...Que Mundo Meu Deus...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

CAIXA DE SONHOS


Entristeceu o céu na húmida noite
As estrelas esconderam seu brilho tanto
A terra ensopada de teimosa chuva
Alberga um ser que retém um profundo pranto

Mil foguetes rasgam o negrume
Um anjo sorri à loucura do Mundo
Um pássaro dormita no esteio
Um golfinho decide mergulhar no profundo

Este mar que me atrái
Esta chama incandescente do pensamento
Este sentimento agitado pela lembrança
Este homem que pára o querer por um momento

O primeiro dia, a primeira vez
O primeiro passo, o primeiro grito
Uma dor dormente, um esperar aflito
Uma lágrima primeira solta do peito

Solta-se o grito!
Com ele o sonho primeiro carregando a verdade
Direito a um céu pintado do azul mais azul
Ganhei asas no voo, pintei a viagem da liberdade

De olhos fechados ouvi as vozes de ninguém
Os pássaros poisam à minha roda
Não rezo mas falo às flores no fim do dia
Dispo-me das ilusões, de um monte de nada

E tive um sonho!
Mil, um milhão, alguns cheios de firmeza
Tenho-os todos guardados num lugar secreto
Onde não mora a incerteza

Com eles planto canteiros
Faço de espantalho para afugentar descrença
Rego com gotas de emoção cada planta
Só deixo que tape o sol a tua presença

Tenho duas pedras de um cruzeiro
Que fazem de abrigo ao temporal do fim do dia
Não vão os sonhos se espalhar
Não vão eles ocupar uma alma vazia

Dei-te um, lembras-te!?
Que escolhi com ajuda de dois anjos risonhos
Eles não devem nunca ser aprisionados
Apenas guardados numa...Caixa de Sonhos...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

NOITE SERENA


Solto suspiro no incerto do tempo
Voa o pensamento na procura da lembrança
Pequenos olhos, frágeis e ternas mãos
O mundo preso no coração de uma criança

Na noite tudo se perde
Mora a sombra, o desvario
A emoção sobe sempre mais alto
Quando o querer tem a força de um rio

Pés descalços, uma janela virada para o mar
E a tempestade desatina na deserta rua
Tremelicam as luzes na cortina de chuva
Uma casa sem pão, sem calor, nua

Tanjem os sinos na altaneira torre
Cabeças tapadas a véu
Vai nascer o Jesus Menino
Hoje a ilha está mais perto de céu

Hoje o incenso crepitará no lume
A água benzida e santificada
Os cânticos de louvor ecoarão
Não tarda não se ouvirá mais nada

E esta janela meu Deus
E este bravio mar de furiosas vagas
E este saber de tão vago entender
E esta frágil vida gerada de mágoas

E corre a noite, adormece a casa
Na minha cabeça um afago de mão
Fecho os olhos por um instante
No espanto abertos por um clarão

Um formoso menino estava mesmo alí
Tocou de leve o lado esquerdo do meu peito
Olhou-me com um luminoso sorriso
Deixou-me sem fala, sem jeito

Deixou-me no apagar de uma vela
Olhei novamente o mar
A calmaria voltou como por encanto
Mil criaturas inundaram-me o olhar

Golfinhos felizes assobiaram
A cria de uma baleia acenou-me
Uma andorinha do mar poisou no parapeito da janela
Uma maravilhosa e antiga história sussurou-me

As estrelas brilharam no celeste
A Lua estendeu seu manto de fino luar nesta cena
Adormeci na imensidão deste mundo
No embalo de...Uma Noite Serena...

domingo, 13 de dezembro de 2009

CHÃO DE ÁGUA


À volta desta fogueira
Aquecem os corações, almas penadas
À volta desta fogueira ninguém foge
Todos contam lendas de pessoas encantadas

Todos rezam, todos pedem
Que desça o céu à terra
Todos falam de um anjo
Que travou uma santa guerra

Manto de água, mundo verde
Manhãs de sol posto no céu
Às vezes a luz perde-se na noite
À vezes um coração veste um negro véu

Passam os dias, um a um
O tempo marca o compasso do querer
Onde mora a saudade perdida?
Para onde viaja o sonho ao morrer?

Para onde viajam os sonhos pobres?
Para o mesmo céu dos ricos desejos?
Um homem caído interrompe o viver
No levantar renova os seus ansejos

Que mundo este!
Na medida do ouro se mede a criatura
Quanto vale a verdade da palavra sincera
Qua habita numa alma pura?

Interroguei as minhas interrogações
Questionei a minha zanga e ventura
Descansei nesta batalha de contradição
Abri os braços na espera da ternura

Na espera construí um castelo no ar
Areia feita de basalto é de negra cor
Tal como o xaile da mulher da ilha
Feito num tear de amor e dor

Este mar, este vento abafa uma oração
Esta terra fecunda e prenhe de esperança
Esta tempestade que às vezes assola o meu querer
Tem na recordação os dias de bonança

Este dia cinzento e frio
Inundou de humido orvalho a minha pena
Mas o poeta sempre sente mais no triste
Sempre eleva uma alma pequena

Sobe ao infinito do sentimento
Abafa a dor esconde a mágoa
Hoje percorri a ilha descalço
Passo a passo, pisei...Este chão de água...

sábado, 5 de dezembro de 2009

O FEITICEIRO DO VENTO


Sopro esta brisa que percorre as cumeeiras
E arrasto comigo este denso e frio nevoeiro
A noite envolve-me em seu escuro manto
Um milhafre soltou um grito derradeiro

O fogo surgiu do nada
A chama da paixão lambeu uma pedinte mão
Que levou o calor tatuado, abrasador a outra
Duas mãos postas, apontam ao divino uma oração

Na calada da noite despertam os sons
Mil olhos são estrelas na terra
O feitiço da Lua envolve os amantes
O amor tem como pano de fundo doce quimera

Asas são gaiola aberta na liberdade
Agrilhoados são os que ficam na espera
Absinto para os amantes eternos
Cristal voando, chama consumindo a pura cera

Voo de perpétua viagem
A ilha é Universo primeiro
A noite acolhe-me em suas asas
Sou feito de feitiço derradeiro

Vejo, vi tanta criatura a andar no meu caminho
Não vislumbrei o rumo do seu encontro
Um sorriso de profunda bondade tocou-me a alma
O meu ficar no ir faz de mim o outro

Que transforma o sonho em palavra
Mistura as cores com mantra de alquimia
Dança para afugentar a negra magia
Abre os braços ao Sol aprisionando um novo dia

Sou um cantador de notas dissidentes da pauta
A espera das cordas do afago dos dedos
Uma viola de dois corações
O embalo de barco na baía de todos os medos

Sou, serei uma breve história
Uma comédia traçada em poção de Druída
Às vezes um areal de imensa contradição
Outras apenas uma invenção gerada do nada

Bruxo, Curandeiro, protector das almas
Um homem em luta eterna com o tempo
Abri os braços a esta tempestade da alma
Pela brisa da noite fui autorgado...Feiticeiro do Vento...