sábado, 29 de março de 2014

TEM O PODER DA ÁGUA A PALAVRA



És uma flor apertada no desamor
Uma menina que amei sem preconceito
Vivemos no sonho um ninho de maçãs maduras
Tinhas no olhar a ternura e uma branca paixão no peito

Um arauto falou-me de infortúnio
Procurei-te numa fúria molhada pelas marés
É no estio que o coração corta as palavras
Olhei-te do alto de um altaneiro convés

Olhos de branca Garça...
Nas madrugadas perdi-me no canal
Erigimos um lugar para a lembrança
Na espera, negociei com os deuses um final

Rasguei a propositada brancura do papel
No intrínseco verde dos pastos inesgotáveis
Fiz um tapete de frescas hortências para te amar
Fiz mil orações para te encontrar

Pintemos depressa montanhas fora do alcance dos fantasmas
Aprisionemos as águas que separam nossos corpos
Assim como vamos ao encontro do passado
Abraça-me, é assim que construo as casas, com cuidado

Houve tanta noite nos meus dias
Houve tanta madrugada de luz fria
Houve tanta saudade, nostalgia
E uma lembrança que em mim sorria

Haverá sempre a chegada das marés
Dor, alegria, mágoa, frágua
E um porto de alegre espera
Onde...Tem o Poder da Água a Palavra...

quinta-feira, 27 de março de 2014

NO MEU PALCO



Nesta plateia verás os vestígios dos últimos sonhos
Duas lágrimas que secaram na madrugada
Quando as luzes se calarem na ausência da cena
Tu sentirás pena por já não seres Dama amada

Sou um Ator anónimo no caos do Mundo
Com uma alegria breve no olhar
O teu rosto perdeu-se na desordem das marés
Vi uma ave perdida, o amor a passar

Mas sintam as pancadas de Molière
Corram a cortina vai começar a peça de uma vida
Numa sarça ardente escreveste a palavra traição
Atiraste ao palco toda a tua contradição

Uma bailarina vestiu-se de Columbina
Atiraste ao fogo este triste Arlequim
Do lume de ti, nunca se aparta o amor
Entre as ruÍnas do crepúsculo, será afastado o fim

Em círculos de solidão afinou um violino
As abambolinas escondem um nome
Húmidos são teus olhos da memória
Há por escrever uma fantástica história

Estou no proscénio onde ardem as sombras
Procuro os prodígios de um jardim de ventos
Que flor faz nascer a verdade do teu crer?
Que recato da tua alma guarda os felizes momentos?

Este pano de cena que teima não fechar
Vez agora a nudez da tuas incertas convicções
E na translúcida serenidade de uma casa
Irão abraçar-se dois perdidos corações

Que vestido abandonaste na cadeira?
Que palavras ficaram por dizer
Hoje senti-me perdido ao olhar para um retrato
E quedei-me em silêncio...No meu Palco

domingo, 23 de março de 2014

FORASTEIRO DO VENTO



Levarei sempre a minha Musa no silêncio
Trago sementes do teu sorriso
Tenho partes de ti em mim como uma profecia
Hoje encenei a paixão de cristo ao fim do dia

Hoje pedi aos Romeiros uma ave-maria
Ordenei que o incenso fosse derramado no fogo
Por mim passaram almas famintas
E pedi a Deus que um desejo de mãos postas

Entre mim e ti há um tinir de ferros em brasa
Este verbo que canta evoca oiro mais raro
Estão em botão as rosas que regaste
Não eclodirão as sementes que plantaste...

...Sem a justa verdade do amor!
Podias ser apenas uma pintura difusa
Um olhar perdido em sala de espelhos
Ou um gesto terno de levantar a água dos teus cabelos

No meu peito repousam barcos de muitas cores
O silêncio sobre o sofrimento
Tal como uma moradia que morre devagar
Sem acreditar, não há tempo nem momento

Com amor e raiva se constrói obra parva
Os tumultos e a dor estão contigo
O que te sugere o teu espírito alucinado
Sobre os brandais respira um sonho antigo

Morre a Musa, viva a Musa!
O escriba não desfalece no caminho
Um poeta nunca morre
Só se afasta um bocadinho

Não mais subirei as colinas da cidade desatenta
Serei pois o primeiro habitante da tristeza vencida
Não beberei mais o mar
Só não consigo esquecer o amar

Emocionado percorri uma parte da ilha
Hoje esqueci na paz da vida o tormento
Hoje pacifiquei-me com deus e ateus
Fui no Mundo mais um...Forasteiro do Vento...

sexta-feira, 21 de março de 2014

A MINHA MUSA



É Março no traço áspero de silêncio
Esta dor imutável, revolta na chegada das marés
É o dia dos poetas, as palavras hoje são poesia
As minhas têm a cor da melancolia

Sabem qual é o primeiro nome duma mulher?
Apenas mulher...
Ela tem o sol dos frutos e o céu no coração
É Mãe, Marias, compreensão, uma lágrima, paixão

Nele cresce o rumor das hortências
Derramadas em cântaros pelo céu
Respirando um tempo imortal
Entre o fogo e o abraço inapagável, fatal

Sabem qual é o nome do amor?
Apenas amor...
Eu chamar-lhe-ia Mulher
Falem-me pois de uma mulher, quem quiser...

No êxodo do sentir escrevo
E descalço-me em frente das tuas ultimas palavras
Ressoam as memórias, o perfume dos dias felizes
Escrevo para que oiças um piano, esqueças a mágoas

Hoje sentei-me numa cadeira do Mar
Ouvi passos minúsculos aproximando-se de mim
Era um golfinho de chapéu de coco
Que me disse “vive, engana o fim”

Deram-me uma coroa de folhas já mortas
Nos primeiros degraus da vida
Nunca envelheci nos espelhos
Cheguei cedo, tarde, nesta infinita demanda

Nasci na ilha onde se confundem as estações
Do canto dos deuses na madrugada
Nasci mil vezes e em basalto me esculpi
Talvez seja apenas uma refulgente sombra

Talvez um anjo de pedra sem nome
Uma alma que de tanta dor ficou confusa
Não! Apenas um Poeta pateta
Que neste dia perdeu a...Sua Musa...

quarta-feira, 19 de março de 2014

GARÇA PERDIDA



Ouvi uma voz longínqua no vento
Senti o aroma do amor passar perto de mim
Senti sementes de um olhar inquieto
Tão longe, tão perto

Foi uma árida manhã, um dia sem Sol
Atravessei um areal de esperança
Meu barco leva o nome de mulher
Amo e sempre amarei, querendo quem não quer

Absorto na transparência da solidão
Há um lugar nos teus olhos onde habito
Há um recanto sem pranto na tua alma inquieta
E um destino que terá rumo certo

Todas as errâncias e afastamentos são loucura
Há um ribeiro de águas puras de ternura
Há joias de sentimentalidade estendidas no caminho
Há um relógio que marca um chamamento baixinho

Há um segredo e as vertentes de uma paixão
Ondas de beleza no afago, fascinação
O ar libertou hoje o odor de sonhos passados
Não há longe nem distância para um coração

Venho da dor no regresso de uma saudade
Venho lembrar que há apenas uma real verdade
Liberto meu grito nas fundações da luz
E peço paz e um milagre de amor a uma santidade

Esperei por algumas palavras
Atravessei isolados terraços da incompreensão
Plantei ventos, colhi desenganos
Pintei a prima obra com as cores da paixão

Tudo isso para falar de uma singela emoção
De uma vontade que ficou em ti contida
Cerrei os olhos e iluminou-se minha alma
E vi no me céu uma...Garça Perdida...

sexta-feira, 14 de março de 2014

JUDAS DE NEGRO CABELO


Nas paredes mal caiadas de uma alma
As manchas de mãos em desenhos bizarros
Vomitei num vazio indescritível
Corre uma cobarde serpente de atitude invisível

Hoje acordei para uma realidade fétida
Obrigado...não tens de quê seu tanso
Há sempre uma noite se aproximando
Há sempre um caminho que terei caminhando

No palácio carbonizado de uma comédia de enganos
Vive prisioneira uma donzela já gasta
Uma boca afogada em palavras amargas
Voa um poeta que rima...já basta!

Um mar embravecido, trás dias sem manhãs
Uma falsa gaivota largou penas ao coração
Uma mulher que estupidifica a paixão
Terá cem anos de solidão

Cem anos de bruma nos olhos
Venham devagar ver, ouvir o poeta
No suor do sonho, ouço vozes num cântico azul
Garça, gaivota, pássaro voando a sul

E quero-vos contar...
Como as serpentes sorriem no enganar
Quero-vos contar, como alguns seres desprezíveis
Moram onde o Mar despeja a sua ira no chegar

Sei de duas...
Que riram em maldosas gargalhadas, de mim
Sei do vomito sem cor nem corpo
Quando a tarde se desprender de mão assustada, no fim

Também sei que mora em minha casa a cor
Que em minhas orações construo um branco novelo
Até rezo por quem me feriu quase de morte
Pelos...JUDAS DE CABELO NEGRO...

domingo, 9 de março de 2014

MENINA DOS LAGOS


Senta-te neste banco de nuvens
Observei nos olhos de uma pessoa o Mundo
Fatigado um Milhafre pousou nos ombros da minha ausência
Ouvi o teu Mar com os meus dedos no meu mais profundo

Tu, magnólia em busca do rumor da terra
Fragor de púrpura, instante de amor
Vi-te sorrir nas estações do crepúsculo
Em Fevereiro uma rosa é breve flor

Gaivota pousada ente o basalto e o azul
Que ilha descubro na tua verdade?
Este barco de vela branda nos mares do sul
Que nunca deixou morrer a saudade

Se falassem as tuas mãos
Diria que eram o afago de um Anjo
Se falassem as tuas raivas sem sentido
Diria que era o amor sem vontade de estar escondido

Hoje sonhei com um campo de margaridas e gaivotas
A minha rosa entre Primaveras...
Fechei os olhos absorto na transparência da música
E perguntei ao alto que por amor quem eras

Apontei com o olhar as falésia de uma lagoa
Este pescador de cores, fouçando incompreensões
Apaguei da minha tela os trovadores das sombras
Apaguei todas as frias e más sensações

A minha aura não esconde segredos
Lavarei do meu peito o intimo de certas feridas
E sobre as pétalas murchas do silêncio
Desenharei todas as estações perdidas

Hoje acordei com as palavras a sorrir
Com uma brisa em doces afagos
Imaginei uma lagoa de mil cores
Onde mora uma...Menina dos Lagos...

sexta-feira, 7 de março de 2014

O MENSAGEIRO


Nenhuma das minhas flechas deixou o arco
Há uma cidade onde os relógios se movem desconcertados
Há uma Lua anunciadora de bonanças
Há um Sol só meu que aquece este homem de sete Mundos

Meu Sol...
Eu não te adivinhava nem pressentira
O relógio da Igreja deu duas badaladas atrasadas
Era um sorriso bonito que chegava antes das oito, sem ira

As árvores permanecem
Suavíssimos os pombos saudaram esta alma
Este respirar de novo, o dia dos pássaros, o perfume da terra
O entardecer que pinta este céu de intensa chama

Hoje ou em qualquer outra parte
Dançarei um tango eterno
No lugar onde inesperadamente se soltam os teu negros cabelos
Há uma nuvem que ameaça transformar-se em aguaceiro

Mas há Sol, sobre o chão dos meus passos
Longe, imóvel, imperturbável e sério
Permita-me ouvir as ondas, o som mais breve
A perfeita respiração de um deus em seu império

Sei de uma história breve
Uma rapariga fugiu num cavalo espantado
Sei de uma chegada anunciada pelos anjos
Sei de um barco brilhante repousando num rio profundo

Se olhares a almofada, verás vestígios de sonhos
A brancura da minha bondade na madrugada
Diz-me dos teus olhos, onde se esconde alegria
Diz-me onde mora o amor, a pessoa amada

Diz-me onde se esconde a saudade
Fala-me da lembrança do beijo primeiro
Escreve as notas de uma felicidade interrompida
Procura no Sol...O Mensageiro...

terça-feira, 4 de março de 2014

A ILUSIONISTA


Dentro de um corpo passeia um aspecto negro
Meteram-se os punhos na garganta
Ouvi uma floresta de tontas palavras, um punhal
E uma obsessiva razão de incerta descoberta

Gente da treta!!!!
Conheci duas mulheres de salgada saliva
Nunca lhes vi luz no inicio dos gestos
Apenas o silvo da serpente e gestos de falsa altiva

Isto é tudo conversa, uma asneira
Uma ficção sem jeito ou maneira
Como é carnaval, uma palhaçada
Pode ser mentira a poesia ou brincadeira

Adiante!
Cerro os olhos com ramelas sorrindo
Não quero ver mais infelizes seres
Nem uma boca falsa parindo

Vou beber vinho para não vomitar fogo
Evitar ruas cinzentas de mulheres transparentes
Não voltarei acordar gente sem nome na vida fria
O meu amor não será mais o que minha alma confia

Esmagado pelo suor parti dentes podres de palavras
Eu rio-me e lembro-me que afinal estou só
Contaram-me uma história de mijar a rir
Não há verdade nem a merda de certa gente pode parir

No meu verde pensamento enterraram um punhal
Porque há gente fodida muito ofendida e coisa e tal
Há quem julgue que as prendas doces só vêm no natal
E a estupidez pode medrar e coisa e tal

E acabemos com este vomitado poema
Já me chamaram, mentiroso, violento e até alquimista
Parei hoje para ver o cartaz de um circo rasca
Com a fotografia de uma...Ilusionista...

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

TEMPLO INVISÍVEL


Rezei na aflição e necessidade
É ilimitado o poder de amar
O amor é indivisível e imóvel
Que estação do teu coração devo achar?

O pensamento é ave no espaço
Ás vezes o engano de que não pode ver
Não falarei porque estou em paz
Creio em mim, este ser sabe crer

O silêncio da solidão revela aos próprios olhos
O seu eu em perfeita nudez
No orvalho das pequenas coisas encontrei uma manhã
Nesta árvore são vulgares os frutos, no chão brilha ouro, uma maçã

Tenho em mim mesmo toda a verdade
Gostaria de pedir ao tempo o infinito e o incomensurável
Quando esquecemos a cor do vinho, já nem sabemos do copo
Quando se ergue a vontade subimos a montanha ao topo

Contudo o intemporal que há em ti tem consciência
Sabes que o hoje é só a memória do dia de ontem
Gostaria de fazer do tempo um regato
Onde lançaria a pureza que a minha verdade contém

Não há dor, mas uma rede atirada
Não há uma única busca pela revelação
Onde para o melhor de vós mesmos?
Para onde se ausentou um coração?

E quando estiver silencioso um coração
E quando os meus pássaros emudecerem
Que uma voz fale aos ouvidos, dos meus ouvidos
E que o amanhã não seja apenas a memória do ontem

E contudo a tua alma guardará a verdade de um coração
E aquilo que em vós pulsa mora ainda no limite
Sem medir o tempo e as estações
Serei errante poeta sem contradições

E mesmo nas escuras cavernas alimentar-me-ei
De uma crença radiosa e notável
Foi este poema escrito na mais terna calmaria
Por esta alma moradora de um...Templo Invisível...

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

AVIÃO DE PAPEL


Tenho os braços nus de armas
Se viesses por aqui seguindo qualquer caminho
A qualquer hora, qualquer estação
Mora na mesma alma o amor, um destino

Estes meus dedos amputados pelo silêncio
Esta voz surda brotando dentro de nós
Este vento rasteiro cobrindo as palavras de frio
Este homem que te lava os olhos num cristalino rio

Este meu passado diluído na razão do presente
Estes poemas que foram crescendo sozinhos
Sorri sem necessidade, compreendi que é preciso sorrir
Compreendi que no esconder não houve o mentir

Sorri...!
Não tarda irão florir as buganvílias brancas
Os pássaros do meu quintal continuam fiéis
Não me abandonaram, desenhei-os em sete papéis

Com amor e doce raiva guardo estes soluços
Com divina paixão aguardo uma nova de um coração
Com a vontade dos deuses pintei-te de tinta inalterável
Guarda, poeta, vigia, vigilante, lavrador de um amor

Acariciando o teu rosto colorido de doçura
Permite-me que este poema seja o começo de tudo
Darei os braços à luz do dia
Neguei três vezes, minha alma, confia

E vou rasgar a minha garganta rouca
É feitiço o verde desta ilha
E tu feita de águas mansas e flores eternas
Diadema de hortências de azul maravilha

Qual criança que do amar só sabe amar simplesmente
Que transforma a vida no amargo doce do mel
Hoje escrevi a verdade de todas as minha razões
E atirei ao alto a folha em...Avião de Papel

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

GENTE GENTIA


Para se falar de um homem não há um único nome
Para se falar de um grande homem não um ser insignificante
A este homem têm servido o sabor salgado
A este humilde homem não chega julgar um instante


As pedras desta ilha não têm idade
Estou sentado na pedra onde dormem os séculos
Apetece rebentar na cabeça o silêncio
Agrilhoar o querer quebrar os sonhos

Há uma noite que se aproxima hesitante
Uma rua mesclada de vermelho fogo
Um coração menstruado a verter dor
Uma alma que regressará em flor

Sem fôlego uma criança morre
Sem sol as maçãs serão sempre amargas
Sem crença não há verdade que valha
Sem amor apenas existe um palheiro sem palha

Nesta carne ferida não há florestas novas
No interior carbonizado deste poema
Ninguém descobrirá duas reais verdades
Ninguém aqui aplicará um teorema

A bala dura das palavras
Não quero encontrar mais no alcance
Não quero ser amor a visitar lareira apagada
Eram grandes os olhos de raiva sem razão, nada


Aqui a terra fecha-se de Mar
Fecho-me cada vez mais ao destino
Sonhei com um instante de água fresca
Sonhei com um sincero caminho...

...Onde quero lembrar o espaço provável do verde tempo
O acaso clamando por um novo dia
A explicação das coisas a razão do amor
Uma vida que corre, um querer que não morre, confia


Deixai-me criar epitáfios
Em maldição meu corpo é uma árvore
Gero tantos frutos de sonho e cor
Nem gente, nem a puta da vida sabem o sabor

Nem tu...!
Sol que não adormece na noite
Hortênsia que em rumor me falas
Magia que me embriagas e suave perfume exalas


Sou, serei brinquedo rodando as mãos insanas
Uma voz calada, vibrante ou terna fala que alguém sentia
Serei apenas o que o meu destino ordenar
Não aquilo que quiser...Gente Gentia...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

NAUFRAGUEI


A estupidez deste homem é total
Talvez seja mesmo o que de mim dizem
Agora já é tão grande o coro
Não sei se quero isto ou morro

Morri mil vezes, outras tantas perdi
Perco sempre pedaços de alma nesta caminhada
Mereço grilhetas, cadafalso, uma forca
Não passo de uma insignificante alma penada

Que raio de coisa sou?
Um génio, ou um marginal da vida?
Um bondoso homem que só é mau para si
Uma charada mal contada, uma dor contida


Espero que ninguém leia esta merda
Diria que é mais lixo, gerado por um lixo
Ler será uma total perda de tempo
Como já ninguém lê o Profeta, logo não existo

Ainda bem assim vomito à vontade
Aqui tenho na asneira a liberdade
Aqui não entra a saudade
Aqui sou lixo jogado numa cidade

Vou escrevinhar umas quantas peças
Umas de rir outras de chorar
Acabar dois parvos livros
Vou esquecer-me do que foi o verdadeiro amar

Ninguém ama!!!!
É mentira, uma tontaria
Fui demiurgo desta inconcepta peça
Ninguém morre, aqui o tonto nem é já mais valia


Olá senhoras deste mundo
Divas desta vida e arredores
Esta minha ilha de silêncio
Esta ilha que há em mim...em mim...


Perdoem-me pois, o pecador já pecou tudo
Perdoem-me, sou um anjo mau, um necromante
Perdoem-me que não sei o que faço
E esqueçam da minha vida o restante
Desculpem qualquer coisinha
Apliquem à vontade sobre este corpo a lei
Estou caído, mas levantar-me-ei
Perdi penas, parte da minha alma...Naufraguei...

domingo, 8 de dezembro de 2013

IM0RTAL



É bom que se saiba
Não tenho um nó na garganta
Tenho o sabor da verdade no corpo todo
Tenho na mão as cores todas do Mundo

É bom que se saiba
Que há quem envergonhe as minhas canções
Quem me apontou punhais
Quem se afogou em contradições

Deitei-me dentro de mim
Sem vontade de recuperar o tempo, impossível
Tenho o silêncio preso ao céu-da-boca
Não se pode vomitar a palavra no vazio indiscritível

Às vezes invento coisas no meu coração amedrontado
Então o meu espirito alucinado cala-me
O meu corpo é terra que vejo passar por baixo do céu
É semente coberta por rasgado véu

Não precisam os desesperados
De subir as colinas rubras da paixão
À minha volta a luz nunca é suficiente
Tenho uma caixinha onde guardo a derradeira ilusão

Esta alma persistente de alegria
Como sorrio às vezes quando conto as aves felizes
Quando aceno ao desprender dos anjos magníficos
Ao soltar dos sonhos de despretensiosos petizes


É tão difícil percorrer estes dias insulares
Nunca temi repartir a mesa, o sabor do pão
Esta água girando sempre à volta da ilha
Vagas medonhas, nevoeiro, solidão

Nestas negras pedras dormem os séculos
O interior destas casas cheira a cal
A saudade das mãos cansadas do segurar meus filhos
Esta alma que não dorme nunca…Imortal…

domingo, 1 de dezembro de 2013

O CHAPELEIRO LOUCO DE ALICE


Caem gotas do celeste, choram os deuses
Apetece-me subir por aí em ondas de sussurros
Não voam anjos quando chove na ilha
Debaixo do pó de arroz nem sempre a maravilha

Tenho o sonho de uma cagarra por um voo feliz
Há uma liberdade contada estampada no meu rosto
Decidi faltar ao encontro dos desencantados
Fosse porque fosse vivi o amar até ao sol-posto

Onde se mede a beleza de um poema?
Ainda me arde à alma certas palavras
Na voraz caminhada por incertos dias
Apenas quero esquecer as mágoas

Perguntem aos mestres a razão
Porque têm tectos as casas?
Porque nos aquece a promessa do amor?
Porque perdi para esta vida as minhas asas?

Louco poeta…
Membro honorário do clube dos poetas mortos
Caído nas garras do vento
Rei da prima palavra por um momento

Fazedor de magias esquecidas
Não discuto porque Deus me fez assim
Podia ser apenas o despertar de uma sombra cativa
Sou apenas água de beleza altiva

E vejo os pássaros trajados de mil cores
Um milhafre zangado de cartola
Uma gaivota sem vontade de voltar ao mar
Um mendigo que nega esmola…

…Que toca um tambor com vigor
Que faz coisas belas e uma ou outra tolice
Abri hoje uma caixinha de música
E saiu de dentro o…Chapeleiro Louco de Alice…

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

BRISA DA MEMÓRIA


Recordações são como grãos de poeira
Algumas, soterrados no fosso da criação
Às vezes é preciso sorrir para mostrar que estamos vivos
Com amor e miolo de branco pão se aquece um coração

Tudo começa num poema
Há deuses que não usam diadema
Tudo acaba quando a boca fica calada
Há palavras de louvor, outras de pena

Uma ilha tem um princípio
Uma cidade mais de mil casas
Um coração sete ou mais janelas
Uma gaivota às vezes recolhe as asas

No alto de uma colina senti a terra respirar
Uma mulher virgem será sempre de um homem só
Um beijo pode ser gesto tolo, banal
Um idiota pode ser uma anedota e coisa e tal

Já vivi numa floresta de palavras tristes
Pelo fio da uma navalha atravessei agruras
Na pele deslizante de uma rapariga madura
O amor escorrega, perde-se, não dura

Este poema ferve como cal viva
Grande troinas é este poeta, não é!?
A canção que hoje me apetece cantar é outra bem melhor
Já chega de lembranças maduras, de dor

Hoje apeteceu-me largar um papagaio de papel de seda
Vieram a mim a cor de longos dias
Hoje vi uma nuvem igual a uma Lua
Hoje naveguei num mar de alma nua

Hoje a loucura tomou a palavra de assalto
Disse tanto e não contei qualquer história
Hoje ao cerrar os olhos por um momento
Passou-me de mansinho a…Brisa da Memória…

sábado, 9 de novembro de 2013

PARA QUE SEJA UM POEMA


Ninguém repara mas vejo sempre o teu sorriso
Podia ser eu apenas uma palavra doce
Podia eu ser mais uma pedra da ilha
Podia eu ser alguém ou algo que fosse

Nunca discuti se Deus fez o Mar
Nunca perdi o rumo deste navegar
Nunca parti sem ter o chegar
Mas sei quando acreditar na palavra amar

Sei de muitos punhos cerrados
Os meus espaços são tão transparentes
Às vezes corto o mar, rasgo as pedras
Às vezes transformo em cor a mera quimera

Mas, falemos de suspiros dos pássaros
De uma gaiola vazia de emoções
Falemos de uma dor que se perdeu no amor
Não quero sentir o desespero das contradições

Deixem-me ficar com o mar apreciando a noite
Desafiar uma baleia a cantar para mim
Deixem-me domar um golfinho azul
Deixem-me acreditar neste princípio de um triste fim

Deixem-me…!
Rezar falando com as pessoas que amei
Deixem-se ser grande com alma de petiz
“DEIXEM-ME APENAS SER FELIZ”

Tem a força do vento este alento
Não terei mais notícias de saudades ausentes
Construi sonhos no lugar de casas
Derramei tristeza, enchi a alma de presentes

Hoje decidi que as coisas vão rebelar-se
Escrevi metáforas sem qualquer tema
Abro este livro de vida de alvas folhas
Aceno à vida…Para Que Seja Um Poema…

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O SILÊNCIO DAS CASAS


Ouvi alguém partir de mim
Ouvi um pássaro aflito, ouvi um grito
Ouvi no silêncio um rumor de melancolia
Ouvi a saudade uma vez, numa casa vazia

Nem tudo o que faço pode estar certo ou errado
Apenas faço…
Renunciei à esperança, calei a voz da penumbra
Vi nascer um tugúrio e um fogo que devorava o espaço

Um céu menstruado de ausentes pássaros
Esta poesia desaparece pelos espaços de fechada janela sem querer
Numa brisa sussurrante, rasteira
Gostava de ser a consciência do amanhecer

Baloicei meu corpo no infinito
Desprezando cada hora, desafiando o impossível
O espaço provável do amor
É campo de guerra da guerreira dor

A poesia é como beijo infinito
Pensei ser infinita a caminhada de minha Mãe
Hoje olhei um cruzeiro, gravado, Maria
Orei, chorei, nesta faminta solidão, vazia

Montei um choro no guião de uma peça
Neste vale sem casas nem campos, sei dizer amor
Vim de mãos vazias pelo silêncio dos olhos
Entre as cicatrizes de terra estéril, sem flor

Há bocas atafulhadas de sorrisos
Olhos sem nada para dizer
Há canções que não apetece cantar
Há cartas de amor escritas por quem não sabe amar

Uma rosa, no peito suave de uma dama
Um papagaio falador sem cor nem asas
Neste dia de lembrar pessoas que me amaram
Fiquei preso no….Silêncio das Casas…

domingo, 27 de outubro de 2013

A DAMA DE OUTONO


É Outono e tem, gosto a maresia este vento
Nesta ilha grandes nuvens fazem acabar o Sol
Partem gaivotas rente às ondas do mar
Alguém canta trovas de amor, alguém aprisiona o chorar

Vamos ver se hoje não me embriago de palavras
Sou um pescador nocturno de nostalgias
Há um grande silêncio na minha rebentação
Há um insondável mistério neste coração

Chegou-me o potente cheiro de dias e do tempo
O cheiro a algas, em cabelo de mulher inventada
O nome de mulher tatuado em barco varado
Uma atracção pelas ruas calcetadas, um breve fado

A sempiterna expressão da estátua do Arcanjo
Neste tempo de começar uma caminhada
Descobri um Sol reflectido nas vidraças
Descobri que querer tudo, às vezes é não ter nada

Descobri uma Lua de espada afiada
Uma alma sorridente desencontrada
Descobri à porta de uma madrugada
Que não passo de uma alma ensombrada

Sinto no triste espaço de uma estação que se foi
E todavia meu coração ainda consegue afastar o frio
Há pessoas sentadas num entroncamento eternamente
É eterna a passagem das águas num rio

Há sempre o centro de um palco circular
Há sempre um tempo para marcar o caminhar
Há uma densa nuvem de gaivotas numa praia
Há um sortilégio que me alimenta o sonhar

E há as fachadas impressionantes da virtude
As moradias que morrem devagar, o sonhar no sono
E um barco a repousar na areia dos tempos
Com o nome…A Dama de Outono…

domingo, 20 de outubro de 2013

CIDADE SITIADA


Lembrarás que as manhãs
Acordam a luz fugidia
Lembrarás que este insignificante ser
É apenas contradição, nostalgia

Tenho dores, tantas…
Minha alma silenciosa solta um lamento
Só, eu a desperto, esta navalha de dois gumes
Sou casa a sangrar por dentro

Esta casa arde com as sombras
De costas vergadas interrompo a magia
O meu sonho é sempre maior que a palavra
Regresso à inocência no romper de novo dia

Este é um poema que não quero seja lido
Esta porcaria é respirar sofrido
Minhas mãos beberam hoje este Outono medonho
Alvoraçadas aves, palavras sem sentido

Vou descalço pelo rumo da alma que sou
Sou como ilha escondida no silêncio em torpor
O primeiro nome de mulher é senhora qualquer coisa
E nele cresce às vezes inquietante e surdo rumor

O fogo de abraço único
O ribombar de um trovão pela manhã
A fúria deste vento norte que me gelou o querer
Não quero ver, não quero sentir esta dor, não quero ser!

Estou aqui de passagem, já disse
Esta viagem não correu em águas brandas
Pintei o mundo, amor e desamor
Adormeci e acordei em dores tamanhas

Quero morrer na repetição de uma onda
Quero, quis tanto, tão pouco, nada
Não leiam este chorrilho de loucas palavras
Deste poeta em…Cidade Sitiada…