Imensa funda e impenetrável noite
Onde as trevas soltam gigantes feitos de sombra escura
Caminheiro, caminhante, sem rumo ou vontade
Teu coração e alma serão ungidos com água pura
A virgindade perdida ao travo do cigarro de uma puta
Um marinheiro tonto de arrogante atitude
Duas maçãs podres atiradas à sargeta
Um sorriso estupido a cantar uma peta
Olá deusa Grega caçadora de orgasmos mentais
Olá gente estupidamente contente
Há tanta estupida pessoa que me acha louco
Algumas dizem coisas que me deixam menente
Mas, que é isto?
O poeta descalçou-se em frente à palavra
Mete-me raiva mulheres agrupadas
Não quero ser semente de perversa lavra
Observado pelo mundo ficou ausente o meu nome
Dispersos pedregulhos de silêncio empurraram-me o ficar
Insondáveis são as teias da maldade
Levanto-me todas as manhãs ausente do amar
Na passagem, vi a memória ausente dos teus olhos
Respiro uma estação já morta
No êxodo das manhãs escrevo a raiva
Há um castelo azul com o azar preso à porta
Uma criptoméria tomba contra a fundura do tempo
Escrevo para que não oiçam o clamor desta nua alma
Escrevo para que ninguém se ache nestas palavras
Escrevo para que nunca esmoreça esta minha chama
No caminho do inverno ouvi o grito do bravio mar
Sentei-me de olhos fechados e lembrei alguns pecados meus
Lembrei pessoas que não mereceram o abraço
Lembrei algumas…Filhas de Um Falso Deus…
sábado, 17 de novembro de 2012
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
PEDRA e ÁGUA
Hoje um espelho envelheceu a minha alma
Devorei de raiva o pão da pobreza
Calei-me para melhor ouvir os dias
Escrevi na areia duas palavras, melancolia e tristeza
Desnudei-me à frente das tuas últimas palavras
Ouvi a respiração das eternas estátuas
Entre mim e o teu coração há o clangor das espadas
Conheço o teu nome, a verdade das tuas mágoas
Cinco letras…
Cinco pontas de cadente perdida na aurora
Na loucura de alguns instantes escrevo
Descalço vou adiante num ir longe, embora
Solto das mãos murmúrios sussurrantes
Do basalto explode um bando de pombos bravos, alguns negros
Há um livro branco apenas com a palavra ausência
Há uma carta de marear para um rumo de mil segredos
Flores de solidão crescem em pedaços de fria lava
Um espantalho saltou-me do bolso a remexer
Uma sombra desceu a janela e tocou-me
Cerrei olhos para sentir o que não queria ver
Cobri-me no lume das noites frias
Arderam quietas minhas emoções pungentes
De pássaro me transmutei em alquimia
Num ritual enterrei no barro meus anseios ardentes
Sou um pescador de calmarias
Um apagado trovador perdido da sua sombra
Raras são as pulseiras de pedaços de estrelas
Raras são as palavras de verdade que minha alma lembra
Eles não sabem que “Este Eu” é uma ilha de nostalgia
Uma casa de memória prisioneira da mágoa
Correndo entre o rumor do Mar e a fria bruma
Feito de cru barro, prisioneiro da…Pedra e Água…
Devorei de raiva o pão da pobreza
Calei-me para melhor ouvir os dias
Escrevi na areia duas palavras, melancolia e tristeza
Desnudei-me à frente das tuas últimas palavras
Ouvi a respiração das eternas estátuas
Entre mim e o teu coração há o clangor das espadas
Conheço o teu nome, a verdade das tuas mágoas
Cinco letras…
Cinco pontas de cadente perdida na aurora
Na loucura de alguns instantes escrevo
Descalço vou adiante num ir longe, embora
Solto das mãos murmúrios sussurrantes
Do basalto explode um bando de pombos bravos, alguns negros
Há um livro branco apenas com a palavra ausência
Há uma carta de marear para um rumo de mil segredos
Flores de solidão crescem em pedaços de fria lava
Um espantalho saltou-me do bolso a remexer
Uma sombra desceu a janela e tocou-me
Cerrei olhos para sentir o que não queria ver
Cobri-me no lume das noites frias
Arderam quietas minhas emoções pungentes
De pássaro me transmutei em alquimia
Num ritual enterrei no barro meus anseios ardentes
Sou um pescador de calmarias
Um apagado trovador perdido da sua sombra
Raras são as pulseiras de pedaços de estrelas
Raras são as palavras de verdade que minha alma lembra
Eles não sabem que “Este Eu” é uma ilha de nostalgia
Uma casa de memória prisioneira da mágoa
Correndo entre o rumor do Mar e a fria bruma
Feito de cru barro, prisioneiro da…Pedra e Água…
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
AMARGO NOVEMBRO
São mudas as neblinas nesta ilha
É de pobreza o pão que alimenta o meu sentir
Oiço o mar com os meus próprios dedos
Parti do desencontro dos meus derradeiros medos
Parti e deixei no cais mil dúvidas
Lembrei tempos que corri feliz pelas amoras
Nesses dias bebi sofregamente a vida
Nesses dias a minha alegria era incontida
Estou ausente do amor e desta terra
As memórias secaram numa lagoa inventada
Este barco que me carrega em solidão
Sem trégua será o resto desta história inacabada
Entre mim e o amor existe dúvida e dor
Frias são as pedras de uma casa sem o branco da cal
Este Inverno espalhou presentes dourados sem valor
Este fogo sem chama, este ardor, este frio de falso calor
Sou uma Garça perdida na areia
Anoiteceu no meu olhar
Perdi as penas, perdi-me na terra das ilusões
Perdi-me no mar num sonho que não quero acordar
Já não há música para fazer crescer alegria dos meus gestos
Já não há cores para fazer obra que preste
Já não há alma guerreira para ouvir o que dizem os dias
Já não há lembrança de Primavera neste vento agreste
Eriçado matagal de espinhos
Olá pobreza das estéreis vinhas
Olá gente descrente deste desbotado retrato
Olá palco onde deixei tantas emoções minhas
Apenas resta a brancura dos meus sentires
E pequenas coisas que ainda lembro
Quero apenas ter nos olhos o silêncio
E adormecer neste…Amargo Novembro…
É de pobreza o pão que alimenta o meu sentir
Oiço o mar com os meus próprios dedos
Parti do desencontro dos meus derradeiros medos
Parti e deixei no cais mil dúvidas
Lembrei tempos que corri feliz pelas amoras
Nesses dias bebi sofregamente a vida
Nesses dias a minha alegria era incontida
Estou ausente do amor e desta terra
As memórias secaram numa lagoa inventada
Este barco que me carrega em solidão
Sem trégua será o resto desta história inacabada
Entre mim e o amor existe dúvida e dor
Frias são as pedras de uma casa sem o branco da cal
Este Inverno espalhou presentes dourados sem valor
Este fogo sem chama, este ardor, este frio de falso calor
Sou uma Garça perdida na areia
Anoiteceu no meu olhar
Perdi as penas, perdi-me na terra das ilusões
Perdi-me no mar num sonho que não quero acordar
Já não há música para fazer crescer alegria dos meus gestos
Já não há cores para fazer obra que preste
Já não há alma guerreira para ouvir o que dizem os dias
Já não há lembrança de Primavera neste vento agreste
Eriçado matagal de espinhos
Olá pobreza das estéreis vinhas
Olá gente descrente deste desbotado retrato
Olá palco onde deixei tantas emoções minhas
Apenas resta a brancura dos meus sentires
E pequenas coisas que ainda lembro
Quero apenas ter nos olhos o silêncio
E adormecer neste…Amargo Novembro…
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
O PALÁCIO DA VENTURA
Sonhei que sou um cavaleiro andante
Por passos e pancadas estremecendo
Por sois e mares de ausente cor
Sonhei que carregava do mundo toda a dor
Sonhei com multidões e risos
Com folhas secas espalhadas na boca
Com um arpão vestido de morte
Sonhei com quatro folhas de um trevo sem sorte
Sou um pobre sonhador…
Atormentada mente no esquecimento do mar brincando
Desnudando palavra a palavra
Da narrativa de um amor perdido
Sou apenas um pássaro de silêncio
Gente, pessoas, gritos, contradições
Cólera, mentiras e falsas verdades
Esta raiva, este peito envolto em negras orações
Não acredito em ninguém!
Perdi sentimentos, sinto tão pouco
Porque será que todos acham que não valho nada
Que sou apenas um pobre louco
Pois, que angústia esquelética
Insano é este tempo que me fala da traição
Violentas são as palavras de um poeta caído
Desbotadas estão as cores da paixão
As ruas estão escuras da luz
As pedras choram aos pés deste caminhante
São de revolta as pétalas de uma rosa breve
São de pano-cru as vestes desta alma de nigromante
Mais uma vez divaguei pelas palavras que encontrei
A loucura afugentou o que restava da ternura
Coroei-me de rei-bobo em pose de tolo
E adormeci no…Palácio da Ventura…
Por passos e pancadas estremecendo
Por sois e mares de ausente cor
Sonhei que carregava do mundo toda a dor
Sonhei com multidões e risos
Com folhas secas espalhadas na boca
Com um arpão vestido de morte
Sonhei com quatro folhas de um trevo sem sorte
Sou um pobre sonhador…
Atormentada mente no esquecimento do mar brincando
Desnudando palavra a palavra
Da narrativa de um amor perdido
Sou apenas um pássaro de silêncio
Gente, pessoas, gritos, contradições
Cólera, mentiras e falsas verdades
Esta raiva, este peito envolto em negras orações
Não acredito em ninguém!
Perdi sentimentos, sinto tão pouco
Porque será que todos acham que não valho nada
Que sou apenas um pobre louco
Pois, que angústia esquelética
Insano é este tempo que me fala da traição
Violentas são as palavras de um poeta caído
Desbotadas estão as cores da paixão
As ruas estão escuras da luz
As pedras choram aos pés deste caminhante
São de revolta as pétalas de uma rosa breve
São de pano-cru as vestes desta alma de nigromante
Mais uma vez divaguei pelas palavras que encontrei
A loucura afugentou o que restava da ternura
Coroei-me de rei-bobo em pose de tolo
E adormeci no…Palácio da Ventura…
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
CREPUSCULO
Não voam anjos pelos cantos da tua casa
Não preciso inventar mais a terra
Sopram ventos de melancolia
Transparente é o cinza que a tua alma encerra
A minha pobreza é a falta de um par de asas
Encontrei um lugar de reinvenção das sombras
Pensei virar as costas ao tempo e ao deslumbramento
E aí houve estranhamente o amanhecer das minhas palavras
Procurei na memória corredores esquecidos
O esquecido segredo das penumbras
Mas há palavras que me aprisionam à realidade
Este arrochar de alma, estas frias brumas
O orvalho das manhãs é poesia de água
Soltei um grito preso na força da minha voz muda
Deixai-me criar epitáfios em barcos naufragados
Deixai-me ser o personagem sem rosto de uma perdida lenda
Por maldições meu corpo é árvore solitária
Ventos fortes, mares estranhos, perdidas águas
Quero esculpir o ruído do silêncio
E fazer um rosto de cravadas mágoas
No canto da rua sou vagabundo bebendo a vida
Uma hortência que se inclina sobre a terra nua
Uma oração nos olhos parados de um homem sentado
Uma casa de branca cal de uma ausente rua
Há quem beba a vida de um só trago
Este absinto tem a sabor do fel
Não há sol que aqueça o terror da solidão
Não há no sal da maresia a quentura do mel
Este é o poema que a mim mesmo não prometi
Escrevi-o no primor do escrito maiúsculo
No Palácio carbonizado do poema
Gravei o último raio de um perdido...Crepúsculo...
Não preciso inventar mais a terra
Sopram ventos de melancolia
Transparente é o cinza que a tua alma encerra
A minha pobreza é a falta de um par de asas
Encontrei um lugar de reinvenção das sombras
Pensei virar as costas ao tempo e ao deslumbramento
E aí houve estranhamente o amanhecer das minhas palavras
Procurei na memória corredores esquecidos
O esquecido segredo das penumbras
Mas há palavras que me aprisionam à realidade
Este arrochar de alma, estas frias brumas
O orvalho das manhãs é poesia de água
Soltei um grito preso na força da minha voz muda
Deixai-me criar epitáfios em barcos naufragados
Deixai-me ser o personagem sem rosto de uma perdida lenda
Por maldições meu corpo é árvore solitária
Ventos fortes, mares estranhos, perdidas águas
Quero esculpir o ruído do silêncio
E fazer um rosto de cravadas mágoas
No canto da rua sou vagabundo bebendo a vida
Uma hortência que se inclina sobre a terra nua
Uma oração nos olhos parados de um homem sentado
Uma casa de branca cal de uma ausente rua
Há quem beba a vida de um só trago
Este absinto tem a sabor do fel
Não há sol que aqueça o terror da solidão
Não há no sal da maresia a quentura do mel
Este é o poema que a mim mesmo não prometi
Escrevi-o no primor do escrito maiúsculo
No Palácio carbonizado do poema
Gravei o último raio de um perdido...Crepúsculo...
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
EU PESSOA ME CONFESSO
Se o mar adormecer em desvario
As ondas não mais se formarem
Se as gaivotas se perderem do ninho
As árvores mais altas tombarem
Se o dia não encontrar a manhã
As nuvens deixarem de chorar água pura
Se as pedras da ilha roubarem a cor ao verde
As tuas palavras deixarem de ser raiva dura
Tantos “ses”
Tanta loucura encoberta em preconceito
Tanta lama vertem certas bocas
Tanta pequenês vestida de despeito
Isto hoje nada bate certo
Este poeta sem rima não passa de uma cabeça esperta
A poesia sem nostalgia é apenas palavra seca
Um número vezes dois às nem sempre é conta certa
Pois é, a metáfora pregou-me uma partida
Decidiu dar uma volta por achar que esta poesia era torta
Jamais terei vontade de me encontrar com a ternura
Na puta da vida nunca encontrei gente pura
Encontrei negromantes, máscaras e outras tontices
Gente ornamentada de tolices e outras mafarriquices
Gente contente por ter a alma cheia de vento
E um gajo enganado no rumo certo
Encontrei-me com aquilo que julguei ser o amor
Desencontrei-me na voragem da maldade
Juro que nunca marquei encontros com a estupidez
Juro pelas alminhas que perdi o rumo da saudade
Sem rumo mas com altivez e aprumo
Com uma caixinha minha e não de pandora
Onde guardo um pacto divino
Onde permanece apenas um sentimento que nunca foi embora
Que raio de lenga-lenga urdi para aqui
Ás vezes o que sou esqueço
Hoje deu-me para esta disparateira
Eu Pessoa me Confesso
As ondas não mais se formarem
Se as gaivotas se perderem do ninho
As árvores mais altas tombarem
Se o dia não encontrar a manhã
As nuvens deixarem de chorar água pura
Se as pedras da ilha roubarem a cor ao verde
As tuas palavras deixarem de ser raiva dura
Tantos “ses”
Tanta loucura encoberta em preconceito
Tanta lama vertem certas bocas
Tanta pequenês vestida de despeito
Isto hoje nada bate certo
Este poeta sem rima não passa de uma cabeça esperta
A poesia sem nostalgia é apenas palavra seca
Um número vezes dois às nem sempre é conta certa
Pois é, a metáfora pregou-me uma partida
Decidiu dar uma volta por achar que esta poesia era torta
Jamais terei vontade de me encontrar com a ternura
Na puta da vida nunca encontrei gente pura
Encontrei negromantes, máscaras e outras tontices
Gente ornamentada de tolices e outras mafarriquices
Gente contente por ter a alma cheia de vento
E um gajo enganado no rumo certo
Encontrei-me com aquilo que julguei ser o amor
Desencontrei-me na voragem da maldade
Juro que nunca marquei encontros com a estupidez
Juro pelas alminhas que perdi o rumo da saudade
Sem rumo mas com altivez e aprumo
Com uma caixinha minha e não de pandora
Onde guardo um pacto divino
Onde permanece apenas um sentimento que nunca foi embora
Que raio de lenga-lenga urdi para aqui
Ás vezes o que sou esqueço
Hoje deu-me para esta disparateira
Eu Pessoa me Confesso
sábado, 24 de março de 2012
A LOJA DAS TENTAÇÕES

São de açúcar os sonhos de uma criança
São de algodão as nuvens que vi esta manhã
São de sal os diamantes do colar que te dei
São verdadeiros os sentimentos que pareceram palavra vã
Uma boneca de olhos que abrem de espanto
Um cavalo de madeira perdido do carrossel
Um cálice cheio de berlindes de vidro
Uma mascara de palhaço pintada a pincel
Um pião que ganha vida
Uma corda para saltar bem comprida
A trotineta jaz num canto partida
Um coração recorda uma dor esquecida
E abre-se uma caixinha de madrepérola
A bailarina rodopia imponente mais uma vez
A melodia despertou a ternura
Uma alma desnudou-se para mostrar ser pura
O amor floresceu no sótão
Um colo foi conforto de imensa saudade pura
Uma cópula foi intensa vertigem
Umas unhas cravaram-se num misto de luxúria e candura
Os braços de madeira abraçam com força
Um pai natal caiu de uma prateleira
Vale meio tostão uma estúpida opinião
Vale um milhão, uma lembrada sensação
Não vale nada a puta da vida!
Às vezes tenho um profundo ódio pelas pessoas
Às vezes dou por mim a comparar
Às vezes há pessoas à venda para comprar
Agora sem querer senti raiva
Já voltei à condição de bom rapaz
Passou depressa essa sensação
Voltei a encher a alma de paz
Estava a falar de brinquedos de criança que não tive
Tive estaladas, muita luta na viagem e alguns sermões
Mas tive e tenho todos os sonhos para sonhar
Embora às vezes pare na montra da…Loja das Tentações…
domingo, 18 de março de 2012
DAMA DE OUTONO

O meu pranto escondeu as sílabas de uma palavra
O meu céu não precisa de Sol para ser azul
A minha emoção transbordou nesta clara manhã
Tal como as incontidas águas que correm para sul
Este Inverno que o meu querer instaurou
Tem o rosto coberto por densa bruma
Tem a força de todas as marés esta emoção
Que devolvi hoje à espuma
Soltei os sentidos na procura do sentir
Agarrei as crinas de uma teimosa ventania
Cavalguei uma nuvem que adormeceu no alto de uma cumeeira
Parei para chorar uma árvore que no chão jazia
As flores despertaram mais cedo
De um sono aprisionado em mil noites de solidão
Aromas selvagens inundam a ilha
Evocando uma perdida paixão
Apaixonadamente um pássaro cantou na madrugada
O aplauso das folhas obedece ao querer do vento
Onde dormem as gaivotas ao fim do dia?
Onde dormem os barcos em que há tempos eu partia?
Parto em cada anseio
Numa viagem com o nome de solidão
Não sei se são de mortas folhas este caminho
Só sei que é de frio barro este chão
E rio, soltando uma louca gargalhada
E voo sem medo do cair
E aprisiono uma amargura sem sentido
E sinto que a distância é o fim do partir
E fico ficando sem querer ficar
Fecho os olhos e vejo a cor do desengano
No vestido de perdidas cores
De uma…Dama de Outono…
domingo, 11 de março de 2012
LUZ DA VELA

Hoje criei um passo de Cristo
Solicitei uma Verónica à canção
Senti a emoção de uma multidão
Olhei uma Virgem de destroçado coração
Que conversa poética dirão ou pensarão
Mas foi assim que tudo aconteceu
Pediram-me para fazer um espectáculo
Em que o artista era Jesus e a vida perdeu
Hesitei mil vezes na coreografia
Um Romeiro repetia que a cruz era para arrastar
Os soldados para maltratar
Maria Madalena para amar
Amar…
Amei cada palavra da canção que decidi
Cada movimente de actores puros
Um misto de emoção e alegria senti
Amar…
Esta é uma espécie de sina ouro
Sentir a vida como um pássaro
Que colhe uma semente como tesouro
A banda tocou tristeza acompanhar
As opas eram de cor púrpura
Quanta devoção meu Deus
Na alma de gente que a fé procura
Às vezes perco a fé
Às vezes a demanda é maior que o guerreiro
Às vezes chego depois de ter passado a maldade
Às vezes a dúvida chega primeiro
Mas sou feliz, às vezes como um petiz
Foi assim que hoje me senti ao encenar
O encontro de uma Mãe e um filho
Que transformaram dor em verbo amar
A procissão passou no longe
Abandonei aquela Vila, mas antes orei numa capela
Pedi que o meu sonhar voasse para lá da maldade
Num altarinho bruxuleava a…Luz da Vela…
segunda-feira, 5 de março de 2012
QUATRO ESTAÇÕES

São de sol os limões de Abril
As águas correm na sua eterna viagem
Este azul que pinta a ilha tem cores mil
O tempo engole a vida em alucinada voragem
Uma estação para cada ano
Um ano para cada paixão
Um voo para o horizonte e mais além
Um firme bater de apenas um coração
Nunca dorme o Mar
A luz é companheira da aurora
Sempre soube que a saudade não morre da idade
Às vezes fico na vontade de ir embora
Às vezes sinto uma força divina
Uma fome de trigo e utopia
Às vezes caso os sentimentos com a terra
É no mar que adormeço na maresia
E foram quatro, oito, sete
E foram finais e fins do dia
Foram campos de uvas doces
Foi felicidade de alma que só sofria
Atirei mil raivas ao céu
Rasguei o azul desta tela desbotada
Enfrentei os receios da morte ao passar por mim
Caí, mas ergui-me de corpo e alma amarrotada
Quantas estações tem um coração?
Há gente que vive num longo e infinito inverno
Há gente que diz que não valho grande coisa
Que importa o que dizem deste poeta terno
Serei demiurgo de uma comédia escrita por tontos?
Nada sou, serei nada no vazio de uma estação qualquer
Quanto ódio às vezes sinto brotar de seres vazios
Quanta gente que não sabe ser homem, mulher
As vezes choro só
Faço brotar a cada lágrima sonhos aos milhões
Pinto de todas as cores o caminho que percorro
Porque é a penas uma a paixão em…Quatro Estações…
quinta-feira, 1 de março de 2012
MÃOS QUE TOCAM
Toquei a entrada para um labirinto
Bebi num trago um cálice de absinto
Senti o frio de uma pedra negra
E uma criatura convencida que minto
Vendei meus olhos para sentir melhor
Briguei com a minha vontade furiosa
Há um tempo em que tudo irradia luz
Há quem sem ser sente ser esposa
Há quem ame sem saber a razão
Há um perdão para cada pecado
Há uma absolvição para o justo
Há um coração que nasceu assombrado
E depois vem apressada a vida
Encostando à alma um cínico relógio
São sete os minutos para um homem provar ser deus
São de pedra alguns corações ateus
Uma cortina de luz percorre o instante
Um relâmpago rasga o profundo descrédito
Um mar calmo aprisiona a solidão
Um tanso diz “no amor acredito”
Vejam lá isto que de poesia nada tem
Um poeta a falar de si ou de alguém
A loucura não tem como alvo a razão
Uma boca impura tem o sabor a desdém
Mas espera aí
As minhas palavras decidiram ser elas próprias
A minha alma uma porta que perdeu a chave
E a poesia ser traços sem cor em folhas já mortas
Há sempre alguém no encontro destas palavras
Há sempre um encontro no desfazer do labirinto
Há sempre alguém que se veste de contradição
Há sempre alguém que engole o sim para dizer não
E há o amor
Dito em palavras que da alma escapam
Há um infinito sentir que tão poucas vezes acontece
Há tanta verdade em umas…Mãos que Tocam…
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
VISIONÁRIO

Sou um descrente de gente
Um ser apressado na rota da vida
Alguém que não sabe exprimir alguns sentires
Que no peito arrocha esta dor sentida
Segui o balanço deste barco de papel
Segui uma gaivota a caminho do norte
Segui uma vaga que me salpicou com espuma
E desisti deste seguir numa toada de vento forte
Fechei os olhos para ver os contornos de uma lembrança
Lembrei os aromas de uma manhã em branca areia
Senti as cores de uma acácia rubra
Senti no corpo as águas de uma maré cheia
Mergulhei num Mar de lusas lembranças
Encontrei um cavalo marinho de chapéu de coco
Fez-me uma vénia de escárnio
Esqueci o respirar no encontro de uma baleia boto
E a loucura, minha fiel companheira
Empurrou-me mais fundo para o vale do absurdo
Veio ao meu encontro um anjo-do-mar
Tocou-me a razão e fiquei mudo
Também já não lidava nada bem com a palavra
Os sons ferem-me a alma ao seu toque
Deixei que me descobrissem de todos os pesares
E uma raia acordou-me desta coisa tonta com um forte choque
Com toda esta confusa demanda nem sei onde fui parar
Que importa o sítio quando não se quer chegar
Que importa abrir a alma a um descrente
Que não constrói um mantra por não saber rezar
Que importa deixar de fazer da palavra uma construção
Uma corrente que se desprende da palma de uma mão
Se as grilhetas não tocam numa alma livre
Se a verdade é mentira e a dúvida a máscara da razão
Às vezes dá-me para isso
Escrevo sem tino nas águas de estuário
Espero que ninguém me ligue ou dê importância
Sou apenas um pobre louco…Visionário…
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
TABU

Soltam-se os trincos da memória
Apagou-se um sorriso na minha lembrança
O dia perdeu-se na noite em assombração
As ondas no mar pararam sua dança
Às vezes o meu olhar enche-se de certezas
No meu peito pára este apressado querer
As mãos mergulho em água fria
Esta sede está morta sem saber
Morrem as mágoas na areia
Uma mortalha de espuma cobre um último pesar
Uma boca foi cosida a ferro rubro
Para não mais soltar a palavra amar
Corri num manto verde numa procura
Tropecei num Duende medroso mais morto que vivo
Desventrei a terra na procura de um peixe azul
E encontrei com quatro folhas um rubro trevo
Estou sempre a encontrar coisas estranhas
Uma vez encontrei um anjo alucinado
Uma mulher que disse ser dona da paranóia
E até uma fogueira de fogo acabado
Encontrei as cores todas que o olhar permitiu
Um ser que mostrou os dentes e nunca riu
Um monstro de sete cabeças irado
E um barco afundado que nunca partiu
Encontrei aquilo que achava ser o amor numa aurora
Fiz amor com amor como se fosse demanda
Fiz uma peça em que no fim ninguém ficava
Encontrei uma criança feia que achei linda
Tive um encontro com um Deus colérico
Que me falou no cínico ser que eras tu
Fechei a porta do vale dos lamentos
E fiz deste poema um… Tabu…
sábado, 11 de fevereiro de 2012
A DESCRENÇA DE UM DEUS

Nem sempre vemos passar a virtude
Nem sempre a estupidez tem rosto
Nem sempre a saudade dura para sempre
Nem sempre a paixão acaba em desgosto
Cumprimentei hoje um assobiador
Ouvi uma voz cantar a minha música
Abri a alma à emoção contida ao lembrar
Que a escrevi numa tarde de calmaria
Passei por uma criatura de mãe estendida
Há bocas que pedem pão em oração
Há gente que vira as costas de forma tonta
Há gente que tem uma falsa emoção
Há crentes e descrentes
Palhaços, fantoches e foguetes para arraial
Caminho para caminhadas e erva para fumar
Um sentimento de pena que nada leva a mal
Barracas, bandas e outras tangas
Vigaristas disfarçados de gente séria
Professores disfarçados de professores
Uma riqueza que foge à miséria
E há os meninos de coro
Os bestiais que detestam as bestas
Olhos que choram sal sem cor
Peitos vazios de puro amor
Encontrei três anjos no caminho de casa
Um triste, um alegre e outro adormecido
Colhi de uma árvore morta
O sentimento não querer estar contigo
Agarrei na pena e amarrotado papel
E lavrei estes desabafos meus
Descri hoje mais uma vez das cores do Mundo
E vi no rosto de um pedinte…A descrença de um Deus…
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
PINTOR

Pintor nascido na ilha
Pintas Anjos negros e céus de rubra cor
Os olhos que choram não mentem
Um coração sincero transborda a dor
Hoje o céu menstruou ao findar do dia
O sul sossegou em calmaria
Há tanto que não te ouvia
Neste chegar adormeci e sonhei que partia
Um cavalete na espera de alva tela
Uma paleta com as cores do rubor
Um corpo nu, presente de uma deusa
Que faz do sortilégio um momento de amor
Negros intensos, terras aprisionadas num tubo
Olhos que reflectem um dom
Já me disseram que tinha um, talvez mais um
Não sei se é mau ter algo assim, ou bom
Tenho na alma um cofre de palavras
Tenho uma palavra que nunca direi a ninguém
Tenho uma janela entre dois mundos
Tenho um sonho em que nunca vejo o rosto de alguém
Conheço a assobiadora força do vento
Um caminho secreto onde não há marca de passos
O ribombar da vaga na pedra submissa
Um mágico que transforma um sorriso em dois palhaços
Conheço amargura, tem a cor da terra pura
A tristeza com pinceladas de incerteza
Um arco-íris feito de sol e chuva de uma perdida nuvem
Uma tela só com desenho ao calha, mal talhado em beleza
Rasguei esta tela onde pintei sete vidas
Sete corações a latejar em manto de cetim azul
Sete orações que aprendi numa igreja de negra pedra
Sete casas, uma delas, virada a sul
E derramei todas as cores no Mar
A espuma prendeu apenas uma cor
As outras foram engolidas pelo azul
Amordaçou as mãos e o querer, este…Pintor…
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
A ETERNIDADE E MAIS UM DIA

Chove de mansinho no barro
Frios são os pensamentos neste fim de dia
A ilha escureceu em sobressalto
A bruma envolveu tudo num manto de nostalgia
Os acordes de uma guitarra afagaram meu peito
Um pássaro esqueceu-se de voltar ao ninho
Uma Mãe olha embevecida um catraio
Que acolhe em sua boca um seio que transborda carinho
É uma incontida força o amar
Amor é palavra usada sem preconceito
Umas vezes usada apenas pelo desejo
Às vezes nem eu a sei usar de jeito
Eu não uso a palavra amar
Não sei amar de palavra vestido
Sei apenas que quando amo
Solto o imenso, o todo
Sei lá o que sei!
Parece-me saber muito sem saber porquê
Sei mundo, céus e pequenos infernos
Sei sabendo de olhos cerrados o que a alma vê
As pedras são mesmo pedras
Quando alguém as atira para magoar
As flores são sempre belas
Quando dão cor ao verbo amar
Vou esperar por uma onda que sei
Vir do norte em busca da pedra que sou
Vou esperar pelas buganvílias rubras
Vou sentir o sal da maresia no sítio onde estou…
Numa restinga de negro basalto
Onde as gaivotas fazem ninho
Onde as tempestades adormecem
Onde já vi dois amantes envoltos em carinho
Vou ajudar uma alma aprender a sentir
Uma paixão ganhar cor sem ter companhia
Vou ensinar uma criança pobre a sorrir
E transformar…A Eternidade em mais um dia…
domingo, 15 de janeiro de 2012
SOM DO CORAÇÃO

Não sou um pintor
Apenas um salteador das cores perdidas
Não sou um artista como dizem
Apenas alguém que dá forma às dores sentidas
Imagino um mundo onde existam mil cores
Um céu que as derrama aos olhos
Um mar onde os peixes se pintem a seu bel-prazer
Um campo com papoilas negras aos molhos
De negro se pintam às vezes certas almas
A ausência da cor é o abandono ao amor
A noite aprisiona-as em seu manto
Na noite os passos não deixam rasto nem dor
E estes sons que me entram à alma
Estes chilreados estridentes na manhã
Esta melodia breve e triste
Esta letra sem voz, palavra vã
Esta rubra lava que transborda meu sonhar
Este verde que conheço de tantos tons
Esta canção perdida no cofre da lembrança
Este nevoeiro da lagoa de sete tons
Nunca serei um tocador
Nunca sentirei a vibração das cordas ao ouvido
Nunca desisti de tocar a vida à minha maneira
Nesta minha pauta de letras que duvido
Talvez um cantador, rasgando madrugadas
Talvez uma pálida estrela na procura de perdida cor
Talvez o fruto amargo de uma árvore sem flor
Talvez os sons de uma balada de desamor
Talvez…
Eu que sou alguém de sim ou não
Eu que me esqueço às vezes de sentir
Esta minha musica…O Som do Coração…
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
MARÉ DE FOGO

Cheguei ao lugar onde se cruzam as palavras
À casa dos desejos que ninguém acreditou
Sentei-me numa cadeira inventada
Aprisionei meu pensamento e aqui estou
Aqui estou no limiar do credo nas pessoas
Na condição de justo vestido de injusto
No rosto uma máscara inventada por alguém
Arrochando ao peito a razão a muito custo
A poesia às vezes sabe-me a porcaria
As palavras a uma estúpida melodia
As convicções a um negro céu em ironia
E tu a uma farsa que me pareceu magia
Quando digo tu, falo de mim, para mim
Nada de confusões nesta indigestão poética
Hoje a musica sabe a desafinanço enlouquecido
Gerado numa alma patética
Pois é, palhaço ou profeta
Escolha lá se faz favor meu senhor
Umas vezes sou o génio cá da rua
Outras um perfeito estupor
Um anátema preso num baú
Um actor mudo que chora de si
Uma comédia de enganos menor
Um ir, voltar, o longe, o aqui
Conheço todos os verdes da ilha
O lado escuro da maravilha
Uma saudade que se perdeu com a idade
Uma aurora que morreu de velha
Conheço também uma história engraçada
De um homem que durante toda a vida não disse nada
Quando morreu não soube onde era o céu
Ficou na ilha como alma penada
De penas pois se vestem certas almas
Uma verdadeiras, outras um logro
Dormitei para aí cerca de um minuto
E acordei nesta…Maré de Fogo…
domingo, 8 de janeiro de 2012
O NOME DA ROSA

O relógio marca o tempo que passou
Suas engrenagens são rodas de magia
Um alquimista tenta enganar o tempo
Um profeta arrocha no peito a nostalgia
Sonhei com uma criança de mão estendida
Vi em seus olhos mais falta de amor do que de pão
No acordar procurei desvendar esse sonho
Não consegui, talvez algo guardado no coração…
…Este coração
Esta força que há em mim guardada em meu peito
Esta chama incandescente
Este desajeitado ser imperfeito
Este homem que olha o amor envolto em bondade
Este fazedor de tempestades de saudade
Este caminhante sem cavalo ou espada
Esta espera pintada de serenidade
Esta maçã presa na garganta
A procura do pecado pela absolvição
Este mar negro sem fundo de esperança
Esta maré que renova a paixão
A maresia continua bonita na tempestade
Sinto que um dia voarei feito vento
Ainda sinto na mão a frieza dos brandais
Ainda sinto que no tempo farei tanto mais
Farei das palavras um universo de vida
Farei tocar todos os sinos da terra
Cavalgarei estrelas e aportarei planetas
Serei paladino em santa guerra
Vou mudar o curso do relógio
Retroceder até uma pequena e humilde casa
Ouvir uma meiga voz dizer, meu armando, meu amor
E lembrar por fim…Do Nome da Rosa
domingo, 1 de janeiro de 2012
A TORRE DOS DESEJOS

O Mar não parou no troar dos foguetes
O céu ficou mais pobre com a subida da falsa luz
Um anjo acordou de um sonho divino
Na terra um olhar falso encena o seduz
Nunca acaba o amor impossível
Dura uma eternidade
Reverbera em todas as constelações
E viaja num barco com asas de nome saudade
Nunca acaba a chegada de uma nova onda
O vento volta sempre a este lugar
Uma vela bruxuleia iluminando o caminho da fé
Um coração soletra baixinho o verbo amar
Quando cai uma estrela a Lua esmorece
O morrer de um dia é prenúncio de nova aurora
O atravessar de um caminho fugindo à ternura
É um ficar na página de um livro de mágica história
Não há magia na crueldade de umas mãos
Nunca encontrei verdades num caminho de soltas pedras
Nunca naveguei no estuário de uma lagoa
Nunca esculpi a palavra nestas areias negras
Sou um insano sonhador de profecias patetas
Paladino do amor, força e fraqueza anel ante
Mensageiro que guarda a mensagem ao descrédito
Homem, arcanjo ou necromante
Sei lá!
Eu que tudo sei e invento o não saber
Eu que solto todos os dias a alma ao colo da brisa
Eu que percorro o “Cosmos” sem ter de correr
Eu que partilhei o sopro da vida com algumas almas
Recebi na viagem, verdadeiros e falsos beijos
Ergui com palavras de suprema melodia uma construção
E aprisionei a alma…Na Torre dos Desejos…
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