segunda-feira, 5 de março de 2012

QUATRO ESTAÇÕES


São de sol os limões de Abril
As águas correm na sua eterna viagem
Este azul que pinta a ilha tem cores mil
O tempo engole a vida em alucinada voragem

Uma estação para cada ano
Um ano para cada paixão
Um voo para o horizonte e mais além
Um firme bater de apenas um coração

Nunca dorme o Mar
A luz é companheira da aurora
Sempre soube que a saudade não morre da idade
Às vezes fico na vontade de ir embora

Às vezes sinto uma força divina
Uma fome de trigo e utopia
Às vezes caso os sentimentos com a terra
É no mar que adormeço na maresia

E foram quatro, oito, sete
E foram finais e fins do dia
Foram campos de uvas doces
Foi felicidade de alma que só sofria

Atirei mil raivas ao céu
Rasguei o azul desta tela desbotada
Enfrentei os receios da morte ao passar por mim
Caí, mas ergui-me de corpo e alma amarrotada

Quantas estações tem um coração?
Há gente que vive num longo e infinito inverno
Há gente que diz que não valho grande coisa
Que importa o que dizem deste poeta terno

Serei demiurgo de uma comédia escrita por tontos?
Nada sou, serei nada no vazio de uma estação qualquer
Quanto ódio às vezes sinto brotar de seres vazios
Quanta gente que não sabe ser homem, mulher

As vezes choro só
Faço brotar a cada lágrima sonhos aos milhões
Pinto de todas as cores o caminho que percorro
Porque é a penas uma a paixão em…Quatro Estações…

quinta-feira, 1 de março de 2012

MÃOS QUE TOCAM


Toquei a entrada para um labirinto
Bebi num trago um cálice de absinto
Senti o frio de uma pedra negra
E uma criatura convencida que minto

Vendei meus olhos para sentir melhor
Briguei com a minha vontade furiosa
Há um tempo em que tudo irradia luz
Há quem sem ser sente ser esposa

Há quem ame sem saber a razão
Há um perdão para cada pecado
Há uma absolvição para o justo
Há um coração que nasceu assombrado

E depois vem apressada a vida
Encostando à alma um cínico relógio
São sete os minutos para um homem provar ser deus
São de pedra alguns corações ateus

Uma cortina de luz percorre o instante
Um relâmpago rasga o profundo descrédito
Um mar calmo aprisiona a solidão
Um tanso diz “no amor acredito”

Vejam lá isto que de poesia nada tem
Um poeta a falar de si ou de alguém
A loucura não tem como alvo a razão
Uma boca impura tem o sabor a desdém

Mas espera aí
As minhas palavras decidiram ser elas próprias
A minha alma uma porta que perdeu a chave
E a poesia ser traços sem cor em folhas já mortas

Há sempre alguém no encontro destas palavras
Há sempre um encontro no desfazer do labirinto
Há sempre alguém que se veste de contradição
Há sempre alguém que engole o sim para dizer não

E há o amor
Dito em palavras que da alma escapam
Há um infinito sentir que tão poucas vezes acontece
Há tanta verdade em umas…Mãos que Tocam…

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

VISIONÁRIO


Sou um descrente de gente
Um ser apressado na rota da vida
Alguém que não sabe exprimir alguns sentires
Que no peito arrocha esta dor sentida

Segui o balanço deste barco de papel
Segui uma gaivota a caminho do norte
Segui uma vaga que me salpicou com espuma
E desisti deste seguir numa toada de vento forte

Fechei os olhos para ver os contornos de uma lembrança
Lembrei os aromas de uma manhã em branca areia
Senti as cores de uma acácia rubra
Senti no corpo as águas de uma maré cheia

Mergulhei num Mar de lusas lembranças
Encontrei um cavalo marinho de chapéu de coco
Fez-me uma vénia de escárnio
Esqueci o respirar no encontro de uma baleia boto

E a loucura, minha fiel companheira
Empurrou-me mais fundo para o vale do absurdo
Veio ao meu encontro um anjo-do-mar
Tocou-me a razão e fiquei mudo

Também já não lidava nada bem com a palavra
Os sons ferem-me a alma ao seu toque
Deixei que me descobrissem de todos os pesares
E uma raia acordou-me desta coisa tonta com um forte choque

Com toda esta confusa demanda nem sei onde fui parar
Que importa o sítio quando não se quer chegar
Que importa abrir a alma a um descrente
Que não constrói um mantra por não saber rezar

Que importa deixar de fazer da palavra uma construção
Uma corrente que se desprende da palma de uma mão
Se as grilhetas não tocam numa alma livre
Se a verdade é mentira e a dúvida a máscara da razão

Às vezes dá-me para isso
Escrevo sem tino nas águas de estuário
Espero que ninguém me ligue ou dê importância
Sou apenas um pobre louco…Visionário…

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

TABU


Soltam-se os trincos da memória
Apagou-se um sorriso na minha lembrança
O dia perdeu-se na noite em assombração
As ondas no mar pararam sua dança

Às vezes o meu olhar enche-se de certezas
No meu peito pára este apressado querer
As mãos mergulho em água fria
Esta sede está morta sem saber

Morrem as mágoas na areia
Uma mortalha de espuma cobre um último pesar
Uma boca foi cosida a ferro rubro
Para não mais soltar a palavra amar

Corri num manto verde numa procura
Tropecei num Duende medroso mais morto que vivo
Desventrei a terra na procura de um peixe azul
E encontrei com quatro folhas um rubro trevo

Estou sempre a encontrar coisas estranhas
Uma vez encontrei um anjo alucinado
Uma mulher que disse ser dona da paranóia
E até uma fogueira de fogo acabado

Encontrei as cores todas que o olhar permitiu
Um ser que mostrou os dentes e nunca riu
Um monstro de sete cabeças irado
E um barco afundado que nunca partiu

Encontrei aquilo que achava ser o amor numa aurora
Fiz amor com amor como se fosse demanda
Fiz uma peça em que no fim ninguém ficava
Encontrei uma criança feia que achei linda

Tive um encontro com um Deus colérico
Que me falou no cínico ser que eras tu
Fechei a porta do vale dos lamentos
E fiz deste poema um… Tabu…

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A DESCRENÇA DE UM DEUS


Nem sempre vemos passar a virtude
Nem sempre a estupidez tem rosto
Nem sempre a saudade dura para sempre
Nem sempre a paixão acaba em desgosto

Cumprimentei hoje um assobiador
Ouvi uma voz cantar a minha música
Abri a alma à emoção contida ao lembrar
Que a escrevi numa tarde de calmaria

Passei por uma criatura de mãe estendida
Há bocas que pedem pão em oração
Há gente que vira as costas de forma tonta
Há gente que tem uma falsa emoção

Há crentes e descrentes
Palhaços, fantoches e foguetes para arraial
Caminho para caminhadas e erva para fumar
Um sentimento de pena que nada leva a mal

Barracas, bandas e outras tangas
Vigaristas disfarçados de gente séria
Professores disfarçados de professores
Uma riqueza que foge à miséria

E há os meninos de coro
Os bestiais que detestam as bestas
Olhos que choram sal sem cor
Peitos vazios de puro amor

Encontrei três anjos no caminho de casa
Um triste, um alegre e outro adormecido
Colhi de uma árvore morta
O sentimento não querer estar contigo

Agarrei na pena e amarrotado papel
E lavrei estes desabafos meus
Descri hoje mais uma vez das cores do Mundo
E vi no rosto de um pedinte…A descrença de um Deus…

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

PINTOR


Pintor nascido na ilha
Pintas Anjos negros e céus de rubra cor
Os olhos que choram não mentem
Um coração sincero transborda a dor

Hoje o céu menstruou ao findar do dia
O sul sossegou em calmaria
Há tanto que não te ouvia
Neste chegar adormeci e sonhei que partia

Um cavalete na espera de alva tela
Uma paleta com as cores do rubor
Um corpo nu, presente de uma deusa
Que faz do sortilégio um momento de amor

Negros intensos, terras aprisionadas num tubo
Olhos que reflectem um dom
Já me disseram que tinha um, talvez mais um
Não sei se é mau ter algo assim, ou bom

Tenho na alma um cofre de palavras
Tenho uma palavra que nunca direi a ninguém
Tenho uma janela entre dois mundos
Tenho um sonho em que nunca vejo o rosto de alguém

Conheço a assobiadora força do vento
Um caminho secreto onde não há marca de passos
O ribombar da vaga na pedra submissa
Um mágico que transforma um sorriso em dois palhaços

Conheço amargura, tem a cor da terra pura
A tristeza com pinceladas de incerteza
Um arco-íris feito de sol e chuva de uma perdida nuvem
Uma tela só com desenho ao calha, mal talhado em beleza

Rasguei esta tela onde pintei sete vidas
Sete corações a latejar em manto de cetim azul
Sete orações que aprendi numa igreja de negra pedra
Sete casas, uma delas, virada a sul

E derramei todas as cores no Mar
A espuma prendeu apenas uma cor
As outras foram engolidas pelo azul
Amordaçou as mãos e o querer, este…Pintor…

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A ETERNIDADE E MAIS UM DIA


Chove de mansinho no barro
Frios são os pensamentos neste fim de dia
A ilha escureceu em sobressalto
A bruma envolveu tudo num manto de nostalgia

Os acordes de uma guitarra afagaram meu peito
Um pássaro esqueceu-se de voltar ao ninho
Uma Mãe olha embevecida um catraio
Que acolhe em sua boca um seio que transborda carinho

É uma incontida força o amar
Amor é palavra usada sem preconceito
Umas vezes usada apenas pelo desejo
Às vezes nem eu a sei usar de jeito

Eu não uso a palavra amar
Não sei amar de palavra vestido
Sei apenas que quando amo
Solto o imenso, o todo

Sei lá o que sei!
Parece-me saber muito sem saber porquê
Sei mundo, céus e pequenos infernos
Sei sabendo de olhos cerrados o que a alma vê

As pedras são mesmo pedras
Quando alguém as atira para magoar
As flores são sempre belas
Quando dão cor ao verbo amar

Vou esperar por uma onda que sei
Vir do norte em busca da pedra que sou
Vou esperar pelas buganvílias rubras
Vou sentir o sal da maresia no sítio onde estou…

Numa restinga de negro basalto
Onde as gaivotas fazem ninho
Onde as tempestades adormecem
Onde já vi dois amantes envoltos em carinho

Vou ajudar uma alma aprender a sentir
Uma paixão ganhar cor sem ter companhia
Vou ensinar uma criança pobre a sorrir
E transformar…A Eternidade em mais um dia…

domingo, 15 de janeiro de 2012

SOM DO CORAÇÃO


Não sou um pintor
Apenas um salteador das cores perdidas
Não sou um artista como dizem
Apenas alguém que dá forma às dores sentidas

Imagino um mundo onde existam mil cores
Um céu que as derrama aos olhos
Um mar onde os peixes se pintem a seu bel-prazer
Um campo com papoilas negras aos molhos

De negro se pintam às vezes certas almas
A ausência da cor é o abandono ao amor
A noite aprisiona-as em seu manto
Na noite os passos não deixam rasto nem dor

E estes sons que me entram à alma
Estes chilreados estridentes na manhã
Esta melodia breve e triste
Esta letra sem voz, palavra vã

Esta rubra lava que transborda meu sonhar
Este verde que conheço de tantos tons
Esta canção perdida no cofre da lembrança
Este nevoeiro da lagoa de sete tons

Nunca serei um tocador
Nunca sentirei a vibração das cordas ao ouvido
Nunca desisti de tocar a vida à minha maneira
Nesta minha pauta de letras que duvido

Talvez um cantador, rasgando madrugadas
Talvez uma pálida estrela na procura de perdida cor
Talvez o fruto amargo de uma árvore sem flor
Talvez os sons de uma balada de desamor

Talvez…
Eu que sou alguém de sim ou não
Eu que me esqueço às vezes de sentir
Esta minha musica…O Som do Coração…

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

MARÉ DE FOGO


Cheguei ao lugar onde se cruzam as palavras
À casa dos desejos que ninguém acreditou
Sentei-me numa cadeira inventada
Aprisionei meu pensamento e aqui estou

Aqui estou no limiar do credo nas pessoas
Na condição de justo vestido de injusto
No rosto uma máscara inventada por alguém
Arrochando ao peito a razão a muito custo

A poesia às vezes sabe-me a porcaria
As palavras a uma estúpida melodia
As convicções a um negro céu em ironia
E tu a uma farsa que me pareceu magia

Quando digo tu, falo de mim, para mim
Nada de confusões nesta indigestão poética
Hoje a musica sabe a desafinanço enlouquecido
Gerado numa alma patética

Pois é, palhaço ou profeta
Escolha lá se faz favor meu senhor
Umas vezes sou o génio cá da rua
Outras um perfeito estupor

Um anátema preso num baú
Um actor mudo que chora de si
Uma comédia de enganos menor
Um ir, voltar, o longe, o aqui

Conheço todos os verdes da ilha
O lado escuro da maravilha
Uma saudade que se perdeu com a idade
Uma aurora que morreu de velha

Conheço também uma história engraçada
De um homem que durante toda a vida não disse nada
Quando morreu não soube onde era o céu
Ficou na ilha como alma penada

De penas pois se vestem certas almas
Uma verdadeiras, outras um logro
Dormitei para aí cerca de um minuto
E acordei nesta…Maré de Fogo…

domingo, 8 de janeiro de 2012

O NOME DA ROSA


O relógio marca o tempo que passou
Suas engrenagens são rodas de magia
Um alquimista tenta enganar o tempo
Um profeta arrocha no peito a nostalgia

Sonhei com uma criança de mão estendida
Vi em seus olhos mais falta de amor do que de pão
No acordar procurei desvendar esse sonho
Não consegui, talvez algo guardado no coração…

…Este coração
Esta força que há em mim guardada em meu peito
Esta chama incandescente
Este desajeitado ser imperfeito

Este homem que olha o amor envolto em bondade
Este fazedor de tempestades de saudade
Este caminhante sem cavalo ou espada
Esta espera pintada de serenidade

Esta maçã presa na garganta
A procura do pecado pela absolvição
Este mar negro sem fundo de esperança
Esta maré que renova a paixão

A maresia continua bonita na tempestade
Sinto que um dia voarei feito vento
Ainda sinto na mão a frieza dos brandais
Ainda sinto que no tempo farei tanto mais

Farei das palavras um universo de vida
Farei tocar todos os sinos da terra
Cavalgarei estrelas e aportarei planetas
Serei paladino em santa guerra

Vou mudar o curso do relógio
Retroceder até uma pequena e humilde casa
Ouvir uma meiga voz dizer, meu armando, meu amor
E lembrar por fim…Do Nome da Rosa

domingo, 1 de janeiro de 2012

A TORRE DOS DESEJOS


O Mar não parou no troar dos foguetes
O céu ficou mais pobre com a subida da falsa luz
Um anjo acordou de um sonho divino
Na terra um olhar falso encena o seduz

Nunca acaba o amor impossível
Dura uma eternidade
Reverbera em todas as constelações
E viaja num barco com asas de nome saudade

Nunca acaba a chegada de uma nova onda
O vento volta sempre a este lugar
Uma vela bruxuleia iluminando o caminho da fé
Um coração soletra baixinho o verbo amar

Quando cai uma estrela a Lua esmorece
O morrer de um dia é prenúncio de nova aurora
O atravessar de um caminho fugindo à ternura
É um ficar na página de um livro de mágica história

Não há magia na crueldade de umas mãos
Nunca encontrei verdades num caminho de soltas pedras
Nunca naveguei no estuário de uma lagoa
Nunca esculpi a palavra nestas areias negras

Sou um insano sonhador de profecias patetas
Paladino do amor, força e fraqueza anel ante
Mensageiro que guarda a mensagem ao descrédito
Homem, arcanjo ou necromante

Sei lá!
Eu que tudo sei e invento o não saber
Eu que solto todos os dias a alma ao colo da brisa
Eu que percorro o “Cosmos” sem ter de correr

Eu que partilhei o sopro da vida com algumas almas
Recebi na viagem, verdadeiros e falsos beijos
Ergui com palavras de suprema melodia uma construção
E aprisionei a alma…Na Torre dos Desejos…

domingo, 25 de dezembro de 2011

MAR MANSO


A simplicidade da chuva
Uma folha de papel que rejeita a letra
Uma mão que teme o afago
Uma palavra solta que em minha alma entra

Tão calmamente corre esta viagem
A terra anda devido ao amor
O que é isso de amar com amor?
O que é isso de o perder sem dor?

O que é isso de acreditar
Às vezes Deus carrega ao colo um justo
Às vezes uma reza acende o Sol a meio da noite
Às vezes duvido acreditando a custo

Abracei o mundo este natal
Lembrei passados desvanecidos
Senti aromas que pensei perdidos
Senti que a vida me infligiu mil castigos

Senti que a solidão era a porta para a razão
Que era uma criatura sem grande importância
Senti que ainda não tinha traçado todos os rumos
Que não há longe perto da distância

Tenho no celeste uma estrela como minha
No contar das vagas formulo sempre um desejo
Acredito em tanta coisa estranha para outros
Sabem lá o que sinto toco e vejo

E falo sem que queira a palavra como resposta
E voo nas maravilhas que minha alma cria
E vivo na magia que me foi oferecida
Choro quanto pinto com as cores da alegria

Que Mundo este onde me colocaste Deus
Que vertigem esta procura apaixonante e sem descanso
Sei que as estrelas são teus luzeiros e olhos
E a minha estrada este…Mar Manso…

domingo, 18 de dezembro de 2011

O ELIXIR DO AMOR


A lembrança cruzou meu pensamento
A dor tomou-me de assalto
Lembrei-me caído no frio chão
A olhar um chamamento do alto

Lembrei o turbilhão de vida que me passou
Alma que de leve se separava do corpo
Vida que confirmava mil sentidos
Derramada do fundo de um copo

Lembrei…
Este poeta sempre em combate com a lembrança
Este homem desprendido do preconceito
Esta puta vida entre o mar revolto e a bonança

Esta ânsia contida em peito de basalto
Atravessei o mundo nas asas do impensável
Fui apelidado te tanta coisa feia e triste
Por vezes de ser notável

Mas fui sempre eu…!
Viajeiro temeroso fingindo valente
Enfrentando na noite a borrasca
Na aurora sorrindo contente…

…Com as suas belas cores
Sou um apaixonado por elas
Carrego no tempo tantas impressões
Algumas…São mesmo belas

Amei, amo a beleza
Tropecei muita vez na incerteza
Transformei miséria em realeza
Ri de contente e de tristeza

Ri para os olhos que me deram amor
Ri para o mar onde pesquei ilusões
Ri em cada partida e chegada
Que fiz numa vida de contradições

Procurei o segredo da verdade feliz
Percorri o caminho do vento cheio de ardor
Uma gaivota entregou-me uma concha cheia de mar
Era…O Elixir do Amor…

domingo, 11 de dezembro de 2011

ENTRE O CORAÇÃO E A VIDA


Esta Lua seguiu-me os passos
É triste ter asas sem poder voar
É fria a cor do vestido da noite
É de pedra esta jangada do meu prantear

Terra molhada de assombro
Olhos famintos de pão e sorriso
Boca que desfaz a palavra feliz
Mulher que abre o corpo ao esposo

Mulher fecunda, pão por cozer
Hesitante entre a entrega e a raiva surda
Fogo eterno que a água ateou
O suspiro da terra vibrando nos seios de uma muda

A fúria da paixão…
Vento fugindo à calmaria
Mordi uma azeda maçã
Nesta peça era o actor que nunca morria

Morri mil vezes em outras tantas
Usei sempre o mesmo traje, da mesma cor
Chorei os dramas, que não eram para chorar
Fui um deserdado do desamor

Fui Arlequim sem Columbina
Fui peça infeliz de carnaval a duas cores
Dancei com princesas inventadas
Inventei na vida falsos amores

Inventei uma ilha feita de nuvens
Um relógio que fazia o tempo andar para trás
Inventei a verdade mesmo a sério
Sei sonhar inventando sem saber como se faz

Fiz…
Das cores os sonhos mais belos
Das palavras a esperança sempre à minha espera
E dei vida a uma perdida quimera

Cobri com um abraço a descrença
Olhei de frente a desconfiança
Recolhi lágrimas de água pura e fiz um Mar
A que dei o nome de azul esperança

E fiz um cais
Apenas de chegada e proibi a partida
Sentei-me nas pedras que uni
E Juntei o…Coração e a Vida…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

HÁ PALAVRAS QUE SÃO COMO FAZER AMOR


Um brinquedo perdido num baú
Uma cortesã cheia de vontade de servir
Um desejo mesquinho acende o perverso
Uma mulher vestida de verdade acabou de mentir

A chuva que escorre para o alto
Uma ribeira perdeu o cantar da água
A saudade já não mora no cais
A janela do sonho tem um cortinado de mágoa

Uma besta diz que é bestial
Uma criança chora de medo
Absolvição foge da alma do justo
Um coração derrama no chão um segredo

De amor…
Envolto num manto denso de bruma
O sangue de um golfinho foi sacrifício
Que um deus derramou na espuma

Do mar…
Onde lancei uma pedra desencontrada de outra
As pedras também sentem amor
Não infligem apenas dor

Sou uma pedra…
Lava mal talhada pela tosca ternura
Escultura que o sentimento ergue
Sem pingo de beleza ou formosura

E tu quem és?
Cultivadora em canteiro de ódios profundos
Rainha sem reino que trai o rei
Ave perdida entre dois mundos

Ah este poeta das confusas palavras
Cantador de todas as canções de tristeza
Trovador vestido de arlequim trapeiro
Fazendo vénias a uma imaginada realeza

Que diz palavra sobre palavra
Às vezes fica mudo com um olhar de dor
Dos seus lábios escorrem sons sem sentido
Porque…Às Vezes Há Palavras Que São Como Fazer Amor…

HÁ PALAVRAS QUE SÃO COMO FAZER AMOR


Um brinquedo perdido num baú
Uma cortesã cheia de vontade de servir
Um desejo mesquinho acende o perverso
Uma mulher vestida de verdade acabou de mentir

A chuva que escorre para o alto
Uma ribeira perdeu o cantar da água
A saudade já não mora no cais
A janela do sonho tem um cortinado de mágoa

Uma besta diz que é bestial
Uma criança chora de medo
Absolvição foge da alma do justo
Um coração derrama no chão um segredo

De amor…
Envolto num manto denso de bruma
O sangue de um golfinho foi sacrifício
Que um deus derramou na espuma

Do mar…
Onde lancei uma pedra desencontrada de outra
As pedras também sentem amor
Não infligem apenas dor

Sou uma pedra…
Lava mal talhada pela tosca ternura
Escultura que o sentimento ergue
Sem pingo de beleza ou formosura

E tu quem és?
Cultivadora de canteiro de ódios profundos
Rainha sem reino que trai o rei
Ave que perdida entre dois mundos

Ah este poeta das confusas palavras
Cantador de todas as canções de tristeza
Trovador vestido de arlequim trapeiro
Fazendo vénias a uma imaginada realeza

Que diz palavra sobre palavra
Às vezes fica mudo com um olhar de dor
Dos seus lábios escorrem sons sem sentido
Porque…Às Vezes Há Palavras Que São Como Fazer Amor…

sábado, 26 de novembro de 2011

PIANO


Apetece-me escrever uma carta ao Mar
De repente senti que Deus se distraia
De repente a terra parou de rodar
De repente o Mundo parou no meio-dia

Nesta ilha caminhei num chão movediço
Fui embalado pelo grito constante de um sismo
Nesta terra viajada descansei o sonhar
Fiz tréguas à ternura, aprisionei o amar

Habituei-me às orações
Aos santos aprisionados ao altar
As velas que ardem ao fim do dia
São milagre e pecado, o encontro do me encontrar

Um dia alguém disse ser eu um milagre
Um dia descobri que via para lá dos olhos
Um dia toquei um fruto podre caído
Nasceram de imediato mil flores aos molhos

Fiz nascer lembranças envoltas em bonanças
Cortei os espinhos a uma roseira infeliz
Reguei com sal um canteiro de tontas mágoas
Gritei alto um chamamento que a alma quis

Limpei as rezas atiradas ao chão de uma Igreja
Vi uma bordadeira fazer nascer uma pomba branca
Vi uma alma perder-se na noite escura
Li um poema já lido de Florbela Espanca

Li na água os caminhos para um lago enfeitiçado
Merendei miolos de pão amassado em agonia
Segui ao alto o salto de uma criptoméria
Larguei a espada e o pincel ao fim do dia

Continuei pintando memórias de cor
Rasguei tudo o tinha emoção e dor
Adormeci já tarde no tempo
Sonhei que tinha sido abolido o amor

Voei neste sonhar num mar de pranto
Em espanto tracei uma batalha, um plano
Montei um cavalo feito de vento
Acordei entre duas notas de um…Piano…

domingo, 20 de novembro de 2011

AMOR LUXÚRIA E FINGIMENTO


Um pano de alva cor
Que a bordadeira pontilha a crivo
Linho que um tear uniu fio a fio
Em desenho de um azul vivo

O cantarolar da chuva
Marca o ritmo do pensamento
Um vento que varre os presentes de Outono
Um Sol que aquece o Inverno por um momento

Um vaidoso que se despoja da roupa
Fauno que se mira e gosta
-Vejam suas putas o que perdem!?
Sou inteiro, isto é só uma amostra

Um relâmpago ribomba no ar
Solenemente solta seu raio
Uma flor breve abana, entristece
Um homem é boneco de palha no mês de Maio

Uma cama amarrotada pela passagem do amor
Lençóis que aprisionam o calor
Suspiros espalhados pelo chão
Uma imagem santificada sustenta o louvor

Uma pecadora ungida pela chuva
A sorte e a morte em bravata eterna
As ave marias que uma boca vomita
Para no céu ser, clemente a sua pena

Já não há xailes negros na ilha
Já ninguém liga a agoiros
O mar continua açoitar a costa
Deixando despojos, tesouros

Encontrei um búzio e senti o ouvir
Tudo é deixado no reino do esquecimento
O sentimento é sal, sangue do mar
Hás vezes…Amor, Luxúria e Fingimento…

domingo, 13 de novembro de 2011

O VOO DE UM OLHAR


Os olhos que choram
Não sabem mentir
As mãos que me tocam
Levam à alma o sentir


O abraço sincero
Aplaina meu corpo frio
Veste-me de sol ardente
Solta meu sonho em azul rio

Os sonhos perdidos
As juras e promessas que fazia
Guardei-as num cofre
Lancei à maresia

O vento adormeceu
Ávida terra de assombro
Trigo de ouro, pão
Olhar de fome em amor sobre o ombro

Os tempos plantados
Na parte de trás do horizonte
Uma bailarina feita de nevoeiro
Rodopia no alto de um monte

Um olhar…
O chegar, o partir sem ir
O ficar, uma ilusão perdida no mar
Um homem no chão, o cair…

…O cair
A luta da luz com a escuridão
Passou-me tanta vida num minuto
Perdi-me de mim, ou da salvação?

O não querer, a descrença
Como se os pensamentos fossem acções
Como se um olhar fosse o mensageiro do amar
Como se não indo adivinho o chegar

Como se o ódio fosse nevoeiro desvanecido
Como se as palavras mordessem o falar
Como se milhafre fosse sentinela no azul
Arrancando de mim…O Voo de Um Olhar…


Para uma pessoa muito muito especial

O VOO DE UM OLHAR


Os olhos que choram
Não sabem mentir
As mãos que me tocam
Levam à alma o sentir

O abraço sincero
Aplaina meu corpo frio
Veste-me de sol ardente
Solta meu sonho em azul rio

Os sonhos perdidos
As juras e promessas que fazia
Guardei-as num cofre
Lancei à maresia

O vento adormeceu
Ávida terra de assombro
Trigo de ouro, pão
Olhar de fome em amor sobre o ombro

Os tempos plantados
Na parte de trás do horizonte
Uma bailarina feita de nevoeiro
Rodopia no alto de um monte

Um olhar…
O chegar, o partir sem ir
O ficar, uma ilusão perdida no mar
Um homem no chão, o cair…

…O cair
A luta da luz com a escuridão
Passou-me tanta vida num minuto
Perdi-me de mim, ou da salvação?

O não querer, a descrença
Como se os pensamentos fossem acções
Como se um olhar fosse o mensageiro do amar
Como se não indo adivinho o chegar

Como se o ódio fosse nevoeiro desvanecido
Como se as palavras mordessem o falar
Como se milhafre fosse sentinela no azul
Arrancando de mim…O Voo de Um Olhar…

Para uma pessoa muito muito importante na minha vida

sábado, 29 de outubro de 2011

AS COSTAS DE UM CORAÇÃO


Solenemente uma árvore cede ao vento
O limite de um sonho é a palavra não
Os deuses habitam num castelo de nuvens
A mentira desbota a cor da paixão

As palavras que uma boca proferiu
As chuvas que caem na noite fria
As pedras que não erguem uma casa
A maldade impressa em alma que se esconde no dia

Uma figueira
Árvore que não dá flor
Chão estéril com pegadas nuas
Ò deusa do desamor

Ò veneno bebido de um trago
Absinto de gosto amargo
Braços que pedem a ternura pura
Barco que navega na ilha ao largo

E um passarinho canta alegremente
Uma donzela olha um amante docemente
Um corpo estremece de luxúria
Um anjo não é homem nem mulher certamente

Uma lagoa não é oceano
O céu nunca será limite meu
Já fui crente de muita palavra
Agora oiço-as com coração de ateu

Agora fiquei preso na palavra
Agora lembrei uma esquecida formosura
A distância percorrida por um anseio
Às vezes tem mil passos de amargura

Às vezes dou por mim a pensar
Porque há gente que vive o amor em contradição
Tudo isso me ocorreu agora num instante
Nunca saberei pintar…As Costas de Um Coração…

domingo, 23 de outubro de 2011

MANHÃS DE INQUIETO MAREAR


Senti nos pés o pulsar da ilha
Um farol avisa o longe do perto
A lava encoberta na costa dormente
Sete rumos e apenas um certo

Neste Mar senti a vontade de prantear
A nudez da noite no encontro do silêncio total
Encobriu meu pranto das estrelas
Uma zombeteira Lua marcou no dia o encontro final

Finalmente vi a vil desventura
O rosto cínico com máscara de formosura
As pessoas soltam tanta palavra vazia
Triste é a viagem de alguns de corpo e alma em secura

Atirei todos os pensamentos às ondas
Devolvi um búzio recolhido à maré vazia
Encontrei uma garrafa sem mensagem
Mas que tinha dentro um sorriso de alegria

Soltei às mãos uma corda cheia de nós
Desamarrei dois sonhos de incerteza
Apanhei das pedras uma flor impossível
Tinha um vestido branco de rara beleza

Uma noiva do Inverno
No vale dos Milhafres reina a ventania
Uma chuva agreste lava a terra fecunda
Uma criptoméria ostenta um ar de fidalguia

Sonhei que era carregado nas asas de borboleta
Por entre gotas de fino orvalho azul cristal
Todas as manhãs vêm coroadas com a esperança
Há mãos que deixam escorrer a dor total

Há almas que se esvaziam em ligeireza
Há uma boca que pede pão, um corpo o aconchegar
Passou-me todo este filme pelos meus fechados olhos
Numa…Manhã de Inquieto Marear…

domingo, 16 de outubro de 2011

A LÂMINA E O CÁLICE


O tempo corre em sua em sua invisível viagem
Um Santo nunca dorme no altar
Um barco sobe e desce cada onda do Mar
Um cais de partida também acolhe o chegar

São tantos os mistérios que encontrei na vida
Cruzei com gente desconhecida que conhecia bem
Falei e falo com gente que partiu desta vida
Sinto tanto aroma perdido que este tempo guarda e tem

Cruzei mares com baleias, tempestades e sereias
Furacões, monstros e adamastores
Fiz peças de imensa mágoa e nostalgia
Fiz o amor ser feliz num tear de desamores

Pintei e pinto coisas que me tocam fundo
O pincel nem sempre obedece ao meu querer
Quantas cores terei que juntar à ternura
Para ao fundo da tua alma poder descer?

Almas…
Um corpo que se liberta em cada noite escura
Mãos que tocam e transformam a pedra em ouro
Alquimista sem manto, aspergir o destino com água pura

Não procuro o Graal…
Sei que “Ele” está algures numa gruta desta ilha
Já lá estive e “O” contemplei
Às vezes volto lá para alimentar a alma com a maravilha

Pois é, tão simples são às vezes certos caminhos
A fé dos homens é feita de verdade e mentira
A terra protesta e sussurra-me um rumor
Não rezo, mas, já segurei nas mãos a imagem de Nossa Senhora…

…Dos Anjos
O que senti só se encontra na palavra que do alto desce
Uma cruz derramou em minhas mãos dois pedaços de pedra
Olhei para o céu e vi…A Lâmina e o Cálice…

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A SACERDOTISA


Uma alma é campo de batalha
Onde o ódio é vilão e a paixão protagonista
Palco de gigantescas refregas
Onde vive e morre o amor a cada conquista

E uma mulher disse:
O coração parte, no número das emoções
Uma mulher não tem estações para amar
Tem apenas no lado esquerdo mil contradições

As mulheres…
Não gosto de pessoas, do escuro, da maré cheia
Da taça que me oferece às vezes a vida
Da caminhada no barro agreste em tarde feia

Não gosto do feitiço sem sentido
Na busca procuro uma coisa para além da revelação
O amor não conhece a sua verdadeira profundeza
Senão no momento da separação

O vento açoitou os ramos num mar de súplicas
Enquanto o tempo esquadrinha os horizontes
Uma solidão infinita sela o desencanto
Param no seu curso as águas de sete fontes

Sete Cidades inventadas
Sete sortilégios para afugentar o agoiro
Sete palavras de magia branca
Um cálice de sangue que desfaz o ouro

Quero fundir-me e ser um regato corrente
Conhecer a dor da excessiva ternura
Acordar de manhã com o coração solto do corpo
Beber da fonte onde o sentimento é coisa pura

Quero, querer querendo
Ser carpinteiro que a madeira afaga e alisa
Sacrifício em cerimónia num altar de basalto negro
Pelas mãos de uma…Sacerdotisa…

domingo, 9 de outubro de 2011

ENTRE A PALAVRA E O CHÃO


Estou à espera das estações
Em algum sítio adormeceram os barcos no mar
Nesta vida escolhi apenas o que amava
De uma onda a outra onda vejo, o aqui chegar

Azul mar, frio, ramo quebrado
O beijo que subiu da terra
Tocou-me a alma inebriou-me
Poisei minha espada nesta santa guerra

De todas as verdades escolhi a mais dura
A paz das minhas palavras perdeu-se na tarde escura
A felicidade é uma torre sem cor
A saudade é como a água mais pura

Ouvi uma voz carregada de violetas
Vejo o Sol transportar cachos de luz
Vejo as notas de uma melodia incompleta
Um canto novo que minha alma seduz

Serei um cantador rasgando a madrugada?
Um Arlequim perdido de Columbina
Serei folha caída numa estação adormecida
Ou apenas um buscador de irónica sina?

Não há jaula que prenda a palavra do poeta
Não há prisão para o voar de uma alma em contradição
Não há grilhetas que me segurem este corpo
Não há lonjura que quebre o percurso da paixão

Às vezes pergunto-me o que pensarão
As pessoas que lêem estas minhas metafóricas loucuras
O que dirão desta inquieta e caminhante alma
Que percorre um mapa cheio de procuras

Às vezes…
Sinto que nada sabem de mim em cada opinião
Sinto uma longa e imensa solidão nesta viagem
Perdido…Entre a Palavra e o Chão…

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

TEUS OLHOS


Fechei a porta às emoções
Arranquei as vestes e atirei ao frio
Sequei o pranto que me engoliu o olhar
Inventei mil águas e atirei a um rio

Inventei uma casa amarela e bela
Um jardim para o poiso das gaivotas do mar
O telhado era feito de pedaços de azul celeste
Uma cancela tinha tatuada a palavra amar

Habitei nela todos os dias da cor do sorriso
Acendi um fogo eterno com pedaços de carinho
Bebi de uma taça dois tragos de absinto
E julguei ver no meio do mar um singelo ninho

Um mar distante de mil azuis
Quando me assaltam dúvidas e medo procuro uma lagoa
Soltarei um chamamento no Mundo
Até que a voz me doa

Até que a madrugada se desprenda da noite
Caminharei na terra dura e fria que me surja no adiante
Contarei todas as pedras que encontrar
Serei um poeta despojado da razão, um louco viajante

Sem Norte, sem bússola, sem contradição
Sem ouvir o som das palavras, a vil opinião
Sem temer o destino das sete viagens
Sem remorsos, sem mágoas ou compaixão

Cavalgo uma tempestade imensa
Solto toda a esperança aos brandais
Este vento sempre presente
Esta força, este peito que não suspira mais

Esta alma que se solta em cada noite no astral
E toca mundos, almas, mestres, deuses, flores aos molhos
Apenas procura a pacificação da ternura
Num sorriso dos…Teus Olhos…

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A VIAGEM DA MINHA PAIXÃO


De velas paradas baloiça um barco
Amarras à ilha, preso ao nevoeiro
Nunca serei D.Genádio o arcebispo
Não sou descobridor, na chegada, primeiro

Afrontei os deuses do Olimpo
Conspirei com Athena, Hera e Apolo para destronar Zeus
Mas ele era rei dos deuses
E acabei enredado em sonhos meus

Sonhei com um rodopio macabro
Ouvi um silvo de ave rapina demolidor
Fui animal de uma criatura bela
Dei a alma e corpo ao desamor

Ouvi o som da maresia
Mesmo ao cair da noite
Um canto chamou por mim
Num rumo de boa ou má sorte

Mil archotes rasgaram o negrume da noite
Senti o som do mar bater no casco do meu barco
Cedi ao encanto do canto de uma sereia
E acabei trespassado pela seta de um arco

E sonhei que era trovador e cantei
Porque entras na minha alma e soltas este fervor
O que tens para me dizer
Diz ao sonho por favor

…E parti para o alto mar numa manhã submersa de neblinas
Ficaste tu na ilha nesta manhã de luz fria
Na lonjura vi um desenho de cruel ironia
E um deus do mar que de mim ria

A noite terminou abruptamente no dia
Passei a mão nos olhos para soltar os sonhos de contradição
No meio deste oceano profundo e imenso
Em sonhos viajei…Na Viagem da Minha Paixão…

terça-feira, 27 de setembro de 2011

COM O LUAR NOS OLHOS


Os barcos levam nome de santos
Uma flor tristonha lembrou a Primavera
O silêncio mora no meio de um monte
As mulheres ficam sempre em cais de espera

As mulheres…
No jardim onde as maçãs são de ouro
Conheci três mulheres de encanto
Uma negra, uma vermelha, outra branca para meu espanto

Estava a brincar!
Nunca consegui conhecer realmente uma mulher
Nunca entendi o que lhes vai na alma quando sentem
E atiram isso a um coração qualquer

Não! Não era de nada disso que queria falar
Hoje deu-me para falar de coisas assim
Sei apenas que às vezes me olham sem ver
Sei que nem sempre o princípio é o caminho para o fim

Que fúria tem este Mar
A ilha acordou presa a uma tempestade medonha
Não há pássaros no céu deste degredo
Já nem vejo a lua triste ou risonha

Rios correm de encontro à terra

Rasgando esta feiticeira bruma
Não há trégua nos vales da ilha
As vagas vieram coroadas de negra espuma

Não há ninho que sustente o canto de pássaro
Não há santo que nos valha na oração
Não há contas para provar tanta fé
Já não há calor neste pobre coração

E quero adormecer no abandono do dia
Quero sentir o aroma da lenha aos molhos
Aquecer a alma com a verdadeira esperança
E sonhar…Com o Luar nos Teus Olhos…

sábado, 24 de setembro de 2011

A TORRE DOS SONHADORES


Perdi as palavras que escrevi à momentos
Levou-as um sortilégio solto da noite escura
Sentei-me numa pedra de negro basalto
Fechei os olhos e tentei lembrar a cor da ternura

Nunca a escuridão me encontrou
Nunca tomei como certo o encontro com a verdade
Espinhos, punhal afiado, lágrimas
Uma flor morreu num campo de saudade

Atirei sementes ao Mar revolto
Zombou de mim uma Gaivota que passou
A espuma ficou negra e perdeu-se na areia
Fiquei mudo e triste, ainda estou

Entrei no Mar na procura do silêncio
Deixei-me levar por uma onda breve e fria
Vi criaturas passarem docemente
Uma parou, pareceu que ria…

…De mim
Triste e patético poeta louco
Rasguei as mãos na procura de uma estrela do Mar
Ceguei no sal e senti-me tão pouco

Sai deste mar de frio abraço
Sequei as minhas penas ao vento
Galguei os restos da fúria de um vulcão
E senti o Mundo parar por um momento

Um vertigem tomou-me a razão
Cerrei os olhos e vi tanta coisa que não via
Vi, paixão imensa, amor em contradição
Vi sem ver e ao voltar a ver um pássaro ria…

…De mim…
Das palavras que disse e ninguém ouviu com o coração
Deste sentir que jorra como a fúria de um rio
Pedi a um anjo que me desse absolvição

Corri ao encontro de uma montanha aprisionada na bruma
Pelo caminho toquei de leve em todas as flores
Subi a um castelo erguido ao celeste
E de joelhos quedei-me na…Torre Dos Sonhadores…

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A OUTRA FACE DO ESPELHO


O aparo risca a alvura do papel
Ausência da tinta esconde a palavra
Uma mão trémula pára na indecisão
Uma semente eclode no meio da lavra

O fogo e o vento unidos na desgraça
A chuva lava mágoas enraizadas no tempo
Este espelho de água reflecte uma máscara trocista
Que muda num sorriso em dado momento

Na noite tudo se perde
A esperança, o desvario
Sonhei que o choro de uma criança
Tem mais força do que a fúria de um rio

E este aparo não pára de arranhar o papel
O beijo da tinta estará ausente, a palavra não
A palavra solta, é grito da alma, choro de coração
Amarrotei mil folhas em loucura, na indecisão

A neblina beijou a ilha na madrugada
Cobriu as pedras em manto de água fria
Ainda tenho o som das andorinhas do Mar no peito
Ainda tenho nele tanta alegria

Tenho uma fé feito de mil cores
Uma paleta onde misturo as emoções
Este pincel deixa tanta marca vibrante
E um mundo imenso de contradições

Pinto rostos, o céu, a saudade
Pinto mentiras, corações sem chama e verdades
Pinto o Mundo muito à minha maneira
E um barco carregado de puras saudades

E apago o olhar para ver melhor
Para sentir o dizer de um amarrotado papel velho
O que vejo está muito para lá de sentir
Nesta…Outra face do Espelho…

domingo, 11 de setembro de 2011

ORAR, CAMINHAR, AMAR


A transparência das águas inunda-me o olhar
Os Anjos já não moram nas nuvens altaneiras
Conheci Deus no meio de uma oração
Vi gente sem alma, sem coração, sem maneiras

Conheci uma gaivota azul
Falou-me de mares distantes do Adamastor
Disse-me que o ódio é pequenez da alma
Que há gente despida de amor

Caminhei num tapete de buganvílias caídas
Apanhei uma folha de papel numa toada de vento
Tinha escrito a negra tinta uma traição
Gerada do coração de um monstro sempre atento

Quantas pedras compõem um abrigo?
A talha de um altar é feita sem defeito
A luz da Lua é feitiço incontrolável
O sortilégio sempre morou em meu peito…

…E esta força sem limite
Velas, brandais, leme com rumo a Norte
A estupidez é planta sem flor
Não há tormenta que não acabe em sorte

Nesta terra linda e verde
As pedras guardam mil e um segredos
Um arpão rasga o ar na procura do mal
Um traidor veste um fato de mil medos

As águas lavarão a lama do caminho
O vento alisará as pegadas na areia do Mar
O tempo ficará suspenso por um momento
Para eu…Orar, Caminhar, Amar…

domingo, 4 de setembro de 2011

FLOR OCULTA


Algures existe um lago de águas dormentes
Uma montanha silenciosa
Uma árvore sem-abrigo para os pássaros
Um dama que julga ser formosa

Algures entre o céu e esta ilha
Há um sítio onde se enterra o lamento
No alto de uma verde cumeeira
Onde nem se atreve a ir o vento

Podemos fazer o tudo com as lembranças
Transformar a o amor em dor
Pintar das mais belas cores a ternura
Fazer desaparecer do coração o desamor

Haverá um Paraíso onde aconteça o encontro
Das perdidas almas tocadas pela tristeza
Haverá um Mar vestido de bonança
Onde o canto da sereia seja uma ode à beleza?

Oiço as notas de um piano oculto
Dançam as folhas no ondular do vento norte
Um par de amantes tatua um coração no barro
Para ver se o destino lhes reserva a sorte

Plana um papagaio de papel no celeste
Solta gargalhada de miúdo feliz
As cores do arco-íris inundam o olhar
Um amor é querer do sempre quis

Recolhi do rosto um aguaceiro de verão
Lavei as mágoas que não cabiam na alma
Adormeci no marulhar de vagas
E sonhei que a paixão é eterna chama

Afastei o pensamento envolto em mágoa
Com a nova aurora a minha alma exulta
Prendi o olhar ao fim do verde
Pareceu-me ver uma…Flor Oculta…

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ILHAS DE BRUMA


O vento corre apressado vindo do Mar
Já não oiço as andorinhas nos rochedos
As ondas de Agosto são castelos de sal
Esta ilha é degredo de muitos medos

A ilha recebe as gotas do choro de um deus
As hortênsias adormeceram no barro
Um coração bate triste magoado
Um sentimento no peito amarro

Hoje tal como ontem perdi o olhar mar adentro
Senti um errante aroma vindo do norte
Senti que as nuvens corriam apressadas
Senti que a paixão tem que ser forte…

…No coração de quem sente, sentido
Trovas ficam esvoaçando no tempo
Um beijo sincero pára o relógio
O universo ilumina este momento

Pisei um tapete de folhas de fogo
De pés descalços segui sem rumo
Só parei no meio de nadas
Senti o ardor do Sol quando estava mesmo a prumo

Ah poeta de contida fúria
Marioneta de um deus irónico
Amarrado a cordel fino
Com ar de falso cómico

Descobri que a música é bater de coração de anjo
Que a noite aprisiona o dia em ironia
Que um golfinho é feliz quando se solta do mar
Que o Sol foge envergonhado ao fim do dia

Descobri…
Que a minha alma flutua à noite sobre o corpo
Que viajo sem fronteiras, sem limite
Que um barco carrega a saudade de porto em porto

Neste cais que de negra pedra
O nevoeiro brinca com a espuma
Adormeço no feitiço do vento norte
No verde tapete destas…Ilhas de Bruma…

terça-feira, 30 de agosto de 2011

AS VALQUÍRIAS


O espelho de água de um poço
Reflecte um contorcido sorriso de falsidade
Um melro-negro agita o agoiro
Uma boca solta a palavra nua da verdade

São tão más certas criaturas…
Dou por mim a simular uma curta peça
Para ver se o teu sentir tem maldade
Tua alma explodiu na vingança

És um castelo de cartas…
Um campo de negras areias movediças
Árvore sem fruto ou flor
O pecado vestido do mais puro desamor

Pensar que pensei ter pensado seres pura
Pensei na frieza das pedras de basalto
Sou uma ave que voa na verdade do pensamento
Sou alma que se queda bem lá do alto

Sabes lá tu quem serei…
É tão patético fazer adivinhações
É tão estupidamente estúpido
Navegar na num mar de contradições

Mares de fogo frio, grito derradeiro
Ondas gigantescas de lamento e pranto
Xaile negro que afugenta a saudade
Alma que acolhe a maldade em espanto

Que vida, que diadema de falso ouro
A chuva apareceu agreste
Há tanta coisa que enternece a lembrança
Deste poeta sem ter o que preste

Hoje não digo coisa com coisa
Eu, que adoro semear palavras e colher maravilhas
Até o título deste poema é uma desgraça
Vejam bem…As Valquírias…

domingo, 21 de agosto de 2011

SETIMA ONDA


Mil espelhos reflectem desenganos
As negras pedras carregam o sal azul
As nuvens acomodaram-se a uma lagoa
Que fica para os lados do sul

Um barco parado no cais de espera
Amarras soltas do frio ferro
Uma gaivota adormeceu sem penas
Uma criança chora no meio do aterro

Cheio de penas amarro a alma
Uma saudade arrocha meu peito
Sou um caçador de nuvens breves
Um romântico sem ponta de jeito

Um barco de papel perdido do norte
Roseira plantada num campo de pedras nuas
Uma casa perdida da sua cidade
Um labirinto feito de mil e muitas ruas

O fogo arde sobre o mar a poente
O céu ficou menstruado de espanto
Calaram-se por um instante as andorinhas do mar
Uma mulher tonta vomita o cobranto

Despi as minhas vestes impuras
Desenhei na areia um anjo tristonho
Era negro como o fogo adormecido
Tinha as asas frias e duras de um terrível sonho

Sonhei com o amor verdadeiro
Sonhei com uma árvore vestida de sol
Sonhei que eras a virtude, a perfeição
E encalhei meu barco num longínquo atol

Saltei do barco na procura de terra firme
Vi no horizonte uma tempestade medonha
Corri na procura de um abrigo feito de saudade
Acordei no passar…Da sétima Onda…

sábado, 13 de agosto de 2011

UMA PONTE PARA O ACASO


Sonhei com uma estrela do céu
Sonhei-a vivendo no meio do Mar
Sonhei com a verdade de uma palavra
Soletrei sete vezes a palavra amar

Neste sonho vi uma árvore triste
Pensei em sete coisas impossíveis de fazer
A primeira era voar com as nuvens
A ultima sobre as águas de um Lago correr

E vi pássaros de cores nunca vistas
Refulgentes lírios de ouro de lei
Apenas uma hortênsia me pareceu ali perdida
Vi palpitantes borboletas e o coração calei

Senti que eram de vento as minhas vestes
Senti-me o herói do sonho, um Paladino
Senti que sem amor o destino não se cumpre
Senti em meu peito um anseio sozinho

Sentei-me no meio de um mar de buganvílias
Ouvi uma oração a um deus desconhecido
Fechei os olhos para ouvir a minha alma murmurar
E senti todas as almas ausentes no estar comigo

Não eram de sol os raios que me aqueciam
Tinha três Luas este mundo bizarro mas belo
Tinha lagos feito de pedaços de nuvens
Tinha uma corrente de apenas um elo

E tinha uma pequena casa
Uma chaminé sorria bolas de sabão
Uma porta aberta de par em par
Tinha estendida em minha direcção uma mão

Duas mãos, dois braços, um abraço
Senti a vertigem do teu infinito amor sair do regaço
Acordei no meio deste mundo de nadas
Terei percorrido…Uma Ponte Para o Acaso…?

sábado, 6 de agosto de 2011

SÉTIMO CÉU


Pisei um tapete de pétalas de giesta
Percorri as entranhas de um adormecido vulcão
Esculpi na lava uma caixa rubra
Guardei dentro um sonho perdido de um coração

A Caixa de Pandora...
Um dia roubei um sortilégio feliz
Não tenho conta das rezas que senti
Não sei se a viagem da vida foi o que quis

Não sei...
Só sei que sabendo aprisionarei o saber
Só sei que o saber é arpão cortando a distância
Só sei que às vezes me quer o querer

Não sei...
Porque partem cedo certas almas
Artista, Rei de patético reino
Canteiro de agrestes mágoas

Vela sem vento, Navio à bolina
Mastro apontando a uma pálida estrela
Saudade presa aos brandais
Rumo perdido na loucura de uma bússola

Corpo dorido, alma que pede amor
Rosa breve perdida na bruma
Vaga de muitas no dormente das pedras
Sal que já foi alva espuma

E respiro mil odores presos ao nevoeiro
Ouço mil vozes, nenhuma chama por mim
Vejo sete viagens, sete horizontes
Amordacei a palavra fim

Calei os gritos da amargura
O sofrimento deixa-me tão aflito
Não sei se vais partir,se ficas
Preso à garganta tenho este infinito grito

Ah sorte que que és madrasta
Como é imenso e terno o sorriso de uma lagoa
Pedirei a Deus, aos deuses o impensável
Pedirei até que a voz me doa

Sou um bruxo que se esqueceu do sortilégio
Um mago de varinha de condão presa num véu
Fiz esta viagem da vida contigo perto e longe minha Irmã
Espera-nos num amanhã...Um Sétimo Céu...



POEMA DEDICADO À MINHA IRMÃ QUE LUTA PELA VIDA NUM HOSPITAL.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

ESTRELA SEM CÉU


Uma lança percorre o espaço
Leva a dor ao coração
Sangram as buganvílias de Maio
Bate num peito a fé de uma nua mão

Calcei luvas, branca e negra
Afastei os braços ao abraço
Encontrei um pássaro feliz
As uvas são amargas no Mês de Março

Anos, dias, vidas que se perdem da vida
Voltaram com o Sol as Andorinhas do Mar
Quantas vagas correram adiante
Quantas perdidas penas entre o partir e chegar

E as pedras da ilha…
As pedras da ilha não têm idade
Não tem limite o amor quando é amor
Não tem medida a extensão da saudade

Na ilha a saudade é um navio
É vapor da madrugada com a bruma
É gaivota voando no canal
É alma despojada de coisa alguma

Na ilha o céu chora no cair da noite
Derrama na terra um pouco do seu azul
Explodem as hortênsias no verde
No embalo de uma brisa do sul

Chorei na dor os sonhos perdidos
Reguei o barro frio e duro que percorri
Gritei um grito mudo preso ao peito
Aprisionei o fantasma do meu sentir

Rasguei os trincos da memória
Em eterno conflito cobri a minha alma com um negro véu
Fechei os olhos ao meu olhar
E senti ser…Uma Estrela Sem Céu…

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A ULTIMA PÁGINA


Sonhei com uma montanha solta da terra
Com pássaros cantando em desvario
Sonhei com um Mar bravio me engolindo
Com um barco naufragado na margem de um rio

Sonhei sonhando até de olhos abertos
É tão meu este lugar do sonhar
É tão imenso o caminho do pensamento
Moram lado a lado o ódio e o amar

Moro no Palácio da ilusão…
Não sou Antero, não sou vil ladrão
Sou um poeta menor
Sou pena rasgando a palma da mão

Sou, serei demiurgo de uma comédia de enganos
Actor largado para lá do proscénio
Uma peça que sei ninguém entende
Um simples sonhador disfarçado de génio

Um génio cheio de genica
De peito feito cheio de ilusão
De cartola e bengala já agora
Marcando passo cheio de paixão

Que nunca me falte esta força
Sempre desejei ser livre como as nuvens do céu
Uma noiva nem sempre é feliz
Uma lágrima nunca pára num alvo véu

E caminho entre o riso e a desventura
Deixo tatuado no frio barro a marca deste querer
Olhos que olham o vazio das almas
Olhos que não querem no olhar o ver

Nem sempre dou ouvidos à loucura
Li em tempos o imenso de Antígona
Fecho por hoje este livro sem palavras
Não quero chegar…À Ultima Página…

sábado, 9 de julho de 2011

CAVALEIRO DAS ONDAS


Este impaciente vento
Veio com uma aurora sombria
Um sorriso puro confirma a verdade
Há um rosto triste, há uma alma vazia…

Há uma culpa que se veste de pecado
Há um pecado que arrocha o coração
Há uma virtude perdida na loucura
Há uma flor caída no frio chão…

…E há o Mar
No reino de Neptuno está proibido o perdão
Como é sinuosa a viagem da paixão
Como é tonto às vezes o coração

Um tear morre sem uma mão
A culpa às vezes é vítima da ofensa inocente
A tua alma campo de batalha
Um palhaço nem sempre ri de contente

Senti o coração silencioso da terra
Senti a batida das ondas do mar
Senti a dureza das nuas pedras
Duvidei sete vezes da palavra amar

Quebrei as cadeias do pensamento
Aprisionei o Mar numa gota de sal azul
Vendi os sonhos aprisionados em minhas mãos
Sentei-me para contemplar um pássaro voando para sul

Nua, és azul como as colinas da ilha
Uma baía que acolhe o pranto
Um rio de todas as dores
Errantes são os pesares em céu de espanto

Pensar que cada pedra chegou aqui por si
Coroada pelas neblinas da manhã
Procuram-te as raízes, sobe a terra às tuas mãos
Boca que solta tremula a palavra vã

A beleza vai fugir para poente
A noite vai soltar mil sombras bisonhas
Entro no mar, de corpo e alma nua
Na cabeça ostento uma coroa de espuma, sou…O Cavaleiro das Ondas…

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A RAINHA DA CONTRADIÇÃO


Voam penas na viagem de uma gaivota
Nunca entendi a errância do teu pensamento
Seguras uma maçã amarga junto ao peito
Azedo veneno solto em algum momento

Quem és afinal?
Quem sou eu nesta Atlântida de negra pedra?
Um pássaro ferido na procura do ninho?
Ou apenas um pedaço feio de lava negra

Inventei canções, juntei multidões
Escrevi dramas, criei emoções
Virei as costas tanta vez ao aplauso
Pisei mil vezes este palco de contradições

Palhaço, Arlequim, Pateta Alegre
Rei, Algoz, Milhafre cego pela eterna bruma
Prisioneiro de uma garrafa trazida pelo mar
Que alguém recolheu da espuma

Uma mensagem sem mensageiro
Às vezes a viagem é feita de dor
Eu conheço todas as cores do verdadeiro sentimento
Há corações que deixam fugir tão facilmente o amor

A noite devorou a luz do sol
O céu ficou menstruado a Poente
O mar adormeceu em calmaria
Olhos negros sem fé presente

Juntei esta fome de sentimento
Com uma paixão que julguei escondida
Vesti a minha alma de gotas de azul
Procurei uma alma que quis estar perdida

Encontrei-a, encontrei-me
Abri os braços ao vento norte
Os meus passos são tão incertos
Meu corpo arca de ausente sorte

Ouvi o choro e o riso
O olhar profundo e triste de uma criança
Lancei as redes ao pensamento puro
Nelas vieram as cores da esperança

Sou, sempre serei criança
Que acredita na pureza do coração
Vi sair do mar profundo em adoração
A...Rainha da Contradição...

sábado, 25 de junho de 2011

PEDRAS BRANCAS


Há um lugar onde as chuvas são eternas
Um sitio onde floresce a maravilha
Onde a bruma é manto esquecido de um deus
Que abandonou à muito a ilha

Uma solitária flor emerge no barro
Os sonhos são jardim onde sorriem as almas
Uma vaga repousa no negro basalto
A espuma cintila em mil chamas

Cais de saudade constante
Sou barco ancorado entre o celeste e o sal
Golfinho saltimbanco cruzando marés
Anjo caído ao golpe do mal

Viajante na fronteira da sombra
Palhaço que lava o rosto à beira de uma lagoa
Violoncelo de cordas partidas
Um querer querendo, em coração que voa

Ungi meu corpo com orvalho da manhã
Lembrei uma reza à muito esquecida
Reacendi a chama desta incontida paixão
Lancei o abraço ao correr da vida

Que vida…
Que aventura tão plena de emoções
Que vertiginosa viagem ao infinito
Onde a loucura se veste de contradições

E paro este relógio, quero parar o tempo
Fecho os olhos e faço o caminho das buscas
Talhei na lava os meus mais profundos anseios
E ergui um castelo de…Pedras brancas…

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A MORADA DOS SERES FELIZES


Percorri o Vale da dor
Pelos dias das minhas noites de tristeza
Bebi o amargo da loucura
Olhei o céu na procura da minha perdida estrela

No horizonte encontrei o meu silêncio
As palavras devoradas por ele
Esta terra que me prende os pés
É arrepio que se prende à pele

As gaivotas invadiram o norte da ilha
As casas reflectem a brancura da cal
Um Milhafre solta um pio na manhã
E afugenta da terra o mal

Que mal é este que flagelou o meu corpo?
Que rancor terei despertado a um deus?
Que travo amargo enche este cálice?
Que marca dura e fria deixam os passos meus?

A manhã brilhou plena hoje
Despi todas as vestes e vesti-me de Sol e céu
As hortênsias despertaram no verde
Estenderam na minha passagem um celeste véu

Um mapa, uma contradição, uma premonição?
Uma saída deste cruel labirinto, uma azul oração
A fuga a todos os males do Mundo
O encher de paixão este pobre coração

Nesta peça ninguém morre, ninguém morreu
Soltei no palco as minhas mais fortes raízes
Dramatizei a vida em apenas um segundo de olhos fechados
Ao abrir estava…Na Morada dos Seres Felizes…

segunda-feira, 6 de junho de 2011

VOLTO DO SILÊNCIO


Uma flor que eclode das pedras
O pio de uma ave na procura do ninho
Uma oração perdida nas ondas do Mar
Uma brisa em afago da cor do carinho

Os anjos às vezes caem na terra
Às vezes Deus ampara a nossa queda
Às vezes pára a vida por um instante
Às vezes a noite acontece em negra seda

Tenho cá dentro tantas emoções
Que as palavras não conseguem alcançar
Tenho uma oração tatuada na alma
Tenho um horizonte na espera do meu chegar

Tenho dores…
O peito vazio da feliz emoção
Uma fria corrente no meu caminhar
Na viagem da minha solidão…

…Uma longa e penosa viagem
Nos braços de anjos brancos estive sentado
Na bondade mergulhou o meu corpo
Soltou-se-me a alma dele prostrado

Este Poeta é feito de papel comum
É feito de barro quebradiço e cru
Este poeta pinta a vida de palavras
Este poeta olha para Deus de sentimento nu

As flores murmuram em rumor
Enquanto me ergo deste fatal desvario
No despontar desta nova aurora
Sorrio outra vez e…Volto do Silêncio…

sábado, 30 de abril de 2011

NO LIMIAR DA VERDADE


Há tanta coisa que te posso dizer
O mar vai bramindo no encontro da fria lava
As gaivotas perderam-se no encontro da Terra
Encontrei hoje uma alma que inquieta estava

Hoje pintei a ardência da manhã
Fechei os ouvidos à palavra vã
Quebrei um ramo de loureiro verde
Mordi o veneno de uma maldita maçã

Fui Adão nu de preconceito
Paladino de uma luta sem tréguas
Demiurgo de uma história por contar
Barco sem leme em agitadas águas

Parei o relógio!
Parei o tempo que julguei ter parado
Ordenei aos pássaros que o canto parasse
Pedi a um anjo ter no voo cuidado

Uma deusa chorosa, chorava à beira-mar
Uma pedra sem mão percorreu o saltar
Uma giesta perdeu todas as flores
Um morrer ensaiou um falso matar

Fiz magia com todas as cores que tinha
Fiz aparecer na tela um tocador
Pintei-lhe um violoncelo a preceito
Mas ele não sabia tocar uma música de amor…

O amor nunca acontece sem amor
Esta coisa do amor será fantasia?
Será uma noite vestida de nostalgia?
Será planta envergonhada que floresce ao fim do dia?

Seja o que for, tem o nome de amor
Acho bem que seja assim
Há quem diga que se enraíza para sempre
E floresce como planta de alecrim

Não contei lá grande coisa neste louco poema
Vejam bem que nem falei da saudade
Mas disse algumas coisas sem nexo
Que estão…No limiar da verdade…

segunda-feira, 18 de abril de 2011

ALIANÇA


Ontem senti a ressurreição de um sorriso
Senti uma suave brisa a falar docemente
Construí um abrigo no deserto da emoção
Encontrei na areia duas gotas de agua dormente

Eram lágrimas soltas dos olhos de uma criatura pura
Por momentos fechou-se a alegria na Terra
Contei sete pedras no meio das ondas
E fechei os olhos, imaginei-te Anjo em suave espera

Os vales são as ruas de um deus
Mãos de seda percorreram o espaço
Soltaram-se as raízes do bem
Num único e sentido abraço

Como um caminho coberto de azul
A terra prendeu-me um sonho sonhado
No julgamento dos meus fracassos
Venci tempestades com este vento de braço dado

Embriaguei-me na minha solidão
Vi nos teus olhos a fragilidade da espuma
Subi com o olhar o voo dos pássaros
Perdi-me na procura da paixão no meio da bruma

A tua beleza mora no feliz pensamento
Palavras que irromperam aos ouvidos, tantas
Escolhi algumas numa oração e lancei-as ao mar
As ondas trouxeram-me verdades tamanhas

Um grito brotou da alma
Em surdina alcançou-me a alma
A dor verteu diamantes de sal
Plena és em doce chama

Já tinha proibido a fé de entrar em meu peito
Porque selaste a tua alma à ternura?
És o pio de ave na procura do ninho
Um ribeiro de sentires da água mais pura

Que distância pode alcançar a verdade?
Pelos dias das minhas noites de magia
Pela alma de duas criaturas vibra a luz
Que se perpetua para lá do dia

E no encontro do coração na sua manhã
Segui o curso de um errante espírito na esperança
Fechei os olhos e a alma às palavras
Neste silêncio firmei uma...Aliança...