quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

ENTRE DUAS MARGENS


A música percorre este corredor de silêncio
O mar mesmo ali ao lado parece adormecido
Assaltou-me um sorriso ao pensamento
Uma nota parou em meu peito e ficou comigo

Estou sentado virado para o mundo
As estrelas hoje não iluminaram a ilha
O vento percorre um caminho inverso ao meu
Este pano de cena fechou-se à maravilha

Um catraio inventou uma brincadeiral
Deixou voar um encarnado balão
Nele escreveu um desejo aos anjos
Vi-o perder-se no aceno de mão

Um disco riscado gira aos soluços
Ficou preso numa sofrida nota de violino
Ninguém deu por isso, neste apressado viver
Acho que apenas eu, vivo em desalinho

Acho que nunca achei a minha procura
Acho que às tantas nunca lá chegarei
Será que dentro de mim está tudo
O que ainda não enxerguei?

Alma essa, alma minha, sortilégio
Um bondoso deus assim quis
Que pintasse a loucura e a razão
Não sei se foi isso que fiz

Não sei, nunca soube porque foge a saudade
Porque permanece no peito, nunca morre
Porque a minha é imensa e incontida
Porque me arroxa alma no peito, explode...

...Tanta vez
Parti numa viagem para tanto além
Nunca tive espera em cada cais de chegada
Nunca parei a viagem também

Às vezes tenho vontade de fechar a porta ao sentir
De adormecer o pensamento e voar feliz
Às vezes solto os braços ao vento
Corro no mundo pelos olhos de um petiz

E olho o horizonte para lá do mar
Sei que me esperam mil viagens
No encontro e desencontro com o amor
Fico preso...Entre duas margens...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

LONGA TRAVESSIA


Tenho os olhos molhados da chuva
Tenho um sonho preso no fundo de uma lagoa
Tenho uma saudade que rói no meu sentir
Tenho uma saudade que sei ser boa

Hoje pintei mar
Naveguei nas cores que o sal deixou
Sorri sete vezes de contentamento
Até que uma pincelada ao acaso me ensombrou

Lavei a tela em água pura
Ficou azul e perdeu a formosura
Fiz o papel de deus pequenino
E retornei ao tema com a mão segura

Uma demanda!
Esta minha paixão pelas cores
Pintei tanta ilusão na vida
Pintei amor, contradição, dores

Fica estranha uma criatura
Quando convive apenas consigo
Quando olha para dentro de si
Quando vê em si o melhor amigo

Esta cabeça do poeta é um caso sério
Esta força que me força o sentimento
É lava que corre rubra para o mar
É uma paixão em infinito momento

É tambor que toca pela madrugada
É navio abraçado às ondas
Sou um leme que prende o norte
Sou mais uma de tantas criaturas bisonhas

Anjo, demónio, um arlequim mal-pintado
Um homem que alguns acham sortudo
Uma ribeiro desenfreados de sentimentos
Uma comédia de enganos de um filme mudo

Fotograma verdade, fotograma mentira
Holofotes de ausente luz
O amor vence sempre no fim
A paixão a tudo seduz

Hoje deu-me para escrever esta maluqueira
Ainda bem que chegou o fim do dia
Nesta viagem em que procuro o alcanço
Sei que será...Uma longa Travessia...

sábado, 8 de janeiro de 2011

O TEMPLO DA SOLIDÃO


Acenderam-se os luzeiros no céu
Sussurra a noite a um doído coração
Não há fios que prendam o desencanto
Não há certezas às duvidas de um coração

Nada detém a maré da paixão
És um estuário da minha certeza
No céu há uma estrela para cada um
Na terra uma alma que esconde a beleza

Bruscos sentires os meus
Hoje vacilei na ironia do tempo
Encheste os meus olhos de presentes
Hoje apenas guardo no peito um simples lamento

No silêncio total mora a razão
Ah esta sombra que me invade a alma
A tua vontade obedece ao vento
Neste mar imenso aprisiono a chama...

...Esta lava incandescente
Derramada em meu peito
Faz de mim um pateta diferente
Que nem amar o faz com jeito

Hoje mordi a terra
Senti a frescura deste eterno verde
Senti os aromas dispersos da vida
Este amor orvalhado de feliz pranto...a verdade

Fui ver o mar em chamamento
Depositei o pensamento no alucinante tombo de uma vaga
Através da ressurreição de um sorriso
A oração afugentou uma praga

Descanso na paixão, caminho nela
Quantas estações tem o coração?
Esta pedra angular que piso
Tem tatuada o mapa para a união

Sou um tecelão de sentires
Uma alma inquieta em forma de pedra
Uma folha levado pelo vento
Um insignificante flor que na areia medra

Deste-me sonhos para sonhar
Uni as ondas do mar à tua paixão
Pela terra da minha lembrança
Ergui...O Templo da Solidão...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A NOITE MAIS LONGA


Não há fogo que aqueça
Esta alma tão cheia de contradição
Não há tormenta que conheça
Não há para um louco a palavra não

O vento enlouqueceu por estes dias
Ah este negro manto que cobre a ilha
Este nevoeiro cegou o meu querer
Esta vida que teima em ser, vida perdida

A dor assaltou-me o corpo
Percorreu uma triste viagem
Passou pelo meu coração, molhou-me os olhos
Fechei-os por um momento, senti uma doce aragem

Lembrei-me de tanta coisa
Esta lembrança tão perdida na minha cabeça
Vi tanta gente com ar sofrido de dor
Vi gente que desconheço, que talvez conheça

Há sempre tanta palavra perdida num triste olhar
Há sempre dentro de nós um pouco de Jesus
Há sempre um Anjo que vela por cada um
Há sempre na espera uma sublime luz

E eu que nada sou...
Alguém que apenas em si confia
Nasci pobre tal como Jesus

Até se chamavam, meus Pais, José e Maria

Mas que poema triste dirão
Porque está dorido o poeta!
Talvez por sentir demasiado a dor
Ou ser um simples pateta

Talvez porque as luzes não brilham
Como estes luzeiros plantados no céu
Talvez porque este denso nevoeiro
Deixou em minha alma um frio véu

Percorro passo a passo este caminho
A ilha acordou com com um presente de bruma
O Mar deixou em toda a sua costa
Um colar feito de espuma

E a noite chegará outra vez
Esta é a minha viagem transformada em saga
Sento-me, fecho os olhos e vejo
Uma intensa luz...Nesta Noite mais Longa...

sábado, 11 de dezembro de 2010

MELODIA INCOMPLETA


Ó viola toca bem
Faz vibrar as tuas cordas em dor
Ó viola de dois corações
Não partas o do tocador

Julguei ouvir no tamborilar da chuva
Uma musica esquecida
Julguei que aos meus ouvidos
Tinha chegado uma sonata sofrida

Quem me dera ter um tambor
Para arrebentar com isto tudo
Apenas me deram um tamborim
Que teima em ficar mudo

Mas mesmo que quisesse tocar em sorte
Mesmo que em tocador me fizesse
Seria mais um triste desafinado
Por muito que tentasse, que quisesse

Mas porque raio vejo em tudo
A musica sempre presente
Porque umas vezes me faz triste

Outras me deixa contente?

E fui cantador de prosas sem rima
E fui tenor de palavras sem sentido
Cantei invenções e perdidos sonhos
E nisto não fui um cantador contido

Cantei-te a vida que vivi
As coisas que me fazem sofrer
Neste palco ninguém morre
No aplauso julguei esquecer...

...Quem sou
Nunca me encontrei na letra de uma canção
Nunca toquei duas notas seguidas em harmonia
Mas perdi-me às vezes na ilusão

Reencontrei-me com o amor
Amargura mora sempre com a razão
Um mágico nem sempre acerta
No seu golpe de mão

Mas fiz mil tentativas nesta viola
Nenhuma nota bateu-me certa
Sou um triste e patético tocador
Desta...Melodia Incompleta...

domingo, 5 de dezembro de 2010

ALIANÇA


Procurei hoje um secreto sitio
Que mora à muito na minha imaginação
Onde nasce cada arco-íris?
Talvez do fundo de cada coração

Percorri o caminho das águas
Caminhei em percursos cheios de escolhos
Às vezes o azul pinta este imenso céu
Às vezes dá lugar ao cinza de nuvens aos molhos

Às vezes da terra é retirado o verde
Lança as tuas redes ó pescador
Afaga a madeira ó carpinteiro
Molda o teu barro oleiro em gesto de amor

Dançam as folhas ao sabor da fresca brisa
A manhã acordou no adormecer da tempestade
O dia não pára na sua vertiginosa viagem
Inventei uma casa singela numa perdida cidade

Inventei castelos sem ameias
Barcos voando a prumo
Crianças de risos constante
Gente com a certeza do seu rumo

Inventei-te, inventei-me...
Como Columbina e Arlequim
Dancei numa praia vazia
E pedi que o acaso viesse a mim

A sorte é regada de mil esperanças
O horizonte fica sempre distante
Uma semente é pronuncio de vida
A viagem acaba um passo adiante

Nunca acaba esta torrente de emoções
Nunca dorme este meu imenso sentir
Nunca encontrei este sonho pleno
Nunca sei se a chegada é o principio do partir

Parto em cada acabar de uma pintura
Parto na ausência da formosura
Parto sempre que o querer não me quer
Parto às vezes pela mão de uma palavra mais dura

Mas na viagem paro um instante e olho o céu
Vejo um arco-íris que me envolve em esperança
Fecho os olhos imagino-te Deusa dos Deuses
E faço aos lagos uma eterna...Aliança...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

AS FILHAS DE NINGUÉM


Hoje olhei o Mar sem o ver
Defendi o sentimento sem cavalo e espada
Hoje falei da verdade das coisas mais uma vez
Olhei sobre as rochas estas águas e não vi nada

Deambulei pelas ruas que encontrei
Contei as pedras de sete metros de calçada
Recolhi um trevo de quatro folhas
Que me chamou atenção na relva molhada

Na viagem do norte vi Santa Maria
Uma lembrança invadiu-me o pensar
Na fronteira entre duas verdades
Há sempre uma mentira que anuncia o chegar

Hoje pensei na loucura das pessoas
Numa criança que pede a ternura e um naco de pão
Na fome de um abraço sem rosto
Na ignorância largada ao meio do chão

Imaginei o que será viver na ausência da razão
Na procura do norte sem Sol e estrelas
Porque é que Deus se distrai às vezes
Porque teima em não querer vê-las?

Porque sinto, sentindo desta maneira
Amarro este contido grito
Porque arroxo esta força que me trespassa
Porque oiço sem palavras um murmúrio aflito

Murmuraste-me as palavras que sei de cor
Ó Anjo de asas de penas penadas
Disseste-me que este Mundo não é bom sitio para morar
Que há almas mal-amadas

Que a justiça é mulher da má-vida
Que os homens não crescem sem virtude
Que às vezes as ribeiras correm ao contrário
Que o querer nem sempre rima com verdade

“Que “puta-de-vida-esta”!
Foi o que me assaltou às palavras
Às vezes o absurdo mora na casa do lado
Quando ouvi uma história feita apenas de mágoas

Às vezes a Lua não aparece de vergonha
Às vezes não olhamos os outros como convém
Às vezes a aurora destapa o manto da noite
E solta no Mundo...As Filhas de Ninguém...

sábado, 13 de novembro de 2010

PRANTO DE AMOR


Recolho do mundo o sentimento
Gerado por um coração sincero
Acolhi em minha alma um soluço
Em cais de espera há uma vontade de espero

Só, um coração bate sentido
Uma boca pede o beijo em contradição
O abraço fica suspenso no pesar
Uma mesa fica vazia do aroma de pão

Percorri todos os caminhos que me encontraram
Pisei os presente doirados deste Inverno
Subi a um céu para procurar um anjo
Tortuosa viajem que desemboca em inferno

Mar, montanhas, buganvílias rubras
Chuva que inunda e afoga o grito
Na procura da verdade
A palavra não sai, apenas um murmúrio aflito

Derramei as tintas numa fria pedra
Parti estes pincéis enlouquecidos
Juntei sete desejos e sete cores
E libertei das amarras todos os sentidos

Soltei a fúria que guardava no peito
Olhei o nada na procura de coisa alguma
Clamei pela paz neste dia de cinzas escuros
E gravei numa alma uma chama, mais uma

Um violino escorreu pelos meus ouvidos
As notas envolveram-me em lembrança
Os tempos retornaram do esquecimento
Alguns tocaram-me a alma em em golpe de lança

Quantos dias têm dois anos
Quantas noites têm a companhia da Lua
Quantas casas têm o o amor aprisionado
Porque não fazes o mesmo com a tua?

Quantas dores pode um coração conter
Será que a saudade só nasce na distância
Serei um Arlequim sem graça, patético
Ou um pedinte na rua da esperança?

Tudo isso vi reflectido
Num rosto de rara beleza cheio de dor
Soltou-se um irreal azul sal
Em puro...Pranto de Amor...

domingo, 7 de novembro de 2010

O DONO DOS CÉUS


O choro de uma criança
Voou numa toada de vento
O silêncio tomou conta do mundo
O querer pode ser um doce momento

A manhã veio envolta em errantes aromas
A terra fria e prenhe gerou mais uma flor
A noite perdeu-se em escuros abismos
Sonhei com um anjo sorrindo em resplendor

Sonhei com Querubins zombeteiros
Com um Arcanjo em eterna luta com o mal
Sonhei que a chuva era o pranto dos deuses
Sonhei que o amor tem um caminho fatal

Descobri que as nuvens são carruagem de água
Que os anjos afinam as harpas de madrugada
Que as gaivotas em terra são pronúncio de borrasca
Que a razão de um justo não vale quase nada

Que falar ao nada pode ser loucura
O amor sincero tem a cor da ternura
Um alegre ribeiro tem um cantar diferente
Quando em seu ventre corre a água mais pura

Mergulhei as mãos na macieza da leiva
Lavei meu rosto na singeleza das águas
Meus olhos soltaram um mudo chamamento
Soltei dos braços antigas mágoas

Ao compasso de um tambor
Marchei ao encontro de uma demanda eterna
Não fui cavaleiro, não encontrei uma montada
Não levei espada, escudo, nada

De peito aberto percorri todos os caminhos
Inventei lutas, cidades perdidas, um moinho de velas
Levou-me o vento as melhores estratégias
Era o meu plano de luta, fiquei sem elas

Fiquei nu no meio do nada
O frio e calor lutaram por me ver sofrer
Calei as cordas desta viola inventada
Cerrei os olhos para melhor ver...

...Quem era eu nesta patética vida
O que fazia nesta terra de sete véus
Autorguei-me o rei do país das mil e uma ilusões
Serei pois...O Dono dos Céus...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

HERDEIROS DOS SETE VENTOS


Areia foi aplanada pela maresia
A madrugada instaurou a claridade
Um barco parte para o mar-alto
Leva tatuada no casco a palavra saudade

Uma gaivota olha com olhar perdido
Perdidamente um golfinho salta no azul
Perdi à muito o rumo que me levava
Ao amor que habita um sitio no sul

O Mundo agita-se na costumeira loucura
Olhos vazios na procura do nada
Passos incertos em rumo por inventar
Uma criança que chora presa a mão dada

E o vento lá bem no alto
Varre as nuvens ao encontro do mar
Sopra adiante uma vontade inventada
Solta de um amante que procura o amar

E eu aqui no alto
Fiquei com vontade de ensaiar o voar
Um Milhafre olha-me zombeteiro
O melhor é deixar-me ficar

Fecho os olhos
Procuro o silêncio desejoso da alma
Mas este vento não pára, não se aquieta
Reacendeu no meu peito uma mortiça chama

Em labaredas soltou-se a lembrança
Os sonhos espreitaram envoltos em chamas
A paixão ganhou cor em seu esplendor
Soltei as dores, as mais tamanhas

Mas este vento enlouqueceu
Dançam as árvores em furioso passo
Agitam-se as águas adormecidas
Um pássaro vagueia num curto espaço

Tem feitiço este vento
Feiticeiro do vento, montado em corcel
Serei eu o culpado desta demanda
Ou apenas um boneco de amarrotado papel

Demiurgo de causa perdida
Com a alma emaranhada em mil talentos
Não, sou apenas uma aragem de passagem
Um dos...Herdeiros dos Sete Ventos...

sábado, 9 de outubro de 2010

O IMPÉRIO DA BRUMA


Varre a ilha uma cortina de chuva miúda
A água aprisionada em mil gotas
Tal como as minhas mais profundas mágoas
Que em minha alma se encontram soltas

O Mar enlouqueceu
Ameaça galgar esta perdida ilha
O verde continua sorrindo
Ostentando a cor da eterna maravilha

Eterno é este nevoeiro gerado na noite
Por um deus colérico e sedutor
O mesmo que quando se cobre de Sol
Gera em cada passo o amor

Assaltou-me o sentimento
Soube que um amigo partiu por um celeste caminho
Um homem bom nunca morre
Só se afasta um bocadinho

E eu, neste palco
Pinto mil e uma emoções
Luzes, as pancadas de Molière
O aplauso, tantos sorrisos, contradições

Inquieta alma esta
Vivendo entre a o amor e a dor
Voando para além do sonho
Nas asas de um viajante Açor

Viajeiro das perdidas madrugadas
Navegante de barcos de papel
Preso aos brandais desta Nau da esperança
Afugento a fome com pão e mel

Mato a sede na saliva das tuas palavras
Tempero o sentir com o sal das tuas lágrimas
Recolho uma flor que eclodiu do basalto
Gerado num vulcão de sete chamas

Sete vezes, sete abraços, sete suspiros
Sete notas, uma balada de pasmo encanto
Uma lamparina a iluminar um santo
Sete pedras de incenso para o quebranto

E eu no meio deste desatino de vento
Faltaram-me as palavras sem coisa alguma
Caíram-me sete folhas à cabeça
Fui coroado o rei do...Império da Bruma...

sábado, 18 de setembro de 2010

OS TRINCOS DA MEMÓRIA


Uma aragem de fresca brisa
Agitou os loureiros adormecidos
Veio do mar do norte
Tal como a minha vontade em passos perdidos

Adormecidas estão as hortênsias
As manhãs vêm vestidas de frio
Vi uma garça no azul desencontrada
Vi minhas dores serem engolidas por um furioso rio

Desaguei com o olhar na busca do mar
Sequei a água dos olhos solta de um revés
Pisei as águas limpas de uma baía
Adormeci ao fim de sete marés

Sonhei
Com mares, com uma longa travessia
Desfraldei uma vela alva
Naveguei na chegada, na partida morria

Sonhei que era um cavaleiro andante
Por dias de inquietante perdura
Avistei um vagabundo num espelho de água
Era a minha alma talhada em pedra fria e dura

E fui criança de esvoaçante riso
Pássaro embriagado pela cor
Busquei em gestos enlouquecidos
Aquilo que pensava ser o amor

Descalço senti a dureza das pedras
Navalhas afiadas percorrendo o pensamento
Às vezes o sangue fecunda a terra
Às vezes o mundo pára por um momento

Quando era criança pensava
Que se o relógio parasse, parava o tempo também
Pensava que o rosto da felicidade
Era uma deusa vestida de branco vinda do além

Pensava que que meu mundo era apenas a ilha
Que as asas eram a cor da santidade
Que o pensamento atravessa todas as grades
Que um caminho da felicidade tem ladrilhos de verdade

Hoje deu-me para divagar
Estava para escrever uma história
Escorreguei na fronteira do pensamento
E rompi com...Os trincos da Memória...

domingo, 5 de setembro de 2010

SONETO DE AMOR


Um pio percorre este vale onde respiro
Um milhafre plana no azul
Olhos nos olhos, ave e homem imperfeito
São de basalto negro os caminhos do sul

Carrego metade deste eterno céu
Na noite os luzeiros são estrelas
As sombras apenas uma parte de escuro
E as flores não são tão belas

Mas tu brilhas na noite
És firmamento onde mora uma constelação
Que marquei firme em rumo certo
No lado esquerdo, na janela para a ilusão

Ergui muros, calei dúvidas
Plantei saudades, colhi esperanças
Reguei a terra onde mora a incerteza
Soltei um grito, voaram no espaço incandescentes lanças

Soltei as mãos
Procurei a tua virtude na espuma
Construí um diadema de gotas de mar
Voei pela brisa sem pensar coisa alguma

Pintei as montanhas de carmim
Um melro-negro fez-me lembrar o branco
Procurei na paleta uma cor que havia perdido
Descobri que não tem cor o verdadeiro pranto

Descobri que nua és pura como a natureza
Que o teu sonho inundou o meu
Este crente não reza para afastar o pecado
Nem se veste na pele de ateu

Descobri que teus seios são Luas
O teu corpo, casa com mesa de afecto
Tua boca nascente de mil desejos
Teus olhos o começo de um chamamento

Ouvi teu chamamento em canto de pássaro
Abri os braços e ensaiei o voar
Subi o mais alto que pude
Enfeitiçado pelo teu chamar

Encontrei um ninho feito de fina bruma
Coberto por pétalas de azul flor
Fechei os olhos e brotou a poesia
Neste...Soneto de Amor

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ÁGUA


Desceu do celeste pela noitinha
Veio em gotas de puro cristal
Matou a sede a um deus bom
Aspergiu e afugentou o anjo do mal

Matou-me a sede a mim
Lavou da minha alma as dores
Rasgou a terra na procura do mar
Abençoou o eclodir de mil flores

Aprisionou-me olhar
Em sua magnética visão
Tomou-me de assalto o corpo
Molhou-me o querer até ao coração

Eterna é esta água
Eterno é o mar que adormece na areia
Eterna é a noite em seu orvalhado pranto
Será o choro da Lua cheia?

Entrei neste molhado mundo
Desejei para sempre lá ficar
Senti-me pássaro em azul profundo
Planei, sorri neste voar

Um vermelho peixe olhou-me de soslaio
Um golfinho parou, pareceu-me sorrir
Rodopiou à minha volta
E decidiu partir

Subi à tona, estava plano o mar
Dançava alegre uma gaivota
Olhei perplexo à minha volta
Não vi terra, nem desenho da costa

Nadei em furiosas braçadas
Sem rumo, sem frente no adiante
Nesta louca e alucinante viagem
Duvidei de querer descobrir o avante

Só, sou ilha plantada no Oceano
Açoitada por ventos de paixão
De manto verde me deito em seu colo
Esperando descobrir na bruma o rosto da contradição

Descobri uma singela e simples coisa
No meio daquilo que pensei ser mágoa
Que depois de separar o sal de uma lágrima
Ficou este ser feito de...Agua...

sábado, 14 de agosto de 2010

CASTELO DA ILUSÃO


Vi numa nuvem o teu rosto
De cor fogo porque era manhã
Chamei-te sem dizer seja o que fosse
Não quis que voasse a palavra vã

Vi esta nuvem desfazer-se em orvalho
Senti o beijo da chuva miúda no rosto
Tinham o perfume dos deuses as gotas
Passos de um dia perdidos no Sol-posto

E veio a noite salteadora da luz
Roubou das hortênsias o azul
Os passos que me levam ao absurdo
São sempre na procura do sul

Às vezes perco-me na lembrança
Às vezes busco algo que me dê sorte
Às vezes entro neste infinito de pensamento
Labirinto que me faz perder o norte

Mas o tempo que me deu um Mestre
Quando decidi aqui vir uma vez mais
É tanto que deu para ver meio Mundo
Em barco de brisa colada aos brandais

Vi tanta alma a andar no meu caminho
Vi partir gente apressando a chegada
Dei todos os abraços que pude
A quem me disse ser mal-amada

Descobri que a tolice não é roupa dos tolos
Descobri que o sofrimento é escolha
Descobri que o sal de uma lágrima
Lava uma alma, um coração molha

Senti a verdade ausente das palavras
Senti que a vida corre em vários sentidos
Senti ausência do amor na palavra dita
Senti na caminhada alguns passos perdidos

E continuo esta caminhada infinita
Aventura ainda vai no livro a meio
Voarei neste sonho sem limites
Caminharei sobre este mar sem ter receio

E vou adiante sentindo o toque da tua mão
O rumo é feliz quando encontra o coração
Subi cada degrau feito de lava e contradição
E dei por mim bem alto no...Reino da Ilusão...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O PAGADOR DE PROMESSAS


Hoje navego em mar de prata
Uma suave brisa enfola este navegar
Hoje não quero olhar o rumo
Não quero ver no horizonte o chegar

O deuses descansam no Olimpo
Gozam sentados num real tesouro
Recolho este sal da maresia
Sal, prata, incenso, ouro

Paixão, palavras, uma flauta
A ternura a orvalhar os corações
Mil amantes de costas viradas
Um encontro na procura dos meus perdões

A chuva veio ver-me rir
Soltei as penas que me engasgavam
Soltei também as dores lembradas
Aprisionei as mágoas que em minha cabeça viajavam

Sacudi a cabeça
Abri os braços e dançou o amor
Com passos hesitantes
Lá partiu uma ultima dor

Escondida estava
No lado esquerdo do sentir
Uma leveza invadiu-me o corpo
Voei na certeza entre a chegada e o partir

Jurei aos lagos sete juras
Colhi todas as mandrágoras que encontrei
Desenhei uma estrela de sete pontas
Fechei os olhos e em ti pensei

O sortilégio acontece
Quando fica ausente a razão
Quando se parte um compromisso
Há sempre um despedaçado coração

Há sempre um ritual num beijo
Há sempre um doce amargo no desejo
Há sempre algo que fica gravado
Há sempre na espera um verdadeiro ensejo

Há sempre algo que nos prende à Terra
Só sei que a mim tu não te confessas
Serei eu um justo pecador
Ou apenas...Um Pagador de Promessas...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

UMA RAIVA INCONTIDA


Onde param as minhas ilusões?
Para onde me conduziram estes passos?
Porque as pessoas teimam em não saber
O significado do meu abraço?

Maldigo este Sol encoberto
As nuvens roubaram o azul
Invejo o vento errante
Algo me impele a olhar a sul

O Mar perdeu a magia do sal
Os golfinhos partiram para outras paragens
Este lago está deserto da virtude das águas
Tem penas de garça soltas nas suas margens

A pessoas passam de olhar vazio
Como se vazia esteja a sua alma
Os pássaros soltam tímidos pios
O fogo é feito de fria chama

Já não ardem as cores na manhã
As auroras ficaram pardas
As hortênsias perderam-se do azul
As mágoas andam perdidas

Perdi-me!
Na lonjura que minha alma ditou
Passei a mão pelos olhos
Um deus perverso a ultima lágrima roubou

Houve um tempo que chorei as coisas
As boas e as más em emoção
Houve um tempo em que tinha sempre
Descoberto meu sofrido coração

Este tempo perde-se como chuva miúda
No pó que encobre mil vontades
Tem mil anos e outras tantas Luas
A procura das minhas verdades

Tem mil vidas a minha viagem no Cosmos
Tem apenas um rosto a minha procura
Tem um canto que reverbera ao meu sentir
Tem apenas um momento a real formosura

Hoje senti sentimentos de tristonho sentir
Hoje senti a minha alma perdida
Hoje gritei em grito mudo bem alto
E soltei...Uma raiva Incontida...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

PERDIDO NO TEMPO


Nada é mais lindo do que o despontar da aurora
Nos dias em que os meus olhos voam
Têm asas os primeiros sentires
No acordar com estes sinos que entoam

Sonhei que as estrelas se alinhavam
O celeste ficou cheio de formas estranhas
Contei tantas coisas que me ditou a razão
Descobri mil luzeiros de formas tamanhas

Descobri que a Lua sorria de desdém
Ao falso amor de paixão crua
Descobri que na volta do Sol
A cor volta com ele à minha rua

Volta também uma gargalhada de criança
O cheiro a farinha transformada em pão
Uma mulher que oferece o leite morno do seu peito
Adocicado pelo seu terno coração

Vi a nudez da alma em pés descalços
Vi um louco fugir à razão
Vi o engano despertar no Mundo
Vi a felicidade perdida no chão

Fechei os olhos para não ver mais
Continuei vendo ainda mais claro
Vi-me rodeado por gente sem rosto
Que me olhavam como um bicho raro

Pelos ouvidos entraram as cores
As notas de uma sinfonia encheram-me os olhos
Um aguaceiro surgiu do nada
No céu as nuvens juntaram-se aos molhos

No meio de toda a confusão
Pareceu-me ver um anjo aflito
Despertei desta loucura toda
Quando uma gaivota soltou um grito

Retirei o orvalho do rosto
Ordenei aos sentidos que tivessem calma
Como não tenho mão neles
Lá teve que me valer a alma

Caminhei, caminhante galgando mais um dia
Parei e olhei à minha volta por um momento
Esta bruma que volta sempre atrás do dia
Deixou-me...Perdido no Tempo...

terça-feira, 6 de julho de 2010

CHEIO DE PENAS


Roda a vida em sua roda invisível
O mundo desperta na claridade da manhã
Um pio primeiro é pronúncio de canto
Uma boca solta uma palavra vã

O nevoeiro partiu no dia
Uma árvore solta os seus dourados presentes
Um ribeiro acolhe o cantarolar das águas
Um coração arroxa de repletos sentimentos

Esta ilha não tem fortuna
Trocou-a por um curioso mistério
Este irreal e intenso verde
Que inunda o olhar mais sério

Nesta ilha há um beijo na tua procura
Nesta ilha as pedras não têm idade
Nesta ilha as juras são lançadas à maresia
Nesta ilha o sonho é janela da verdade

Por isso e por muito mais
É feliz o cantador
Canta melodias feitas ao acaso
Tecidas dos fios da sua dor

Tear que range em protesto
Tecelão de fio branco e negro
O que guarda este manto de mágoa
Onde guardas este precioso segredo?

Onde poisam as gaivotas ao fim do dia?
Porque volta sempre esta suave maré?
Porque presenteia as pedras com colar de espuma?
Porque navegas à bolina sem olhar p'rá ré?

Porque me sinto tão longe do mundo?
Porque sei, sabendo, que perversa é esta viagem
Será que imaginei, imaginando-te?
Será que o teu sorriso é difusa miragem?

Sigo adiante, mesmo em contemplação
Sinto bater no peito mil saudades
Sinto a vida acolher-me em azul sorte
Sinto que fui criança em sete idades

E em sete vezes parti no chegar
Vi rezar na promessa muita alma em novenas
Meu coração chora no embalo do embora
Deito o corpo na noite, adormeço...cheio de penas...

terça-feira, 22 de junho de 2010

O FEITIÇO QUE HÁ EM TI


Este sol que vence o nevoeiro
Recolhe as gotas do sereno da manhã
Este grito que se perdeu na noite
Transformou-se em palavra vã

Aromas errantes soltos no ar
Esta terra molhada tem a promessa de pão
As uvas são amargas em Julho
O Setembro é pintado da cor do coração

As palavras nem sempre são bem ditas
Nem sempre vindas do profundo da alma
Umas caem por terra estéreis
Outras envolvem o sentir da calma

Julguei ser a ilha um navio à deriva
Sem velas, sem vento nos brandais
Julguei-me numa viagem perpétua
Inventei um grande e colorido cais

Que roubei às asas de uma brisa brincalhona
Tracei as formas que me ditaram a vontade
Não saiu à primeira, talvez aí por volta da nona

Pois é, a loucura tem um fraquinho por mim
Entra e sai a seu belo prazer
Às vezes penso ser gerada por um irado deus
Que faz tudo para me roubar o ver

Vi!
Estou sempre a ver coisas estranhas
Estou sempre a sentir à minha volta
Uma roda de dores tamanhas

Estou sempre na mira do pensamento incomum
Estou sempre tão cheio de comoventes verdades
Estou sempre a chorar o lado escuro do mundo
Estou sempre na procura de um partir sem saudades

E parto no embalo do fim do dia
Não levo bagagem para o viver dos sonhos
Levo apenas esta força imensa
Que ofusca até os seres bisonhos

São tantos os caminhos que percorro
Neste infinito mágico há algo que senti
O deslumbramento preso a um sorriso
Gerado no...Feitiço que há em Ti...

sábado, 5 de junho de 2010

O COMEÇO DA ETERNIDADE


O Sol reflecte seus raios
No espelho de água desta Lagoa
Tal como pássaro em voo diurno
Tens em ti uma alma que voa

Voa sobre este verde de emoção
Da terra brota o azul hortênsia em cabeleira
Este teu sono de sonhar na ilha
Tem o Mar por cabeceira

Ah esta ilha, qual barco à deriva
Velas silenciosas, mastros a prumo
Esta bússola enlouqueceu
Tem a marca de enganoso rumo

Sete distantes destinos
Sete vontades expressas
Em sete mágoas por dizer
Na resposta a sete promessas

Sete!
Desci às Sete Cidades e inventei mais uma
Na Baía do Silêncio celebrei uma jura
Envolto numa suave bruma

Feiticeiro da dor
Fazedor destes constantes nevoeiros
Ao cais nenhum amor chegará
No anoitecer dos dias primeiros

As pedras têm esculpidas em si
Mil fúrias de esquecidas tempestades
Desenhos de azul sal
Fazendo lembrar cidades

Casas sem janelas
Portas abertas de par em par
Uma árvore com frutos de pão
Na espera do chegar

Ensaiei a partida a cada dia
Contei as pegadas de toda a amargura
Vi cada por-do-sol incendiar o céu
Vi nas nuvens as formas da vil loucura

Preparei a alma para receber o infinito
Enchi o coração da mais pura verdade
E descobri que o verdadeiro amor
É...O Começo da Eternidade...

domingo, 23 de maio de 2010

OS TEUS OLHOS


Sinto a frescura deste orvalho
Bebi na sede, seca do brilho do Sol
Pisei o pó desta terra estéril
Apanhei no olhar um lago de água feito lençol

Não sei porque as vagas vindas de longe
Transportam este sal que me escorre no rosto
Não sei porque uma lágrima tem o mesmo sal
Que mergulha minha alma no Sol-posto

Espadas que ferem um corpo nu
Pano sem cor, talhado a cru
Chicote de revolta, assombração
Uma prece, uma mágoa, tu

Tu, saberás que as manhãs não podem ser interrompidas
Que um relógio quando pára, foge o tempo
Que a saudade é degredo de todas a emoções
Que a felicidade se mede apenas por um momento

Eu nada sei
Nem sei se soube saber quem sou
Sei sabendo apenas o rumo
De uma alva graça que em mim poisou

Na minha procura de rumos
Encontrei aquilo que penso ser o Graal
Por isso pinto a cada momento
O belo para afugentar o mal

Pintor, alquimista da cor
Crente do amor, companheiro da dor
Anjo perdido entre a terra e o celeste
Pétala esvoaçante de uma rubra flor

Hoje perdi-me na cidade do pensamento
A vida correu-me na frente em corropio
Hoje um pássaro descobriu o voar
Hoje senti na emoção a força de um rio

Segui para nascente fugindo à noite
Inventei um cavalo branco voador
Despi-me da obrigação de ser outro
Afastei da viagem a sombra do desamor

O verde ficou mais verde
As hortências caíram do céu aos molhos
O celeste vestiu-as do mais puro azul
Tudo isto transbordou das janelas...dos teus olhos...

sábado, 8 de maio de 2010

PENITÊNCIA


Um foguete rasga o azul
Um anjo acorda repentinamente
O incenso vagueia em errante aroma
Uma reza faz-se ouvir perdidamente

Perdi os acordes tangentes do sino
Que ecoaram na madrugada
O Templo teve o calor de mil almas
Em fervor de reza assombrada

Uma vela arde, outra e outra
Chama que guia no caminho da fé
Cruzei sentires com caminhantes
Soltei um surdo grito e pôs-me de pé...

Para ver passar a procissão
Murmurei uma reza de encontro ao andor
Percorri este rio de imensa mágoa
Pedi, o perdoei, que me dará o Senhor

Estranho!
Os pássaros vestiram-se de silêncio azul
Será que o Santo os aprisionou na viagem?
Será que este ano a chuva cairá a sul?

Hoje ofereci as cores da minha paleta
A uma amiga na sua dor
Ouvi seu choro ao meu ouvido
No fatalismo do desamor

Hoje o sono acordou-me
A nostalgia agitou suas asas cinzentas
Esqueci no acordar o ultimo abraço
E contei as nuvens que eram tantas

De joelhos vi gente percorrer um caminho
Por juras e perdão prometidos à muito
Vi sangue sangrando do peito
De uma Mãe de olhar muito aflito

Vejo tanta coisa que ninguém vê
É uma sina tatuada na estrada que piso
O basalto frio toca-me em arrepio
Neste mundo às vezes paro, outras deslizo

Para onde terei eu mais que ordenar o passo
Há um combate em mim de raiva e sapiência
Coloco as mãos postas e ergo este cálice
E verto toda a paixão desta...Penitência...

terça-feira, 27 de abril de 2010

ONDE MORAM OS ANJOS


Uma aragem vinda do sul
Percorre o labirinto do erguido verde
Uma melodia trina nas folhas
Um pássaro ensaio o voo primeiro a medo

O mar continua enraivecido
Neptuno decidiu perpetuar a dança das ondas
E mesmo com o vento adormecido
A tempestade varre este cais de mágoas

Hoje o Sol abandonou a vontade da luz
As nuvens são a capa de um gigante
Os pássaros esconderam o canto
Uma deusa de barro chora o amante

Hoje deu-me para voar
Cavalgar as palavras sem destino
Quisera abraçar a liberdade das asas
Voltar a olhar o mundo pelo ver de menino

É tão pequeno este Mundo
Gostaria de inventar um novo azul
Às vezes as estrelas soltam-se do celeste
Voam rasante as casas do sul

Às vezes sonho com infinitos
Onde a música veste cada criatura
Às vezes fico a pensar baixinho
Às vezes fecho os olhos à formosura...

...Mas abro a alma para acolher
O errante perfume da palavra sincera
Que nasce de um olhar de amor
No derradeiro instante de uma espera

Não me lembro da última espera
Perdi o vapor de uma madrugada passada
Perdi-me no Mundo dos desencontros
Fui dar a uma praça cheia de nada

Sentei-me bem no meio, na terra batida
Soltei pesares guardados em mil anos
Desenhei no barro os meus anseios
Afastei de vez os meus frios desenganos

Olhei para alto e indaguei em voz alta
Lancei à Lua uma mão de beijos
E ocorreu-me perguntar-lhe uma tolice
Será que sabes...Onde Moram Os Anjos...?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O APANHADOR DE ESTRELAS


Este vento que me toca bravio
Esta chuva miúda ensopa e acalma
Esta cor cinza no celeste
Esmorece a minha pobre alma

Pobre poeta!
A palavra ficou vazia de cor
A rima foi levada numa rajada
Ficou em teu peito, apenas uma fria dor

Dorido coração!
Percorrendo uma rua vazia
Nesta cidade inventada por mim
A noite aprisionou o dia

Eram azuis os dias que inventei
A casa dos meus sonhos feita de chocolate
A criançada nunca esgotava a gargalhada
Um cão de meigo olhar não fala, mas late

Uma gaiola dourada
Uma papagaio papagueando sem parar
O amor tatuado em cada canto
Para teres a certeza, no teu chegar

Mas a calmaria acontece
Estende o tapete à magia que virá
Olhos brilhantes, ávidos da ternura
Uma cartola, um coelho azul a procura achará

Estrelas!
Quantas contará o meu olhar
Tenho uma feita de cartolina branca
Que me esqueci de te enviar

Escrevi numa das pontas paixão
Na outra a palavra quero-te tanto
A terceira “É mesmo verdade”
As outras duas deixei-as em branco...

...Para que derramasses nelas o teu querer
Na volta, recebi algo como um novelo
A estrela tinha presa a ela
Uma madeixa dourada do teu cabelo

Tudo isso inventei numa mirada
No espelho de água de uma poça de mar límpida como as janelas
Era na altura uma criança que tinha um sonho
Ser...Um Apanhador de Estrelas...

sábado, 3 de abril de 2010

ENTRE O CÉU E ESTA ILHA


Algures entre este verde de desesperança
E este cinza celeste que me envolve a alma
Há um lugar onde moram os sonhos
No espelho de água de uma lagoa calma

Algures sei que te vou encontrar no desencontro
Numa rua ladrilhada de contradições
Com pedras de basalto duro e frio
Onde habita o desalento de dois corações

Uma viola de dois corações
Tem doze cordas que guardam as notas
Ansiando pelos dedos do tocador
Na espera de serem soltas

Mas hoje apenas se ouvem ave-marias
Saídas da boca quem tem a fé mais pura
Um bordão no amparo do corpo
Uma viagem que no coração perdura

Cantei à Virgem Nossa Senhora
A Jesus Cristo o Omnipotente
Deixei marcas tatuadas em cada passo
Deixei de mim a dor presente

Deixei que me vissem a humildade
Abandonei a vaidade tonta
Expurguei os pecados que pequei
E deixei a alma limpa e pronta

Para partir!?
Partimos sempre para algum lugar
Chegamos sempre a uma chegada
Um morrer será apenas um parar?

Às vezes paro para olhar em frente
Às vezes paro no teu olhar
Às vezes chego a nenhuma razão
Porque o meu querer quer aqui estar

Barco à deriva esta minha alma
Sem velas, sem o amparo do rumo
Procuro um Sol que me ilumine e aqueça
E encontro o astro sorrindo a prumo

Procuro a razão deste sentir na alegria e dor
Pinto a vida com uma coroa de maravilha
Porque no adormeço deixo sempre a esperança
Que habita...Entre o Céu e Esta Ilha...

terça-feira, 23 de março de 2010

ALMA POR ALMA


Procurei a minha perdida ilha
Por mares e ares, numa demanda
Será Antília, será uma senhora de nome Atlântida?
Que me deu em sonhos esta carta de marear estranha

Na bolina enganei o Vento
Seguro firme este leme que não largarei mais
Tatuei meus sonhos na brandura das velas
Fiz juras de amor junto aos brandais

Conferi o rumo com um golfinho zombeteiro
Uma baleia branca sorriu em brancura
Um bando de voadores peixes cruzou comigo
Um peixe-anjo subiu na vaga e sorriu com ternura

Contei cada vaga que me afagou o olhar
Lancei em sorte uma esperança esquecida
Quanto sal tem a beleza da maresia?
Para onde viajam os sonhos de uma gaivota adormecida?

Para onde vão as palavras bonitas
Para onde partem os corações sem rumo?
Para onde caminha um Poeta louco
Quando o Sol se põe a prumo?

Não sei!
Nunca saberei domar esta maldita razão
Que me invade esta enganosa paz
Que enlouquece a pena em minha mão

E depois a noite, mãe das sombras
Tudo pára no adormeço, solta-se o medo
Apenas uma réstia de vigília em meus olhos
Brota do fundo de mim um antigo segredo

Uma bizarra história!
Com duas marionetas em palco nu
Uma que foi levada nas asas dum ceifeiro de almas
E eu que fiquei neste mundo frio e cru

Porque era preciso um fito acabar
Encher mil corações de sublime luz
Lavrar as palavras em cristal água
Escrever a magia que me seduz

Então partiste sobre o meu choro
Mas invadiu-me uma estranha calma
Já sabia que teríamos em sorte o imenso
Uma troca divina...Alma por Alma...

sábado, 13 de março de 2010

O VALE DOS VENDAVAIS


Estarão loucos os deuses?
A calmaria tomou o verde de assalto
Ai este céu que arroxa a ilha
Um milhafre decidiu voar bem lá no alto

O vento enfureceu na noite
Escutei os sons do embalo árvores
A manhã chegou ao som de um tímido pio
Era um pássaro que anunciava mil dores

O caminho afagou-me os pés
O acaso tomou como sua a razão
O sentimento decidiu fazer-se sentir
Deslumbrou-me a alma, contraiu meu coração

Soltei a palavra adormecida
Chamei a deusa da poesia para me abençoar
Cantei as virtudes da alegria
Vi o poiso da garça no fim do voar

Vi, vejo tanta coisa que ninguém vê
Imagino-te plena de radiosa luz
Com um vestido feito de ar
Com este olhar que me seduz

Imagino o canto maternal das baleias
Como doce e sentida balada
Imagino um beijo na procura
De uma fugidia criatura amada

Um domador de ventos e tempestades
Uma viagem de aventuras repleta
Serei eu um herói de comédia de enganos?
Ou apenas um pobre e louco poeta

Serei, sou qualquer coisa
O Mundo conhece este meu dom
Inundar a vida dar cor ao sonho
É a sina de um anjo bom

Sempre me atraíram os anjos pintados de negro
Sempre achei aconchegante um xaile da mesma cor
Sempre achei que o negro que veste a noite
É pano de cena para o amor

É pedra que sustenta um cais de espera
É capa de mágico, é nevoeiro escuro nos brandais
É a minha alma em dia chuvoso
É meu errante coração no...Vale dos Vendavais

domingo, 28 de fevereiro de 2010

ALIANÇA


O Mundo não pára
O tempo corre em louca vertigem
O sortilégio da luz inunda o dia
A água corre na sua eterna viagem

Saberás que o encantamento
Que um olhar de amor liberta todas as mágoas
Saberás que a plenitude é miragem difusa
No espelho de água de sete Lagoas

Folhas de mandrágora colhidas ao coração da noite
Feitiço feito de mil quereres depositados no sonho verdadeiro
Coração de Arlequim, lágrima presa ao canto do olho
A paixão maior nasce sempre do amor primeiro

A primeira vez, a primeira dor
A primeira ida, a chegada primeira
Uma tempestade assola as casas do sul
Um coração decide calar-se em batida derradeira

Um arco-íris aponta a morada dos seres feitos de água
Os jardineiros da terra suspiram de pena
Uma gaivota soltou as penas, cancelou o voo
Que actor sou, deixei muda e esta sentida cena?

Soluços de gotas caídas do alto
Estão mudas as estrelas, o vento parou um momento
As pedras da ilha estão brancas de maresia
Uma mulher abre a alma e solta um lamento

Ou será um chamamento?
Esta constante procura do sitio da paixão
Esta flor de sal doce de travo triste
Esta falta de ti envolta em solidão

Caminhante, caminheiro, assombração
Poeta rimando o passar das horas
O errante perfume das rosas toldou-me o pensamento
Porque ris de mim, porque ris com riso e por dentro choras?

Palavras, escrevo tantas
Que fervor é este meu Deus
Porque me enlouquece a alma às vezes
Porque sinto o mundo pintado de pecados meus?

Talvez por te ter e não ter
Talvez seja apenas um ser de esperança
Talvez lá bem fundo perdida no tempo
Ainda floresça uma...Aliança...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

PERDIDAMENTE


Um aroma selvagem inundou a manhã
São de fogo as auroras de Abril
Uma nuvem adormeceu no celeste
Um bando de pardais soltam trinados mil

Um relógio canta os quartos
Uma flor acolhe a irreverência da abelha feliz
O feitiço da luz envolve o verde
Que acolhe os pés descalços de um petiz

Apetece-me pintar a musica
Que me afaga a alma, desperta os sentidos
Apetece-me pintar-te o sorriso
Unir-te aos meus anseios antigos

Uma tela, universo ávido de um deus
Será o pintor o criador da cor do dia?
Um salteador das sombras da noite?
Ou apenas um semeador da nostalgia

Vibrantes pinceladas tomam de assalto o branco
Alvas são as partidas para a pureza dos sonhos
A paixão nasce sempre do lado esquerdo do sentir
O amor também abraça os seres bisonhos

Que ser é este que abre os braços ao vento?
Voa sobre o mar na procura de perdida ilha
Vê em cada criatura a esperança renovada
Uma estrela criada por deus que ainda brilha

Pedras brancas, negras são as noites sem Lua
As gaivotas são sentinelas de Neptuno o rei
São mensageiras da chegada tempestade
São anjos num reino em que a bondade é lei

Divagações deste louco poeta
Hoje não acerto com a história prima
A pena enlouqueceu não obedece à alma
Apenas se diverte cavalgando a rima

Esta era para ser uma história de amor
Uma tela de apaixonada paixão
Um arrebatador grito de exaltação
Uma viagem pelo sublime da sensação

Uma lagoa de marés vivas
Um fechar de olhos de forma dolente
Um dizer-te simplesmente
Que te sinto...Perdidamente...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O MUNDO AO CONTRÁRIO


Chove no Mundo
O céu envolveu o verde com seu manto
Será que os Anjos andam a brincar com as nuvens
Ou é apenas um deus que verte seu pranto

Chove no Mar, água na água
A maresia ostenta um diadéma de sal azul
Uma bruma envolve o meu querer
Há um pronúncio de saudade vinda do sul

O caminhante não tem medo da chuva
A loucura não teme a razão
O ódio é tão parecido com o amor
A palavra amar mora na casa da paixão

Mas...
O estranho tomou-me de assalto
A noite tomou conta do dia
A lua e o Sol enlouqueceram no alto

Atirei a mão na procura do gesto
As Estrelas decidiram morar no Mar
Um anjo descobriu o caminho secreto dos pássaros
O mesmo que levei sete dias para encontrar

Sete são as maravilhas
Sete são os sortilégios encontrados
Sete serão os teus anseios perdidos
Sete são as cidades dos mal-amados

Lagos de fogo e luz
Um golfinho tocador de bandolim
Uma baleia branca a rodopiar no areal
Um cavalo marinho a galope no princípio, zombando do fim

Um homem branco vestido de branco
Um homem negro com desgosto de ser preto
Uma mulher a fazer de conta que o amor é bom
Um homem que não se importa porque lhe dá jeito

E solta-se o desatino
O gozo fugiu de um corpo faminto
Boca que deixa fugir um pedaço de dor
O tempo para por um momento

A quietude invadiu a alma deste pobre poeta
Na passagem beijei a mão a um Vigário
Acordei em sobressalto com amargo gosto na alma
Sonhei que...O Mundo Estava ao Contrário...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

METADES


Chove bem no meio do mar
São de fogo as manhãs na ilha
A seda púrpura é lençol de amantes
Os olhos roubam a virtude à maravilha

Enchi a taça com absinto
Ergui o braço, toquei uma nuvem carmim
Ensaiei um passo de dança
Senti que os pássaros riam de mim

Senti o resto da geada em descalços pés
Calei minha viola de dois corações
Deixei entrar no peito o tamborilar de perdidas gotas
Senti o sabor sal das minhas emoções

Andei, caminhei sem parar no acaso
Esventrei a terra na procura da semente do amor
No barro apenas encontrei mil dúvidas
E num gesto de mão enterrei minha dor

Fiz do meu querer caminhante
Cantarolei melodias sem notas
Inventei os sons por inventar
Senti a liberdade de mil raivas soltas

De tanto andar fui parar à beira-mar
É assim quando o passo não tem destino
Dei por mim a mirar-me numa poça de água
E vi de novo meu rosto de menino

Vi a vida rodar em carrocel
Vi meus sentimentos voarem em corcel azul
Vi tanto rosto terno de vidas perdidas
Uma nuvem acabou com meu ver, vinda do sul

Senti a fria doçura da espuma afagar-me o corpo
Deixei que uma gaivota me tocasse o ombro
Mergulhei no reino de Neptuno com destemor
Uma sereia cantou-me uma canção de assombro

Fui no embalo das eternas vagas
No infinito procurei e encontrei a baía dos meus medos
Um cáis de espera esperava a minha chegada
Não tinha mala, no coração trazia apenas os meus segredos

Sentei-me no meio desta aventura inventada
Percorri com os olhos da alma um jardim de verdades
Descobri finalmente que a palavra amor
Só floresce se semeada em...Metades...

sábado, 23 de janeiro de 2010

O HOMEM QUE EMBIRRA COM AS NÚVENS


Este espesso tapete que cobre a ilha
Arrocha-me a alma, em sobressalto
É pronúncio de mil calamidades
Um negro manto plantado a alto

Sopro no vazio da incerteza
Esta calmaria orvalhada parada no tempo
Esta ansiedade sem ordem para ser ansiada
Este medo inquietante neste momento

Lancei meu grito no vale dos milhafres
Toquei meu tambor de toque que some
Vesti as vestes berrantes de espantalho
Para limpar do céu este negrume

Como pode haver amor no ar?
Como podem as flores vestirem-se de cores?
Como podem ser felizes os pássaros?
Como pode a vida ganhar novos sabores…?

Se este céu nublado continuar assim
Se esta dorida dor continuar cravada em mim
Se este andar de rumo incerto cravado em meu caminhar
Um dia encontrará um princípio sem o fim?

Com estas malditas nuvens, duvido!
Hoje percorri a ilha toda na procura de uma réstia de luz
Onde pára o verde, aquele verde esperança
Onde param as hortênsias que me fazem feliz?

A fruta não medra sem sol
Meu pé de laranja lima esqueceu-se de florir
Um melro negro poisou no basalto negro
Zombou de mim e voou no partir

Invejei-lhe as asas
As penas que colhi na vida não têm cor
Será que o seu cantar na madrugada
É singelo chamamento para o amor

Mas como posso eu amar alguma coisa?
Moinhos de vento que sopram a norte
Velas de barco na dança de salgadas ondas
Redes lançadas na procura da sorte

Cavalos-marinhos, tempestades medonhas
Quantos dores perdidas na tua alma tens?
Todas geradas debaixo deste negro manto
Mesmo sobre a cabeça…Deste homem que embirra com as núvens…

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

QUE MUNDO MEU DEUS


A noite caíu no Mundo
O Sol encolheu seus raios e foi embora
A terra protestou novamente
Uma alma soluça e chora

A noite foi agitada de estranho jeito
Uma dor surgiu do nada, arroxou-me o peito
Caí no escuro das profundezas do sono
Vi surgirem luzes de um brilho incompleto

Vi surgir multidões de gente atordoada
Vi em seus rostos um sofrimento atroz
Vi tantos, tantos que não contei o contar
Vi a vida na partida do chegar

Vi solta a miséria de sorriso miserável
A pobreza esvair-se sem ter um corpo para consumir
Ouvi o som imenso de mil lamentos
Fiquei quedo, aprisionei o grito ao sentir

O troar do trovão, esta incessante chuva
As estrelas choram todas as mágoas na terra
Onde param os Anjos, porque não nos acodem os Santos
O mal e o bem porfiam esta eterna guerra

As casas do sul ruiram todas
Tal como a esperança desesperada
Toquei no rosto de uma criança triste
Senti uma paz surgir do nada

Para onde vai tanta alma de uma só vez?
Para o mesmo céu que se desfez em pranto?
Será que o Deus acolhe todos em seus braços?
Ou será que ser pobre não vale tanto?

Será que ser é ser-se apenas o que é?
De quantos actos se compõe uma vida em sorte?
Será que esta peça foi escolhida por mim?
Será que para este actor no fim vence a morte?

Vence sempre!
Nem sempre o aplauso acontece
O cantador de acasos canta para si
O coração assim palpita, não esmorece

Que noite confusa vivi
Entre o sonho e uma realidade que só eu sei e os meus
Chorei na verdade, na partida de crentes e ateus
Abri os olhos...Que Mundo Meu Deus...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

CAIXA DE SONHOS


Entristeceu o céu na húmida noite
As estrelas esconderam seu brilho tanto
A terra ensopada de teimosa chuva
Alberga um ser que retém um profundo pranto

Mil foguetes rasgam o negrume
Um anjo sorri à loucura do Mundo
Um pássaro dormita no esteio
Um golfinho decide mergulhar no profundo

Este mar que me atrái
Esta chama incandescente do pensamento
Este sentimento agitado pela lembrança
Este homem que pára o querer por um momento

O primeiro dia, a primeira vez
O primeiro passo, o primeiro grito
Uma dor dormente, um esperar aflito
Uma lágrima primeira solta do peito

Solta-se o grito!
Com ele o sonho primeiro carregando a verdade
Direito a um céu pintado do azul mais azul
Ganhei asas no voo, pintei a viagem da liberdade

De olhos fechados ouvi as vozes de ninguém
Os pássaros poisam à minha roda
Não rezo mas falo às flores no fim do dia
Dispo-me das ilusões, de um monte de nada

E tive um sonho!
Mil, um milhão, alguns cheios de firmeza
Tenho-os todos guardados num lugar secreto
Onde não mora a incerteza

Com eles planto canteiros
Faço de espantalho para afugentar descrença
Rego com gotas de emoção cada planta
Só deixo que tape o sol a tua presença

Tenho duas pedras de um cruzeiro
Que fazem de abrigo ao temporal do fim do dia
Não vão os sonhos se espalhar
Não vão eles ocupar uma alma vazia

Dei-te um, lembras-te!?
Que escolhi com ajuda de dois anjos risonhos
Eles não devem nunca ser aprisionados
Apenas guardados numa...Caixa de Sonhos...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

NOITE SERENA


Solto suspiro no incerto do tempo
Voa o pensamento na procura da lembrança
Pequenos olhos, frágeis e ternas mãos
O mundo preso no coração de uma criança

Na noite tudo se perde
Mora a sombra, o desvario
A emoção sobe sempre mais alto
Quando o querer tem a força de um rio

Pés descalços, uma janela virada para o mar
E a tempestade desatina na deserta rua
Tremelicam as luzes na cortina de chuva
Uma casa sem pão, sem calor, nua

Tanjem os sinos na altaneira torre
Cabeças tapadas a véu
Vai nascer o Jesus Menino
Hoje a ilha está mais perto de céu

Hoje o incenso crepitará no lume
A água benzida e santificada
Os cânticos de louvor ecoarão
Não tarda não se ouvirá mais nada

E esta janela meu Deus
E este bravio mar de furiosas vagas
E este saber de tão vago entender
E esta frágil vida gerada de mágoas

E corre a noite, adormece a casa
Na minha cabeça um afago de mão
Fecho os olhos por um instante
No espanto abertos por um clarão

Um formoso menino estava mesmo alí
Tocou de leve o lado esquerdo do meu peito
Olhou-me com um luminoso sorriso
Deixou-me sem fala, sem jeito

Deixou-me no apagar de uma vela
Olhei novamente o mar
A calmaria voltou como por encanto
Mil criaturas inundaram-me o olhar

Golfinhos felizes assobiaram
A cria de uma baleia acenou-me
Uma andorinha do mar poisou no parapeito da janela
Uma maravilhosa e antiga história sussurou-me

As estrelas brilharam no celeste
A Lua estendeu seu manto de fino luar nesta cena
Adormeci na imensidão deste mundo
No embalo de...Uma Noite Serena...

domingo, 13 de dezembro de 2009

CHÃO DE ÁGUA


À volta desta fogueira
Aquecem os corações, almas penadas
À volta desta fogueira ninguém foge
Todos contam lendas de pessoas encantadas

Todos rezam, todos pedem
Que desça o céu à terra
Todos falam de um anjo
Que travou uma santa guerra

Manto de água, mundo verde
Manhãs de sol posto no céu
Às vezes a luz perde-se na noite
À vezes um coração veste um negro véu

Passam os dias, um a um
O tempo marca o compasso do querer
Onde mora a saudade perdida?
Para onde viaja o sonho ao morrer?

Para onde viajam os sonhos pobres?
Para o mesmo céu dos ricos desejos?
Um homem caído interrompe o viver
No levantar renova os seus ansejos

Que mundo este!
Na medida do ouro se mede a criatura
Quanto vale a verdade da palavra sincera
Qua habita numa alma pura?

Interroguei as minhas interrogações
Questionei a minha zanga e ventura
Descansei nesta batalha de contradição
Abri os braços na espera da ternura

Na espera construí um castelo no ar
Areia feita de basalto é de negra cor
Tal como o xaile da mulher da ilha
Feito num tear de amor e dor

Este mar, este vento abafa uma oração
Esta terra fecunda e prenhe de esperança
Esta tempestade que às vezes assola o meu querer
Tem na recordação os dias de bonança

Este dia cinzento e frio
Inundou de humido orvalho a minha pena
Mas o poeta sempre sente mais no triste
Sempre eleva uma alma pequena

Sobe ao infinito do sentimento
Abafa a dor esconde a mágoa
Hoje percorri a ilha descalço
Passo a passo, pisei...Este chão de água...

sábado, 5 de dezembro de 2009

O FEITICEIRO DO VENTO


Sopro esta brisa que percorre as cumeeiras
E arrasto comigo este denso e frio nevoeiro
A noite envolve-me em seu escuro manto
Um milhafre soltou um grito derradeiro

O fogo surgiu do nada
A chama da paixão lambeu uma pedinte mão
Que levou o calor tatuado, abrasador a outra
Duas mãos postas, apontam ao divino uma oração

Na calada da noite despertam os sons
Mil olhos são estrelas na terra
O feitiço da Lua envolve os amantes
O amor tem como pano de fundo doce quimera

Asas são gaiola aberta na liberdade
Agrilhoados são os que ficam na espera
Absinto para os amantes eternos
Cristal voando, chama consumindo a pura cera

Voo de perpétua viagem
A ilha é Universo primeiro
A noite acolhe-me em suas asas
Sou feito de feitiço derradeiro

Vejo, vi tanta criatura a andar no meu caminho
Não vislumbrei o rumo do seu encontro
Um sorriso de profunda bondade tocou-me a alma
O meu ficar no ir faz de mim o outro

Que transforma o sonho em palavra
Mistura as cores com mantra de alquimia
Dança para afugentar a negra magia
Abre os braços ao Sol aprisionando um novo dia

Sou um cantador de notas dissidentes da pauta
A espera das cordas do afago dos dedos
Uma viola de dois corações
O embalo de barco na baía de todos os medos

Sou, serei uma breve história
Uma comédia traçada em poção de Druída
Às vezes um areal de imensa contradição
Outras apenas uma invenção gerada do nada

Bruxo, Curandeiro, protector das almas
Um homem em luta eterna com o tempo
Abri os braços a esta tempestade da alma
Pela brisa da noite fui autorgado...Feiticeiro do Vento...

domingo, 29 de novembro de 2009

ANJO CAÍDO


Ao justo e ao pecador
Deves largar o abraço sincero
Ver neles a verdade do mundo
Varrer da atitude o desespero

É promessa de errantes aromas
O Sol que visitou a manhã
Um pássaro zombeiro falha o voo
E poisa num sítio de terra chã

Porque será que os pássaros
Cantam na partida do dia
Porque será que um amante ausente
Fica de alma apertada, vazia?

Porque será que as ondas lamentam
Em sussuros de sal no areal
Porque será que as rezas são feitas
Para correr para o longe o perverso mal?

Gaivotas varrendo um manto de orvalho
Golfinhos navegando ondas felizes
Um assobio de chamamento ao entardecer
Uma gargalhada solta na algazarra dos petizes

Corri com as águas de um ribeiro
Cavalguei todos os sonhos que inventei
Naveguei num mar inventado por mim
Soletrei baixinho a palavra amei

Subi ao alto, proclamei-me rei
Dei ordem às árvores e depois pensei
Como pode um poeta triste e louco
Dizer ao amor que amar tentei

Como podem estas palavras entrar
Rasgando a alma ao pensador
Como podem os seres infelizes
Enganar a dor com o verbo amor?

Mas esta viagem tão cheia de tormentas
Não tem rumo em cais de espera
Barco sem vela nem leme
Numa tormenta de difuza quimera

Tudo isto porque a caneta enlouqueceu
A mando de um coração doído
Olhei o horizonte imenso de inquietação
Aquí me quedo...Anjo Caído...

domingo, 22 de novembro de 2009

A PARTIDA DO SOL

Lembrarás tu que as manhãs
Acordam da tua luz fugidia
És esperança de perdida estrela
Quem recolhe a dor em Deus confia

Assombração que o luar esqueceu
Nas margens de um lago azul
Hoje passou a voar por mim
A última garça a caminho do sul

Era alva como a espuma do mar
Graciosa como mulher feliz
Voava de encontro ao vento
Com olhar brilhante de petiz

Hoje as gaivotas invadiram a terra
Hoje uma alma esqueceu-se de florir
Hoje é o começo do amanhã do teu querer
Hoje proclamei-te rainha no partir

À Garça?
Ou terá sido a uma triste desventura
Que me ocupou a alma em silêncio
Num soluço de desperta amargura

Mas a alma do poeta
É baía de todas as emoções
Campo de batalhas terríveis
O bater eterno de mil corações

O sentir infinito percorrendo a emoção
O choro chorado de um justo
A brisa solta do arpejo de asas de anjo
Um gesto de pena feito sem custo

Esta pena penada que percorre o papel
Deixa tatuadas as palavras que nunca saberás
A folha continua imaculadamente branca
Sem tinta a palavra encoberta não abraçará o que dirás

Gostava de ver no hoje
Tudo o que o amanhã tem para me dar
Gostava de perpetuar o sonho sonhando
Até que te pudesse encontrar

Mas o sonho corre ligeiro e confuso
Como barco na procura de um atol
Hoje procurei-te Rainha da Claridade
Errantememte até...À partida do Sol...