sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

TEMPLO INVISÍVEL


Rezei na aflição e necessidade
É ilimitado o poder de amar
O amor é indivisível e imóvel
Que estação do teu coração devo achar?

O pensamento é ave no espaço
Ás vezes o engano de que não pode ver
Não falarei porque estou em paz
Creio em mim, este ser sabe crer

O silêncio da solidão revela aos próprios olhos
O seu eu em perfeita nudez
No orvalho das pequenas coisas encontrei uma manhã
Nesta árvore são vulgares os frutos, no chão brilha ouro, uma maçã

Tenho em mim mesmo toda a verdade
Gostaria de pedir ao tempo o infinito e o incomensurável
Quando esquecemos a cor do vinho, já nem sabemos do copo
Quando se ergue a vontade subimos a montanha ao topo

Contudo o intemporal que há em ti tem consciência
Sabes que o hoje é só a memória do dia de ontem
Gostaria de fazer do tempo um regato
Onde lançaria a pureza que a minha verdade contém

Não há dor, mas uma rede atirada
Não há uma única busca pela revelação
Onde para o melhor de vós mesmos?
Para onde se ausentou um coração?

E quando estiver silencioso um coração
E quando os meus pássaros emudecerem
Que uma voz fale aos ouvidos, dos meus ouvidos
E que o amanhã não seja apenas a memória do ontem

E contudo a tua alma guardará a verdade de um coração
E aquilo que em vós pulsa mora ainda no limite
Sem medir o tempo e as estações
Serei errante poeta sem contradições

E mesmo nas escuras cavernas alimentar-me-ei
De uma crença radiosa e notável
Foi este poema escrito na mais terna calmaria
Por esta alma moradora de um...Templo Invisível...

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

AVIÃO DE PAPEL


Tenho os braços nus de armas
Se viesses por aqui seguindo qualquer caminho
A qualquer hora, qualquer estação
Mora na mesma alma o amor, um destino

Estes meus dedos amputados pelo silêncio
Esta voz surda brotando dentro de nós
Este vento rasteiro cobrindo as palavras de frio
Este homem que te lava os olhos num cristalino rio

Este meu passado diluído na razão do presente
Estes poemas que foram crescendo sozinhos
Sorri sem necessidade, compreendi que é preciso sorrir
Compreendi que no esconder não houve o mentir

Sorri...!
Não tarda irão florir as buganvílias brancas
Os pássaros do meu quintal continuam fiéis
Não me abandonaram, desenhei-os em sete papéis

Com amor e doce raiva guardo estes soluços
Com divina paixão aguardo uma nova de um coração
Com a vontade dos deuses pintei-te de tinta inalterável
Guarda, poeta, vigia, vigilante, lavrador de um amor

Acariciando o teu rosto colorido de doçura
Permite-me que este poema seja o começo de tudo
Darei os braços à luz do dia
Neguei três vezes, minha alma, confia

E vou rasgar a minha garganta rouca
É feitiço o verde desta ilha
E tu feita de águas mansas e flores eternas
Diadema de hortências de azul maravilha

Qual criança que do amar só sabe amar simplesmente
Que transforma a vida no amargo doce do mel
Hoje escrevi a verdade de todas as minha razões
E atirei ao alto a folha em...Avião de Papel

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

GENTE GENTIA


Para se falar de um homem não há um único nome
Para se falar de um grande homem não um ser insignificante
A este homem têm servido o sabor salgado
A este humilde homem não chega julgar um instante


As pedras desta ilha não têm idade
Estou sentado na pedra onde dormem os séculos
Apetece rebentar na cabeça o silêncio
Agrilhoar o querer quebrar os sonhos

Há uma noite que se aproxima hesitante
Uma rua mesclada de vermelho fogo
Um coração menstruado a verter dor
Uma alma que regressará em flor

Sem fôlego uma criança morre
Sem sol as maçãs serão sempre amargas
Sem crença não há verdade que valha
Sem amor apenas existe um palheiro sem palha

Nesta carne ferida não há florestas novas
No interior carbonizado deste poema
Ninguém descobrirá duas reais verdades
Ninguém aqui aplicará um teorema

A bala dura das palavras
Não quero encontrar mais no alcance
Não quero ser amor a visitar lareira apagada
Eram grandes os olhos de raiva sem razão, nada


Aqui a terra fecha-se de Mar
Fecho-me cada vez mais ao destino
Sonhei com um instante de água fresca
Sonhei com um sincero caminho...

...Onde quero lembrar o espaço provável do verde tempo
O acaso clamando por um novo dia
A explicação das coisas a razão do amor
Uma vida que corre, um querer que não morre, confia


Deixai-me criar epitáfios
Em maldição meu corpo é uma árvore
Gero tantos frutos de sonho e cor
Nem gente, nem a puta da vida sabem o sabor

Nem tu...!
Sol que não adormece na noite
Hortênsia que em rumor me falas
Magia que me embriagas e suave perfume exalas


Sou, serei brinquedo rodando as mãos insanas
Uma voz calada, vibrante ou terna fala que alguém sentia
Serei apenas o que o meu destino ordenar
Não aquilo que quiser...Gente Gentia...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

NAUFRAGUEI


A estupidez deste homem é total
Talvez seja mesmo o que de mim dizem
Agora já é tão grande o coro
Não sei se quero isto ou morro

Morri mil vezes, outras tantas perdi
Perco sempre pedaços de alma nesta caminhada
Mereço grilhetas, cadafalso, uma forca
Não passo de uma insignificante alma penada

Que raio de coisa sou?
Um génio, ou um marginal da vida?
Um bondoso homem que só é mau para si
Uma charada mal contada, uma dor contida


Espero que ninguém leia esta merda
Diria que é mais lixo, gerado por um lixo
Ler será uma total perda de tempo
Como já ninguém lê o Profeta, logo não existo

Ainda bem assim vomito à vontade
Aqui tenho na asneira a liberdade
Aqui não entra a saudade
Aqui sou lixo jogado numa cidade

Vou escrevinhar umas quantas peças
Umas de rir outras de chorar
Acabar dois parvos livros
Vou esquecer-me do que foi o verdadeiro amar

Ninguém ama!!!!
É mentira, uma tontaria
Fui demiurgo desta inconcepta peça
Ninguém morre, aqui o tonto nem é já mais valia


Olá senhoras deste mundo
Divas desta vida e arredores
Esta minha ilha de silêncio
Esta ilha que há em mim...em mim...


Perdoem-me pois, o pecador já pecou tudo
Perdoem-me, sou um anjo mau, um necromante
Perdoem-me que não sei o que faço
E esqueçam da minha vida o restante
Desculpem qualquer coisinha
Apliquem à vontade sobre este corpo a lei
Estou caído, mas levantar-me-ei
Perdi penas, parte da minha alma...Naufraguei...

domingo, 8 de dezembro de 2013

IM0RTAL



É bom que se saiba
Não tenho um nó na garganta
Tenho o sabor da verdade no corpo todo
Tenho na mão as cores todas do Mundo

É bom que se saiba
Que há quem envergonhe as minhas canções
Quem me apontou punhais
Quem se afogou em contradições

Deitei-me dentro de mim
Sem vontade de recuperar o tempo, impossível
Tenho o silêncio preso ao céu-da-boca
Não se pode vomitar a palavra no vazio indiscritível

Às vezes invento coisas no meu coração amedrontado
Então o meu espirito alucinado cala-me
O meu corpo é terra que vejo passar por baixo do céu
É semente coberta por rasgado véu

Não precisam os desesperados
De subir as colinas rubras da paixão
À minha volta a luz nunca é suficiente
Tenho uma caixinha onde guardo a derradeira ilusão

Esta alma persistente de alegria
Como sorrio às vezes quando conto as aves felizes
Quando aceno ao desprender dos anjos magníficos
Ao soltar dos sonhos de despretensiosos petizes


É tão difícil percorrer estes dias insulares
Nunca temi repartir a mesa, o sabor do pão
Esta água girando sempre à volta da ilha
Vagas medonhas, nevoeiro, solidão

Nestas negras pedras dormem os séculos
O interior destas casas cheira a cal
A saudade das mãos cansadas do segurar meus filhos
Esta alma que não dorme nunca…Imortal…

domingo, 1 de dezembro de 2013

O CHAPELEIRO LOUCO DE ALICE


Caem gotas do celeste, choram os deuses
Apetece-me subir por aí em ondas de sussurros
Não voam anjos quando chove na ilha
Debaixo do pó de arroz nem sempre a maravilha

Tenho o sonho de uma cagarra por um voo feliz
Há uma liberdade contada estampada no meu rosto
Decidi faltar ao encontro dos desencantados
Fosse porque fosse vivi o amar até ao sol-posto

Onde se mede a beleza de um poema?
Ainda me arde à alma certas palavras
Na voraz caminhada por incertos dias
Apenas quero esquecer as mágoas

Perguntem aos mestres a razão
Porque têm tectos as casas?
Porque nos aquece a promessa do amor?
Porque perdi para esta vida as minhas asas?

Louco poeta…
Membro honorário do clube dos poetas mortos
Caído nas garras do vento
Rei da prima palavra por um momento

Fazedor de magias esquecidas
Não discuto porque Deus me fez assim
Podia ser apenas o despertar de uma sombra cativa
Sou apenas água de beleza altiva

E vejo os pássaros trajados de mil cores
Um milhafre zangado de cartola
Uma gaivota sem vontade de voltar ao mar
Um mendigo que nega esmola…

…Que toca um tambor com vigor
Que faz coisas belas e uma ou outra tolice
Abri hoje uma caixinha de música
E saiu de dentro o…Chapeleiro Louco de Alice…

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

BRISA DA MEMÓRIA


Recordações são como grãos de poeira
Algumas, soterrados no fosso da criação
Às vezes é preciso sorrir para mostrar que estamos vivos
Com amor e miolo de branco pão se aquece um coração

Tudo começa num poema
Há deuses que não usam diadema
Tudo acaba quando a boca fica calada
Há palavras de louvor, outras de pena

Uma ilha tem um princípio
Uma cidade mais de mil casas
Um coração sete ou mais janelas
Uma gaivota às vezes recolhe as asas

No alto de uma colina senti a terra respirar
Uma mulher virgem será sempre de um homem só
Um beijo pode ser gesto tolo, banal
Um idiota pode ser uma anedota e coisa e tal

Já vivi numa floresta de palavras tristes
Pelo fio da uma navalha atravessei agruras
Na pele deslizante de uma rapariga madura
O amor escorrega, perde-se, não dura

Este poema ferve como cal viva
Grande troinas é este poeta, não é!?
A canção que hoje me apetece cantar é outra bem melhor
Já chega de lembranças maduras, de dor

Hoje apeteceu-me largar um papagaio de papel de seda
Vieram a mim a cor de longos dias
Hoje vi uma nuvem igual a uma Lua
Hoje naveguei num mar de alma nua

Hoje a loucura tomou a palavra de assalto
Disse tanto e não contei qualquer história
Hoje ao cerrar os olhos por um momento
Passou-me de mansinho a…Brisa da Memória…

sábado, 9 de novembro de 2013

PARA QUE SEJA UM POEMA


Ninguém repara mas vejo sempre o teu sorriso
Podia ser eu apenas uma palavra doce
Podia eu ser mais uma pedra da ilha
Podia eu ser alguém ou algo que fosse

Nunca discuti se Deus fez o Mar
Nunca perdi o rumo deste navegar
Nunca parti sem ter o chegar
Mas sei quando acreditar na palavra amar

Sei de muitos punhos cerrados
Os meus espaços são tão transparentes
Às vezes corto o mar, rasgo as pedras
Às vezes transformo em cor a mera quimera

Mas, falemos de suspiros dos pássaros
De uma gaiola vazia de emoções
Falemos de uma dor que se perdeu no amor
Não quero sentir o desespero das contradições

Deixem-me ficar com o mar apreciando a noite
Desafiar uma baleia a cantar para mim
Deixem-me domar um golfinho azul
Deixem-me acreditar neste princípio de um triste fim

Deixem-me…!
Rezar falando com as pessoas que amei
Deixem-se ser grande com alma de petiz
“DEIXEM-ME APENAS SER FELIZ”

Tem a força do vento este alento
Não terei mais notícias de saudades ausentes
Construi sonhos no lugar de casas
Derramei tristeza, enchi a alma de presentes

Hoje decidi que as coisas vão rebelar-se
Escrevi metáforas sem qualquer tema
Abro este livro de vida de alvas folhas
Aceno à vida…Para Que Seja Um Poema…

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O SILÊNCIO DAS CASAS


Ouvi alguém partir de mim
Ouvi um pássaro aflito, ouvi um grito
Ouvi no silêncio um rumor de melancolia
Ouvi a saudade uma vez, numa casa vazia

Nem tudo o que faço pode estar certo ou errado
Apenas faço…
Renunciei à esperança, calei a voz da penumbra
Vi nascer um tugúrio e um fogo que devorava o espaço

Um céu menstruado de ausentes pássaros
Esta poesia desaparece pelos espaços de fechada janela sem querer
Numa brisa sussurrante, rasteira
Gostava de ser a consciência do amanhecer

Baloicei meu corpo no infinito
Desprezando cada hora, desafiando o impossível
O espaço provável do amor
É campo de guerra da guerreira dor

A poesia é como beijo infinito
Pensei ser infinita a caminhada de minha Mãe
Hoje olhei um cruzeiro, gravado, Maria
Orei, chorei, nesta faminta solidão, vazia

Montei um choro no guião de uma peça
Neste vale sem casas nem campos, sei dizer amor
Vim de mãos vazias pelo silêncio dos olhos
Entre as cicatrizes de terra estéril, sem flor

Há bocas atafulhadas de sorrisos
Olhos sem nada para dizer
Há canções que não apetece cantar
Há cartas de amor escritas por quem não sabe amar

Uma rosa, no peito suave de uma dama
Um papagaio falador sem cor nem asas
Neste dia de lembrar pessoas que me amaram
Fiquei preso no….Silêncio das Casas…

domingo, 27 de outubro de 2013

A DAMA DE OUTONO


É Outono e tem, gosto a maresia este vento
Nesta ilha grandes nuvens fazem acabar o Sol
Partem gaivotas rente às ondas do mar
Alguém canta trovas de amor, alguém aprisiona o chorar

Vamos ver se hoje não me embriago de palavras
Sou um pescador nocturno de nostalgias
Há um grande silêncio na minha rebentação
Há um insondável mistério neste coração

Chegou-me o potente cheiro de dias e do tempo
O cheiro a algas, em cabelo de mulher inventada
O nome de mulher tatuado em barco varado
Uma atracção pelas ruas calcetadas, um breve fado

A sempiterna expressão da estátua do Arcanjo
Neste tempo de começar uma caminhada
Descobri um Sol reflectido nas vidraças
Descobri que querer tudo, às vezes é não ter nada

Descobri uma Lua de espada afiada
Uma alma sorridente desencontrada
Descobri à porta de uma madrugada
Que não passo de uma alma ensombrada

Sinto no triste espaço de uma estação que se foi
E todavia meu coração ainda consegue afastar o frio
Há pessoas sentadas num entroncamento eternamente
É eterna a passagem das águas num rio

Há sempre o centro de um palco circular
Há sempre um tempo para marcar o caminhar
Há uma densa nuvem de gaivotas numa praia
Há um sortilégio que me alimenta o sonhar

E há as fachadas impressionantes da virtude
As moradias que morrem devagar, o sonhar no sono
E um barco a repousar na areia dos tempos
Com o nome…A Dama de Outono…

domingo, 20 de outubro de 2013

CIDADE SITIADA


Lembrarás que as manhãs
Acordam a luz fugidia
Lembrarás que este insignificante ser
É apenas contradição, nostalgia

Tenho dores, tantas…
Minha alma silenciosa solta um lamento
Só, eu a desperto, esta navalha de dois gumes
Sou casa a sangrar por dentro

Esta casa arde com as sombras
De costas vergadas interrompo a magia
O meu sonho é sempre maior que a palavra
Regresso à inocência no romper de novo dia

Este é um poema que não quero seja lido
Esta porcaria é respirar sofrido
Minhas mãos beberam hoje este Outono medonho
Alvoraçadas aves, palavras sem sentido

Vou descalço pelo rumo da alma que sou
Sou como ilha escondida no silêncio em torpor
O primeiro nome de mulher é senhora qualquer coisa
E nele cresce às vezes inquietante e surdo rumor

O fogo de abraço único
O ribombar de um trovão pela manhã
A fúria deste vento norte que me gelou o querer
Não quero ver, não quero sentir esta dor, não quero ser!

Estou aqui de passagem, já disse
Esta viagem não correu em águas brandas
Pintei o mundo, amor e desamor
Adormeci e acordei em dores tamanhas

Quero morrer na repetição de uma onda
Quero, quis tanto, tão pouco, nada
Não leiam este chorrilho de loucas palavras
Deste poeta em…Cidade Sitiada…

sábado, 12 de outubro de 2013

SOLIDÃO



Caminho há muito por prantos e desvario
Pergunto por este adormecido Inverno
Dancei, fui caminhante de mil estações
Fui odiado por maldosos corações

Hoje senti-me acompanhado de mim
Só, sou apenas o que chamam de tolo poeta
Nunca se aparta este lume de mim
Porque raio não chega esta trampa de vida ao fim?!

Este é o meu círculo de fogo e loucura
Cresci contente nesta melancolia
Cresci com medo de não poder ser
Sou crescido e descrente do crer

Não colhi frutos desta infância amachucada
Onde param os lamentos das andorinhas do Mar
Onde pára o chamamento que ouvia no chamar
Onde pára a estrela do meu navegar?

Despenharam-se meus sonhos em temerosa agonia
Nunca achei a breve incandescência da verdadeira verdade
Escarpas, medonhas tempestades, fulgor de um Sol antigo
Já nem me lembro do nome do meu último amigo

Deixaram-me no cabelo uma coroa de lata
Coroaram-me “O último dos homens sem preste”
Acenei com um lenço de água que gerou a minha mágoa
Acenei sem mão, sem intenção
Acenei para ninguém, perdi-me no nada

Uma vida tombada jaz sem sombra
Por mim passou um bando de gaivotas famintas
Este tempo ressoa
Um manto ardente esconde o rosto desta pessoa

Enobrece este coração com as criptomérias
Esta água de mágoa reverdeceu, na virgindade de uma oração
Neste território de ressonâncias não voltam as minhas crenças
Neste jardim me quedo preso á…Solidão…

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

TOQUEI UM INSTANTE


Quando conhecer a tua alma
Pintarei os teus olhos
Quando ouvir o som da tua voz
Pintarei um pássaro, flores aos molhos

Nesta madrugada um piano nos meus sonhos
Acordou este poeta pintor
As cores da água fizeram-me arregaçar o querer
Perguntei a mim mesmo o que é a distância do amor

Como náufrago procurei um raio de luz da madrugada
Uma réstia de dor lembrou-me quem sou
A cintilação da espuma é apenas o riso do sal
Numa distância infinita deixei morar o mal

Casa, uma paleta de confusas cores
Pedra, água, mãe de água
Já foram levados pelas chuvas os ninhos de verão
Já foi lavada, levada no vento parte da minha mágoa

São cinco da manhã
Louco poeta pintor perdido do sono
São tão estranhos os tempos
Que vida, mil vidas, roda alucinante, caminho longo

Uma voz…
Tanta emoção tem este arroxado peito
Serei uma estrela afugentada dum claro céu?
Ou uma simples criatura com orgulho e preconceito?

Estão nublados estes olhos
Está de pé ainda este Templo de negro basalto
São tão urgentes os gestos de minhas mãos
Ardem na manhã uma revoada de melros atirados ao alto

Deposito uma toalha de mesa no chão
Vi cair um justo num grito lancinante
Vi a cor no aroma de rosa breve
Acordei tão cedo no…Tocar de Um Instante…

domingo, 6 de outubro de 2013

O JARDIM DOS SETE VENTOS


A Ilha acordou cinzenta
Envolta em manto de finas gotas de água
Sonhei com um Mundo onde floresce a verdade
Sonhei que tinha afugentado a mágoa

Ninguém saberá que uma Ilha começa na nostalgia
Onde se cruzam Milhafres de séria estampa
Nesta ilha lavarei os pés em degraus de negro basalto
Nesta vida já subi tanto, tão alto

Existo na ausência do meu nome
Sou um poema sem rima, sem história
Uma ave do mar que busca poiso em terra
Uma bandeira branca no centro de uma triste guerra

Os deuses não cantam na madrugada
As estátuas ficam para além de todas as memórias
Soltam-se sementes de água dos meus olhos apenas quando amo
Tenho no meu caminho mais quedas do que glórias

São brancos estes muros das casas do norte
É tão inocente a idade de plantar sonhos
Sou um pescador de ventos, cheio de fé
Um aprendiz de feiticeiro, um necromante até

Não sei se alguém espera para além das minhas palavras
Tão quietas as minhas memórias ouvem o Mar
Uma melodia de silêncios faz parar o mundo
Soletro o nome dos que se ausentaram de mim
Orvalhada vida, repleto profundo

Imperturbável é esta minha fé
Esta minha crença no querer de certos gestos
Entre fragores de cor purpura
Mergulho em mim, afugento amargura

Senti vontade de correr no rumor do Mar
CaDa gota de sal me faz sentir mil alentos
Hoje abri os trincos da memória
Neste…Jardim dos Sete Ventos…

domingo, 29 de setembro de 2013

A MUSA DE FOGO


Quedo-me sobre os escombros da vida
Este Teatro destruído por vil mão
Tropecei em dispersos desenganos
Amordacei a luz, encobri a paixão

As palavras, as minhas…
Podem destruir o homem, a palavra não
Podem amordaçar o poeta
Nunca o seu coração

Este Domingo de Setembro nasceu vazio da claridade
Ainda sinto o rumor do crepúsculo desvanecer
Tacteando a sombra de uma buganvília
Cerro os olhos para não ver, não crer

Oiço passos minúsculos, aproximando-se da minha memória
Assalta-me a lembrança, solta-se uma memória
Um anátema…
Mil histórias, uma singela história

Esqueci os primeiros degraus da vida
Pensei como se envelhece nos espelhos
Deram-me no tempo uma coroa de folhas já mortas
Fecharam-me amizade no bater de sete portas

Memórias…
O verbo que canta às vezes evoca o amor
Às vezes a dor…
Há palavras que ardem mudas
Há espinhos na beleza de uma flor sem cor

Entre mim e as palavras há o tinir de punhais
Enternece-me a visão dos frutos de Outono
No êxodo deste instante escrevo
Olhar sem rumo, sem sentir não vejo

Ao olhar os ocultos fascínios de Mar
Pintei um nome de Deusa num barco
Pintei dois anjos de água negros
Pintei uma …Musa de Fogo…

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A BARCA DOS MIL SONHOS


As mãos prendem um perfume
Conheço tanta história com final feliz
Conheço mil caminhos
Paguei, de joelhos, tantas promessas

Meus Deus…!
Faltou-me a luz, arroxou-me a alma a saudade
Dormi, morri, tenho saudades de me encontrar com a morte
Tenho-me perdido do destino, do norte

Sou como um luar de volta incompleta
Um lamento dos deuses na madrugada
E entre as ruínas deste pardo crepúsculo
Sentei-me num chão frio, abandonei a chegada

De assalto meu corpo foi ficou preso ao nada
A gaivota da minha memória perdida numa tempestade
Os voos do meu olhar já não alcançam a ilha
Não me falem mais, não quero! Que morra a saudade!…a saudade

Este lume do sentir nunca me aparta
A febre lenta deste viver mata-me as palavras
Toda a gente chegou tarde ao dar-me a mão
Folhas latejantes, quentes, agrilhoada paixão

Estou fatigado deste voo
Estou vazio do querer acreditar
Adormeço com a desistência dos milhafres
Será que no amanhã ainda me amarão

Onde dormem os milhafres?
Para onde vão os sonhos vãs?
Onde poisam as gaivotas durante a tempestade?
Para que serve sentir o ódio a gerar saudade?

Há uma cadeira na espera do meu cansaço nocturno
Há um rumor no crepúsculo a esvanecer dos seres bizonhos
Há a brandura da minha alma envolta em duas lágrimas
E há um mar arável para esta…Barca dos Mil Sonhos…

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O PAGADOR DE PROMESSAS


Este novelo de fio negro
Este xaile de uma vista só e negra
Este barco de negreiros, esta aventura
Esta arroxada alma acreditar na ternura

Esta chuva de verão, esta sedenta terra
Numa casa do sul vi vultos do Mar
Pintei sombras, luz, uma infinita claridade
Pintei ventos dolentes, pintei a saudade

Uma exaltação solta nas frinchas de uma espera
Absorvi a transparência da música
Invadem-me a lembrança mil primaveras
Afasto do pensamento repetidas quimeras

Os meus olhos já não colhem ódios
Já não adormeço nas madrugadas da melancolia
Já não me lembro da idade de um homem amar uma mulher
Sinto ainda o odor do orvalho num fruto qualquer

A esmagadora pureza das maçãs
Frutos mordidos por uma Lua prazenteira
O cheiro a Sol e sal vindo de entre as pedras
A respiração da Terra, absolvição derradeira

O caminhante, caminheiro…
Cavaleiro andante, quixotesco semblante
Uma espada de papel, escudo de lata
Um cavalinho de barro a que chamei rocinante

Uma porta antiga aberta de par em par
Acordei no silêncio os trincos da memória
Às vezes fico assim calado ouvindo os dias
Às vezes penso nas cores de uma contada história

Às vezes…
Penso que “Meu Deus” em mim professas
Às vezes louco escriba, pintor de lamentos
Ou talvez, pobre…Pagador de Promessas…

domingo, 25 de agosto de 2013

OLHOS DE NEGRO OLHAR



Latejantes folhas, quente terra, fresca água
Esta ilha respira no doce remanso da eterna maré
Aqui os deuses acordam na madrugada
Uma estátua acolhe os lamentos vindos do nada

Segui a viagem do pensamento
Sou a sombra de uma roseira brava
Entres ruinas a mais pálida luz
Vi um pássaro que no canto trinava o amava

Cresci nesta dormente melancolia
Ausentei-me do meu nome vezes sem conta
Adormeci no dia para enganar a noite
Abracei o inimigo em terrível afronta

Nesta ilha do meu canto
As casas são feitas de água e vento
Nesta ilha aprisionada pela bruma
Serei apenas sal solto na espuma

Nesta ilha ouço os passos chorosos da água
O alvoroço dos pombos no dia do divino
E já vejo talhado o ardente rosto de Setembro
E vi coisas tantas que já nem lembro

Regresso todos os dias de uma saudade
Senti na alma a sombra de Chopin a passear numa ribeira
Lavarei a alma de íntimas e dolorosas feridas
Não quero morar no vale das almas perdidas

Tangida de melancolia correu mais uma noite
Inebriei-me na força de um ritual
Era apenas uma simples oração que não sabia de core
Era mais ou menos, “perdoai-me Senhor, coisa e tal…”

Sinto ainda em, mim a inocência de plantar o vento
Sinto que nunca esquecerei o significado da palavra amar
Nesta ilha as pedras nunca serão brancas
São como…Olhos de Negro Olhar…

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

LANCELOTE


Sentei-me numa cadeira perto do Mar
De gravata comecei uma bravata
Olhos de pálido mel
Minha alma sabendo a fel

Parei a vida
Parei o tempo, malditos tambores
Parei o coração e morri baixinho
Amaldiçoei esta terra dos amores

Desbotei esta máscara de palhaço
Arranquei à unha as linhas de meio sorriso
És tão estupido poeta
És um falhado, uma perversa peta

Bem, isto começou mal
Vamos lá recompor a pena
Pintemos as mais belas metáforas
Este é o tempo das negras amoras

Negro coração, este meu calhau sem cor
Já me chamaram génio, bom rapaz, mau actor
Já me chamaram rei da dor
E há quem contenha na boca a palavra estupor

Larará..la…lará
Eu bem tento domar esta louca caneta
Mas hoje fugiu-me a força, a razão
Ardeu-me a alma, fugiu-me o chão

Esta porta cerrada
Esta ave do mar profundo
Este homem que sente às vezes
Não pertencer a este mundo

Muito bem, não liguem, não leiam este poema
Foi traição da caneta, nem consegui dar o mote
Hoje a sombra engoliu toda a luz
Vi a minha sombra, qual triste…Lancelote…

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ORGULHO E PRECONCEITO


Os deuses choraram o dia
Uma voz nasceu nestas águas
Senti o canto de pássaros imaginários
Chego aqui com tanta sede, tantas mágoas

Fui hoje um trovador das sombras
Senti um anjo verter lágrimas azuis
Senti o engrandecimento de um fiar de angústias
Senti velas, mastros, estais

Esta chuva que resvala no silêncio
Retornei aos meus silêncios onde não existe dor
Não ouvi o tremor do sino esta tarde
Esta chama que não esmorece, que teima, que arde

Crepitam risos na distância da verdade
Lavarei os pés neste frio barro de pobreza
Não espero palavras nem voz de amor
Não pintarei sem cor, não desenharei tristeza

Sete pássaros cruzaram o milheiral fugindo à morte
Imaginei um jardim de encantamento e ventos
Subi uma montanha azul inventada pela loucura
E dei por mim a imaginar palavras em boca pura

Grande maluco que és...!
Bela cabeça para criar tolice e cabelo
Às vezes penso que sou amado neste inverno de desamor
Outras, um perdido fio de emaranhado novelo

Não faz mal meu rapaz
Cá se faz, cá se dorme para esquecer
Sobre o meu muro hoje agitaram-se pombas brancas
Pensei em ti, julguei ver

Sobre as pedras o dia apenas deixou a voz de uma menina
Disse tanta palavra com a verdade vinda do peito
Quede-me tombado com este tristonho dia
Esqueci o meu…Orgulho e Preconceito…

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O TEMPO DA ETERNIDADE


O amor é infinitamente mais resistente que o ódio
Encontrei Deus vestido de pássaro
Encontrei a vida vestida de sol intenso
E disse a um Anjo o que quero e penso

Gloriosa caminhada subindo ao infinito
Preparei as mãos para a ternura
Darei sempre a melhor água desta nascente
Serei a pedra ou água pura…?!

Sentei-me no mar
Fechei os olhos para uma sereia saudar
Fiz uma vénia a um golfinho saltador
E descortinei na espuma a palavra dor…

…Ou era amor…?
Que importa se me fecharam a porta
Enjaularam este coração
Que soltou breve uma esperança quase morta

Espadas cintilantes cortam o ar
Uma Mãe sem pensar molda o aconchegar
A maresia é suave véu, caminhada fria
Este verão do meu contentamento não pode parar

Marcharei à volta desta fogueira
Rasgarei palavras já gastas, canções esquecidas
Este tear tem fino linho unindo mil fios
Os meus sonhos lançados à terra escorrem para os rios

Afastei uma ramagem de nostalgia
Ardência dos corpos presos ao querer
A vida contada em horas de vertiginosa calmaria
Uma madrugada que abraça um novo dia

Não serei mais nas escarpas um lenhador furtivo
Não serei mais um filho da eterna saudade
Não serei mais um poeta vestido de dor
Deixarei apenas envolver-me…O tempo da Eternidade…

sexta-feira, 12 de julho de 2013

BALADA DA CIDADE TRISTE


Descalço-me frente às tuas vontades
Não tenho céu nem estrela como minha
Sou pedinte que nada pede
Arvore que ao vento cede

Um velho estende a mão ao acaso
A rua adormece vazia
Um metro silho tomba contra a noite do mundo
Um assobiador solta trinados de nostalgia

A quentura dos dias retida na calçada
Um corpo atirado aos sonhos do nada
Um ladrão a cantar o roubo a um coração
Uma pomba tombada por uma pedrada

…E murmura esta alma inquieta
Escrevo para que oiças o que os teus olhos sabem
Este espelho envelheceu na espera do ver
Este sentimento que sente e é semente do ser

Escrevo para que se rompam fráguas e amarras
Se solte o grito silencioso e humilde do amor
Esta criança temerosa já não espera sorte e sentimento
Já não acredita que possa haver um feliz momento

Uma tela…
Um quadro banal torto na parede
Olhos de alegria breve
Este herói sem capa a tremer de medo

Mas medo de quê?!
Quando tens só para ti o escárnio da solidão
Mas medo para quê?
Se já nem voas de tão preso ao chão

Acreditem ao não…
Sei escrever música sem notas saber de pena em riste
Deu-ME hoje para compor uma maluqueira qualquer
Saiu isto, uma…Balada da Cidade Triste…

sábado, 6 de julho de 2013

UM NOME DE MULHER


Evoco aqui o silêncio dos desejos
A sombra fria dos teus passos
A frieza das manhãs de Inverno do teu olhar
A loucura sem sentido a passar

Ardência das minha saudades
A tangencia da melancolia atirada ao mar
Janelas fechadas da madrugada
Com pétalas murchas de silêncio no chegar

Os sons de uma guitarra têm a cor do Mundo
O choro de uma criança o incomensurável da dor
Esta distância crescente de agonia
Este lume morto de fim de dia

Das pedras a voz solta de fecunda mulher
Uma figueira sonhando parir flores
Vi animais tristes passando num rumo incerto
Vi o amor e dor dormirem tão perto

E vi um idiota armado em esperto
Uma mulher sem rosto dizer mal da puta da vida
A terra desventrada sedenta de chuva
E um poeta asneirar por ter bebido sumo de uva

E vi uma Mãe de gestos felizes
Um Pai sem paciência para os petizes
Vi fome te ternura e mentira num olhar
E tenho tentado saber como me fizeram aqui chegar

Sei lá se vejo ou invento o ver
Já inventei o amor ter
Já amei se calhar mesmo sem saber
Já muita vez uma lágrima tive que conter

Já remexi nos bolsos de um espantalho
Procurei uma moeda da felicidade qualquer
Encontrei três pedras
Uma delas tinha gravado…O nome de Mulher…

domingo, 30 de junho de 2013

VIDAS INDECISAS


Manhã de cinzenta neblina
O Sol adormeceu na noite
Este dia corre em agonia
Este desencanto, esta nostalgia

É tão triste combater o destino
É tão insensato amarrar o coração
É tão cruel atirar fora a ternura
É tão estupido viver na sombra da solidão

Pessoas…!
Apenas pessoas de cabeça perdida na dúvida
Tenho pena de muito poucas vezes gostar
Aflige-me o amor, sentir amar

Pessoas…!
Vestidas de infinita crueldade
Tenho um sentido, uma rua nesta vida
Tenho arroxada no peito uma saudade

Pessoas…!
Ingreme enseada de duras palavras
Orgulho sem fulgor cego, solitário
Ribeiro furioso correndo ao contrário

Poeta…!?
Não sejas tonto, pateta
As pessoas são isso, são assim
Algumas confundem o começo com o fim

Por isso é tão triste combater o destino
Tão triste voar sem rumo ou encontro
Deixar de sentir a força suave de cada maré
Ser árvore, morrer de pé

Mas sou feliz…!
Porque dentro de mim há uma razão abrasadora
Há uma inquestionável verdade nua e resplandecente
Há uma esperança viva, não quero que morra

E há tu, e tu, e tu e tu…nada!
Gaivotas, pedras, ilhas perdidas
E há um Mundo que criei para plantar verdades
E há tristeza tanta…Vidas Indecisas…

quinta-feira, 27 de junho de 2013

IMENSAMENTE


Hoje senti o odor de sonhos passados
Veio ao meu encontro uma melodia chorosa
Trago do amor um travo amargo sem saudade
Trago no peito uma inventada cidade

Senti a sombra de uma melodia de Chopin
Segui a rumagem das folhas de verão
Toquei em voluptuosas hortênsias azuis
Uma delas arroxou-me o coração

Sou terra com sede de sol e céu
Elevando as mãos ao destino
Sete degraus e eu parado no meio
Uma escarpa alta, o voo sem receio

Por onde andará o errante nevoeiro?
Uma ilha é feita de pedra e nostalgia
Sou apenas a espuma de uma solitária onda
Sal que se solta no ar e às vezes brilha

Por onde andas tu?
Melhor, por onde anda a tua confusa alma?
Onde mora a tua perdida razão?
Porque habitas este mar de solidão?

As primeiras amoras embaladas pela brisa
A calmaria, o chamamento de amor das cagarras
Uma andorinha do mar que se perdeu
Um coração solto de todas as amarras

Um sorriso franco e cativante
A luz que que desmorona os muros de lava
As uvas ainda são amargas em Junho
Uma mulher que não sabe se ama ou amava

Tão quietas as pedras, ouvem o Mar
Serenos sãos os olhos quando se ausenta a dor
Este lume que aquece um querer somente
Este homem que sente…imensamente…

domingo, 16 de junho de 2013

MAR DE TODAS AS EMOÇÕES


Hoje senti-me dono do céu
Ouvi nas folhas dos jarros o silêncio da ilha
Procurei a respiração de um Sol de verão
Tive um momento de fogo, uma boa má sensação

Ouvi os passos da água
O estrondoso cavalgar de ondas impacientes
Vieram ao meu encontro odores azedo e doce das maçãs
Um tremente som de sino rasgou-me as minhas esperanças vans

Talhei na passada um rosto
No tremor da tarde procuro o encontro com o nada
Não sei se regresso no encontro de uma saudade
Não sei ouvir na vida uma real verdade

Tão confuso está este poeta pateta
Hoje não és dono do céu ou coisa alguma
És apenas um demiurgo da puta da vida
Uma gota de sal na confusa espuma

Oiço na distância os risos de troça
Sou um negro cisne sem canto
Chego aqui com a terra nos dedos e tão pouco
Alguns chamam-me de mestre outros de louco

Que importa ser alguma coisa em árvore morta
Nas escarpas desta ilha deixo traços meus
Serei um pescador de sonhos ou ventos
Ou um sonhador dos mil pensamentos ateus

Um trovador das encantadas sombras
Um trapo que à noite tomba
Um a janela que se fecha em úmida agonia
Um raio de luz pálida, fugidia

Já não procuro à muito uma maçã escondida
Já não descubro o pão e mel no avental de minha Mãe
Cresci num nascimento mal parido e senti-me perdido
Fui herói nos sonhos e medo escondido

Ora vejam bem o que é um mau poema
Saído da pena de um homem morto pelas ilusões
Às vezes o poeta sem pecado peca
E solta uma lágrima neste…Mar de Todas as Emoções…

sexta-feira, 7 de junho de 2013

MENINA DO MAR


Se for corrompido meu corpo
Se morrer por não saber senão assim ser
Se a minha palavra deixar de voar
Se as mãos deste poeta não encontrarem um olhar

O eco das tuas palavras reverbera
O fato que abandonei na cadeira
Tinha o aroma de uma rosa breve
Uma amora madura, uma dor certeira

Este é o tempo das buganvílias
As últimas chuvas fecundaram as hortênsias
Há uma criatura encontrada na desordem das marés
Há uma orquídea de coral atirada ao convés

Deixei um murmúrio preso ao ramo de uma faia
Lancei sementes à água dormente
Deixei-te nos cabelos uma coroa
Deixei-te na alma um presente

As palavras desta terra foram sangue e vinho
Da respiração das pedras fez-se melodia
Insondáveis esplendores habitam teu coração
O fascínio do mar preso a uma inquieta mão

Na errância dos pesares
Encontrei a espera de uma casa
Naufraguei nos escolhos de um destino
Há sempre um ir, um caminho

Há sempre cânticos na madrugada
Guardei lágrimas que secaram em lenços antigos
Aconcheguei uma réstia de alegria no abraço
Lancei um avião de papel ao espaço

Voei nele sem rumo ou distância
Há tantas feridas abertas por sarar
Há um areal com penas das gaivotas
E pegadas de uma…Menina do Mar…

quarta-feira, 5 de junho de 2013

MANHÃ AZUL


Percorro os caminhos que me levam os passos
Fecho os olhos para ver melhor a paixão
Habito um Mundo de tormenta e dor
Não sou, nunca serei ilusão

Hoje escrevo para ti apenas
Com uma pena de tinta azul
Parei na vida por um instante
E um Anjo sorriu-me vindo do sul

No desencontro de mil vidas
Encontrei uma de flor singela
Um abraço que recolhe a ternura
Encontrei uma ilha de formosura

Quantos caminhos na procura do rumo
Quanta dúvida nesta minha alma habita
Um pássaro falou-me de ti
Descobri que ainda ardem sentimentos e sorri

…E escrevo só para ti
Quero ler o que dizem as tuas palavras
Quero descobrir o esplêndido das suas cores
Quero fechar este livro de folhas negras e gastas

Quero embriagar-me de sol
Beber a magia do luar de agosto
Voar nas asas de uma cagarra
Poisar na esperança ao sol-posto

Sei, sempre soube o meu rumo
Sempre saberei para onde ir
Sempre soube que não sou deste Mundo
Ficar, viver, voar, abraçar, lançar âncoras ao partir

E escrevo só para ti…
Para que saibas que o Sol brilha mais a Sul
Parei no tempo, abracei um Anjo…
No despontar desta …Manhã azul…

segunda-feira, 3 de junho de 2013

PIANO


Pensei saltar por cima da vida
Atirar o corpo no vazio de um penhasco
Mas o Sol apareceu radioso
Um anjo que conheço deu-me a mão radioso

Pensei nas pessoas
Como mudam de máscara a cada passo
Pensei em Deus e no Diabo
E confundi a bondade em confuso estado

Percorri anos de labuta e dor
Pintei tanto azul, tanta flor
Na minha casa ainda floresce a paixão
Em minha alma ainda arde o amor

Na minha casa não há mentira
Plantei a verdade e reguei com ternura
Já cá não floresce raiva e ódio
Apenas uma criança de alma pura

Neste peito incandescente
A lava ardente aprisionou uma lágrima
Às vezes choro mil penas
Sou um homem a caminhar na vida apenas

Uma ilha…!
Onde moram todas as culpas do Mundo
Um barco sem vela ou bussola
Um oceano onde guardo o meu mais profundo

Um orgulho sem preconceito
Pedra sobre pedra, morada com aroma de pão
Quanta pedra me atiraram
Retribuo com a bondade em aberta mão

Tudo isto me ocorreu esta manhã
Às vezes fico assim, confuso estranho
Porque o meu silêncio foi quebrado
Pelas notas de um…Piano…

terça-feira, 28 de maio de 2013

AS CORES DA FÉ


Construí uma história sem guião
Sou herói de uma comédia triste
Cavaleiro andante, moinhos de vento
Escudo e espada de lata em riste

Não!
Sou apenas mais uma alma da ilha
Um caminheiro do dia da procissão
Uma fonte, uma lágrima, a emoção

Serei amanhã, porque hoje…
Sigo os passos que me levam ao céu
Sou, sinto tão enorme esta força em meu peito
Sou tão insignificantemente grande, nuvem, véu

A palavra já gasta
A raiva morta no vale do esquecimento
A derradeira atitude ensaiada mil vezes
Uma réstia de sol, a ternura a colorir o momento

O pensamento!
Maldito sejas morador desta tonta cabeça
Cultivador de mágoas que me consomem
Fato de vento e fogo que espartilha este homem

O rasgo da subida de foguete
Um estrondo para acordar os anjos
Reis e rainhas por um dia
A ilha está em festa, adormeceu a nostalgia

Viva o “Espirito Santo”!
Uma pomba branca que não quis voar
Uma rabeca a gemer notas difusas
Um cantador eterno orgulhoso do cantar

Um Igreja coroada pelo amor
Uma criança no papel de homem grande
Um padre levando tudo à letra
Um altar dourado, uma Mesa de cor preta

Chuva e sol
Tapetes de flores afagando o pé
E a minha alma prenha de uma esquecida alegria
Inundada com…As cores da fé…

quarta-feira, 15 de maio de 2013

INSONDÁVEL


E as barreiras ruíram
Tenho no peito uma ilha escondida
E o amor de tão falso morreu à nascença
Tenho na alma uma fé incontida

A lonjura entre o coração e a maldição
Esta sensação de ser e não ser, um ser de papel pardo
Perdi-me na distância do crer e não crer
Senti-me sempre mais odiado que amado

Fui negro e branco, pena, penas, orvalho fresco
Fui Setembro, Sol, planta de sorriso azul
Fui caminhante, caminheiro da solidão
Fui ave de arribação para sul

O primeiro nome de uma mulher devia ser verdade
O primeiro amor de um homem não devia acabar mais
A primeira manhã de uma vida devia ser eterna
A minha primeira oração foi real e plena

Derramei sangue entre palavras
Magoei quem devia ser adorado
Rasguei grosseiramente um compromisso
Sou máscara de escárnio de um mal-amado

Sei lá quem sou!
Um forasteiro sem rumo ou poiso
Enquanto a memória escurece nos meus olhos
Perdi a melodia de uma voz, já não falo, não oiço

No êxodo deste instante renego a lembrança
Entre mim e as pessoas há um clamor de raiva e bondade
Até as estátuas sorriam zombeteiras
Deste louco sem destino ou idade

Neste inexplicável deserto de incertezas
Às vezes passo e colho um sorriso amável
Às vezes esta minha cabeça tonta
É universo sem estrelas…Insondável…

domingo, 5 de maio de 2013

O CAIS DO SILÊNCIO


São de água meus pensamentos
Nas folhas das hortências por abrir oiço a ilha
São de incenso o odor da lembrança dos meus sonhos
Ardência das minhas palavras, ausente maravilha

Nunca regressei a uma saudade
Trago o amor amordaçado em gaiola aberta
Cego e solitário, sou peregrino descalço
Ausentou-se o nevoeiro, desfez-se o abraço

Fui aclamado, segui só sem andor
Não há tapete de flores para os caídos
Não há clemência para os esquecidos
Não há coroa de louro para os vencidos

Hoje sorri feliz co as primeiras amoras
Pedi aos santos uma ajuda que nem sei
Um cheiro de solidão cresce entre o negro basalto
Rezei baixinho de olhos fechados para o alto

Que ilha descubro em ti
Arquipélago de baleias e furiosos ventos
Murmurantes lágrimas caem em linho puro
Rasguei velas de moinhos, neste Maio maduro

Senti o corpo ceder à dor
Que importa o que sinto quando dizem minto
Que importa o que todos sentem
Se por todos o meu sentir sente que já não sinto

Se falassem as minhas mãos
Diriam que não são minhas, que são afago de um deus
Se mostrasse a minha alma ao vento
Ele diria que ela já nada sente

Estava eu aqui calado a ouvir o murmúrio dos dias
Nestes dias apetece-me correr pela terra
Tocar as nuvens, vencer um mar bravio
E sentar-me nas pedras deste…Cais de Silêncio…

sábado, 20 de abril de 2013

NEM SANTO, NEM JUSTO


Dormi tranquilamente sobre o vento
A minha alma tece o fio branco e negro
Senti solto o machado em árvore do mal
Repugnantes são as palavras que nos conduzem ao degredo

Hoje por hoje, minha alma é campo de batalha
Partilho todas as noites a serenidade de um sorriso
Bebi de uma taça que me queimou a alma
Apaguei um antigo fogo de esmorecida chama

Agitam-se as águas do tempo
Caminho para o rumo de uma felicidade azul
Vendi os sonhos, aprisionei as minhas mãos, com fragor
Para não mais acarinhar gente que mata o amor

Vi uma alma nua de luz parda
A loucura tomar conta das virtudes de uma boa pessoa
Vi canalha vestida de monstruosas intenções
Deram-me um pão de farinha boa

Hoje tive vontade de escrever
Suspirar palavras e lança-las ao vento
Hoje tive vontade de partir
De ir, de não mais querer vir

Mas estou alegre
Feliz como alguém que para casa volta
Não quero mais quem diz ser eu uma porcaria
Há para aí gente viva que perece árvore morta

Este é chamado um texto sem graça nem contexto
Só alcança isto quem for gente burra
Há os anormais armados em espertalhões aos magotes
E há gente discreta de alma pura

E há os laços de cetim branco
E vidas que tiveram um alto custo
Há também laços feitos por gente indecente
E há este homem que não é…Nem Santo, Nem justo…

terça-feira, 9 de abril de 2013

A SOMBRA DAS ROSAS


As pétalas murchas do silêncio
Perderam-se nesta imensa e fria bruma
Meu magoado coração já não bate
Perdi-me neste sal, nesta espuma

O dia entardeceu no começo da manhã
Amordacei a palavra feliz por me parecer vã
Não me julguem mais, deixem-me ser apenas pedra
Já não é de basalto o meu cais de espera

Esta ilha de ventos moldou-me a paixão
Este mar furioso vestiu-me de contradição
Tenho saudade de ser amado com verdade
Não tenho pressa, tenho asas de lata e uma cruel liberdade

Sou fruto mordido sem ventura
Gaivota escondida sabe-se lá porquê
Era para dizer na outra quadra (saudades da minha Mãe)
Já disse, não me envergonho, este poema ninguém lê

Hoje as sombras desceram todas à minha janela
Que ilha descubro na tua alma?
Ainda existe o fecundo que dá magia ao verde
O Sol esmoreceu neste Inverno sem chama

São os gestos de um fogo desenhando lírios
Que vestido abandonaste na cadeira
Ouvi os anos falarem de um castelo de futuro
Ouvi os dias murmurarem a luz derradeira

Sou apenas pegadas de uma ave do mar na areia
Sigo em frente e quando voar já não serei
Diz-me “Meu Deus” o que faço se é certo
Se serei um tonto ou apenas um burro esperto

Já quis ser tudo, agora não quero ser nada
Vou esperar a vinda das borboletas nas ribeiras, suaves mariposas
Neste dia em que faz anos que nasceu este boneco de papel
Apenas vislumbro…A Sombra das Rosas…

quinta-feira, 28 de março de 2013

ENTARDECER


No êxodo de certos sentires escrevo
É tão irreverente este boneco de papel
Olvidadas noites de temperado luar
Nestes tempos de dor e mel
Ninguém me encontrará como sombra tombada
Nos umbrais da fria solidão
Esta ardência, este fogo, esta benevolência
Este machado, uma cruz de cru barro
As minhas raízes, este tempo que amarro
Não me falem mais de mais coisa nenhuma
Ressoa o tempo em inexplicáveis desertos
Xailes negros, ardentes
Ardem mudas certas palavras
Tenho a alma ausente de presentes
Nas enseadas da ilha erguem-se estátuas
São de algas já mortas os seus cabelos
Sentir foi sempre a minha vida
Nunca parti sem chegada, sem dizer nada
Escorre o sal na melancolia das pedras
Trago sementes de boa nova nos olhos só quando amo
Minhas latejantes esperanças pintam quimeras
Um lume consumiu abaladas crenças
Quem se lembra dos primeiros anos do vento
Memórias na casa do silêncio
Vês agora a mudez das neblinas
Degraus que não sobem ou descem, nada
Pegadas de uma ave que não sei na areia molhada
Insanos sentimentos correm os dias, a razão
Um ninho incendiado, um animal triste, um pardal sem asas
Um espantalho com três vinténs no bolso
A terra em estertor varrendo a paixão
Procurei na macieira frutos mordidos
Senti o azedo, enganei o prazer
Não quero o querer, ver acontecer
Esqueci o nome dos ausentes
Numa casa vazia, tão perto agora
Entardecer…

quinta-feira, 14 de março de 2013

OS CAPRICHOS DE UM DEUS


Perdi-me da saudade
Percorri apenas um caminho sem volta
Senti o chicote de um vento agreste
Acho que não conheço ninguém que preste

Acho que a vida é uma atafona enferrujada
Que sou uma pessoa mal-amada
Acho que sou uma figura mal encenada
Que tenho uma sina desencontrada

E plantei-me à esquina da vida
Cheguei-me ao passo do tempo
Mordi as rosas, rasguei-me em espinhos
Soltei as raízes ao pensamento

O céu ameaça desabar sobre esta ilha
Agua na água, manhã assombrada
Onde param os pássaros chatos do meu quintal?
Porque de mim só pensam mal?

Não interessa!
Não tenho pressa do ir para chegar
Ninguém parte sem rumo ou vela
Já não soletro o verbo amar

Olha a estupidez mascarada de senhora fina
Olha o palhaço de grosseiro traço
Olha este Arlequim dentro de mim
Olha esta roda sem fim de negro espaço

Não olhem para mim!
Já saí da esquina da vida
Já orei, ri e chorei
Já me feri da dor mais sentida

Levei estes dias a pintar de forma desenfreada
Pintei, bonecos, arcanos e pecados meus
Desfaleci mil vezes na beleza das cores
E deixei-me arrastar nos…Caprichos de um Deus…

domingo, 24 de fevereiro de 2013

ESTE MEU GRITO


A maldade tomou de assalto os justos
Podia dar nome a cada besta
A ironia fez sair da lama seres pérfidos que bem conheço
Alguns sabia que tinham escrito “Falso” na testa

Deixem de manipular
Deixem de vomitar veneno com rótulo de amizade
Deixem em paz quem precisa de paz
Deixem vossas porcarias arruinar a saudade

Quanta loucura, quanta insensata palavra
Um anormal falou-me em lealdade
Lembrei ter sido generoso no tempo
Lembrei ter sido tão leal em dado momento

São tão nojentas certas pessoas
Conheço um manipulador mentiroso que se diz amigo
Pinto todos os dias de branco o negro de certas almas
Abre os olhos! Olha para dentro de ti, acorda! É preciso!!!

De demanda em demanda luto com adamastores
Falsos atores, fabricantes de terrores
Onde estarão vocês quando tudo estiver destruído?
Soltando gargalhadas na cara dos sofredores

Deus vos abençoe e o diabo vos acolha
Serão certamente os braços que vos acolherão
Saberão por acaso meus anormais de merda o que é uma família?
Saberão vocês o mal que fizeram a um coração?

Não sabem!
Sou tão grande perante tão pequenez
Sou tão imenso
Jamais saberão o que penso

Esperarei no tempo que apodrecem vossas almas
Chamo-me Armando e sou homem, não cruel mito
Deixem em paz quem precisa de paz
Abram os vossos nojentos ouvidos a…Este meu Grito…

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O MENSAGEIRO


Prendi no olhar a fragilidade da espuma
Inventei um sítio de nadas a que chamei cidade
Fiz o julgamento dos meus fracassos
E recolhi uma verdade servida pela metade

Hoje embriaguei-me na minha solidão
Na morte da lembrança encontrei a saudade
Construi na terra quatro muros de ilusão
Amordacei este grito ao profundo do coração

Serei luz perdida na sombra?
A loucura do pranto e do riso
Uma sinuosa viagem da paixão
Ou apenas um saltimbanco, um ladrão?

…De quimeras me visto
Da bruma faço um lençol de pranto
Ainda me ecoam palavras medonhas
Ainda estou perdido neste mar de espanto

É indomável a vontade do amor!
Mas qual amor? Amar é arrebatamento da estupidez
Há sempre um sítio onde habita o sol do pensamento
Já fui embora, já agrilhoei, já caí de vez

Procuram-me as raízes do tempo
Nascem frutos sem ternura às minhas mãos
Insubmissa é a minha verdade na contradição de muitos
Eu e o vento somos feitiços que moram juntos

Ainda retenho o que existe em ti de infinito
São estéreis os sentires que enganam o coração
Moldei os meus sonhos num deserto abrasador
Não acredito que haja boca que beije o amor

Hoje também partilhei a serenidade
Proclamei a majestade dos céus e a eles subi primeiro
Dei comigo a apensar nas estações que tem um coração
E recebi uma carta sem nada das mãos de um…Mensageiro…

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O FOGO E O FERRO

Está na hora de ser vento
Olhos de milhafre, asas no azul
Está no tempo do rubro das acácias
De um rumo de esperança a sul

Está na hora de ser ar puro
De dizer que sem palavras juro
Está no tempo da mansidão dos sonhos
Do sortilégio, do esconjuro

Por amor criei frutos de beleza imparável
Cada um tem a sina que tem
Cada um tem a força do amor presa às mãos
Os caminhos são sempre de alguém

Estou num pranto comedido
Este céu está tão perto da minha alma
Esta força, “meu deus”, esta incontida esperança
Esta dor que esmorece a chama

Gente sem rosto a bater palmas
No acaso lavrei esta peça sem nome
Nunca alguém saberá realmente o que sinto
Na verdade, alguém terá dito que minto

É noite, já adormeceram os milhafres
A Lua escondeu-se em desprezo
Nem uma estrela me iluminou o ver
Não quero ninguém no abraço, não sinto o querer ter

Amordacei as raivas
As humilhantes palavras numa caixa de cartão
Liberto todas as noites este amarrotado espirito
Tanta frieza tenho sentido em tanta mão

Tanta incompreensão, tanto virar de costas
Nada de ninguém mais quero, abandonei o espero
Consumi todas as crenças e esvaziei este coração tonto
Este corpo açoitado por…Fogo e Ferro…

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

INTERMITÊNCIAS

Caminho dentro da carcaça de um homem
Sou barro mal-parido, consciência cruel
Sou verdade e mentira em guerra eterna
Sou o doce do mel transformado em fel

- Mas quem és tu ó Poeta necromante?
Porque teimas em achar-te o maior da tua rua?
- Sou apenas um deserdado do amor
Sou ninguém que segue por uma estrada nua

- Ninguém!
Já me haviam dito que a tua presunção de mataria
Já se adivinhava que a tua estupidez desse à costa
Uma mesa sem pão, sem vinho, sem estar posta

- Cala-teeeeeeeeeeeeee!!!!!!!!!!!!!!!!
Consciência estúpida e vil
Tenho sede, tenho fome, tenho frio de raiva
Tenho na lembrança os filhos da puta que foram mil

- E tenho o dicionário da merda que diz
“Que filhos da puta é calão”
E tenho, penas tantas, que metem dó
Tenho a minha sombra perdida no meio do chão

- Quero lá saber da tua opinião
Sai da minha alma, deixa-me ser apenas humano meu cabrão
Deixem-me chorar sangue até à última gota
Quero ser excluído da absolvição

- Já quis tudo!
Já naveguei por desertos aos encontrões
Já caí na fundura de sete abismos
E lutei contra moinhos de vento em contradições

- Sei lá por onde andei
Não consigo arrancar da cabeça estas malditas consciências
Será este o rosto da vil loucura?
Ou apenas uma vida com…Intermitências…

domingo, 20 de janeiro de 2013

ENSAIO SOBRE A LOUCURA

Hoje acordei num mundo novo
Pensei ter deixado para trás os fazedores do ódio
Hoje senti a lembrança da pura ternura
Hoje senti que minha alma já não era tão dura

Ontem vi chorar uma pessoa
Estou cheio de lágrimas que não consigo verter
Hoje uma estranha calma tomou-me em torpor
Juro que tenho vontade de nunca te mais ver

Mas esta foi também uma noite alucinada
Onde o sonho foi como rajada de emoções
Acordei algumas vezes em total aflição
Já não usas o meu nome, é de pedra negra um coração

Foi sonho, um, dez, mil, um milhão
Pintei o rosto de negro, lavei as mãos à raiva
Prendi uma corda e enforquei a fraqueza
Ainda reverbera em minha alma a tua aspereza

Percorri o absurdo, quebrei os trincos da memória
Cozi as feridas de sete punhais
Fugi de todas as ruas que encontrei
Navegarei preso à verdade dos brandais

Puta da vida, árvore tombada para a morte
Desejo-vos um paraíso de ilusões, muita sorte
Um caminho repleto de dourados presentes
Desejo-vos que a tormenta seja pouco forte

Já não acredito em ninguém
Já não o quero fazer também
Já não plantarei mais as minhas bondades
Já não quero dar seja a quem for as minhas verdades

Pois que morra e se enterre o poeta bondoso
Que alguns chamam de mentiroso e sem formosura
Este escrito é um grande monte de trampa
É o rosto de uma amiga, um Ensaio sobre a Loucura…

sábado, 5 de janeiro de 2013

PINTOR

Quando de vi a primeira vez
Senti imediatamente que serias importante para mim
Quando me sorriste a primeira vez
Pensei que que o principio fugia ao fim

Enchi a alma de presentes
Falei todas as noites com gente tão minha em saudade
Que vive para lá desta cinzenta vida
Falei, ouvi, corri, desfaleci, perdi-me numa inventada cidade

Atropelei os pensamentos impuros
Chamei à vida a paixão que me resta
Mordi todas as raivas que plantaram em meu peito
Fechei os olhos e vi uma deusa em festa

Velei os mortos esquecidos num cais
Carreguei um fardo de gastas palavras
Gritei a um surdo de sorriso parvo
Afoguei em água benta as últimas mágoas

Afoguei-me no pranto de sete deusas
Fiquei sem pernas para correr no partir
Ouvi o impossível do acreditar
Chorei tanto que matei o rir

Este poeta perdeu a pena
Levei tempo para encontrar-me na poesia
Lavei, levei o sentimento do descrédito
Achei que as tuas palavras nada tinham de certo

Hoje pacifiquei-me com as cores
Hoje pintei de sol a sol
Hoje fiz uma oração de traço fino
E ouvi uma música em si bemol

Hoje vi uma nuvem transformar-se em aguaceiro
Vi uma árvore despida com uma breve flor
Vi todas as realidades presas à contradição
Hoje quis ser apenas …Pintor…

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

FALSO GRAAL

Inventei a ironia numa toada de vento
Roubei as asas a uma gaivota azul
Colei-lhes um poema cheio de penas
E enviei-o para uma tonta do sul

Inventei um mar numa bola de sabão
Roubei uma corda forte e boa
Atei um rol de mágoa à mesma
E afoguei-as nas águas de uma lagoa

Inventei uma criatura de nome amor
Roubei-lhe a maldade por tempo indeterminado
Pintei suas vestes com as cores do arco-íris
Achei-a feia e fiquei pasmado

Já chega de invenções…
Todas elas saídas de contradições
Apenas uma era verdadeira
Porque foi gerada de mil emoções

Está maluquinho o poeta zinho…!?
Deixou de funcionar este ser em desalinho
Recolheu do prato um ramo de amarguras
Meteu pernas à lonjura do caminho

Andou às voltas até ter dores nas costas
Sacudiu a alma e bebeu um pedaço do céu
Fechou os olhos e sem querer pisou um falso fantasma
Que fez um terrível escarcéu

Eu não dizia que isto são mesmo maluqueiras
E quando assim é só pode dar para o torto
Este poeta pateta já não aguenta com gente
Já parece estar meio-morto

E para fechar a loucura com chave de ouro
Fiquei convencido de ter encontrado um tesouro e coisa e tal
Era apenas uma estranha criatura, qual Eva
De rosto lindo espelhado num…Falso Graal…

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

MARGENS OPOSTAS

Tacteei minha sombra caída
Os ramos de uma magnólia cedem ao vento
Ergui num deserto um castelo de raivas
Segui numa distância infinita ladrilhada de mágoas

Já não posso dar-te a mão, cheguei tarde
Entre ruinas procuro o sentido, a razão
Já não canto aos deuses, não rezo
Já esqueci o sabor do desprezo, não desprezo

Tracei um círculo de solidão
Ausente do meu nome está o chamamento
Jazem mudas as folhas de silêncio
Errantes brumas ao sabor do vento

Percorri um longo e tortuoso caminho
Moro numa casa da memória no topo da saudade
Prodígios de mil cores espalhei pelo caminho
Pintei almas, mentiras, girassóis e singelas verdades

Talvez seja apenas nevoeiro desmoronado pela luz
Um grito ecoando num mar inebriado
Um plantador da sublime palavra
Um arcanjo em luta eterna com o diabo

Lutei tanto por ti…
Luto com espadas de fogo e esperança
Não há idades para amar com amor
Não há barco que nos leve no fugir à dor

Oiço uma soluçante chuva
Uma menina de destroçado coração
Oiço um pássaro chato cantar todas as manhãs
Li gravado num banco de jardim a palavra perdão

Rumores incendiados, céu menstruado de paixão
Mãos urgentes afagam estátuas incompletas
Neste rio de furiosas águas sonhado pelo pintor
Quedo-me só eu e a estupidez em…Margens Opostas…

sábado, 17 de novembro de 2012

AS FILHAS DE UM FALSO DEUS

Imensa funda e impenetrável noite
Onde as trevas soltam gigantes feitos de sombra escura
Caminheiro, caminhante, sem rumo ou vontade
Teu coração e alma serão ungidos com água pura

A virgindade perdida ao travo do cigarro de uma puta
Um marinheiro tonto de arrogante atitude
Duas maçãs podres atiradas à sargeta
Um sorriso estupido a cantar uma peta

Olá deusa Grega caçadora de orgasmos mentais
Olá gente estupidamente contente
Há tanta estupida pessoa que me acha louco
Algumas dizem coisas que me deixam menente

Mas, que é isto?
O poeta descalçou-se em frente à palavra
Mete-me raiva mulheres agrupadas
Não quero ser semente de perversa lavra

Observado pelo mundo ficou ausente o meu nome
Dispersos pedregulhos de silêncio empurraram-me o ficar
Insondáveis são as teias da maldade
Levanto-me todas as manhãs ausente do amar

Na passagem, vi a memória ausente dos teus olhos
Respiro uma estação já morta
No êxodo das manhãs escrevo a raiva
Há um castelo azul com o azar preso à porta

Uma criptoméria tomba contra a fundura do tempo
Escrevo para que não oiçam o clamor desta nua alma
Escrevo para que ninguém se ache nestas palavras
Escrevo para que nunca esmoreça esta minha chama

No caminho do inverno ouvi o grito do bravio mar
Sentei-me de olhos fechados e lembrei alguns pecados meus
Lembrei pessoas que não mereceram o abraço
Lembrei algumas…Filhas de Um Falso Deus…

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

PEDRA e ÁGUA

Hoje um espelho envelheceu a minha alma
Devorei de raiva o pão da pobreza
Calei-me para melhor ouvir os dias
Escrevi na areia duas palavras, melancolia e tristeza

Desnudei-me à frente das tuas últimas palavras
Ouvi a respiração das eternas estátuas
Entre mim e o teu coração há o clangor das espadas
Conheço o teu nome, a verdade das tuas mágoas

Cinco letras…
Cinco pontas de cadente perdida na aurora
Na loucura de alguns instantes escrevo
Descalço vou adiante num ir longe, embora

Solto das mãos murmúrios sussurrantes
Do basalto explode um bando de pombos bravos, alguns negros
Há um livro branco apenas com a palavra ausência
Há uma carta de marear para um rumo de mil segredos

Flores de solidão crescem em pedaços de fria lava
Um espantalho saltou-me do bolso a remexer
Uma sombra desceu a janela e tocou-me
Cerrei olhos para sentir o que não queria ver

Cobri-me no lume das noites frias
Arderam quietas minhas emoções pungentes
De pássaro me transmutei em alquimia
Num ritual enterrei no barro meus anseios ardentes

Sou um pescador de calmarias
Um apagado trovador perdido da sua sombra
Raras são as pulseiras de pedaços de estrelas
Raras são as palavras de verdade que minha alma lembra

Eles não sabem que “Este Eu” é uma ilha de nostalgia
Uma casa de memória prisioneira da mágoa
Correndo entre o rumor do Mar e a fria bruma
Feito de cru barro, prisioneiro da…Pedra e Água…

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

AMARGO NOVEMBRO

São mudas as neblinas nesta ilha
É de pobreza o pão que alimenta o meu sentir
Oiço o mar com os meus próprios dedos
Parti do desencontro dos meus derradeiros medos

Parti e deixei no cais mil dúvidas
Lembrei tempos que corri feliz pelas amoras
Nesses dias bebi sofregamente a vida
Nesses dias a minha alegria era incontida

Estou ausente do amor e desta terra
As memórias secaram numa lagoa inventada
Este barco que me carrega em solidão
Sem trégua será o resto desta história inacabada

Entre mim e o amor existe dúvida e dor
Frias são as pedras de uma casa sem o branco da cal
Este Inverno espalhou presentes dourados sem valor
Este fogo sem chama, este ardor, este frio de falso calor

Sou uma Garça perdida na areia
Anoiteceu no meu olhar
Perdi as penas, perdi-me na terra das ilusões
Perdi-me no mar num sonho que não quero acordar

Já não há música para fazer crescer alegria dos meus gestos
Já não há cores para fazer obra que preste
Já não há alma guerreira para ouvir o que dizem os dias
Já não há lembrança de Primavera neste vento agreste

Eriçado matagal de espinhos
Olá pobreza das estéreis vinhas
Olá gente descrente deste desbotado retrato
Olá palco onde deixei tantas emoções minhas

Apenas resta a brancura dos meus sentires
E pequenas coisas que ainda lembro
Quero apenas ter nos olhos o silêncio
E adormecer neste…Amargo Novembro…

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonhei que sou um cavaleiro andante
Por passos e pancadas estremecendo
Por sois e mares de ausente cor
Sonhei que carregava do mundo toda a dor

Sonhei com multidões e risos
Com folhas secas espalhadas na boca
Com um arpão vestido de morte
Sonhei com quatro folhas de um trevo sem sorte

Sou um pobre sonhador…
Atormentada mente no esquecimento do mar brincando
Desnudando palavra a palavra
Da narrativa de um amor perdido

Sou apenas um pássaro de silêncio
Gente, pessoas, gritos, contradições
Cólera, mentiras e falsas verdades
Esta raiva, este peito envolto em negras orações

Não acredito em ninguém!
Perdi sentimentos, sinto tão pouco
Porque será que todos acham que não valho nada
Que sou apenas um pobre louco

Pois, que angústia esquelética
Insano é este tempo que me fala da traição
Violentas são as palavras de um poeta caído
Desbotadas estão as cores da paixão

As ruas estão escuras da luz
As pedras choram aos pés deste caminhante
São de revolta as pétalas de uma rosa breve
São de pano-cru as vestes desta alma de nigromante

Mais uma vez divaguei pelas palavras que encontrei
A loucura afugentou o que restava da ternura
Coroei-me de rei-bobo em pose de tolo
E adormeci no…Palácio da Ventura…

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

CREPUSCULO

Não voam anjos pelos cantos da tua casa
Não preciso inventar mais a terra
Sopram ventos de melancolia
Transparente é o cinza que a tua alma encerra

A minha pobreza é a falta de um par de asas
Encontrei um lugar de reinvenção das sombras
Pensei virar as costas ao tempo e ao deslumbramento
E aí houve estranhamente o amanhecer das minhas palavras

Procurei na memória corredores esquecidos
O esquecido segredo das penumbras
Mas há palavras que me aprisionam à realidade
Este arrochar de alma, estas frias brumas

O orvalho das manhãs é poesia de água
Soltei um grito preso na força da minha voz muda
Deixai-me criar epitáfios em barcos naufragados
Deixai-me ser o personagem sem rosto de uma perdida lenda

Por maldições meu corpo é árvore solitária
Ventos fortes, mares estranhos, perdidas águas
Quero esculpir o ruído do silêncio
E fazer um rosto de cravadas mágoas

No canto da rua sou vagabundo bebendo a vida
Uma hortência que se inclina sobre a terra nua
Uma oração nos olhos parados de um homem sentado
Uma casa de branca cal de uma ausente rua

Há quem beba a vida de um só trago
Este absinto tem a sabor do fel
Não há sol que aqueça o terror da solidão
Não há no sal da maresia a quentura do mel

Este é o poema que a mim mesmo não prometi
Escrevi-o no primor do escrito maiúsculo
No Palácio carbonizado do poema
Gravei o último raio de um perdido...Crepúsculo...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

EU PESSOA ME CONFESSO

Se o mar adormecer em desvario
As ondas não mais se formarem
Se as gaivotas se perderem do ninho
As árvores mais altas tombarem

Se o dia não encontrar a manhã
As nuvens deixarem de chorar água pura
Se as pedras da ilha roubarem a cor ao verde
As tuas palavras deixarem de ser raiva dura

Tantos “ses”
Tanta loucura encoberta em preconceito
Tanta lama vertem certas bocas
Tanta pequenês vestida de despeito

Isto hoje nada bate certo
Este poeta sem rima não passa de uma cabeça esperta
A poesia sem nostalgia é apenas palavra seca
Um número vezes dois às nem sempre é conta certa

Pois é, a metáfora pregou-me uma partida
Decidiu dar uma volta por achar que esta poesia era torta
Jamais terei vontade de me encontrar com a ternura
Na puta da vida nunca encontrei gente pura

Encontrei negromantes, máscaras e outras tontices
Gente ornamentada de tolices e outras mafarriquices
Gente contente por ter a alma cheia de vento
E um gajo enganado no rumo certo

Encontrei-me com aquilo que julguei ser o amor
Desencontrei-me na voragem da maldade
Juro que nunca marquei encontros com a estupidez
Juro pelas alminhas que perdi o rumo da saudade

Sem rumo mas com altivez e aprumo
Com uma caixinha minha e não de pandora
Onde guardo um pacto divino
Onde permanece apenas um sentimento que nunca foi embora

Que raio de lenga-lenga urdi para aqui
Ás vezes o que sou esqueço
Hoje deu-me para esta disparateira
Eu Pessoa me Confesso