quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

VISIONÁRIO


Sou um descrente de gente
Um ser apressado na rota da vida
Alguém que não sabe exprimir alguns sentires
Que no peito arrocha esta dor sentida

Segui o balanço deste barco de papel
Segui uma gaivota a caminho do norte
Segui uma vaga que me salpicou com espuma
E desisti deste seguir numa toada de vento forte

Fechei os olhos para ver os contornos de uma lembrança
Lembrei os aromas de uma manhã em branca areia
Senti as cores de uma acácia rubra
Senti no corpo as águas de uma maré cheia

Mergulhei num Mar de lusas lembranças
Encontrei um cavalo marinho de chapéu de coco
Fez-me uma vénia de escárnio
Esqueci o respirar no encontro de uma baleia boto

E a loucura, minha fiel companheira
Empurrou-me mais fundo para o vale do absurdo
Veio ao meu encontro um anjo-do-mar
Tocou-me a razão e fiquei mudo

Também já não lidava nada bem com a palavra
Os sons ferem-me a alma ao seu toque
Deixei que me descobrissem de todos os pesares
E uma raia acordou-me desta coisa tonta com um forte choque

Com toda esta confusa demanda nem sei onde fui parar
Que importa o sítio quando não se quer chegar
Que importa abrir a alma a um descrente
Que não constrói um mantra por não saber rezar

Que importa deixar de fazer da palavra uma construção
Uma corrente que se desprende da palma de uma mão
Se as grilhetas não tocam numa alma livre
Se a verdade é mentira e a dúvida a máscara da razão

Às vezes dá-me para isso
Escrevo sem tino nas águas de estuário
Espero que ninguém me ligue ou dê importância
Sou apenas um pobre louco…Visionário…

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

TABU


Soltam-se os trincos da memória
Apagou-se um sorriso na minha lembrança
O dia perdeu-se na noite em assombração
As ondas no mar pararam sua dança

Às vezes o meu olhar enche-se de certezas
No meu peito pára este apressado querer
As mãos mergulho em água fria
Esta sede está morta sem saber

Morrem as mágoas na areia
Uma mortalha de espuma cobre um último pesar
Uma boca foi cosida a ferro rubro
Para não mais soltar a palavra amar

Corri num manto verde numa procura
Tropecei num Duende medroso mais morto que vivo
Desventrei a terra na procura de um peixe azul
E encontrei com quatro folhas um rubro trevo

Estou sempre a encontrar coisas estranhas
Uma vez encontrei um anjo alucinado
Uma mulher que disse ser dona da paranóia
E até uma fogueira de fogo acabado

Encontrei as cores todas que o olhar permitiu
Um ser que mostrou os dentes e nunca riu
Um monstro de sete cabeças irado
E um barco afundado que nunca partiu

Encontrei aquilo que achava ser o amor numa aurora
Fiz amor com amor como se fosse demanda
Fiz uma peça em que no fim ninguém ficava
Encontrei uma criança feia que achei linda

Tive um encontro com um Deus colérico
Que me falou no cínico ser que eras tu
Fechei a porta do vale dos lamentos
E fiz deste poema um… Tabu…

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A DESCRENÇA DE UM DEUS


Nem sempre vemos passar a virtude
Nem sempre a estupidez tem rosto
Nem sempre a saudade dura para sempre
Nem sempre a paixão acaba em desgosto

Cumprimentei hoje um assobiador
Ouvi uma voz cantar a minha música
Abri a alma à emoção contida ao lembrar
Que a escrevi numa tarde de calmaria

Passei por uma criatura de mãe estendida
Há bocas que pedem pão em oração
Há gente que vira as costas de forma tonta
Há gente que tem uma falsa emoção

Há crentes e descrentes
Palhaços, fantoches e foguetes para arraial
Caminho para caminhadas e erva para fumar
Um sentimento de pena que nada leva a mal

Barracas, bandas e outras tangas
Vigaristas disfarçados de gente séria
Professores disfarçados de professores
Uma riqueza que foge à miséria

E há os meninos de coro
Os bestiais que detestam as bestas
Olhos que choram sal sem cor
Peitos vazios de puro amor

Encontrei três anjos no caminho de casa
Um triste, um alegre e outro adormecido
Colhi de uma árvore morta
O sentimento não querer estar contigo

Agarrei na pena e amarrotado papel
E lavrei estes desabafos meus
Descri hoje mais uma vez das cores do Mundo
E vi no rosto de um pedinte…A descrença de um Deus…

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

PINTOR


Pintor nascido na ilha
Pintas Anjos negros e céus de rubra cor
Os olhos que choram não mentem
Um coração sincero transborda a dor

Hoje o céu menstruou ao findar do dia
O sul sossegou em calmaria
Há tanto que não te ouvia
Neste chegar adormeci e sonhei que partia

Um cavalete na espera de alva tela
Uma paleta com as cores do rubor
Um corpo nu, presente de uma deusa
Que faz do sortilégio um momento de amor

Negros intensos, terras aprisionadas num tubo
Olhos que reflectem um dom
Já me disseram que tinha um, talvez mais um
Não sei se é mau ter algo assim, ou bom

Tenho na alma um cofre de palavras
Tenho uma palavra que nunca direi a ninguém
Tenho uma janela entre dois mundos
Tenho um sonho em que nunca vejo o rosto de alguém

Conheço a assobiadora força do vento
Um caminho secreto onde não há marca de passos
O ribombar da vaga na pedra submissa
Um mágico que transforma um sorriso em dois palhaços

Conheço amargura, tem a cor da terra pura
A tristeza com pinceladas de incerteza
Um arco-íris feito de sol e chuva de uma perdida nuvem
Uma tela só com desenho ao calha, mal talhado em beleza

Rasguei esta tela onde pintei sete vidas
Sete corações a latejar em manto de cetim azul
Sete orações que aprendi numa igreja de negra pedra
Sete casas, uma delas, virada a sul

E derramei todas as cores no Mar
A espuma prendeu apenas uma cor
As outras foram engolidas pelo azul
Amordaçou as mãos e o querer, este…Pintor…

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A ETERNIDADE E MAIS UM DIA


Chove de mansinho no barro
Frios são os pensamentos neste fim de dia
A ilha escureceu em sobressalto
A bruma envolveu tudo num manto de nostalgia

Os acordes de uma guitarra afagaram meu peito
Um pássaro esqueceu-se de voltar ao ninho
Uma Mãe olha embevecida um catraio
Que acolhe em sua boca um seio que transborda carinho

É uma incontida força o amar
Amor é palavra usada sem preconceito
Umas vezes usada apenas pelo desejo
Às vezes nem eu a sei usar de jeito

Eu não uso a palavra amar
Não sei amar de palavra vestido
Sei apenas que quando amo
Solto o imenso, o todo

Sei lá o que sei!
Parece-me saber muito sem saber porquê
Sei mundo, céus e pequenos infernos
Sei sabendo de olhos cerrados o que a alma vê

As pedras são mesmo pedras
Quando alguém as atira para magoar
As flores são sempre belas
Quando dão cor ao verbo amar

Vou esperar por uma onda que sei
Vir do norte em busca da pedra que sou
Vou esperar pelas buganvílias rubras
Vou sentir o sal da maresia no sítio onde estou…

Numa restinga de negro basalto
Onde as gaivotas fazem ninho
Onde as tempestades adormecem
Onde já vi dois amantes envoltos em carinho

Vou ajudar uma alma aprender a sentir
Uma paixão ganhar cor sem ter companhia
Vou ensinar uma criança pobre a sorrir
E transformar…A Eternidade em mais um dia…

domingo, 15 de janeiro de 2012

SOM DO CORAÇÃO


Não sou um pintor
Apenas um salteador das cores perdidas
Não sou um artista como dizem
Apenas alguém que dá forma às dores sentidas

Imagino um mundo onde existam mil cores
Um céu que as derrama aos olhos
Um mar onde os peixes se pintem a seu bel-prazer
Um campo com papoilas negras aos molhos

De negro se pintam às vezes certas almas
A ausência da cor é o abandono ao amor
A noite aprisiona-as em seu manto
Na noite os passos não deixam rasto nem dor

E estes sons que me entram à alma
Estes chilreados estridentes na manhã
Esta melodia breve e triste
Esta letra sem voz, palavra vã

Esta rubra lava que transborda meu sonhar
Este verde que conheço de tantos tons
Esta canção perdida no cofre da lembrança
Este nevoeiro da lagoa de sete tons

Nunca serei um tocador
Nunca sentirei a vibração das cordas ao ouvido
Nunca desisti de tocar a vida à minha maneira
Nesta minha pauta de letras que duvido

Talvez um cantador, rasgando madrugadas
Talvez uma pálida estrela na procura de perdida cor
Talvez o fruto amargo de uma árvore sem flor
Talvez os sons de uma balada de desamor

Talvez…
Eu que sou alguém de sim ou não
Eu que me esqueço às vezes de sentir
Esta minha musica…O Som do Coração…

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

MARÉ DE FOGO


Cheguei ao lugar onde se cruzam as palavras
À casa dos desejos que ninguém acreditou
Sentei-me numa cadeira inventada
Aprisionei meu pensamento e aqui estou

Aqui estou no limiar do credo nas pessoas
Na condição de justo vestido de injusto
No rosto uma máscara inventada por alguém
Arrochando ao peito a razão a muito custo

A poesia às vezes sabe-me a porcaria
As palavras a uma estúpida melodia
As convicções a um negro céu em ironia
E tu a uma farsa que me pareceu magia

Quando digo tu, falo de mim, para mim
Nada de confusões nesta indigestão poética
Hoje a musica sabe a desafinanço enlouquecido
Gerado numa alma patética

Pois é, palhaço ou profeta
Escolha lá se faz favor meu senhor
Umas vezes sou o génio cá da rua
Outras um perfeito estupor

Um anátema preso num baú
Um actor mudo que chora de si
Uma comédia de enganos menor
Um ir, voltar, o longe, o aqui

Conheço todos os verdes da ilha
O lado escuro da maravilha
Uma saudade que se perdeu com a idade
Uma aurora que morreu de velha

Conheço também uma história engraçada
De um homem que durante toda a vida não disse nada
Quando morreu não soube onde era o céu
Ficou na ilha como alma penada

De penas pois se vestem certas almas
Uma verdadeiras, outras um logro
Dormitei para aí cerca de um minuto
E acordei nesta…Maré de Fogo…

domingo, 8 de janeiro de 2012

O NOME DA ROSA


O relógio marca o tempo que passou
Suas engrenagens são rodas de magia
Um alquimista tenta enganar o tempo
Um profeta arrocha no peito a nostalgia

Sonhei com uma criança de mão estendida
Vi em seus olhos mais falta de amor do que de pão
No acordar procurei desvendar esse sonho
Não consegui, talvez algo guardado no coração…

…Este coração
Esta força que há em mim guardada em meu peito
Esta chama incandescente
Este desajeitado ser imperfeito

Este homem que olha o amor envolto em bondade
Este fazedor de tempestades de saudade
Este caminhante sem cavalo ou espada
Esta espera pintada de serenidade

Esta maçã presa na garganta
A procura do pecado pela absolvição
Este mar negro sem fundo de esperança
Esta maré que renova a paixão

A maresia continua bonita na tempestade
Sinto que um dia voarei feito vento
Ainda sinto na mão a frieza dos brandais
Ainda sinto que no tempo farei tanto mais

Farei das palavras um universo de vida
Farei tocar todos os sinos da terra
Cavalgarei estrelas e aportarei planetas
Serei paladino em santa guerra

Vou mudar o curso do relógio
Retroceder até uma pequena e humilde casa
Ouvir uma meiga voz dizer, meu armando, meu amor
E lembrar por fim…Do Nome da Rosa

domingo, 1 de janeiro de 2012

A TORRE DOS DESEJOS


O Mar não parou no troar dos foguetes
O céu ficou mais pobre com a subida da falsa luz
Um anjo acordou de um sonho divino
Na terra um olhar falso encena o seduz

Nunca acaba o amor impossível
Dura uma eternidade
Reverbera em todas as constelações
E viaja num barco com asas de nome saudade

Nunca acaba a chegada de uma nova onda
O vento volta sempre a este lugar
Uma vela bruxuleia iluminando o caminho da fé
Um coração soletra baixinho o verbo amar

Quando cai uma estrela a Lua esmorece
O morrer de um dia é prenúncio de nova aurora
O atravessar de um caminho fugindo à ternura
É um ficar na página de um livro de mágica história

Não há magia na crueldade de umas mãos
Nunca encontrei verdades num caminho de soltas pedras
Nunca naveguei no estuário de uma lagoa
Nunca esculpi a palavra nestas areias negras

Sou um insano sonhador de profecias patetas
Paladino do amor, força e fraqueza anel ante
Mensageiro que guarda a mensagem ao descrédito
Homem, arcanjo ou necromante

Sei lá!
Eu que tudo sei e invento o não saber
Eu que solto todos os dias a alma ao colo da brisa
Eu que percorro o “Cosmos” sem ter de correr

Eu que partilhei o sopro da vida com algumas almas
Recebi na viagem, verdadeiros e falsos beijos
Ergui com palavras de suprema melodia uma construção
E aprisionei a alma…Na Torre dos Desejos…

domingo, 25 de dezembro de 2011

MAR MANSO


A simplicidade da chuva
Uma folha de papel que rejeita a letra
Uma mão que teme o afago
Uma palavra solta que em minha alma entra

Tão calmamente corre esta viagem
A terra anda devido ao amor
O que é isso de amar com amor?
O que é isso de o perder sem dor?

O que é isso de acreditar
Às vezes Deus carrega ao colo um justo
Às vezes uma reza acende o Sol a meio da noite
Às vezes duvido acreditando a custo

Abracei o mundo este natal
Lembrei passados desvanecidos
Senti aromas que pensei perdidos
Senti que a vida me infligiu mil castigos

Senti que a solidão era a porta para a razão
Que era uma criatura sem grande importância
Senti que ainda não tinha traçado todos os rumos
Que não há longe perto da distância

Tenho no celeste uma estrela como minha
No contar das vagas formulo sempre um desejo
Acredito em tanta coisa estranha para outros
Sabem lá o que sinto toco e vejo

E falo sem que queira a palavra como resposta
E voo nas maravilhas que minha alma cria
E vivo na magia que me foi oferecida
Choro quanto pinto com as cores da alegria

Que Mundo este onde me colocaste Deus
Que vertigem esta procura apaixonante e sem descanso
Sei que as estrelas são teus luzeiros e olhos
E a minha estrada este…Mar Manso…

domingo, 18 de dezembro de 2011

O ELIXIR DO AMOR


A lembrança cruzou meu pensamento
A dor tomou-me de assalto
Lembrei-me caído no frio chão
A olhar um chamamento do alto

Lembrei o turbilhão de vida que me passou
Alma que de leve se separava do corpo
Vida que confirmava mil sentidos
Derramada do fundo de um copo

Lembrei…
Este poeta sempre em combate com a lembrança
Este homem desprendido do preconceito
Esta puta vida entre o mar revolto e a bonança

Esta ânsia contida em peito de basalto
Atravessei o mundo nas asas do impensável
Fui apelidado te tanta coisa feia e triste
Por vezes de ser notável

Mas fui sempre eu…!
Viajeiro temeroso fingindo valente
Enfrentando na noite a borrasca
Na aurora sorrindo contente…

…Com as suas belas cores
Sou um apaixonado por elas
Carrego no tempo tantas impressões
Algumas…São mesmo belas

Amei, amo a beleza
Tropecei muita vez na incerteza
Transformei miséria em realeza
Ri de contente e de tristeza

Ri para os olhos que me deram amor
Ri para o mar onde pesquei ilusões
Ri em cada partida e chegada
Que fiz numa vida de contradições

Procurei o segredo da verdade feliz
Percorri o caminho do vento cheio de ardor
Uma gaivota entregou-me uma concha cheia de mar
Era…O Elixir do Amor…

domingo, 11 de dezembro de 2011

ENTRE O CORAÇÃO E A VIDA


Esta Lua seguiu-me os passos
É triste ter asas sem poder voar
É fria a cor do vestido da noite
É de pedra esta jangada do meu prantear

Terra molhada de assombro
Olhos famintos de pão e sorriso
Boca que desfaz a palavra feliz
Mulher que abre o corpo ao esposo

Mulher fecunda, pão por cozer
Hesitante entre a entrega e a raiva surda
Fogo eterno que a água ateou
O suspiro da terra vibrando nos seios de uma muda

A fúria da paixão…
Vento fugindo à calmaria
Mordi uma azeda maçã
Nesta peça era o actor que nunca morria

Morri mil vezes em outras tantas
Usei sempre o mesmo traje, da mesma cor
Chorei os dramas, que não eram para chorar
Fui um deserdado do desamor

Fui Arlequim sem Columbina
Fui peça infeliz de carnaval a duas cores
Dancei com princesas inventadas
Inventei na vida falsos amores

Inventei uma ilha feita de nuvens
Um relógio que fazia o tempo andar para trás
Inventei a verdade mesmo a sério
Sei sonhar inventando sem saber como se faz

Fiz…
Das cores os sonhos mais belos
Das palavras a esperança sempre à minha espera
E dei vida a uma perdida quimera

Cobri com um abraço a descrença
Olhei de frente a desconfiança
Recolhi lágrimas de água pura e fiz um Mar
A que dei o nome de azul esperança

E fiz um cais
Apenas de chegada e proibi a partida
Sentei-me nas pedras que uni
E Juntei o…Coração e a Vida…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

HÁ PALAVRAS QUE SÃO COMO FAZER AMOR


Um brinquedo perdido num baú
Uma cortesã cheia de vontade de servir
Um desejo mesquinho acende o perverso
Uma mulher vestida de verdade acabou de mentir

A chuva que escorre para o alto
Uma ribeira perdeu o cantar da água
A saudade já não mora no cais
A janela do sonho tem um cortinado de mágoa

Uma besta diz que é bestial
Uma criança chora de medo
Absolvição foge da alma do justo
Um coração derrama no chão um segredo

De amor…
Envolto num manto denso de bruma
O sangue de um golfinho foi sacrifício
Que um deus derramou na espuma

Do mar…
Onde lancei uma pedra desencontrada de outra
As pedras também sentem amor
Não infligem apenas dor

Sou uma pedra…
Lava mal talhada pela tosca ternura
Escultura que o sentimento ergue
Sem pingo de beleza ou formosura

E tu quem és?
Cultivadora em canteiro de ódios profundos
Rainha sem reino que trai o rei
Ave perdida entre dois mundos

Ah este poeta das confusas palavras
Cantador de todas as canções de tristeza
Trovador vestido de arlequim trapeiro
Fazendo vénias a uma imaginada realeza

Que diz palavra sobre palavra
Às vezes fica mudo com um olhar de dor
Dos seus lábios escorrem sons sem sentido
Porque…Às Vezes Há Palavras Que São Como Fazer Amor…

HÁ PALAVRAS QUE SÃO COMO FAZER AMOR


Um brinquedo perdido num baú
Uma cortesã cheia de vontade de servir
Um desejo mesquinho acende o perverso
Uma mulher vestida de verdade acabou de mentir

A chuva que escorre para o alto
Uma ribeira perdeu o cantar da água
A saudade já não mora no cais
A janela do sonho tem um cortinado de mágoa

Uma besta diz que é bestial
Uma criança chora de medo
Absolvição foge da alma do justo
Um coração derrama no chão um segredo

De amor…
Envolto num manto denso de bruma
O sangue de um golfinho foi sacrifício
Que um deus derramou na espuma

Do mar…
Onde lancei uma pedra desencontrada de outra
As pedras também sentem amor
Não infligem apenas dor

Sou uma pedra…
Lava mal talhada pela tosca ternura
Escultura que o sentimento ergue
Sem pingo de beleza ou formosura

E tu quem és?
Cultivadora de canteiro de ódios profundos
Rainha sem reino que trai o rei
Ave que perdida entre dois mundos

Ah este poeta das confusas palavras
Cantador de todas as canções de tristeza
Trovador vestido de arlequim trapeiro
Fazendo vénias a uma imaginada realeza

Que diz palavra sobre palavra
Às vezes fica mudo com um olhar de dor
Dos seus lábios escorrem sons sem sentido
Porque…Às Vezes Há Palavras Que São Como Fazer Amor…

sábado, 26 de novembro de 2011

PIANO


Apetece-me escrever uma carta ao Mar
De repente senti que Deus se distraia
De repente a terra parou de rodar
De repente o Mundo parou no meio-dia

Nesta ilha caminhei num chão movediço
Fui embalado pelo grito constante de um sismo
Nesta terra viajada descansei o sonhar
Fiz tréguas à ternura, aprisionei o amar

Habituei-me às orações
Aos santos aprisionados ao altar
As velas que ardem ao fim do dia
São milagre e pecado, o encontro do me encontrar

Um dia alguém disse ser eu um milagre
Um dia descobri que via para lá dos olhos
Um dia toquei um fruto podre caído
Nasceram de imediato mil flores aos molhos

Fiz nascer lembranças envoltas em bonanças
Cortei os espinhos a uma roseira infeliz
Reguei com sal um canteiro de tontas mágoas
Gritei alto um chamamento que a alma quis

Limpei as rezas atiradas ao chão de uma Igreja
Vi uma bordadeira fazer nascer uma pomba branca
Vi uma alma perder-se na noite escura
Li um poema já lido de Florbela Espanca

Li na água os caminhos para um lago enfeitiçado
Merendei miolos de pão amassado em agonia
Segui ao alto o salto de uma criptoméria
Larguei a espada e o pincel ao fim do dia

Continuei pintando memórias de cor
Rasguei tudo o tinha emoção e dor
Adormeci já tarde no tempo
Sonhei que tinha sido abolido o amor

Voei neste sonhar num mar de pranto
Em espanto tracei uma batalha, um plano
Montei um cavalo feito de vento
Acordei entre duas notas de um…Piano…

domingo, 20 de novembro de 2011

AMOR LUXÚRIA E FINGIMENTO


Um pano de alva cor
Que a bordadeira pontilha a crivo
Linho que um tear uniu fio a fio
Em desenho de um azul vivo

O cantarolar da chuva
Marca o ritmo do pensamento
Um vento que varre os presentes de Outono
Um Sol que aquece o Inverno por um momento

Um vaidoso que se despoja da roupa
Fauno que se mira e gosta
-Vejam suas putas o que perdem!?
Sou inteiro, isto é só uma amostra

Um relâmpago ribomba no ar
Solenemente solta seu raio
Uma flor breve abana, entristece
Um homem é boneco de palha no mês de Maio

Uma cama amarrotada pela passagem do amor
Lençóis que aprisionam o calor
Suspiros espalhados pelo chão
Uma imagem santificada sustenta o louvor

Uma pecadora ungida pela chuva
A sorte e a morte em bravata eterna
As ave marias que uma boca vomita
Para no céu ser, clemente a sua pena

Já não há xailes negros na ilha
Já ninguém liga a agoiros
O mar continua açoitar a costa
Deixando despojos, tesouros

Encontrei um búzio e senti o ouvir
Tudo é deixado no reino do esquecimento
O sentimento é sal, sangue do mar
Hás vezes…Amor, Luxúria e Fingimento…

domingo, 13 de novembro de 2011

O VOO DE UM OLHAR


Os olhos que choram
Não sabem mentir
As mãos que me tocam
Levam à alma o sentir


O abraço sincero
Aplaina meu corpo frio
Veste-me de sol ardente
Solta meu sonho em azul rio

Os sonhos perdidos
As juras e promessas que fazia
Guardei-as num cofre
Lancei à maresia

O vento adormeceu
Ávida terra de assombro
Trigo de ouro, pão
Olhar de fome em amor sobre o ombro

Os tempos plantados
Na parte de trás do horizonte
Uma bailarina feita de nevoeiro
Rodopia no alto de um monte

Um olhar…
O chegar, o partir sem ir
O ficar, uma ilusão perdida no mar
Um homem no chão, o cair…

…O cair
A luta da luz com a escuridão
Passou-me tanta vida num minuto
Perdi-me de mim, ou da salvação?

O não querer, a descrença
Como se os pensamentos fossem acções
Como se um olhar fosse o mensageiro do amar
Como se não indo adivinho o chegar

Como se o ódio fosse nevoeiro desvanecido
Como se as palavras mordessem o falar
Como se milhafre fosse sentinela no azul
Arrancando de mim…O Voo de Um Olhar…


Para uma pessoa muito muito especial

O VOO DE UM OLHAR


Os olhos que choram
Não sabem mentir
As mãos que me tocam
Levam à alma o sentir

O abraço sincero
Aplaina meu corpo frio
Veste-me de sol ardente
Solta meu sonho em azul rio

Os sonhos perdidos
As juras e promessas que fazia
Guardei-as num cofre
Lancei à maresia

O vento adormeceu
Ávida terra de assombro
Trigo de ouro, pão
Olhar de fome em amor sobre o ombro

Os tempos plantados
Na parte de trás do horizonte
Uma bailarina feita de nevoeiro
Rodopia no alto de um monte

Um olhar…
O chegar, o partir sem ir
O ficar, uma ilusão perdida no mar
Um homem no chão, o cair…

…O cair
A luta da luz com a escuridão
Passou-me tanta vida num minuto
Perdi-me de mim, ou da salvação?

O não querer, a descrença
Como se os pensamentos fossem acções
Como se um olhar fosse o mensageiro do amar
Como se não indo adivinho o chegar

Como se o ódio fosse nevoeiro desvanecido
Como se as palavras mordessem o falar
Como se milhafre fosse sentinela no azul
Arrancando de mim…O Voo de Um Olhar…

Para uma pessoa muito muito importante na minha vida

sábado, 29 de outubro de 2011

AS COSTAS DE UM CORAÇÃO


Solenemente uma árvore cede ao vento
O limite de um sonho é a palavra não
Os deuses habitam num castelo de nuvens
A mentira desbota a cor da paixão

As palavras que uma boca proferiu
As chuvas que caem na noite fria
As pedras que não erguem uma casa
A maldade impressa em alma que se esconde no dia

Uma figueira
Árvore que não dá flor
Chão estéril com pegadas nuas
Ò deusa do desamor

Ò veneno bebido de um trago
Absinto de gosto amargo
Braços que pedem a ternura pura
Barco que navega na ilha ao largo

E um passarinho canta alegremente
Uma donzela olha um amante docemente
Um corpo estremece de luxúria
Um anjo não é homem nem mulher certamente

Uma lagoa não é oceano
O céu nunca será limite meu
Já fui crente de muita palavra
Agora oiço-as com coração de ateu

Agora fiquei preso na palavra
Agora lembrei uma esquecida formosura
A distância percorrida por um anseio
Às vezes tem mil passos de amargura

Às vezes dou por mim a pensar
Porque há gente que vive o amor em contradição
Tudo isso me ocorreu agora num instante
Nunca saberei pintar…As Costas de Um Coração…

domingo, 23 de outubro de 2011

MANHÃS DE INQUIETO MAREAR


Senti nos pés o pulsar da ilha
Um farol avisa o longe do perto
A lava encoberta na costa dormente
Sete rumos e apenas um certo

Neste Mar senti a vontade de prantear
A nudez da noite no encontro do silêncio total
Encobriu meu pranto das estrelas
Uma zombeteira Lua marcou no dia o encontro final

Finalmente vi a vil desventura
O rosto cínico com máscara de formosura
As pessoas soltam tanta palavra vazia
Triste é a viagem de alguns de corpo e alma em secura

Atirei todos os pensamentos às ondas
Devolvi um búzio recolhido à maré vazia
Encontrei uma garrafa sem mensagem
Mas que tinha dentro um sorriso de alegria

Soltei às mãos uma corda cheia de nós
Desamarrei dois sonhos de incerteza
Apanhei das pedras uma flor impossível
Tinha um vestido branco de rara beleza

Uma noiva do Inverno
No vale dos Milhafres reina a ventania
Uma chuva agreste lava a terra fecunda
Uma criptoméria ostenta um ar de fidalguia

Sonhei que era carregado nas asas de borboleta
Por entre gotas de fino orvalho azul cristal
Todas as manhãs vêm coroadas com a esperança
Há mãos que deixam escorrer a dor total

Há almas que se esvaziam em ligeireza
Há uma boca que pede pão, um corpo o aconchegar
Passou-me todo este filme pelos meus fechados olhos
Numa…Manhã de Inquieto Marear…