quinta-feira, 26 de março de 2015

OS ILUMINADOS


Ás vezes tento inventar a vida
No silêncio de um crepúsculo lento
No vazio de um punho cerrado
Ás vezes no absoluto pensamento

Corto o ar a navalha refulgente
Cativo risos de um passado de memória louca
Despedaçando o peito da esperança
As folhas de amargo verde espalhadas na boca

Na memória do meu barco
Pancadas secas, estremecem meu corpo
Uma mulher de boca calada indicando um ninho
Um molho de olhos ardidos perdidos ao destino

Ás vezes encho a vida de água e vento
Queimo o papel das mais secretas memórias
Como brasas que torneiam a carne dorida
Construo casas, desenho histórias

Insano este tempo que me fala de nevoeiros
Ansiosos sentires percorrendo canais lentos do amor
Ás vezes as pessoas vêm até nós para violentarem palavras
Não vale tocar os contornos da vida com gestos de dor

Não vale esmagar o que ontem brotava de um peito
Renunciei á voz da penumbra, ao universo das sombras
Sou como um Milhafre e não morremos de solidão
Sou grão de areia de uma maré brilhante, instante tatuado num chão

Nunca estive preparado para alguns amanheceres
Como arbusto inquieto, como pássaro da cor Primavera
Como música forjada a Sol e arrefecida a sal do Mar
Como silêncio carregando o ruído em santa guerra

Meu Deus, Azna...
Peço orientação divina aos Arquétipos todos os dias
Com o coração queimado correndo na busca de um sonho
Como criança jogando na lama ao meio dia do suor de Outono

De mão assustada desprendo esta tarde sombria
Percorri tanta vez a rua dos mal fadados
E com o vento e a música procurando um porto
Pensei hoje se serei um louco, ou um dos felizes...Iluminados...

quinta-feira, 19 de março de 2015

ÁS VEZES SAIO DE MIM


Hoje ordenei aos Anjos a companhia
Sinto-me tão estranho por estes tempos
Hoje senti uma morna e terna luz descer
Sinto-me caminhar, fecho os olhos para melhor ver

Procuro nesta imensidão
Este Mar, estrelas sem conta, universos
Escrevo palavras, como quem desenha mapas do amor
Escrevo sentires tamanhos...

São tão breves as rosas de Maio
É tão breve a chegada da manhã
É tão breve a chegada longínqua de uma onda
São tão breves as paixões na palavra vã

É eterno ser Pai...!
Hoje é o dia em que sou mais lembrado aos meus meninos
Hoje é o dia em que me arroxa o coração
É assim: sou Pai do Marco, Miguel e João

Foram tempos difíceis, sei
Meu Deus como lutei...!
Foram doridos os passos na vossa direção
Não ousei adormecer, morrer, ao cuidar, proteger, amei

Amo-vos aos três á minha maneira
Talvez não tenha sido o melhor e perfeito Pai
Talvez não tenha sido o melhor Homem do mundo no vosso orgulho
Mas povoei a minha alma de verdade neste gostar mudo

Sabem?
Não brinquei, passei ao lado de ser criança
Sabem?!
Quis uma família, nos três plantei a esperança

Por estes tempos desfaleci, contive lágrimas, mordi saudades
Procurei chamamentos no meu silêncio
Atravessei desertos do meu descontentamento
Nunca me afastei dos tês, nem por um momento

E porque parei aqui junto ao Mar no espanto de um céu azul
Olhei este horizonte que vos indiquei sem ter fim
Hoje é hoje, mais um dia em que vos aconchego á alma
Porque para unir o que Deus me deu... ÁS VEZES SAIO DE MIM...

sexta-feira, 13 de março de 2015

AS MARGENS DO SILÊNCIO


Onde as palavras são mais profundas
Há um coração que pulsa, bate
Preciso construir o dia, um novo dia
Preciso apartar dores deste coração que arde

Preciso devastar a agonia presente
Preciso que a alma não cale o que o coração consente
Este homem já atravessou montanhas, fez um filho
Este homem voa e deixa no mundo tanto presente

Já são vagos os ventos de Outono
Como folhas por escrever jogadas ao silêncio
Serei um fugitivo perdido ao segredo?
O importante é não ter pena nem medo

Hoje não houve pássaros para morder o verde
Será branco a cor do perdão
Esta noite cansada, resistindo ao dia
Esta sorte danada que ao final morria

Então descobrimos que as lágrimas não rasgam horizontes
Que as montanhas não são fáceis de esconder
Que uma ave abre espaços na Primavera
Que ás vezes quero ter, outras não quero ver

E vivemos apertados da alma na paisagem mística dos Milhafres
E vivemos uma saudade tão vazia
Como a caricia serena que nos separa da solidão
E no chamamento ao fugidio amor, atiramos todos os dedos de uma mão

E somos vagabundo esquivo numa esquina da vida
Insultamos os noctívagos pássaros loucos
E com palavras recortadas de bruma
Lançamos rezas ao sal da espuma

Um pássaro risca palavras no céu
Os olhos manietando-se na sombra escura
Um desgosto disfarçado de inquietude e revolta
Uma pedra de basalto negro que no tempo dura

As mãos apeteciam um corpo quente e macio
Este poeta nasceu da maresia das manhãs
Viverei para te amar vidas, um milénio
E plantarei saudades nas... MARGENS DO SILÊNCIO

sexta-feira, 6 de março de 2015

UM PÁSSARO NA MADRUGADA


Uma densa e estranha calmaria invadiu a ilha
Uma rosa breve despontou do verde
Uma cantoria de ave marias inundou-nos a alma
Uma singela saudade ateou-me a chama

Alegria desceu do azul
Já não pranteia este céu de frio Inverno
Há um espaço intermédio entre duas almas
Há nos dias felizes uma promessa do eterno

E há Deus e as divindades
Um mar onde se plantam mil saudades
E há o começo do desenho das memórias
Um lençol branco impregnado de verdades

E há uma menina do Mar
E há mar sempre que acorda a ilha
E há uma melodia em cada silêncio
E há quem diga que nasci com o dom da maravilha

Há também os que me olham de soslaio
Há sempre alguém que nos diz tem cuidado
Há sempre uma espera mesmo no fim da estrada
Há sempre alguém que diz tudo ou quase nada

Tudo isso pensei ao ver uma gaivota poisada em terra
Até pensei ser guerreiro em santa guerra
E porque só tinha espada e escudo de lata
Escrevi na areia a palavra quimera

Grande poeta!
Até metes nojo de tanta rima certa
Não te falta tinta nessa caneta usada e gasta
Deixa lá, há quem já tenha dito, cala-te, basta!

De joelhos se pagam promessas a Cristo
Que olhos, que fé tem esta nossa gente
Quando todas as forças nos faltam
Há um Anjo que nos ampara e diz presente

Serei romeiro em romarias de palavras
Demiurgo de caminhadas inventadas
Rei, mendigo sem castelo ou abrigo
Ou apenas um simples homem que a ternura quer consigo

Que importa, hoje é hoje
O Começo de todos os outros dias
E porque senti-me de alma e fé cansada
Sorri no canto ...UM PÁSSARO NA MADRUGADA...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

OS NOMES NÃO TÊM COR


Se uma estranha alucinação te assombrasse
Se como uma árvore te conquistasse junto ao teu lugar
Se nunca mais anoitecesse no reino das criptomérias
Talvez a luz do dia te inundasse com o amar

Persigo o brilho dos felizes sonhos ao amanhecer
Não é pecado sentir mais para além do amor
E de repente tombaram as paisagens sobre a Lagoa
E em breve instante recolhi do Inverno uma singela flor

Dei pequenos passos no sentido da Lua
Perdi-me nas fronteiras do teu divino corpo
Só tu e eu enlaçados em viagem perpétua
Este poeta do clube dos poetas mortos, fingindo-se morto

Pois, o poeta é um fingidor...
Suas palavras são papagaio de papel de seda a planar
No seu peito mora a lucidez dos espelhos
Em sua alma mora a espuma inquieta do Mar

Vem, ou deixa-me morrer com a tua lembrança
Deixa-me ser gaivota em manhã cinzenta de neblinas
Mas diz-me coisas sobre as tuas tardes de saudade
Diz-me sem dizer onde mora a tua verdade

Imagina-me no centro dos teus sonhos felizes
E se fosse-mos apenas aves sobrevoando todos os horizontes
Vem e sorri no canto possível do reencontro
Vem, como se partisses para sempre e me esquecesses nas tempestades

Veste este céu no teu corpo de fêmea
Sara teu corpo ferido por um amor com sede de infinito
Abre as janelas que fechaste um dia no desencontro
Deixa-te cair nua nas asas do vento e solta este abafado grito

Murmurante noite no encontro das madrugadas
Escuto nos teus cabelos as ondas do Mar
Como não consegui convencer nossos corpos a estarem eternamente abraçados
Sim, é possível escutar as ondas a passar

Há um lugar onde é possível construir uma casa
Habitar o tempo e cultivar o amor
Há um lugar onde se semeiam verdades e se acalmam tempestades
Onde só existe harmonia e...OS NOMES NÃO TÊM COR...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

QUEBRARAM-ME O CORAÇÃO


No êxodo de um tempo escrevo
Num instante corre a vida em fio invisível
Cruzei todos os caminhos de solidão
Em frágeis tremores bate ainda meu coração

Em espanto contemplei a água retornando ao céu
Regressei de um tempo onde repousam as memórias
Tombam no orvalho frágeis sonhos
Serei herói ou vilão de sete histórias?!

Paladino do amor
Força de um Mar por descobrir
Os pássaros partem sempre ao fim da tarde
Uma alma que parte, leva o mundo a sorrir

Pergunto pelas Primaveras adormecidas
Pelos pregões nas madrugadas em flor
Pergunto por um Deus amigo
Pergunto se sigo o rumo ou estou perdido

São negros os húmidos olhos da triste memória
São de dor os sentimentos que a maldade gerou
São frias certas criaturas que Deus plantou no Mundo
Há gente que se cruzou com o amor e nunca amou

Semeei com o olhar ilusões
Naveguei por tempestades e contradições
E no rumor do mar me perdi e me encontrei
Fiz amor no sonho e escrevi na areia: “amei”

As rosas crescem embaladas pela brisa
Murmuram canções num imaculado nevoeiro
Há lugares que emanam sortes e orações
Há lugares onde moram infindáveis contradições

Dos trincos da memória recolhi lembranças felizes
Levitei sobre os verdes desta ilha
Tentei agarrar um arco íris fugidio
Atropelei um anjo que do céu descia

Perguntei-lhe se no celeste o amor era verdadeiro
Respondeu-me que sim, era a sua opinião
Disse-lhe que aqui nesta Terra dura e fria
Mil vezes...Quebraram-me o Coração...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

ESTE MEU CORPO


Recolhi do Mar o teu corpo de Sol
Recolhi da Sombra o teu escondido amar
Recolhi dos teus lábios a doçura das uvas
Recolhi o teu abraço na partida do chegar

Este transbordante cálice no meu coração
Esta carne que planto no teu corpo de fêmea
Estas palavras tingidas de vibrante carmesim
Esta vendaval de saudade que há em mim

“Quando morrer, não chorem por mim”
Não haverá vazio pois plantei poesia
Quando morrer, devolvam o meu corpo ao Mar
Não digam rezas por um ser que se desencontrou do amar

Os sonhos e as mãos estenderam-se sobre a mesa
Onde havia pão floresceu a ilusão
Onde haviam facas, apareceu a oração
Onde havia vinho, derramou-se a paixão...

...Onde havia amor nasceu o monstro da contradição
Ora! Não devo amar as flores nem acariciar a melancolia
Neste fogo medonho, sussurra um chamamento
Nesta rua deserta das cores só oiço o lamento

Não me deixarei vencer pelas madrugadas sem luz
Não me irei perder nas cinzas da tarde
Não me lembro das cores da escuridão da alma
Não sinto a chama do teu coração que arde

Só o vazio ocupa o lugar de uma mulher amada
Só pede misericórdia ou consolo o pecador
Só ardem de gozo os homens minúsculos
Só quem é amor, sabe o que é o amor

Pescador de tempestades
Este homem bom correndo de olhos vendados
Este Anjo de asas de papel amarrotado
Este sonhador do vale dos condenados

Viram isto?!
O poeta escreve que mete medo, distraído ou absorto
Não chorem por ele quando morrer
Sorriam quando a terra beijar...Este Meu Corpo...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

VOZ ERRANTE



Naufraguei nesta ilha de névoas
Acordei na areia em aurora de hortênsias de fogo
Bebi das águas de um primeiro Outono
Adormeci nas folhas carmesim de uma tarde sem fim

Encontrei uma deusa vestida de vento
Que me julgou com descrença
Prendeu meu coração, parou o Sol, fez-me chorar
E depois enxotou-me com frio olhar

Viajarei á inocência com ardência da alma
Regressarei da terra onde nunca estive
Como voa este olhar, como ama o coração
Na volta completa de um luar, deixei de ver a paixão

Retorno á crença no fio dos dias
Entre ruinas desenhei mil prantos
Quando toco este basalto negro
Quando lavro com as mãos esta terra de espantos

Ouvi sempre o rumor do Mar
Cresci entre pedras e melancolias
Construí emoções nas colinas do tempo
Engoli o pão e o sonho em tardes frias

Ouvi lendas, pintei memórias
É de verde e água o silêncio da ilha
Esperei ondas enviadas pela distancia
Senti pedras se erguendo, altar, palavra, alma cheia...vazia

No orvalhado aroma das conteiras
No crepitar dos sonhos vadios
Senti nos ombros a túnica imaculada de Deus
Lavei pecados nas crespas águas de sete rios

Tão perto do céu...
Como gaivota de palavras por penas
Sacudi do corpo o resto das dores de uma tarde
Corpo tranquilo, alma que arde

Acendi este lume, aqueci o querer
Pacifiquei meu coração de alma navegante
Contei pegadas das aves do Mar na areia
E lancei ao vento esta...Voz Errante...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

ALMA QUIETA AO AMANHECER



Era o tempo das ideias acordadas
Com desespero e esperança correu um ano inteiro
Libertei nas águas infinitas mil quereres
É uma urgência urgente o teu amor, primeiro

Nunca ordenarei sentenças
Lavei as manchas á alma com água e fé corrente
Deixei saudades na areia lavada pelas marés
Encontrei pegadas, pareceram-me teus pés

Confundi ondas com nuvens
No sibilar morno do teu corpo inventei o amor
Que mágoas sentirão os habitantes do poente
Lateja-me o coração perdido na distância da dor

O dia acordou tão pálido como o suspiro de Inverno
Uma ideia galgou em ziguezagues o inatingível
“Dizer-te que serás eternamente o amor”
Dizer-te que sou uma criança sem nome cavalgando o impossível

Ontem abracei uma pessoa...
Ou terei recebido a esperança num abraço?
Hoje acordei com o pio aflito de um pássaro trapalhão
E numa lágrima oprimida e sábiA recolhi um trevo de quatro do chão

Trago numa mão a enxada a outra no coração
Desbravei ingremidades disformes, zangadas
E com o pensamento preso aos olhos viajei
Jamais serei pertença do desespero, água, mãos lavadas

Não escrevo recusas que mais ninguém tem
A palavra, o verbo feito no altar
Moro onde o poema nasce e jamais se perde
Ás vezes fujo para perto, recuso o chegar

Serei uma estátua em pose eterna
Um pássaro a dormir em pétalas frágeis e orvalhadas?
Imagino a fonte do inimaginável belo
Já toquei o a vida em viagens breves nas ondas dos teus cabelos

Atearei as chamas nas noites mais escuras
Já ouvi alguém partir de mim sem saber o que fazer
Já percorri todas as viagens inventadas
Esta ...ALMA QUIETA AO AMANHECER...

sábado, 24 de janeiro de 2015

PRISIONEIRO DE SONHO INTERROMPIDO


Hoje decidi dar rumos ao rumo
Hoje acordei do adormecimento inadiável
Resolvi descobrir o meu céu das penumbras
Perder-me nesta ilha de verde e brumas

Hoje decidi relembrar rostos distantes
Resolvi tocar seus corações no perto
Decidi alegrar todos os anjos tristes
Caminhar num caminho de rumo incerto

Este meu crepúsculo de ti é lento
Há um Sol que teima em não ir embora
Recolhi uma rosa em pântanos indescortináveis
Seu aroma era de saudade que chora

Serei como ilha infatigavelmente prostrada no meio de horizontes
Mareante trespassado por ecoante mar rasgando as rochas
Qual gaivota serena e muda chegando do nada
Qual alma que em arrepio suspira, mal amada

Apenas porque os barcos levam nomes de mulheres
Acariciei um sonho carregado de melancolia
Atravessei montanhas, fiz um filho, amei teu retrato
Percorri caminhos de lâminas afiadas com o olhar já gasto

Não há vazio que ocupe o lugar do amor
Atiraram o meu ás vidraças da escuridão
O importante é rir-me de pena de mim
É espantar-me com o avanço dos dedos fugidos da mão

Loucura...!?
Pois, o poeta pateta agora é louco
Nesta festa da vida serei clandestino
Ou apenas demiurgo fugindo ao destino

Andei por aí numa fúria magoada
Recolhi escárnios e sorrisos trocistas
Balas, dardos despedaçando coração vazio
Mergulhei em águas geladas de perverso rio

E rio...
De mim, triste e tonto Arlequim
Com folhas secas espalhadas pela boca
Numa a frase “tinha que ser assim”

O melhor é matar estas palavras de susto
E abrir os braços ao vento de alma e corpo despido
Adormecer neste atol de estranhos contornos
...PRISIONEIRO DO SONHO INTERROMPIDO

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

PROMETESTE-ME


Fui até onde as emoções renascem
Não há mares nem ventos em corações vazios
Fui até onde a escuridão acaba
Não há amor quando não se sente amor...nada

Anjos, gárgulas, roda a vida numa eterna atafona
O pio de pássaro saltimbanco no desabar da tarde
Contei pedras atormentadas, saudades desencontradas
Neste coração que arde

E de repente tombaram os sonhos no meio dia de sábado
Elevou-se um abismo negro em direção ao céu
E na transparência de véus pesados
Deixei de ver o teu rosto desenhado em negro véu

Talvez seja um pássaro inesperado mordendo a vida
Uma sombra atirada ao chão presa a uma cruz
Um anjo despedaçando nuvens de tempestade com asas de lata
Um deus menor que o tempo seduz

A mentira foi projetada pela luz do pecado
As portas das casas fecharam-se com fragor
A morte desenganou-se e perdeu-se na areia
Encontrei em luminoso e breve momento o teu amor

Olhos...
Uma lágrima perdida de confusa saudade
Este inquietante vento nascido na alma
Este coração triste e louco “Merda de vida”!!! Não se apaga a chama!

Tragam-me todos os livros que falam do amor
E nunca mais me digam que: “Ser Poeta é ser mais alto”
Porque este, ama assim perdidamente!
Perdidamente, alma e sangue e vida em mim, dizê-lo a toda a gente

“Por favor não me magoem mais”
Prometo, não incomodo ninguém com mais nada
Porque em cada passo que dou em busca do sonho
Porque este espelho só me mostra um ser bisonho

Lembra-me...
No tempo que em doce abraço...encontraste-me
Navegando em rios mansos de ausente dor
Fecha os olhos e lembra...Prometeste-me...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O ESTRANHO PODER DO SILÊNCIO



Percorro esta ilha de Norte a Sul
Há tanto de intemporal nas hortências adormecidas
As marés são pronuncio do choro dos deuses
São de cartão certas mágoas perdidas

Naveguei na calmaria de um ano de esperanças
Lancei meu coração na procura de um rumo
Abracei o meu querer aos brandais
E afastei no olhar um Sol a prumo

Na viagem fui encantado por sereias
No canto doce de verde olhar
Foram sete todas as esperanças
Cinquenta e duas luas para aqui chegar

Sortilégios de um irónico deus
Alquimia fugindo ao olhar de tolos terrenos
Bravata entre Arcanjos e o mal
Eternamente no encontro entre o amor e desamor...

Mas esperem um momento
O espetáculo ainda não começou
Pancadas de Molière...
Para muitos a guerra findou

Este Arlequim de fato de cetim
Rosto pintado a preceito
Sorri...
É tão agreste ás vezes o caminho, estreito...

E o Mar, sempre o Mar
Para onde voam as Gaivotas ao fim do dia?
Para onde correm os anseios deste Poeta Tolo?
Serão as estrelas habitantes perdidas no azul sal?...nostalgia...

Que confusão Nossa Senhora da Agrela, que não há santa como ela!
Estava a pensar um poema daqueles de encantar até chorar
E vejam a coisa malparida que daqui saiu
Até o papagaio se riu

Mas deixem lá o rapaz desatinar
Passou-me ao nariz o aroma do incenso
Fiquei endrominado, e a única coisa, que aqui escapou
Foi o titulo... O ESTRANHO PODER DO SILÊNCIO

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A BELA E O MONSTRO


Lembro Setembro
Uma flor num altar imaculado
Lembro entre os olhos um sorriso
Uma lembrança um querer ceifado

Como ilha perdida, desapareceu um sonho
Sou bisonho...
Para alguns...
Sou apenas um pintor, a parte triste de um sonho

Tive gente que me pintou de navalha
Disseram que era mau, maltratava pessoas
Tive gente que pintou de negro este poeta, gente canalha

Fui posto na rua de uma casa onde construi sonhos
Fui tido como pessoa que neste Mundo não deve existir
Fui demiurgo de todas as comédias de desenganos
Fui desenho, desenhado com o rumo do partir

Fui...!
Sei o que sou!
Sabes quem sou!
Estupidamente a traição num coração se instalou

Serei...!
Aquilo que este dorido coração comandar
Continuarei a plantar a beleza
Vou regar novos sonhos e pintar o amar

Começarei por mim
E darei um sorriso a este triste Arlequim
Abrirei os braços ao abraço
Abraçarei quem acreditou um pouco em mim

Foram poucos, alguns...
Vivi tão só, assim quis, não tenham dó
Tive tanta saudade da minha Mãe, do meu Pai
Do Céu caíram sorrisos, foram alento, afinal não estive só

Perdoo neste dia todos os que me quiseram mal
Pacifico-me com as pessoas e tiro da alma o desencontro
E digo-vos com dez assombração
Haverá sempre uma bela para um terno e bondoso Monstro...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A CANÇÃO DAS MARÉS



Do céu libertaram-se as águas infinitas
É verde o coração dos Poetas
Olhos de nuvem, coração de pensamento
Uma ideia de um sonhador, um doce momento

Gosto das pedras
Ás vezes são lâminas de gume afiado
Amo-te, menina que pertences ao mar
Rezei hoje para te encontrar, neste triste navegar

Encontrei-te, fugidia...
Como quem sabe que o amor é algo fatal
Nunca serás o fim do meu infinito
Um canto de pássaro, espantando o mal

Tenho os olhos presos na mesma gente
Tenho o coração dorido pelo desencontro que vi
Tenho um abraço, aberto sem te ter dentro dele
Tenho a alma infinitamente presa a ti

Tenho uma saudade de mãos cansadas
“Gostava que coubesse no teu coração um poema inteiro do meu sentir”
Espero o recolher de todas as sombras
Descalças correm as cores que me impedem o partir

Tens ondas indizíveis no teu cabelo
Há uma noite que se aproxima hesitante
A chama das palavras por falar
Um punhado de amor esperando o despertar

Uma dor que cristaliza o balanço do pensamento
Entretanto ri-se de si o homem mais infeliz do Mundo
Este dia respingou um suspiro definitivo
Esqueci uma melodia, por tristeza, sem motivo

Pois muito obrigado todos aqueles que me querem mal
Não tem de quê, seu tonto, papalvo
Na memória só restam uvas azedas
Fechei os olhos á raiva, já não sou o abatido, nem alvo

Sei lá o que sou!?
Um homem caminhando trôpego, trocando os pés
Assobiando uma melodia incompleta
Tirada da...Canção das Marés...

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O MILAGRE DA SAUDADE


Depois de te prender por segundos o olhar
Com a alma te tocar
Uma lágrima teimar voar
Fui com este coração doído ver o Mar

Um gesto amado...
Senti o frio da espuma em arrepio
O Sol beijou-me
O mundo rejeitou-me, tu não...confio

Que tempos meu Deus
Plantei esperanças todos os dias e este querer nunca acabou
Aqueci-me com lembranças nas noites frias
“Meu Armando, meu amor” só uma pessoa assim nesta vida me chamou

Por estes dias...
São longos os dias, desajeitados os quereres
Pensei no amor, morte, pensei com pena
E nunca mais adormeci numa conversa amena

Penso estupidamente tanto
Rio quando me rasga no peito o pranto
Há uma história que se interrompeu abruptamente
Há sempre uma gaivota voando a poente

O murmúrio das árvores
Uma pedra molhada pela chuva, ou maresia?
Todos os dias sinto uma obstinada fé
“Desculpa, perdoa, confia”

Fosse porque fosse, sentimos sempre mais além
Derramados sentires, opacidade da penumbra
“Acho que os pássaros não dormem, ficam apreciando a noite”
Tenho varrido deste coração tanta bruma

Fiquemos pois onde bate o coração, de emoção
Desenhemos os contornos de uma história feliz
São tão estranhas as pessoas quando decidem odiar
São tão ténues os pedidos, o chamar

Uma chama...
Não recuo até ás portas do céu, sem fim, sem idade
Hoje aconteceu o que esperava já não existir
“O Milagre da Saudade”

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O JARDIM DOS REGRESSOS


Não voam anjos na bruma da Ilha
Oiço palavras gritantes de um olhar doce
Derramei sonhos num vale de assombração
Tenho tanta saudade de te dizer amor, dar a mão

Guiado pelo esplendor dos poentes
Segui o aroma suave das buganvílias
Parti aos poucos nessa minha caminhada por dentro
Acordo nas manhãs, perdido dos horizontes, incompleto...

...Por não te ter...
Sabes meu amor, há um lugar onde as coisas fazem sentido
Há um lugar onde partimos como vagabundo
Há um lugar onde chegamos expulsos do Mundo

Ninguém espera pela noite na chegada do Sol
Ás vezes viro a cara ao tempo e ao deslumbramento
Ás vezes sento-me a olhar em volta como fosse louco
Ás vezes dou tanto, recebo tão pouco

Os escutantes do perverso afinam a parte negra da alma
Nestes dias o verde é de tal forma irreal
Há uma hora das portas fechadas
Há sempre um coração vazio, banal

Sou o inventor da luta entre o silêncio e a palavra
É nesse exato momento que algo exulta
Será que sabes da importância que dou aos grandes acontecimentos?!
Será que ainda reverbera a música de raros momentos...

És como o nascer da manhã inevitável
Sou um olhador de sorrisos sinceros
E todavia fez-se penumbra no decorrer do dia
E todavia o tempo desapareceu devagar, no teu chegar

No teu olhar aconchegam-se as maresias do Outono
Um ramo de misteriosas camélias
Hoje decidi fixar nuvens nos ventos
Decidi abrir a alma aos mais belos momentos

Hoje decidi ter respostas sem fazer perguntas
Decidi ser eu mesmo, sem inventar, processos
Sentei-me pois neste banco feito de folhas e frutos
Neste meu...Jardim dos Regressos...

domingo, 7 de dezembro de 2014

COMO TU



Este alento animado por novos sonhos
Este esmagar dos dias de dor
Este acenar de Anjos magníficos
Como sorrio ás vezes a uma vida de desamor

Para falar de uma vida não há apenas um nome
Para falar de uma ilha há apenas um destino
Para falar apenas de uma mulher
Há sempre a esperança do amor, o que Deus quiser

Que seria da cor do Mar sem o beijo de Céu
É sempre tão nostálgica a morte do Sol no acabar do dia
Sou um sonhador numa manhã de soltos versos
Sou um desenhador de planícies eternas que em Deus confia

Sou como a terra palpitante, fecunda
Escrevo palavras com insistência para que descubras verdades
A Norte o vento é frio
Esta força, este homem sem preconceito entre as margens de um rio

Tenho os olhos cravados no infinito
Nasci sorrindo para um Mundo tristonho, frio
Há sempre um canto de pássaro que me se seduz
Houve sempre em meu caminho uma reluzente luz

Já fiz milhões de traços
Já pintei emoções desconhecidas
Já amei mil corações esculpidos em gelo
Já morei num arquipélago de ilhas perdidas

Já me perdi...
De punho cerrado enfrentei Adamas tores
Fui saltimbanco de comédias de enganos
Ator em palco de falsos atores

Tal como o Mar rasgando as rochas
Naveguei sem rumo, em infatigáveis procuras
Segui em frente, é tão silencioso o horizonte
Pedi a Deus perdão, guardei numa caixa mil juras

Falemos pois do canto dos pássaros
Falemos do amor, do que a minha alma descobriu
Falemos da formosura de uma rosa breve de Novembro
De um obra fascinante e bela...Como Tu...

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

ENQUANTO NÃO CHEGAM OS BARCOS


Vi as minhas mãos nascerem na claridade de uma aurora
Vi a minha voz perder-se nos verdes desta Ilha
Vi os rituais de uma Cagarra na sua dança de amor
Vi o poder das águas e do vento descobrirem uma flor...

...Azul
Sal do suspiro de uma onda longínqua
Um pássaro breve de perdido cantar
Uma incontida lágrima, por te querer, amar

Na rebentação da beleza salpicaste o meu olhar
As mulheres transparentes divertem-se na vida
Ninguém bebe vinho e vomita o amor
Ninguém é dono da poesia, nem o seu autor

Vejo antigas sombras, cavalgando o silencio do pensamento
Não me falem de um tempo
Não me façam rir de mim
Não me mordam a alma, não me firam o corpo

Não me falem da chegada das primaveras passadas
É bom que se saiba que há muito mais porque morrer
Que conheço os caminhos cantantes da alegria
Sou um criança que transforma um muro em palácio, para te ter

Ás vezes percebo que os homens não têm importância
Que vejo a terra passar por mim velozmente
Ás vezes este espírito alucinado sugere-me
Que sou pássaro a voar para Poente

Abençoada a terra que colhe o orvalho
Bendita a mão que reparte o carinho
De esperas se constrói a solidão
Serei o primeiro habitante da dor vencida no teu caminho

Conto as aves do mar, mais as ondas
Bebo neste Oceano de mil esperanças
Vejo desprender do Celeste Anjos magníficos
Vejo Deus desenhar nas nuvens breves sorrisos

E sento-me neste basalto de fria espera
Não tenho fortuna, só bens transparentes, parcos
E penso em ti mensageira do amor
ENQUANTO NÃO CHEGAM OS BARCOS

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

OS PARAÍSOS QUE UMINFERNO CRIOU



Inquietos escutamos a voz calada
São pesadas as mãos do desentendimento
Nesta perdida rua de negro e fogo
Neste meio do mar, sem estrelas, um momento...

...Para te dizer, que bebi de um trago só o perdão
Para te dizer, que sou o cerne imperceptível da verdade
Dizer-te também, “ ainda sei amar quem me magoa”
Que vivo e floresço na minha inventada cidade

Foram tempos da memória
Rasgam-me a garganta as nêsperas azedas
Se soubesses a sede que se sente
Quando a vida nos arroxa ao peito, coração descontente

Se soubesses o que sente este poeta de rima incerta
Se soubesses o que não sabes por descredito
Se soubesses que todas as manhãs o meu amor se acende com a aurora
Se soubesses porque fico, mesmo indo embora

Se soubesses...
Que há quem abrace o vencido
Quantas verdades se diz mentindo
Que só me lembro dos teus olhos sorrindo

E eu que nada sei
Eu que acredito tudo saber
Eu que vivo como gaivota em eterno voo
Eu que cerro os olhos para não ver a esperança morrer

Eu...
Cavaleiro andante, Arlequim, mendigo sem bênção de Deus
Carrego o peso da idade inadiável
“Sou o Rei legítimo de todos os ateus

Sou, quem sou
Nem tudo o que faço pode estar errado
Pinto Anjos negros, deuses e deusas
Este homem, bem ou mal-amado

Sou aquele que caído, foi espezinhado
Sou aquele que pelos seu inimigos orou
Sou também este alquimista da vida
Que transformou em ...Paraísos o que o inferno criou...


sábado, 15 de novembro de 2014

CORPO SOLENE DE SOLIDÃO



São milhões os risos que chegam ao meu sentir
Esta fúria magoada de mil dias de solidão
Esta terra fustigada por espadas de chuva
Estas raízes presas ao profundo coração

Devorei o frio neste vale de segredos
Afastei as nuvens de desesperança com um olhar
Misturei ódios e sorrisos
E construí um castelo para te poder amar

Meus Senhores, minhas Senhoras
Novembro está servido, com ventos e lágrimas das estrelas
Afastei os dedos das flores mortas
Mataram a bondade, fecharam-me as portas

Mas, meu Amor...
Não há lume que aqueça o pão da pobreza
Os inaudíveis e grandiosos sentires desta alma dorida
São sussurros, são sorrisos soltos á tua beleza

Estes são os primeiros anos do amor
Vês agora a crueza desta neblina?
Meu Anjo de água de lábios recortados por um deus
Meu Amor, quanto tempo, tanto Mar...Mar, Menina

As minhas mãos urgentes
Procuram teu corpo, arca de incandescentes diamantes
A tua essência deslumbra, fere sem doer
Teus seios, ondulação das ribeiras, tua alma, teu ser

Já me fugiram á lembrança os antigos dias
Pelo olhar se retorna ao amor
Pelo teu corpo crescem flores carmesim
Neste vale de verde ilha ausentou-se a dor

Já pintei presságios e sonhos
Já pisei um lugar onde emanava a tua existência
Como uma Alva Garça soubeste ouvir o sonho
Como uma estrela do Norte e rumo, conquistaste minha confiança

Numa almofada de Musgo repousa a cabeça de uma Deusa
Escrevi teu nome no diário da minha paixão
Esculpi no teu sentir de roseira brava a novidade da luz
Amei teu... CORPO SOLENE DE SOLIDÃO