sábado, 29 de outubro de 2011

AS COSTAS DE UM CORAÇÃO


Solenemente uma árvore cede ao vento
O limite de um sonho é a palavra não
Os deuses habitam num castelo de nuvens
A mentira desbota a cor da paixão

As palavras que uma boca proferiu
As chuvas que caem na noite fria
As pedras que não erguem uma casa
A maldade impressa em alma que se esconde no dia

Uma figueira
Árvore que não dá flor
Chão estéril com pegadas nuas
Ò deusa do desamor

Ò veneno bebido de um trago
Absinto de gosto amargo
Braços que pedem a ternura pura
Barco que navega na ilha ao largo

E um passarinho canta alegremente
Uma donzela olha um amante docemente
Um corpo estremece de luxúria
Um anjo não é homem nem mulher certamente

Uma lagoa não é oceano
O céu nunca será limite meu
Já fui crente de muita palavra
Agora oiço-as com coração de ateu

Agora fiquei preso na palavra
Agora lembrei uma esquecida formosura
A distância percorrida por um anseio
Às vezes tem mil passos de amargura

Às vezes dou por mim a pensar
Porque há gente que vive o amor em contradição
Tudo isso me ocorreu agora num instante
Nunca saberei pintar…As Costas de Um Coração…

domingo, 23 de outubro de 2011

MANHÃS DE INQUIETO MAREAR


Senti nos pés o pulsar da ilha
Um farol avisa o longe do perto
A lava encoberta na costa dormente
Sete rumos e apenas um certo

Neste Mar senti a vontade de prantear
A nudez da noite no encontro do silêncio total
Encobriu meu pranto das estrelas
Uma zombeteira Lua marcou no dia o encontro final

Finalmente vi a vil desventura
O rosto cínico com máscara de formosura
As pessoas soltam tanta palavra vazia
Triste é a viagem de alguns de corpo e alma em secura

Atirei todos os pensamentos às ondas
Devolvi um búzio recolhido à maré vazia
Encontrei uma garrafa sem mensagem
Mas que tinha dentro um sorriso de alegria

Soltei às mãos uma corda cheia de nós
Desamarrei dois sonhos de incerteza
Apanhei das pedras uma flor impossível
Tinha um vestido branco de rara beleza

Uma noiva do Inverno
No vale dos Milhafres reina a ventania
Uma chuva agreste lava a terra fecunda
Uma criptoméria ostenta um ar de fidalguia

Sonhei que era carregado nas asas de borboleta
Por entre gotas de fino orvalho azul cristal
Todas as manhãs vêm coroadas com a esperança
Há mãos que deixam escorrer a dor total

Há almas que se esvaziam em ligeireza
Há uma boca que pede pão, um corpo o aconchegar
Passou-me todo este filme pelos meus fechados olhos
Numa…Manhã de Inquieto Marear…

domingo, 16 de outubro de 2011

A LÂMINA E O CÁLICE


O tempo corre em sua em sua invisível viagem
Um Santo nunca dorme no altar
Um barco sobe e desce cada onda do Mar
Um cais de partida também acolhe o chegar

São tantos os mistérios que encontrei na vida
Cruzei com gente desconhecida que conhecia bem
Falei e falo com gente que partiu desta vida
Sinto tanto aroma perdido que este tempo guarda e tem

Cruzei mares com baleias, tempestades e sereias
Furacões, monstros e adamastores
Fiz peças de imensa mágoa e nostalgia
Fiz o amor ser feliz num tear de desamores

Pintei e pinto coisas que me tocam fundo
O pincel nem sempre obedece ao meu querer
Quantas cores terei que juntar à ternura
Para ao fundo da tua alma poder descer?

Almas…
Um corpo que se liberta em cada noite escura
Mãos que tocam e transformam a pedra em ouro
Alquimista sem manto, aspergir o destino com água pura

Não procuro o Graal…
Sei que “Ele” está algures numa gruta desta ilha
Já lá estive e “O” contemplei
Às vezes volto lá para alimentar a alma com a maravilha

Pois é, tão simples são às vezes certos caminhos
A fé dos homens é feita de verdade e mentira
A terra protesta e sussurra-me um rumor
Não rezo, mas, já segurei nas mãos a imagem de Nossa Senhora…

…Dos Anjos
O que senti só se encontra na palavra que do alto desce
Uma cruz derramou em minhas mãos dois pedaços de pedra
Olhei para o céu e vi…A Lâmina e o Cálice…

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A SACERDOTISA


Uma alma é campo de batalha
Onde o ódio é vilão e a paixão protagonista
Palco de gigantescas refregas
Onde vive e morre o amor a cada conquista

E uma mulher disse:
O coração parte, no número das emoções
Uma mulher não tem estações para amar
Tem apenas no lado esquerdo mil contradições

As mulheres…
Não gosto de pessoas, do escuro, da maré cheia
Da taça que me oferece às vezes a vida
Da caminhada no barro agreste em tarde feia

Não gosto do feitiço sem sentido
Na busca procuro uma coisa para além da revelação
O amor não conhece a sua verdadeira profundeza
Senão no momento da separação

O vento açoitou os ramos num mar de súplicas
Enquanto o tempo esquadrinha os horizontes
Uma solidão infinita sela o desencanto
Param no seu curso as águas de sete fontes

Sete Cidades inventadas
Sete sortilégios para afugentar o agoiro
Sete palavras de magia branca
Um cálice de sangue que desfaz o ouro

Quero fundir-me e ser um regato corrente
Conhecer a dor da excessiva ternura
Acordar de manhã com o coração solto do corpo
Beber da fonte onde o sentimento é coisa pura

Quero, querer querendo
Ser carpinteiro que a madeira afaga e alisa
Sacrifício em cerimónia num altar de basalto negro
Pelas mãos de uma…Sacerdotisa…

domingo, 9 de outubro de 2011

ENTRE A PALAVRA E O CHÃO


Estou à espera das estações
Em algum sítio adormeceram os barcos no mar
Nesta vida escolhi apenas o que amava
De uma onda a outra onda vejo, o aqui chegar

Azul mar, frio, ramo quebrado
O beijo que subiu da terra
Tocou-me a alma inebriou-me
Poisei minha espada nesta santa guerra

De todas as verdades escolhi a mais dura
A paz das minhas palavras perdeu-se na tarde escura
A felicidade é uma torre sem cor
A saudade é como a água mais pura

Ouvi uma voz carregada de violetas
Vejo o Sol transportar cachos de luz
Vejo as notas de uma melodia incompleta
Um canto novo que minha alma seduz

Serei um cantador rasgando a madrugada?
Um Arlequim perdido de Columbina
Serei folha caída numa estação adormecida
Ou apenas um buscador de irónica sina?

Não há jaula que prenda a palavra do poeta
Não há prisão para o voar de uma alma em contradição
Não há grilhetas que me segurem este corpo
Não há lonjura que quebre o percurso da paixão

Às vezes pergunto-me o que pensarão
As pessoas que lêem estas minhas metafóricas loucuras
O que dirão desta inquieta e caminhante alma
Que percorre um mapa cheio de procuras

Às vezes…
Sinto que nada sabem de mim em cada opinião
Sinto uma longa e imensa solidão nesta viagem
Perdido…Entre a Palavra e o Chão…

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

TEUS OLHOS


Fechei a porta às emoções
Arranquei as vestes e atirei ao frio
Sequei o pranto que me engoliu o olhar
Inventei mil águas e atirei a um rio

Inventei uma casa amarela e bela
Um jardim para o poiso das gaivotas do mar
O telhado era feito de pedaços de azul celeste
Uma cancela tinha tatuada a palavra amar

Habitei nela todos os dias da cor do sorriso
Acendi um fogo eterno com pedaços de carinho
Bebi de uma taça dois tragos de absinto
E julguei ver no meio do mar um singelo ninho

Um mar distante de mil azuis
Quando me assaltam dúvidas e medo procuro uma lagoa
Soltarei um chamamento no Mundo
Até que a voz me doa

Até que a madrugada se desprenda da noite
Caminharei na terra dura e fria que me surja no adiante
Contarei todas as pedras que encontrar
Serei um poeta despojado da razão, um louco viajante

Sem Norte, sem bússola, sem contradição
Sem ouvir o som das palavras, a vil opinião
Sem temer o destino das sete viagens
Sem remorsos, sem mágoas ou compaixão

Cavalgo uma tempestade imensa
Solto toda a esperança aos brandais
Este vento sempre presente
Esta força, este peito que não suspira mais

Esta alma que se solta em cada noite no astral
E toca mundos, almas, mestres, deuses, flores aos molhos
Apenas procura a pacificação da ternura
Num sorriso dos…Teus Olhos…

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A VIAGEM DA MINHA PAIXÃO


De velas paradas baloiça um barco
Amarras à ilha, preso ao nevoeiro
Nunca serei D.Genádio o arcebispo
Não sou descobridor, na chegada, primeiro

Afrontei os deuses do Olimpo
Conspirei com Athena, Hera e Apolo para destronar Zeus
Mas ele era rei dos deuses
E acabei enredado em sonhos meus

Sonhei com um rodopio macabro
Ouvi um silvo de ave rapina demolidor
Fui animal de uma criatura bela
Dei a alma e corpo ao desamor

Ouvi o som da maresia
Mesmo ao cair da noite
Um canto chamou por mim
Num rumo de boa ou má sorte

Mil archotes rasgaram o negrume da noite
Senti o som do mar bater no casco do meu barco
Cedi ao encanto do canto de uma sereia
E acabei trespassado pela seta de um arco

E sonhei que era trovador e cantei
Porque entras na minha alma e soltas este fervor
O que tens para me dizer
Diz ao sonho por favor

…E parti para o alto mar numa manhã submersa de neblinas
Ficaste tu na ilha nesta manhã de luz fria
Na lonjura vi um desenho de cruel ironia
E um deus do mar que de mim ria

A noite terminou abruptamente no dia
Passei a mão nos olhos para soltar os sonhos de contradição
No meio deste oceano profundo e imenso
Em sonhos viajei…Na Viagem da Minha Paixão…

terça-feira, 27 de setembro de 2011

COM O LUAR NOS OLHOS


Os barcos levam nome de santos
Uma flor tristonha lembrou a Primavera
O silêncio mora no meio de um monte
As mulheres ficam sempre em cais de espera

As mulheres…
No jardim onde as maçãs são de ouro
Conheci três mulheres de encanto
Uma negra, uma vermelha, outra branca para meu espanto

Estava a brincar!
Nunca consegui conhecer realmente uma mulher
Nunca entendi o que lhes vai na alma quando sentem
E atiram isso a um coração qualquer

Não! Não era de nada disso que queria falar
Hoje deu-me para falar de coisas assim
Sei apenas que às vezes me olham sem ver
Sei que nem sempre o princípio é o caminho para o fim

Que fúria tem este Mar
A ilha acordou presa a uma tempestade medonha
Não há pássaros no céu deste degredo
Já nem vejo a lua triste ou risonha

Rios correm de encontro à terra

Rasgando esta feiticeira bruma
Não há trégua nos vales da ilha
As vagas vieram coroadas de negra espuma

Não há ninho que sustente o canto de pássaro
Não há santo que nos valha na oração
Não há contas para provar tanta fé
Já não há calor neste pobre coração

E quero adormecer no abandono do dia
Quero sentir o aroma da lenha aos molhos
Aquecer a alma com a verdadeira esperança
E sonhar…Com o Luar nos Teus Olhos…

sábado, 24 de setembro de 2011

A TORRE DOS SONHADORES


Perdi as palavras que escrevi à momentos
Levou-as um sortilégio solto da noite escura
Sentei-me numa pedra de negro basalto
Fechei os olhos e tentei lembrar a cor da ternura

Nunca a escuridão me encontrou
Nunca tomei como certo o encontro com a verdade
Espinhos, punhal afiado, lágrimas
Uma flor morreu num campo de saudade

Atirei sementes ao Mar revolto
Zombou de mim uma Gaivota que passou
A espuma ficou negra e perdeu-se na areia
Fiquei mudo e triste, ainda estou

Entrei no Mar na procura do silêncio
Deixei-me levar por uma onda breve e fria
Vi criaturas passarem docemente
Uma parou, pareceu que ria…

…De mim
Triste e patético poeta louco
Rasguei as mãos na procura de uma estrela do Mar
Ceguei no sal e senti-me tão pouco

Sai deste mar de frio abraço
Sequei as minhas penas ao vento
Galguei os restos da fúria de um vulcão
E senti o Mundo parar por um momento

Um vertigem tomou-me a razão
Cerrei os olhos e vi tanta coisa que não via
Vi, paixão imensa, amor em contradição
Vi sem ver e ao voltar a ver um pássaro ria…

…De mim…
Das palavras que disse e ninguém ouviu com o coração
Deste sentir que jorra como a fúria de um rio
Pedi a um anjo que me desse absolvição

Corri ao encontro de uma montanha aprisionada na bruma
Pelo caminho toquei de leve em todas as flores
Subi a um castelo erguido ao celeste
E de joelhos quedei-me na…Torre Dos Sonhadores…

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A OUTRA FACE DO ESPELHO


O aparo risca a alvura do papel
Ausência da tinta esconde a palavra
Uma mão trémula pára na indecisão
Uma semente eclode no meio da lavra

O fogo e o vento unidos na desgraça
A chuva lava mágoas enraizadas no tempo
Este espelho de água reflecte uma máscara trocista
Que muda num sorriso em dado momento

Na noite tudo se perde
A esperança, o desvario
Sonhei que o choro de uma criança
Tem mais força do que a fúria de um rio

E este aparo não pára de arranhar o papel
O beijo da tinta estará ausente, a palavra não
A palavra solta, é grito da alma, choro de coração
Amarrotei mil folhas em loucura, na indecisão

A neblina beijou a ilha na madrugada
Cobriu as pedras em manto de água fria
Ainda tenho o som das andorinhas do Mar no peito
Ainda tenho nele tanta alegria

Tenho uma fé feito de mil cores
Uma paleta onde misturo as emoções
Este pincel deixa tanta marca vibrante
E um mundo imenso de contradições

Pinto rostos, o céu, a saudade
Pinto mentiras, corações sem chama e verdades
Pinto o Mundo muito à minha maneira
E um barco carregado de puras saudades

E apago o olhar para ver melhor
Para sentir o dizer de um amarrotado papel velho
O que vejo está muito para lá de sentir
Nesta…Outra face do Espelho…

domingo, 11 de setembro de 2011

ORAR, CAMINHAR, AMAR


A transparência das águas inunda-me o olhar
Os Anjos já não moram nas nuvens altaneiras
Conheci Deus no meio de uma oração
Vi gente sem alma, sem coração, sem maneiras

Conheci uma gaivota azul
Falou-me de mares distantes do Adamastor
Disse-me que o ódio é pequenez da alma
Que há gente despida de amor

Caminhei num tapete de buganvílias caídas
Apanhei uma folha de papel numa toada de vento
Tinha escrito a negra tinta uma traição
Gerada do coração de um monstro sempre atento

Quantas pedras compõem um abrigo?
A talha de um altar é feita sem defeito
A luz da Lua é feitiço incontrolável
O sortilégio sempre morou em meu peito…

…E esta força sem limite
Velas, brandais, leme com rumo a Norte
A estupidez é planta sem flor
Não há tormenta que não acabe em sorte

Nesta terra linda e verde
As pedras guardam mil e um segredos
Um arpão rasga o ar na procura do mal
Um traidor veste um fato de mil medos

As águas lavarão a lama do caminho
O vento alisará as pegadas na areia do Mar
O tempo ficará suspenso por um momento
Para eu…Orar, Caminhar, Amar…

domingo, 4 de setembro de 2011

FLOR OCULTA


Algures existe um lago de águas dormentes
Uma montanha silenciosa
Uma árvore sem-abrigo para os pássaros
Um dama que julga ser formosa

Algures entre o céu e esta ilha
Há um sítio onde se enterra o lamento
No alto de uma verde cumeeira
Onde nem se atreve a ir o vento

Podemos fazer o tudo com as lembranças
Transformar a o amor em dor
Pintar das mais belas cores a ternura
Fazer desaparecer do coração o desamor

Haverá um Paraíso onde aconteça o encontro
Das perdidas almas tocadas pela tristeza
Haverá um Mar vestido de bonança
Onde o canto da sereia seja uma ode à beleza?

Oiço as notas de um piano oculto
Dançam as folhas no ondular do vento norte
Um par de amantes tatua um coração no barro
Para ver se o destino lhes reserva a sorte

Plana um papagaio de papel no celeste
Solta gargalhada de miúdo feliz
As cores do arco-íris inundam o olhar
Um amor é querer do sempre quis

Recolhi do rosto um aguaceiro de verão
Lavei as mágoas que não cabiam na alma
Adormeci no marulhar de vagas
E sonhei que a paixão é eterna chama

Afastei o pensamento envolto em mágoa
Com a nova aurora a minha alma exulta
Prendi o olhar ao fim do verde
Pareceu-me ver uma…Flor Oculta…

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ILHAS DE BRUMA


O vento corre apressado vindo do Mar
Já não oiço as andorinhas nos rochedos
As ondas de Agosto são castelos de sal
Esta ilha é degredo de muitos medos

A ilha recebe as gotas do choro de um deus
As hortênsias adormeceram no barro
Um coração bate triste magoado
Um sentimento no peito amarro

Hoje tal como ontem perdi o olhar mar adentro
Senti um errante aroma vindo do norte
Senti que as nuvens corriam apressadas
Senti que a paixão tem que ser forte…

…No coração de quem sente, sentido
Trovas ficam esvoaçando no tempo
Um beijo sincero pára o relógio
O universo ilumina este momento

Pisei um tapete de folhas de fogo
De pés descalços segui sem rumo
Só parei no meio de nadas
Senti o ardor do Sol quando estava mesmo a prumo

Ah poeta de contida fúria
Marioneta de um deus irónico
Amarrado a cordel fino
Com ar de falso cómico

Descobri que a música é bater de coração de anjo
Que a noite aprisiona o dia em ironia
Que um golfinho é feliz quando se solta do mar
Que o Sol foge envergonhado ao fim do dia

Descobri…
Que a minha alma flutua à noite sobre o corpo
Que viajo sem fronteiras, sem limite
Que um barco carrega a saudade de porto em porto

Neste cais que de negra pedra
O nevoeiro brinca com a espuma
Adormeço no feitiço do vento norte
No verde tapete destas…Ilhas de Bruma…

terça-feira, 30 de agosto de 2011

AS VALQUÍRIAS


O espelho de água de um poço
Reflecte um contorcido sorriso de falsidade
Um melro-negro agita o agoiro
Uma boca solta a palavra nua da verdade

São tão más certas criaturas…
Dou por mim a simular uma curta peça
Para ver se o teu sentir tem maldade
Tua alma explodiu na vingança

És um castelo de cartas…
Um campo de negras areias movediças
Árvore sem fruto ou flor
O pecado vestido do mais puro desamor

Pensar que pensei ter pensado seres pura
Pensei na frieza das pedras de basalto
Sou uma ave que voa na verdade do pensamento
Sou alma que se queda bem lá do alto

Sabes lá tu quem serei…
É tão patético fazer adivinhações
É tão estupidamente estúpido
Navegar na num mar de contradições

Mares de fogo frio, grito derradeiro
Ondas gigantescas de lamento e pranto
Xaile negro que afugenta a saudade
Alma que acolhe a maldade em espanto

Que vida, que diadema de falso ouro
A chuva apareceu agreste
Há tanta coisa que enternece a lembrança
Deste poeta sem ter o que preste

Hoje não digo coisa com coisa
Eu, que adoro semear palavras e colher maravilhas
Até o título deste poema é uma desgraça
Vejam bem…As Valquírias…

domingo, 21 de agosto de 2011

SETIMA ONDA


Mil espelhos reflectem desenganos
As negras pedras carregam o sal azul
As nuvens acomodaram-se a uma lagoa
Que fica para os lados do sul

Um barco parado no cais de espera
Amarras soltas do frio ferro
Uma gaivota adormeceu sem penas
Uma criança chora no meio do aterro

Cheio de penas amarro a alma
Uma saudade arrocha meu peito
Sou um caçador de nuvens breves
Um romântico sem ponta de jeito

Um barco de papel perdido do norte
Roseira plantada num campo de pedras nuas
Uma casa perdida da sua cidade
Um labirinto feito de mil e muitas ruas

O fogo arde sobre o mar a poente
O céu ficou menstruado de espanto
Calaram-se por um instante as andorinhas do mar
Uma mulher tonta vomita o cobranto

Despi as minhas vestes impuras
Desenhei na areia um anjo tristonho
Era negro como o fogo adormecido
Tinha as asas frias e duras de um terrível sonho

Sonhei com o amor verdadeiro
Sonhei com uma árvore vestida de sol
Sonhei que eras a virtude, a perfeição
E encalhei meu barco num longínquo atol

Saltei do barco na procura de terra firme
Vi no horizonte uma tempestade medonha
Corri na procura de um abrigo feito de saudade
Acordei no passar…Da sétima Onda…

sábado, 13 de agosto de 2011

UMA PONTE PARA O ACASO


Sonhei com uma estrela do céu
Sonhei-a vivendo no meio do Mar
Sonhei com a verdade de uma palavra
Soletrei sete vezes a palavra amar

Neste sonho vi uma árvore triste
Pensei em sete coisas impossíveis de fazer
A primeira era voar com as nuvens
A ultima sobre as águas de um Lago correr

E vi pássaros de cores nunca vistas
Refulgentes lírios de ouro de lei
Apenas uma hortênsia me pareceu ali perdida
Vi palpitantes borboletas e o coração calei

Senti que eram de vento as minhas vestes
Senti-me o herói do sonho, um Paladino
Senti que sem amor o destino não se cumpre
Senti em meu peito um anseio sozinho

Sentei-me no meio de um mar de buganvílias
Ouvi uma oração a um deus desconhecido
Fechei os olhos para ouvir a minha alma murmurar
E senti todas as almas ausentes no estar comigo

Não eram de sol os raios que me aqueciam
Tinha três Luas este mundo bizarro mas belo
Tinha lagos feito de pedaços de nuvens
Tinha uma corrente de apenas um elo

E tinha uma pequena casa
Uma chaminé sorria bolas de sabão
Uma porta aberta de par em par
Tinha estendida em minha direcção uma mão

Duas mãos, dois braços, um abraço
Senti a vertigem do teu infinito amor sair do regaço
Acordei no meio deste mundo de nadas
Terei percorrido…Uma Ponte Para o Acaso…?

sábado, 6 de agosto de 2011

SÉTIMO CÉU


Pisei um tapete de pétalas de giesta
Percorri as entranhas de um adormecido vulcão
Esculpi na lava uma caixa rubra
Guardei dentro um sonho perdido de um coração

A Caixa de Pandora...
Um dia roubei um sortilégio feliz
Não tenho conta das rezas que senti
Não sei se a viagem da vida foi o que quis

Não sei...
Só sei que sabendo aprisionarei o saber
Só sei que o saber é arpão cortando a distância
Só sei que às vezes me quer o querer

Não sei...
Porque partem cedo certas almas
Artista, Rei de patético reino
Canteiro de agrestes mágoas

Vela sem vento, Navio à bolina
Mastro apontando a uma pálida estrela
Saudade presa aos brandais
Rumo perdido na loucura de uma bússola

Corpo dorido, alma que pede amor
Rosa breve perdida na bruma
Vaga de muitas no dormente das pedras
Sal que já foi alva espuma

E respiro mil odores presos ao nevoeiro
Ouço mil vozes, nenhuma chama por mim
Vejo sete viagens, sete horizontes
Amordacei a palavra fim

Calei os gritos da amargura
O sofrimento deixa-me tão aflito
Não sei se vais partir,se ficas
Preso à garganta tenho este infinito grito

Ah sorte que que és madrasta
Como é imenso e terno o sorriso de uma lagoa
Pedirei a Deus, aos deuses o impensável
Pedirei até que a voz me doa

Sou um bruxo que se esqueceu do sortilégio
Um mago de varinha de condão presa num véu
Fiz esta viagem da vida contigo perto e longe minha Irmã
Espera-nos num amanhã...Um Sétimo Céu...



POEMA DEDICADO À MINHA IRMÃ QUE LUTA PELA VIDA NUM HOSPITAL.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

ESTRELA SEM CÉU


Uma lança percorre o espaço
Leva a dor ao coração
Sangram as buganvílias de Maio
Bate num peito a fé de uma nua mão

Calcei luvas, branca e negra
Afastei os braços ao abraço
Encontrei um pássaro feliz
As uvas são amargas no Mês de Março

Anos, dias, vidas que se perdem da vida
Voltaram com o Sol as Andorinhas do Mar
Quantas vagas correram adiante
Quantas perdidas penas entre o partir e chegar

E as pedras da ilha…
As pedras da ilha não têm idade
Não tem limite o amor quando é amor
Não tem medida a extensão da saudade

Na ilha a saudade é um navio
É vapor da madrugada com a bruma
É gaivota voando no canal
É alma despojada de coisa alguma

Na ilha o céu chora no cair da noite
Derrama na terra um pouco do seu azul
Explodem as hortênsias no verde
No embalo de uma brisa do sul

Chorei na dor os sonhos perdidos
Reguei o barro frio e duro que percorri
Gritei um grito mudo preso ao peito
Aprisionei o fantasma do meu sentir

Rasguei os trincos da memória
Em eterno conflito cobri a minha alma com um negro véu
Fechei os olhos ao meu olhar
E senti ser…Uma Estrela Sem Céu…

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A ULTIMA PÁGINA


Sonhei com uma montanha solta da terra
Com pássaros cantando em desvario
Sonhei com um Mar bravio me engolindo
Com um barco naufragado na margem de um rio

Sonhei sonhando até de olhos abertos
É tão meu este lugar do sonhar
É tão imenso o caminho do pensamento
Moram lado a lado o ódio e o amar

Moro no Palácio da ilusão…
Não sou Antero, não sou vil ladrão
Sou um poeta menor
Sou pena rasgando a palma da mão

Sou, serei demiurgo de uma comédia de enganos
Actor largado para lá do proscénio
Uma peça que sei ninguém entende
Um simples sonhador disfarçado de génio

Um génio cheio de genica
De peito feito cheio de ilusão
De cartola e bengala já agora
Marcando passo cheio de paixão

Que nunca me falte esta força
Sempre desejei ser livre como as nuvens do céu
Uma noiva nem sempre é feliz
Uma lágrima nunca pára num alvo véu

E caminho entre o riso e a desventura
Deixo tatuado no frio barro a marca deste querer
Olhos que olham o vazio das almas
Olhos que não querem no olhar o ver

Nem sempre dou ouvidos à loucura
Li em tempos o imenso de Antígona
Fecho por hoje este livro sem palavras
Não quero chegar…À Ultima Página…

sábado, 9 de julho de 2011

CAVALEIRO DAS ONDAS


Este impaciente vento
Veio com uma aurora sombria
Um sorriso puro confirma a verdade
Há um rosto triste, há uma alma vazia…

Há uma culpa que se veste de pecado
Há um pecado que arrocha o coração
Há uma virtude perdida na loucura
Há uma flor caída no frio chão…

…E há o Mar
No reino de Neptuno está proibido o perdão
Como é sinuosa a viagem da paixão
Como é tonto às vezes o coração

Um tear morre sem uma mão
A culpa às vezes é vítima da ofensa inocente
A tua alma campo de batalha
Um palhaço nem sempre ri de contente

Senti o coração silencioso da terra
Senti a batida das ondas do mar
Senti a dureza das nuas pedras
Duvidei sete vezes da palavra amar

Quebrei as cadeias do pensamento
Aprisionei o Mar numa gota de sal azul
Vendi os sonhos aprisionados em minhas mãos
Sentei-me para contemplar um pássaro voando para sul

Nua, és azul como as colinas da ilha
Uma baía que acolhe o pranto
Um rio de todas as dores
Errantes são os pesares em céu de espanto

Pensar que cada pedra chegou aqui por si
Coroada pelas neblinas da manhã
Procuram-te as raízes, sobe a terra às tuas mãos
Boca que solta tremula a palavra vã

A beleza vai fugir para poente
A noite vai soltar mil sombras bisonhas
Entro no mar, de corpo e alma nua
Na cabeça ostento uma coroa de espuma, sou…O Cavaleiro das Ondas…