sábado, 6 de agosto de 2011

SÉTIMO CÉU


Pisei um tapete de pétalas de giesta
Percorri as entranhas de um adormecido vulcão
Esculpi na lava uma caixa rubra
Guardei dentro um sonho perdido de um coração

A Caixa de Pandora...
Um dia roubei um sortilégio feliz
Não tenho conta das rezas que senti
Não sei se a viagem da vida foi o que quis

Não sei...
Só sei que sabendo aprisionarei o saber
Só sei que o saber é arpão cortando a distância
Só sei que às vezes me quer o querer

Não sei...
Porque partem cedo certas almas
Artista, Rei de patético reino
Canteiro de agrestes mágoas

Vela sem vento, Navio à bolina
Mastro apontando a uma pálida estrela
Saudade presa aos brandais
Rumo perdido na loucura de uma bússola

Corpo dorido, alma que pede amor
Rosa breve perdida na bruma
Vaga de muitas no dormente das pedras
Sal que já foi alva espuma

E respiro mil odores presos ao nevoeiro
Ouço mil vozes, nenhuma chama por mim
Vejo sete viagens, sete horizontes
Amordacei a palavra fim

Calei os gritos da amargura
O sofrimento deixa-me tão aflito
Não sei se vais partir,se ficas
Preso à garganta tenho este infinito grito

Ah sorte que que és madrasta
Como é imenso e terno o sorriso de uma lagoa
Pedirei a Deus, aos deuses o impensável
Pedirei até que a voz me doa

Sou um bruxo que se esqueceu do sortilégio
Um mago de varinha de condão presa num véu
Fiz esta viagem da vida contigo perto e longe minha Irmã
Espera-nos num amanhã...Um Sétimo Céu...



POEMA DEDICADO À MINHA IRMÃ QUE LUTA PELA VIDA NUM HOSPITAL.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

ESTRELA SEM CÉU


Uma lança percorre o espaço
Leva a dor ao coração
Sangram as buganvílias de Maio
Bate num peito a fé de uma nua mão

Calcei luvas, branca e negra
Afastei os braços ao abraço
Encontrei um pássaro feliz
As uvas são amargas no Mês de Março

Anos, dias, vidas que se perdem da vida
Voltaram com o Sol as Andorinhas do Mar
Quantas vagas correram adiante
Quantas perdidas penas entre o partir e chegar

E as pedras da ilha…
As pedras da ilha não têm idade
Não tem limite o amor quando é amor
Não tem medida a extensão da saudade

Na ilha a saudade é um navio
É vapor da madrugada com a bruma
É gaivota voando no canal
É alma despojada de coisa alguma

Na ilha o céu chora no cair da noite
Derrama na terra um pouco do seu azul
Explodem as hortênsias no verde
No embalo de uma brisa do sul

Chorei na dor os sonhos perdidos
Reguei o barro frio e duro que percorri
Gritei um grito mudo preso ao peito
Aprisionei o fantasma do meu sentir

Rasguei os trincos da memória
Em eterno conflito cobri a minha alma com um negro véu
Fechei os olhos ao meu olhar
E senti ser…Uma Estrela Sem Céu…

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A ULTIMA PÁGINA


Sonhei com uma montanha solta da terra
Com pássaros cantando em desvario
Sonhei com um Mar bravio me engolindo
Com um barco naufragado na margem de um rio

Sonhei sonhando até de olhos abertos
É tão meu este lugar do sonhar
É tão imenso o caminho do pensamento
Moram lado a lado o ódio e o amar

Moro no Palácio da ilusão…
Não sou Antero, não sou vil ladrão
Sou um poeta menor
Sou pena rasgando a palma da mão

Sou, serei demiurgo de uma comédia de enganos
Actor largado para lá do proscénio
Uma peça que sei ninguém entende
Um simples sonhador disfarçado de génio

Um génio cheio de genica
De peito feito cheio de ilusão
De cartola e bengala já agora
Marcando passo cheio de paixão

Que nunca me falte esta força
Sempre desejei ser livre como as nuvens do céu
Uma noiva nem sempre é feliz
Uma lágrima nunca pára num alvo véu

E caminho entre o riso e a desventura
Deixo tatuado no frio barro a marca deste querer
Olhos que olham o vazio das almas
Olhos que não querem no olhar o ver

Nem sempre dou ouvidos à loucura
Li em tempos o imenso de Antígona
Fecho por hoje este livro sem palavras
Não quero chegar…À Ultima Página…

sábado, 9 de julho de 2011

CAVALEIRO DAS ONDAS


Este impaciente vento
Veio com uma aurora sombria
Um sorriso puro confirma a verdade
Há um rosto triste, há uma alma vazia…

Há uma culpa que se veste de pecado
Há um pecado que arrocha o coração
Há uma virtude perdida na loucura
Há uma flor caída no frio chão…

…E há o Mar
No reino de Neptuno está proibido o perdão
Como é sinuosa a viagem da paixão
Como é tonto às vezes o coração

Um tear morre sem uma mão
A culpa às vezes é vítima da ofensa inocente
A tua alma campo de batalha
Um palhaço nem sempre ri de contente

Senti o coração silencioso da terra
Senti a batida das ondas do mar
Senti a dureza das nuas pedras
Duvidei sete vezes da palavra amar

Quebrei as cadeias do pensamento
Aprisionei o Mar numa gota de sal azul
Vendi os sonhos aprisionados em minhas mãos
Sentei-me para contemplar um pássaro voando para sul

Nua, és azul como as colinas da ilha
Uma baía que acolhe o pranto
Um rio de todas as dores
Errantes são os pesares em céu de espanto

Pensar que cada pedra chegou aqui por si
Coroada pelas neblinas da manhã
Procuram-te as raízes, sobe a terra às tuas mãos
Boca que solta tremula a palavra vã

A beleza vai fugir para poente
A noite vai soltar mil sombras bisonhas
Entro no mar, de corpo e alma nua
Na cabeça ostento uma coroa de espuma, sou…O Cavaleiro das Ondas…

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A RAINHA DA CONTRADIÇÃO


Voam penas na viagem de uma gaivota
Nunca entendi a errância do teu pensamento
Seguras uma maçã amarga junto ao peito
Azedo veneno solto em algum momento

Quem és afinal?
Quem sou eu nesta Atlântida de negra pedra?
Um pássaro ferido na procura do ninho?
Ou apenas um pedaço feio de lava negra

Inventei canções, juntei multidões
Escrevi dramas, criei emoções
Virei as costas tanta vez ao aplauso
Pisei mil vezes este palco de contradições

Palhaço, Arlequim, Pateta Alegre
Rei, Algoz, Milhafre cego pela eterna bruma
Prisioneiro de uma garrafa trazida pelo mar
Que alguém recolheu da espuma

Uma mensagem sem mensageiro
Às vezes a viagem é feita de dor
Eu conheço todas as cores do verdadeiro sentimento
Há corações que deixam fugir tão facilmente o amor

A noite devorou a luz do sol
O céu ficou menstruado a Poente
O mar adormeceu em calmaria
Olhos negros sem fé presente

Juntei esta fome de sentimento
Com uma paixão que julguei escondida
Vesti a minha alma de gotas de azul
Procurei uma alma que quis estar perdida

Encontrei-a, encontrei-me
Abri os braços ao vento norte
Os meus passos são tão incertos
Meu corpo arca de ausente sorte

Ouvi o choro e o riso
O olhar profundo e triste de uma criança
Lancei as redes ao pensamento puro
Nelas vieram as cores da esperança

Sou, sempre serei criança
Que acredita na pureza do coração
Vi sair do mar profundo em adoração
A...Rainha da Contradição...

sábado, 25 de junho de 2011

PEDRAS BRANCAS


Há um lugar onde as chuvas são eternas
Um sitio onde floresce a maravilha
Onde a bruma é manto esquecido de um deus
Que abandonou à muito a ilha

Uma solitária flor emerge no barro
Os sonhos são jardim onde sorriem as almas
Uma vaga repousa no negro basalto
A espuma cintila em mil chamas

Cais de saudade constante
Sou barco ancorado entre o celeste e o sal
Golfinho saltimbanco cruzando marés
Anjo caído ao golpe do mal

Viajante na fronteira da sombra
Palhaço que lava o rosto à beira de uma lagoa
Violoncelo de cordas partidas
Um querer querendo, em coração que voa

Ungi meu corpo com orvalho da manhã
Lembrei uma reza à muito esquecida
Reacendi a chama desta incontida paixão
Lancei o abraço ao correr da vida

Que vida…
Que aventura tão plena de emoções
Que vertiginosa viagem ao infinito
Onde a loucura se veste de contradições

E paro este relógio, quero parar o tempo
Fecho os olhos e faço o caminho das buscas
Talhei na lava os meus mais profundos anseios
E ergui um castelo de…Pedras brancas…

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A MORADA DOS SERES FELIZES


Percorri o Vale da dor
Pelos dias das minhas noites de tristeza
Bebi o amargo da loucura
Olhei o céu na procura da minha perdida estrela

No horizonte encontrei o meu silêncio
As palavras devoradas por ele
Esta terra que me prende os pés
É arrepio que se prende à pele

As gaivotas invadiram o norte da ilha
As casas reflectem a brancura da cal
Um Milhafre solta um pio na manhã
E afugenta da terra o mal

Que mal é este que flagelou o meu corpo?
Que rancor terei despertado a um deus?
Que travo amargo enche este cálice?
Que marca dura e fria deixam os passos meus?

A manhã brilhou plena hoje
Despi todas as vestes e vesti-me de Sol e céu
As hortênsias despertaram no verde
Estenderam na minha passagem um celeste véu

Um mapa, uma contradição, uma premonição?
Uma saída deste cruel labirinto, uma azul oração
A fuga a todos os males do Mundo
O encher de paixão este pobre coração

Nesta peça ninguém morre, ninguém morreu
Soltei no palco as minhas mais fortes raízes
Dramatizei a vida em apenas um segundo de olhos fechados
Ao abrir estava…Na Morada dos Seres Felizes…

segunda-feira, 6 de junho de 2011

VOLTO DO SILÊNCIO


Uma flor que eclode das pedras
O pio de uma ave na procura do ninho
Uma oração perdida nas ondas do Mar
Uma brisa em afago da cor do carinho

Os anjos às vezes caem na terra
Às vezes Deus ampara a nossa queda
Às vezes pára a vida por um instante
Às vezes a noite acontece em negra seda

Tenho cá dentro tantas emoções
Que as palavras não conseguem alcançar
Tenho uma oração tatuada na alma
Tenho um horizonte na espera do meu chegar

Tenho dores…
O peito vazio da feliz emoção
Uma fria corrente no meu caminhar
Na viagem da minha solidão…

…Uma longa e penosa viagem
Nos braços de anjos brancos estive sentado
Na bondade mergulhou o meu corpo
Soltou-se-me a alma dele prostrado

Este Poeta é feito de papel comum
É feito de barro quebradiço e cru
Este poeta pinta a vida de palavras
Este poeta olha para Deus de sentimento nu

As flores murmuram em rumor
Enquanto me ergo deste fatal desvario
No despontar desta nova aurora
Sorrio outra vez e…Volto do Silêncio…

sábado, 30 de abril de 2011

NO LIMIAR DA VERDADE


Há tanta coisa que te posso dizer
O mar vai bramindo no encontro da fria lava
As gaivotas perderam-se no encontro da Terra
Encontrei hoje uma alma que inquieta estava

Hoje pintei a ardência da manhã
Fechei os ouvidos à palavra vã
Quebrei um ramo de loureiro verde
Mordi o veneno de uma maldita maçã

Fui Adão nu de preconceito
Paladino de uma luta sem tréguas
Demiurgo de uma história por contar
Barco sem leme em agitadas águas

Parei o relógio!
Parei o tempo que julguei ter parado
Ordenei aos pássaros que o canto parasse
Pedi a um anjo ter no voo cuidado

Uma deusa chorosa, chorava à beira-mar
Uma pedra sem mão percorreu o saltar
Uma giesta perdeu todas as flores
Um morrer ensaiou um falso matar

Fiz magia com todas as cores que tinha
Fiz aparecer na tela um tocador
Pintei-lhe um violoncelo a preceito
Mas ele não sabia tocar uma música de amor…

O amor nunca acontece sem amor
Esta coisa do amor será fantasia?
Será uma noite vestida de nostalgia?
Será planta envergonhada que floresce ao fim do dia?

Seja o que for, tem o nome de amor
Acho bem que seja assim
Há quem diga que se enraíza para sempre
E floresce como planta de alecrim

Não contei lá grande coisa neste louco poema
Vejam bem que nem falei da saudade
Mas disse algumas coisas sem nexo
Que estão…No limiar da verdade…

segunda-feira, 18 de abril de 2011

ALIANÇA


Ontem senti a ressurreição de um sorriso
Senti uma suave brisa a falar docemente
Construí um abrigo no deserto da emoção
Encontrei na areia duas gotas de agua dormente

Eram lágrimas soltas dos olhos de uma criatura pura
Por momentos fechou-se a alegria na Terra
Contei sete pedras no meio das ondas
E fechei os olhos, imaginei-te Anjo em suave espera

Os vales são as ruas de um deus
Mãos de seda percorreram o espaço
Soltaram-se as raízes do bem
Num único e sentido abraço

Como um caminho coberto de azul
A terra prendeu-me um sonho sonhado
No julgamento dos meus fracassos
Venci tempestades com este vento de braço dado

Embriaguei-me na minha solidão
Vi nos teus olhos a fragilidade da espuma
Subi com o olhar o voo dos pássaros
Perdi-me na procura da paixão no meio da bruma

A tua beleza mora no feliz pensamento
Palavras que irromperam aos ouvidos, tantas
Escolhi algumas numa oração e lancei-as ao mar
As ondas trouxeram-me verdades tamanhas

Um grito brotou da alma
Em surdina alcançou-me a alma
A dor verteu diamantes de sal
Plena és em doce chama

Já tinha proibido a fé de entrar em meu peito
Porque selaste a tua alma à ternura?
És o pio de ave na procura do ninho
Um ribeiro de sentires da água mais pura

Que distância pode alcançar a verdade?
Pelos dias das minhas noites de magia
Pela alma de duas criaturas vibra a luz
Que se perpetua para lá do dia

E no encontro do coração na sua manhã
Segui o curso de um errante espírito na esperança
Fechei os olhos e a alma às palavras
Neste silêncio firmei uma...Aliança...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O PALHAÇO


Olá mininos e mininas, pais...
Senhoras e Sinhores vai começar a função
Este é o palhaço poeta
Que faz tudo o que não quer o coração

Vejam! Faço magia!
Com esta caixinha de simples cartão
Não se iludam, nem pombas ou coelhos
Não há truque...perdão!?

E então?! Que emoção
Encontrei algo aqui neste bolso esquecido e roto
Espera aí o que é isto meus senhores?!
Ah...! É uma pedra mágica que pensei ter dado em mar revolto

E vou cantar uma adivinha
Vou desenhar uma ideia minha
Vou inventar uma musica em surdina
Vou dançar sem bailarina

Vou fazer três pinotes
E enganar a gravidade
Equilibrar um prato sem partir
Vou servir nele pão e saudade

Uma trompete, um trombone
Um serrote que chora as notas
Sapatos fora da medida
Encarnados e de solas rotas

Mas ainda nada fiz de palhaçada!?
Pare os protestos minha senhora!
Segure esta rosa encarnada na mão
Espere...espere, não se vá embora!

Foi-se embora...
As mulheres adoram virar as costas
Dizem que amam eternamente num dia
Até juram isso de mãos postas

Estava a brincar!
Credo ninguém ri, era uma piada cheia de gosto
Muito bem foram-se todos embora
Aqui ficarei firme até ao Sol-posto

E vou brincar com esta vida
Daquilo que fiz, vou fazer...ou faço
Pinto a cara para ninguém saber quem sou
Meu nome...O Palhaço...

sábado, 2 de abril de 2011

INSPIRAÇÃO


Rasguei o mar com estas mãos
É de pedra este sentido do sentir
Enjaulei as minhas asas em troncos de giesta

Para que o corpo não se entregue ao partir

Contemplei o espelho desta lagoa
Perdi-me no templo de esquecimento
Vacilei na ironia de um acaso
Recordei com mágoa um passado momento

Mordi a terra, senti a frescura de uma conteira
Aprisionei entre os dedos um rosário sem contas
O silêncio tem a cor de uma perdida lembrança
A tua vontade obedece ao vento e a ideias tontas

Ao meu silêncio chegou um riso
E mais um tímido toque de tambor
O meu dorido peito rejeitou
Uma ave de fogo gerado da paixão e do amor

Estou parado no embalo de mil vagas
Mergulhado na imensidão deste mar de contradições
Leme,velas, vontade navegante
Alma que levita nas mais puras sensações

Ainda é humano face às pedras da ilha o que sou
Este frio orvalho pacificou a minha loucura
Através da ressurreição de um sorriso
Fica à vista um lembrada formosura

As casas são pedras abrigando pedras
As pedras são o campo árido onde nasce a quimera
As pedras às vezes são cais de partida
São espera, são muro de lamentos que a vontade encerra

Escutei o pranto e o riso
Procurei o lugar onde começa o começo
Paguei com ouro esta viajem sem fim
E mais um poema que nunca pôs preço

Dormi entre a tempestade e as pedras da ilha
Dobrei a vontade em desalinho
Revela-se na tristeza e na palavra
Este pranto cereal esmagado pelo rodar de moinho

Libertei as asas, quero voar para fora desta gaiola de palavras
Encontrar no limite das almas a satisfação
Quedo-me no infinito caminho do sonho
E encontro esta tão minha...inspiração...

sábado, 26 de março de 2011

A MINHA ESTRELINHA



Fui até ao horizonte
Descobri que não há infinito
Descansei no meio de um deserto
E emudeci este profundo grito

Calei a alma
Aprisionei o sentir deste estúpido coração
Mergulhei o corpo em agua dormente
E lembrei-me de uma esquecida oração

De quantas palavras se faz a melodia?
Para onde caminham os passos de uma criatura perdida?
O que será que pensa um homem caído?
Para que serve a verdade incontida?

Perdi a vela do meu barco de papel
Mil tempestades assolaram-me à alma
Abandonei o leme ao deus dará
E encontrei uma deusa em lágrimas, de perdida chama

Quem és?
Nesta tua demanda de contradição
Porque achas que o sentido existe ao amanhecer
Porque a noite te rouba a razão?

Este poeta não presta
Este poeta perdeu a palavra certa
Este poeta não acredita mais
Este poeta traçou à navalha a poesia e deixou-a incompleta

Mundo de cinzas pintado!
Fui ao mar alto na procura de uma afogada dor
Encontrei-me na pessoa só que sempre fui
Senti frio, não procurei o calor

Plantei hoje uma semente de futuro
Lembrei-me que as vinhas de folhas se cobriram
Este cálice de amargo vinho, bebi-o de um trago
As andorinhas do mar comigo partiram

Uma andorinha do mar
Sem pedra para poisar
Sem pena de penas perdidas
Voando sem procura do encontrar

E olho para este céu escuro como breu
Há um aguaceiro que se avizinha
Na procura do que julguei ser a claridade
Apagou-se...A Minha Estrelinha...

segunda-feira, 21 de março de 2011

ESTE LUGAR DENTRO DE MIM


A espuma de uma onda breve
Cobre o negro basalto do fim da ilha
Deixa a palavra saudade tatuada
Em sal azul de nostalgia

Mil silêncios percorrem este deserto
Uma casa olha-me no olhar de entreaberta janela
Um papagaio faz de conta que sabe falar
Gagueja a preceito a palavra amar

Encontrei hoje o dono do assobio
Ausentou-se do caminho o louco caminhante
A chuva voltou envergonhada para as nuvens
O relógio marcou o futuro adiante

As raízes de uma camélia
Prenderam-se aos trincos da minha memória
Lancei as sortes ao celeste cheio de fé
Caíram no correr de um ribeiro que chora

Um valsa valsou descontrolada
Um Arlequim riu que se fartou
Uma dama tonta perdeu a máscara
O Absinto num cálice ao chão tombou

O feitiço e o homem
O cruel chicote estalando no ar
Um barco navegando ao contrário
Fugindo ao sitio onde mora o chegar

Alma desencontrada
Entre este mundo e...a existência verdadeira
A mim chegam os lamentos
Da partida derradeira

Esta força, este meu peito que ameaça explodir
Este querer não querendo, este não saber sabendo
Esta sede que me arroxa o beber
Estas palavras ditas tantas que não entendo...

...Que percorrem o caminho entre a alma e a desventura
Brotam de uma plantada formosura
Vêm envoltas numa lágrima fugida ao sentimento
Que saiu de um coração da cor da ternura

Que loucura é esta que que sinto
Que me faz caminhar entre todos os princípios na fuga do fim
Toda ela transformada em amor e dor
Guardada...Neste Lugar dentro de mim...

segunda-feira, 14 de março de 2011

ESTE MUNDO NÃO É MEU


Cobri o meu mundo com um negro manto
Gerado na minha alma
Julguei que ele me entendesse
Mas não, soprei finalmente uma réstia de acesa chama

Apaguei a luz que criei em sortilégio
Gritei mudos pesares e lancei ao mar
Os destroços de mil sonhos
Espero nunca ninguém os possa encontrar

As sereias zombeteiras soltam gargalhadas em despudor
As gaivotas voam tristemente sobre a ilha
Quem disse que este rochedo era belo
Quem confundiu o degredo com a maravilha?

Quem se enganou na procura do amor
Quem tristemente inventou a paixão
Quantas palavras de verdade te direi
Para chegar ao teu terno coração?

Nenhuma!
As palavras são areia perdida na areia
São asas soltas de pássaro mudo
São a parte do som que acho mais feia

Morrem as flores na noite
Errantes aromas toldam-me a lembrança
Arranquei estas vestes de frio agasalho
Enterrei num buraco sem fundo esta tonta esperança

Estrondosamente caminha a vida
A estupidez deu frutos de sabor amargo
Ungi uma pena com água salgada
Não sou um santo tampouco um mago

Sei lá o que sou
Se assim é quem saberá?
Mas a quem interessa saber
Sou uma alma por quem nunca ninguém chorará

Ainda bem!
Já ensaiei tantas vezes a partida
Tenho os olhos cheios de almas errantes
Tenho a certeza que a minha nunca andará perdida

Sei de onde vim, para este lado
Conheço todos os karmas até o de um ateu
Que pena ninguém nunca ter sabido quem eu era
Neste Mundo...que não é Meu...

terça-feira, 8 de março de 2011

A PONTE PARA O DESTINO


Pedra sobre pedra
Sobem os muros ao encontro do azul
Ouvi um pio de profundo chamamento
Pareceu-me vir dos lados do sul

Um Milhafre
Uma Ave tão cheia de mistério
Penas planando do alto da ilha
É tão profundo o amor, tão sério

De penas vesti as minhas dores
Cruzei mares, enfrentei tempestades
E percorri meio mundo na procura do encontro
Sonhei lendas numa baía das Sete Cidades

Vesti mil roupagens
Usei os disfarces que encontrei no meu baú
Pintei o rosto das cores da verdade
Perdida no meio das vestes uma foto, eras tu

Toquei este roto tambor
Soprei uma corneta desafinada
Dancei uma dança sem sentido
E com tudo isso não senti quase nada

Mas o que esperava sentir
Este poeta sem penas de espanto
Talvez um arlequim triste
Que mistura a água da chuva com pranto

Máscaras
Às vezes dá jeito tapar o rosto
Às vezes fica sentada no tempo uma alma
No anunciar de um Sol-posto

E chove, o verde continua a sorrir
As vagas chegam de longe, um rumor
Uma gaivota perdeu-se do ninho
Um santo olha-me com pena do alto do andor

Andei, nunca contei meus passos
Nunca falhei um rumo no pensamento
Nunca parei para olhar as estrelas
Nunca dormi na sombra por um momento

E em passo estugado caminhei firme
Sou alguém que vive em constante desalinho
Na procura do que a minha alma ordena
Atravessarei esta...Ponte para o Destino...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

SETE VIAGENS E UM SEGREDO


Um coração segue em silêncio
Este silêncio tem a cor do perdido sentimento
Vacilei na ironia do tempo
Fiquei parado no Mundo por um breve momento

Senti este fogo fresco
Mordi este pão de cereal ouro
Secretamente a noite invadiu o dia
Guardei um pensamento como se fosse um tesouro

Ao meu silêncio chegou um riso
O meu desejo mora no limite da razão
Roubando os segredos do corpo
Lembro as tuas mãos como uma torrente de emoção

Lembro que enchi o vazio da tua alma
Enjauladas as asas morrem de dor
A beleza é um momento eterno
É o espelho de água onde se contempla o amor

Esta minha alma navegante
Leme,velas, bússola partida
À deriva navego no tempo
Entre a chegada e uma incontida ida

Majestoso céu
Contei todas as estrelas que deu para contar
Senti que esta lua cheia de hoje
Estava prestes a chorar

E não é que se soltaram gotas do celeste
Esta é a estação onde brilha o coração
Caminhei no escuro envolto em nadas
Senti no meu peito a força serena da paixão

Quanta viajem, tanta emoção
Dia, campos, estações esquecidas
Todos os sonhos que inventei para sonhar
Guardei numa caixa de dores perdidas

A caixa de Pandora!?
Não! A minha é apenas de gasto cartão
Guarda a memória de mil emoções
E uma carta escrita à mão

Mas o Mundo conhece os meus passos
Esta ilha tem sido paraíso e degredo
Na procura de ser feliz
Fiz Sete Viagens em puro segredo...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

ORGULHO E PRECONCEITO


Continua a chover no mar
Água na água, sentimento molhado
O Sol que desponta com a manhã
Tráz nos seus raios um luminoso segredo

As camélias brotam em formosura
Um milhafre tomou de assalto o meu olhar
A saudade saltou nas penas de um atrevido pardal
Senti o meu ir na procura do voltar

Não quero sentir o sentir de mais ninguém
Às vezes a dor de alguns é lança afiada
Que me trespassa o peito em agonia
Às vezes fico parado no mundo do nada

Às vezes sou o maior de cá e arredores
Cavaleiro de espada e escudo de lata
Demiurgo de uma história incompleta
Um jogador que perde ou empata

Às vezes dói ouvir a dor
Lavada por lágrimas de água pura
Às vezes morre um anjo na terra
E nasce mais um canteiro de ternura

Ouvi uma voz ontem cantar a despedida
O anúncio de uma fatal partida
Julguei uma voz dar amor em singela canção
Numa emoção tão grande e incontida

Fechei os olhos e ouvi com a alma
Senti um coração bater docemente
Não há raiva no caminho do amor
Uma Mãe partirá suavemente

Um estalo marcará a saída
A confusão é sempre a mesma na passagem
Na espera os anjos têm rosto
Conheço tão bem o percurso desta viagem

Conheço este livro dos sete destinos
Li cada página que me passou ao olhar
Prendi cada gota de orvalho que cai
É mais um sonho solto do reino do sonhar

E sigo adiante nas asas do querer
Rasgo a amargura que me assaltou hoje o peito
Varro da minha cabeça esta tempestade de sentires
Quedo-me neste...Orgulho e Preconceito...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

ENTRE DUAS MARGENS


A música percorre este corredor de silêncio
O mar mesmo ali ao lado parece adormecido
Assaltou-me um sorriso ao pensamento
Uma nota parou em meu peito e ficou comigo

Estou sentado virado para o mundo
As estrelas hoje não iluminaram a ilha
O vento percorre um caminho inverso ao meu
Este pano de cena fechou-se à maravilha

Um catraio inventou uma brincadeiral
Deixou voar um encarnado balão
Nele escreveu um desejo aos anjos
Vi-o perder-se no aceno de mão

Um disco riscado gira aos soluços
Ficou preso numa sofrida nota de violino
Ninguém deu por isso, neste apressado viver
Acho que apenas eu, vivo em desalinho

Acho que nunca achei a minha procura
Acho que às tantas nunca lá chegarei
Será que dentro de mim está tudo
O que ainda não enxerguei?

Alma essa, alma minha, sortilégio
Um bondoso deus assim quis
Que pintasse a loucura e a razão
Não sei se foi isso que fiz

Não sei, nunca soube porque foge a saudade
Porque permanece no peito, nunca morre
Porque a minha é imensa e incontida
Porque me arroxa alma no peito, explode...

...Tanta vez
Parti numa viagem para tanto além
Nunca tive espera em cada cais de chegada
Nunca parei a viagem também

Às vezes tenho vontade de fechar a porta ao sentir
De adormecer o pensamento e voar feliz
Às vezes solto os braços ao vento
Corro no mundo pelos olhos de um petiz

E olho o horizonte para lá do mar
Sei que me esperam mil viagens
No encontro e desencontro com o amor
Fico preso...Entre duas margens...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

LONGA TRAVESSIA


Tenho os olhos molhados da chuva
Tenho um sonho preso no fundo de uma lagoa
Tenho uma saudade que rói no meu sentir
Tenho uma saudade que sei ser boa

Hoje pintei mar
Naveguei nas cores que o sal deixou
Sorri sete vezes de contentamento
Até que uma pincelada ao acaso me ensombrou

Lavei a tela em água pura
Ficou azul e perdeu a formosura
Fiz o papel de deus pequenino
E retornei ao tema com a mão segura

Uma demanda!
Esta minha paixão pelas cores
Pintei tanta ilusão na vida
Pintei amor, contradição, dores

Fica estranha uma criatura
Quando convive apenas consigo
Quando olha para dentro de si
Quando vê em si o melhor amigo

Esta cabeça do poeta é um caso sério
Esta força que me força o sentimento
É lava que corre rubra para o mar
É uma paixão em infinito momento

É tambor que toca pela madrugada
É navio abraçado às ondas
Sou um leme que prende o norte
Sou mais uma de tantas criaturas bisonhas

Anjo, demónio, um arlequim mal-pintado
Um homem que alguns acham sortudo
Uma ribeiro desenfreados de sentimentos
Uma comédia de enganos de um filme mudo

Fotograma verdade, fotograma mentira
Holofotes de ausente luz
O amor vence sempre no fim
A paixão a tudo seduz

Hoje deu-me para escrever esta maluqueira
Ainda bem que chegou o fim do dia
Nesta viagem em que procuro o alcanço
Sei que será...Uma longa Travessia...