domingo, 25 de dezembro de 2011

MAR MANSO


A simplicidade da chuva
Uma folha de papel que rejeita a letra
Uma mão que teme o afago
Uma palavra solta que em minha alma entra

Tão calmamente corre esta viagem
A terra anda devido ao amor
O que é isso de amar com amor?
O que é isso de o perder sem dor?

O que é isso de acreditar
Às vezes Deus carrega ao colo um justo
Às vezes uma reza acende o Sol a meio da noite
Às vezes duvido acreditando a custo

Abracei o mundo este natal
Lembrei passados desvanecidos
Senti aromas que pensei perdidos
Senti que a vida me infligiu mil castigos

Senti que a solidão era a porta para a razão
Que era uma criatura sem grande importância
Senti que ainda não tinha traçado todos os rumos
Que não há longe perto da distância

Tenho no celeste uma estrela como minha
No contar das vagas formulo sempre um desejo
Acredito em tanta coisa estranha para outros
Sabem lá o que sinto toco e vejo

E falo sem que queira a palavra como resposta
E voo nas maravilhas que minha alma cria
E vivo na magia que me foi oferecida
Choro quanto pinto com as cores da alegria

Que Mundo este onde me colocaste Deus
Que vertigem esta procura apaixonante e sem descanso
Sei que as estrelas são teus luzeiros e olhos
E a minha estrada este…Mar Manso…

domingo, 18 de dezembro de 2011

O ELIXIR DO AMOR


A lembrança cruzou meu pensamento
A dor tomou-me de assalto
Lembrei-me caído no frio chão
A olhar um chamamento do alto

Lembrei o turbilhão de vida que me passou
Alma que de leve se separava do corpo
Vida que confirmava mil sentidos
Derramada do fundo de um copo

Lembrei…
Este poeta sempre em combate com a lembrança
Este homem desprendido do preconceito
Esta puta vida entre o mar revolto e a bonança

Esta ânsia contida em peito de basalto
Atravessei o mundo nas asas do impensável
Fui apelidado te tanta coisa feia e triste
Por vezes de ser notável

Mas fui sempre eu…!
Viajeiro temeroso fingindo valente
Enfrentando na noite a borrasca
Na aurora sorrindo contente…

…Com as suas belas cores
Sou um apaixonado por elas
Carrego no tempo tantas impressões
Algumas…São mesmo belas

Amei, amo a beleza
Tropecei muita vez na incerteza
Transformei miséria em realeza
Ri de contente e de tristeza

Ri para os olhos que me deram amor
Ri para o mar onde pesquei ilusões
Ri em cada partida e chegada
Que fiz numa vida de contradições

Procurei o segredo da verdade feliz
Percorri o caminho do vento cheio de ardor
Uma gaivota entregou-me uma concha cheia de mar
Era…O Elixir do Amor…

domingo, 11 de dezembro de 2011

ENTRE O CORAÇÃO E A VIDA


Esta Lua seguiu-me os passos
É triste ter asas sem poder voar
É fria a cor do vestido da noite
É de pedra esta jangada do meu prantear

Terra molhada de assombro
Olhos famintos de pão e sorriso
Boca que desfaz a palavra feliz
Mulher que abre o corpo ao esposo

Mulher fecunda, pão por cozer
Hesitante entre a entrega e a raiva surda
Fogo eterno que a água ateou
O suspiro da terra vibrando nos seios de uma muda

A fúria da paixão…
Vento fugindo à calmaria
Mordi uma azeda maçã
Nesta peça era o actor que nunca morria

Morri mil vezes em outras tantas
Usei sempre o mesmo traje, da mesma cor
Chorei os dramas, que não eram para chorar
Fui um deserdado do desamor

Fui Arlequim sem Columbina
Fui peça infeliz de carnaval a duas cores
Dancei com princesas inventadas
Inventei na vida falsos amores

Inventei uma ilha feita de nuvens
Um relógio que fazia o tempo andar para trás
Inventei a verdade mesmo a sério
Sei sonhar inventando sem saber como se faz

Fiz…
Das cores os sonhos mais belos
Das palavras a esperança sempre à minha espera
E dei vida a uma perdida quimera

Cobri com um abraço a descrença
Olhei de frente a desconfiança
Recolhi lágrimas de água pura e fiz um Mar
A que dei o nome de azul esperança

E fiz um cais
Apenas de chegada e proibi a partida
Sentei-me nas pedras que uni
E Juntei o…Coração e a Vida…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

HÁ PALAVRAS QUE SÃO COMO FAZER AMOR


Um brinquedo perdido num baú
Uma cortesã cheia de vontade de servir
Um desejo mesquinho acende o perverso
Uma mulher vestida de verdade acabou de mentir

A chuva que escorre para o alto
Uma ribeira perdeu o cantar da água
A saudade já não mora no cais
A janela do sonho tem um cortinado de mágoa

Uma besta diz que é bestial
Uma criança chora de medo
Absolvição foge da alma do justo
Um coração derrama no chão um segredo

De amor…
Envolto num manto denso de bruma
O sangue de um golfinho foi sacrifício
Que um deus derramou na espuma

Do mar…
Onde lancei uma pedra desencontrada de outra
As pedras também sentem amor
Não infligem apenas dor

Sou uma pedra…
Lava mal talhada pela tosca ternura
Escultura que o sentimento ergue
Sem pingo de beleza ou formosura

E tu quem és?
Cultivadora em canteiro de ódios profundos
Rainha sem reino que trai o rei
Ave perdida entre dois mundos

Ah este poeta das confusas palavras
Cantador de todas as canções de tristeza
Trovador vestido de arlequim trapeiro
Fazendo vénias a uma imaginada realeza

Que diz palavra sobre palavra
Às vezes fica mudo com um olhar de dor
Dos seus lábios escorrem sons sem sentido
Porque…Às Vezes Há Palavras Que São Como Fazer Amor…

HÁ PALAVRAS QUE SÃO COMO FAZER AMOR


Um brinquedo perdido num baú
Uma cortesã cheia de vontade de servir
Um desejo mesquinho acende o perverso
Uma mulher vestida de verdade acabou de mentir

A chuva que escorre para o alto
Uma ribeira perdeu o cantar da água
A saudade já não mora no cais
A janela do sonho tem um cortinado de mágoa

Uma besta diz que é bestial
Uma criança chora de medo
Absolvição foge da alma do justo
Um coração derrama no chão um segredo

De amor…
Envolto num manto denso de bruma
O sangue de um golfinho foi sacrifício
Que um deus derramou na espuma

Do mar…
Onde lancei uma pedra desencontrada de outra
As pedras também sentem amor
Não infligem apenas dor

Sou uma pedra…
Lava mal talhada pela tosca ternura
Escultura que o sentimento ergue
Sem pingo de beleza ou formosura

E tu quem és?
Cultivadora de canteiro de ódios profundos
Rainha sem reino que trai o rei
Ave que perdida entre dois mundos

Ah este poeta das confusas palavras
Cantador de todas as canções de tristeza
Trovador vestido de arlequim trapeiro
Fazendo vénias a uma imaginada realeza

Que diz palavra sobre palavra
Às vezes fica mudo com um olhar de dor
Dos seus lábios escorrem sons sem sentido
Porque…Às Vezes Há Palavras Que São Como Fazer Amor…

sábado, 26 de novembro de 2011

PIANO


Apetece-me escrever uma carta ao Mar
De repente senti que Deus se distraia
De repente a terra parou de rodar
De repente o Mundo parou no meio-dia

Nesta ilha caminhei num chão movediço
Fui embalado pelo grito constante de um sismo
Nesta terra viajada descansei o sonhar
Fiz tréguas à ternura, aprisionei o amar

Habituei-me às orações
Aos santos aprisionados ao altar
As velas que ardem ao fim do dia
São milagre e pecado, o encontro do me encontrar

Um dia alguém disse ser eu um milagre
Um dia descobri que via para lá dos olhos
Um dia toquei um fruto podre caído
Nasceram de imediato mil flores aos molhos

Fiz nascer lembranças envoltas em bonanças
Cortei os espinhos a uma roseira infeliz
Reguei com sal um canteiro de tontas mágoas
Gritei alto um chamamento que a alma quis

Limpei as rezas atiradas ao chão de uma Igreja
Vi uma bordadeira fazer nascer uma pomba branca
Vi uma alma perder-se na noite escura
Li um poema já lido de Florbela Espanca

Li na água os caminhos para um lago enfeitiçado
Merendei miolos de pão amassado em agonia
Segui ao alto o salto de uma criptoméria
Larguei a espada e o pincel ao fim do dia

Continuei pintando memórias de cor
Rasguei tudo o tinha emoção e dor
Adormeci já tarde no tempo
Sonhei que tinha sido abolido o amor

Voei neste sonhar num mar de pranto
Em espanto tracei uma batalha, um plano
Montei um cavalo feito de vento
Acordei entre duas notas de um…Piano…

domingo, 20 de novembro de 2011

AMOR LUXÚRIA E FINGIMENTO


Um pano de alva cor
Que a bordadeira pontilha a crivo
Linho que um tear uniu fio a fio
Em desenho de um azul vivo

O cantarolar da chuva
Marca o ritmo do pensamento
Um vento que varre os presentes de Outono
Um Sol que aquece o Inverno por um momento

Um vaidoso que se despoja da roupa
Fauno que se mira e gosta
-Vejam suas putas o que perdem!?
Sou inteiro, isto é só uma amostra

Um relâmpago ribomba no ar
Solenemente solta seu raio
Uma flor breve abana, entristece
Um homem é boneco de palha no mês de Maio

Uma cama amarrotada pela passagem do amor
Lençóis que aprisionam o calor
Suspiros espalhados pelo chão
Uma imagem santificada sustenta o louvor

Uma pecadora ungida pela chuva
A sorte e a morte em bravata eterna
As ave marias que uma boca vomita
Para no céu ser, clemente a sua pena

Já não há xailes negros na ilha
Já ninguém liga a agoiros
O mar continua açoitar a costa
Deixando despojos, tesouros

Encontrei um búzio e senti o ouvir
Tudo é deixado no reino do esquecimento
O sentimento é sal, sangue do mar
Hás vezes…Amor, Luxúria e Fingimento…

domingo, 13 de novembro de 2011

O VOO DE UM OLHAR


Os olhos que choram
Não sabem mentir
As mãos que me tocam
Levam à alma o sentir


O abraço sincero
Aplaina meu corpo frio
Veste-me de sol ardente
Solta meu sonho em azul rio

Os sonhos perdidos
As juras e promessas que fazia
Guardei-as num cofre
Lancei à maresia

O vento adormeceu
Ávida terra de assombro
Trigo de ouro, pão
Olhar de fome em amor sobre o ombro

Os tempos plantados
Na parte de trás do horizonte
Uma bailarina feita de nevoeiro
Rodopia no alto de um monte

Um olhar…
O chegar, o partir sem ir
O ficar, uma ilusão perdida no mar
Um homem no chão, o cair…

…O cair
A luta da luz com a escuridão
Passou-me tanta vida num minuto
Perdi-me de mim, ou da salvação?

O não querer, a descrença
Como se os pensamentos fossem acções
Como se um olhar fosse o mensageiro do amar
Como se não indo adivinho o chegar

Como se o ódio fosse nevoeiro desvanecido
Como se as palavras mordessem o falar
Como se milhafre fosse sentinela no azul
Arrancando de mim…O Voo de Um Olhar…


Para uma pessoa muito muito especial

O VOO DE UM OLHAR


Os olhos que choram
Não sabem mentir
As mãos que me tocam
Levam à alma o sentir

O abraço sincero
Aplaina meu corpo frio
Veste-me de sol ardente
Solta meu sonho em azul rio

Os sonhos perdidos
As juras e promessas que fazia
Guardei-as num cofre
Lancei à maresia

O vento adormeceu
Ávida terra de assombro
Trigo de ouro, pão
Olhar de fome em amor sobre o ombro

Os tempos plantados
Na parte de trás do horizonte
Uma bailarina feita de nevoeiro
Rodopia no alto de um monte

Um olhar…
O chegar, o partir sem ir
O ficar, uma ilusão perdida no mar
Um homem no chão, o cair…

…O cair
A luta da luz com a escuridão
Passou-me tanta vida num minuto
Perdi-me de mim, ou da salvação?

O não querer, a descrença
Como se os pensamentos fossem acções
Como se um olhar fosse o mensageiro do amar
Como se não indo adivinho o chegar

Como se o ódio fosse nevoeiro desvanecido
Como se as palavras mordessem o falar
Como se milhafre fosse sentinela no azul
Arrancando de mim…O Voo de Um Olhar…

Para uma pessoa muito muito importante na minha vida

sábado, 29 de outubro de 2011

AS COSTAS DE UM CORAÇÃO


Solenemente uma árvore cede ao vento
O limite de um sonho é a palavra não
Os deuses habitam num castelo de nuvens
A mentira desbota a cor da paixão

As palavras que uma boca proferiu
As chuvas que caem na noite fria
As pedras que não erguem uma casa
A maldade impressa em alma que se esconde no dia

Uma figueira
Árvore que não dá flor
Chão estéril com pegadas nuas
Ò deusa do desamor

Ò veneno bebido de um trago
Absinto de gosto amargo
Braços que pedem a ternura pura
Barco que navega na ilha ao largo

E um passarinho canta alegremente
Uma donzela olha um amante docemente
Um corpo estremece de luxúria
Um anjo não é homem nem mulher certamente

Uma lagoa não é oceano
O céu nunca será limite meu
Já fui crente de muita palavra
Agora oiço-as com coração de ateu

Agora fiquei preso na palavra
Agora lembrei uma esquecida formosura
A distância percorrida por um anseio
Às vezes tem mil passos de amargura

Às vezes dou por mim a pensar
Porque há gente que vive o amor em contradição
Tudo isso me ocorreu agora num instante
Nunca saberei pintar…As Costas de Um Coração…

domingo, 23 de outubro de 2011

MANHÃS DE INQUIETO MAREAR


Senti nos pés o pulsar da ilha
Um farol avisa o longe do perto
A lava encoberta na costa dormente
Sete rumos e apenas um certo

Neste Mar senti a vontade de prantear
A nudez da noite no encontro do silêncio total
Encobriu meu pranto das estrelas
Uma zombeteira Lua marcou no dia o encontro final

Finalmente vi a vil desventura
O rosto cínico com máscara de formosura
As pessoas soltam tanta palavra vazia
Triste é a viagem de alguns de corpo e alma em secura

Atirei todos os pensamentos às ondas
Devolvi um búzio recolhido à maré vazia
Encontrei uma garrafa sem mensagem
Mas que tinha dentro um sorriso de alegria

Soltei às mãos uma corda cheia de nós
Desamarrei dois sonhos de incerteza
Apanhei das pedras uma flor impossível
Tinha um vestido branco de rara beleza

Uma noiva do Inverno
No vale dos Milhafres reina a ventania
Uma chuva agreste lava a terra fecunda
Uma criptoméria ostenta um ar de fidalguia

Sonhei que era carregado nas asas de borboleta
Por entre gotas de fino orvalho azul cristal
Todas as manhãs vêm coroadas com a esperança
Há mãos que deixam escorrer a dor total

Há almas que se esvaziam em ligeireza
Há uma boca que pede pão, um corpo o aconchegar
Passou-me todo este filme pelos meus fechados olhos
Numa…Manhã de Inquieto Marear…

domingo, 16 de outubro de 2011

A LÂMINA E O CÁLICE


O tempo corre em sua em sua invisível viagem
Um Santo nunca dorme no altar
Um barco sobe e desce cada onda do Mar
Um cais de partida também acolhe o chegar

São tantos os mistérios que encontrei na vida
Cruzei com gente desconhecida que conhecia bem
Falei e falo com gente que partiu desta vida
Sinto tanto aroma perdido que este tempo guarda e tem

Cruzei mares com baleias, tempestades e sereias
Furacões, monstros e adamastores
Fiz peças de imensa mágoa e nostalgia
Fiz o amor ser feliz num tear de desamores

Pintei e pinto coisas que me tocam fundo
O pincel nem sempre obedece ao meu querer
Quantas cores terei que juntar à ternura
Para ao fundo da tua alma poder descer?

Almas…
Um corpo que se liberta em cada noite escura
Mãos que tocam e transformam a pedra em ouro
Alquimista sem manto, aspergir o destino com água pura

Não procuro o Graal…
Sei que “Ele” está algures numa gruta desta ilha
Já lá estive e “O” contemplei
Às vezes volto lá para alimentar a alma com a maravilha

Pois é, tão simples são às vezes certos caminhos
A fé dos homens é feita de verdade e mentira
A terra protesta e sussurra-me um rumor
Não rezo, mas, já segurei nas mãos a imagem de Nossa Senhora…

…Dos Anjos
O que senti só se encontra na palavra que do alto desce
Uma cruz derramou em minhas mãos dois pedaços de pedra
Olhei para o céu e vi…A Lâmina e o Cálice…

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A SACERDOTISA


Uma alma é campo de batalha
Onde o ódio é vilão e a paixão protagonista
Palco de gigantescas refregas
Onde vive e morre o amor a cada conquista

E uma mulher disse:
O coração parte, no número das emoções
Uma mulher não tem estações para amar
Tem apenas no lado esquerdo mil contradições

As mulheres…
Não gosto de pessoas, do escuro, da maré cheia
Da taça que me oferece às vezes a vida
Da caminhada no barro agreste em tarde feia

Não gosto do feitiço sem sentido
Na busca procuro uma coisa para além da revelação
O amor não conhece a sua verdadeira profundeza
Senão no momento da separação

O vento açoitou os ramos num mar de súplicas
Enquanto o tempo esquadrinha os horizontes
Uma solidão infinita sela o desencanto
Param no seu curso as águas de sete fontes

Sete Cidades inventadas
Sete sortilégios para afugentar o agoiro
Sete palavras de magia branca
Um cálice de sangue que desfaz o ouro

Quero fundir-me e ser um regato corrente
Conhecer a dor da excessiva ternura
Acordar de manhã com o coração solto do corpo
Beber da fonte onde o sentimento é coisa pura

Quero, querer querendo
Ser carpinteiro que a madeira afaga e alisa
Sacrifício em cerimónia num altar de basalto negro
Pelas mãos de uma…Sacerdotisa…

domingo, 9 de outubro de 2011

ENTRE A PALAVRA E O CHÃO


Estou à espera das estações
Em algum sítio adormeceram os barcos no mar
Nesta vida escolhi apenas o que amava
De uma onda a outra onda vejo, o aqui chegar

Azul mar, frio, ramo quebrado
O beijo que subiu da terra
Tocou-me a alma inebriou-me
Poisei minha espada nesta santa guerra

De todas as verdades escolhi a mais dura
A paz das minhas palavras perdeu-se na tarde escura
A felicidade é uma torre sem cor
A saudade é como a água mais pura

Ouvi uma voz carregada de violetas
Vejo o Sol transportar cachos de luz
Vejo as notas de uma melodia incompleta
Um canto novo que minha alma seduz

Serei um cantador rasgando a madrugada?
Um Arlequim perdido de Columbina
Serei folha caída numa estação adormecida
Ou apenas um buscador de irónica sina?

Não há jaula que prenda a palavra do poeta
Não há prisão para o voar de uma alma em contradição
Não há grilhetas que me segurem este corpo
Não há lonjura que quebre o percurso da paixão

Às vezes pergunto-me o que pensarão
As pessoas que lêem estas minhas metafóricas loucuras
O que dirão desta inquieta e caminhante alma
Que percorre um mapa cheio de procuras

Às vezes…
Sinto que nada sabem de mim em cada opinião
Sinto uma longa e imensa solidão nesta viagem
Perdido…Entre a Palavra e o Chão…

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

TEUS OLHOS


Fechei a porta às emoções
Arranquei as vestes e atirei ao frio
Sequei o pranto que me engoliu o olhar
Inventei mil águas e atirei a um rio

Inventei uma casa amarela e bela
Um jardim para o poiso das gaivotas do mar
O telhado era feito de pedaços de azul celeste
Uma cancela tinha tatuada a palavra amar

Habitei nela todos os dias da cor do sorriso
Acendi um fogo eterno com pedaços de carinho
Bebi de uma taça dois tragos de absinto
E julguei ver no meio do mar um singelo ninho

Um mar distante de mil azuis
Quando me assaltam dúvidas e medo procuro uma lagoa
Soltarei um chamamento no Mundo
Até que a voz me doa

Até que a madrugada se desprenda da noite
Caminharei na terra dura e fria que me surja no adiante
Contarei todas as pedras que encontrar
Serei um poeta despojado da razão, um louco viajante

Sem Norte, sem bússola, sem contradição
Sem ouvir o som das palavras, a vil opinião
Sem temer o destino das sete viagens
Sem remorsos, sem mágoas ou compaixão

Cavalgo uma tempestade imensa
Solto toda a esperança aos brandais
Este vento sempre presente
Esta força, este peito que não suspira mais

Esta alma que se solta em cada noite no astral
E toca mundos, almas, mestres, deuses, flores aos molhos
Apenas procura a pacificação da ternura
Num sorriso dos…Teus Olhos…

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A VIAGEM DA MINHA PAIXÃO


De velas paradas baloiça um barco
Amarras à ilha, preso ao nevoeiro
Nunca serei D.Genádio o arcebispo
Não sou descobridor, na chegada, primeiro

Afrontei os deuses do Olimpo
Conspirei com Athena, Hera e Apolo para destronar Zeus
Mas ele era rei dos deuses
E acabei enredado em sonhos meus

Sonhei com um rodopio macabro
Ouvi um silvo de ave rapina demolidor
Fui animal de uma criatura bela
Dei a alma e corpo ao desamor

Ouvi o som da maresia
Mesmo ao cair da noite
Um canto chamou por mim
Num rumo de boa ou má sorte

Mil archotes rasgaram o negrume da noite
Senti o som do mar bater no casco do meu barco
Cedi ao encanto do canto de uma sereia
E acabei trespassado pela seta de um arco

E sonhei que era trovador e cantei
Porque entras na minha alma e soltas este fervor
O que tens para me dizer
Diz ao sonho por favor

…E parti para o alto mar numa manhã submersa de neblinas
Ficaste tu na ilha nesta manhã de luz fria
Na lonjura vi um desenho de cruel ironia
E um deus do mar que de mim ria

A noite terminou abruptamente no dia
Passei a mão nos olhos para soltar os sonhos de contradição
No meio deste oceano profundo e imenso
Em sonhos viajei…Na Viagem da Minha Paixão…

terça-feira, 27 de setembro de 2011

COM O LUAR NOS OLHOS


Os barcos levam nome de santos
Uma flor tristonha lembrou a Primavera
O silêncio mora no meio de um monte
As mulheres ficam sempre em cais de espera

As mulheres…
No jardim onde as maçãs são de ouro
Conheci três mulheres de encanto
Uma negra, uma vermelha, outra branca para meu espanto

Estava a brincar!
Nunca consegui conhecer realmente uma mulher
Nunca entendi o que lhes vai na alma quando sentem
E atiram isso a um coração qualquer

Não! Não era de nada disso que queria falar
Hoje deu-me para falar de coisas assim
Sei apenas que às vezes me olham sem ver
Sei que nem sempre o princípio é o caminho para o fim

Que fúria tem este Mar
A ilha acordou presa a uma tempestade medonha
Não há pássaros no céu deste degredo
Já nem vejo a lua triste ou risonha

Rios correm de encontro à terra

Rasgando esta feiticeira bruma
Não há trégua nos vales da ilha
As vagas vieram coroadas de negra espuma

Não há ninho que sustente o canto de pássaro
Não há santo que nos valha na oração
Não há contas para provar tanta fé
Já não há calor neste pobre coração

E quero adormecer no abandono do dia
Quero sentir o aroma da lenha aos molhos
Aquecer a alma com a verdadeira esperança
E sonhar…Com o Luar nos Teus Olhos…

sábado, 24 de setembro de 2011

A TORRE DOS SONHADORES


Perdi as palavras que escrevi à momentos
Levou-as um sortilégio solto da noite escura
Sentei-me numa pedra de negro basalto
Fechei os olhos e tentei lembrar a cor da ternura

Nunca a escuridão me encontrou
Nunca tomei como certo o encontro com a verdade
Espinhos, punhal afiado, lágrimas
Uma flor morreu num campo de saudade

Atirei sementes ao Mar revolto
Zombou de mim uma Gaivota que passou
A espuma ficou negra e perdeu-se na areia
Fiquei mudo e triste, ainda estou

Entrei no Mar na procura do silêncio
Deixei-me levar por uma onda breve e fria
Vi criaturas passarem docemente
Uma parou, pareceu que ria…

…De mim
Triste e patético poeta louco
Rasguei as mãos na procura de uma estrela do Mar
Ceguei no sal e senti-me tão pouco

Sai deste mar de frio abraço
Sequei as minhas penas ao vento
Galguei os restos da fúria de um vulcão
E senti o Mundo parar por um momento

Um vertigem tomou-me a razão
Cerrei os olhos e vi tanta coisa que não via
Vi, paixão imensa, amor em contradição
Vi sem ver e ao voltar a ver um pássaro ria…

…De mim…
Das palavras que disse e ninguém ouviu com o coração
Deste sentir que jorra como a fúria de um rio
Pedi a um anjo que me desse absolvição

Corri ao encontro de uma montanha aprisionada na bruma
Pelo caminho toquei de leve em todas as flores
Subi a um castelo erguido ao celeste
E de joelhos quedei-me na…Torre Dos Sonhadores…

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A OUTRA FACE DO ESPELHO


O aparo risca a alvura do papel
Ausência da tinta esconde a palavra
Uma mão trémula pára na indecisão
Uma semente eclode no meio da lavra

O fogo e o vento unidos na desgraça
A chuva lava mágoas enraizadas no tempo
Este espelho de água reflecte uma máscara trocista
Que muda num sorriso em dado momento

Na noite tudo se perde
A esperança, o desvario
Sonhei que o choro de uma criança
Tem mais força do que a fúria de um rio

E este aparo não pára de arranhar o papel
O beijo da tinta estará ausente, a palavra não
A palavra solta, é grito da alma, choro de coração
Amarrotei mil folhas em loucura, na indecisão

A neblina beijou a ilha na madrugada
Cobriu as pedras em manto de água fria
Ainda tenho o som das andorinhas do Mar no peito
Ainda tenho nele tanta alegria

Tenho uma fé feito de mil cores
Uma paleta onde misturo as emoções
Este pincel deixa tanta marca vibrante
E um mundo imenso de contradições

Pinto rostos, o céu, a saudade
Pinto mentiras, corações sem chama e verdades
Pinto o Mundo muito à minha maneira
E um barco carregado de puras saudades

E apago o olhar para ver melhor
Para sentir o dizer de um amarrotado papel velho
O que vejo está muito para lá de sentir
Nesta…Outra face do Espelho…

domingo, 11 de setembro de 2011

ORAR, CAMINHAR, AMAR


A transparência das águas inunda-me o olhar
Os Anjos já não moram nas nuvens altaneiras
Conheci Deus no meio de uma oração
Vi gente sem alma, sem coração, sem maneiras

Conheci uma gaivota azul
Falou-me de mares distantes do Adamastor
Disse-me que o ódio é pequenez da alma
Que há gente despida de amor

Caminhei num tapete de buganvílias caídas
Apanhei uma folha de papel numa toada de vento
Tinha escrito a negra tinta uma traição
Gerada do coração de um monstro sempre atento

Quantas pedras compõem um abrigo?
A talha de um altar é feita sem defeito
A luz da Lua é feitiço incontrolável
O sortilégio sempre morou em meu peito…

…E esta força sem limite
Velas, brandais, leme com rumo a Norte
A estupidez é planta sem flor
Não há tormenta que não acabe em sorte

Nesta terra linda e verde
As pedras guardam mil e um segredos
Um arpão rasga o ar na procura do mal
Um traidor veste um fato de mil medos

As águas lavarão a lama do caminho
O vento alisará as pegadas na areia do Mar
O tempo ficará suspenso por um momento
Para eu…Orar, Caminhar, Amar…