quinta-feira, 14 de março de 2013

OS CAPRICHOS DE UM DEUS


Perdi-me da saudade
Percorri apenas um caminho sem volta
Senti o chicote de um vento agreste
Acho que não conheço ninguém que preste

Acho que a vida é uma atafona enferrujada
Que sou uma pessoa mal-amada
Acho que sou uma figura mal encenada
Que tenho uma sina desencontrada

E plantei-me à esquina da vida
Cheguei-me ao passo do tempo
Mordi as rosas, rasguei-me em espinhos
Soltei as raízes ao pensamento

O céu ameaça desabar sobre esta ilha
Agua na água, manhã assombrada
Onde param os pássaros chatos do meu quintal?
Porque de mim só pensam mal?

Não interessa!
Não tenho pressa do ir para chegar
Ninguém parte sem rumo ou vela
Já não soletro o verbo amar

Olha a estupidez mascarada de senhora fina
Olha o palhaço de grosseiro traço
Olha este Arlequim dentro de mim
Olha esta roda sem fim de negro espaço

Não olhem para mim!
Já saí da esquina da vida
Já orei, ri e chorei
Já me feri da dor mais sentida

Levei estes dias a pintar de forma desenfreada
Pintei, bonecos, arcanos e pecados meus
Desfaleci mil vezes na beleza das cores
E deixei-me arrastar nos…Caprichos de um Deus…

domingo, 24 de fevereiro de 2013

ESTE MEU GRITO


A maldade tomou de assalto os justos
Podia dar nome a cada besta
A ironia fez sair da lama seres pérfidos que bem conheço
Alguns sabia que tinham escrito “Falso” na testa

Deixem de manipular
Deixem de vomitar veneno com rótulo de amizade
Deixem em paz quem precisa de paz
Deixem vossas porcarias arruinar a saudade

Quanta loucura, quanta insensata palavra
Um anormal falou-me em lealdade
Lembrei ter sido generoso no tempo
Lembrei ter sido tão leal em dado momento

São tão nojentas certas pessoas
Conheço um manipulador mentiroso que se diz amigo
Pinto todos os dias de branco o negro de certas almas
Abre os olhos! Olha para dentro de ti, acorda! É preciso!!!

De demanda em demanda luto com adamastores
Falsos atores, fabricantes de terrores
Onde estarão vocês quando tudo estiver destruído?
Soltando gargalhadas na cara dos sofredores

Deus vos abençoe e o diabo vos acolha
Serão certamente os braços que vos acolherão
Saberão por acaso meus anormais de merda o que é uma família?
Saberão vocês o mal que fizeram a um coração?

Não sabem!
Sou tão grande perante tão pequenez
Sou tão imenso
Jamais saberão o que penso

Esperarei no tempo que apodrecem vossas almas
Chamo-me Armando e sou homem, não cruel mito
Deixem em paz quem precisa de paz
Abram os vossos nojentos ouvidos a…Este meu Grito…

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O MENSAGEIRO


Prendi no olhar a fragilidade da espuma
Inventei um sítio de nadas a que chamei cidade
Fiz o julgamento dos meus fracassos
E recolhi uma verdade servida pela metade

Hoje embriaguei-me na minha solidão
Na morte da lembrança encontrei a saudade
Construi na terra quatro muros de ilusão
Amordacei este grito ao profundo do coração

Serei luz perdida na sombra?
A loucura do pranto e do riso
Uma sinuosa viagem da paixão
Ou apenas um saltimbanco, um ladrão?

…De quimeras me visto
Da bruma faço um lençol de pranto
Ainda me ecoam palavras medonhas
Ainda estou perdido neste mar de espanto

É indomável a vontade do amor!
Mas qual amor? Amar é arrebatamento da estupidez
Há sempre um sítio onde habita o sol do pensamento
Já fui embora, já agrilhoei, já caí de vez

Procuram-me as raízes do tempo
Nascem frutos sem ternura às minhas mãos
Insubmissa é a minha verdade na contradição de muitos
Eu e o vento somos feitiços que moram juntos

Ainda retenho o que existe em ti de infinito
São estéreis os sentires que enganam o coração
Moldei os meus sonhos num deserto abrasador
Não acredito que haja boca que beije o amor

Hoje também partilhei a serenidade
Proclamei a majestade dos céus e a eles subi primeiro
Dei comigo a apensar nas estações que tem um coração
E recebi uma carta sem nada das mãos de um…Mensageiro…

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O FOGO E O FERRO

Está na hora de ser vento
Olhos de milhafre, asas no azul
Está no tempo do rubro das acácias
De um rumo de esperança a sul

Está na hora de ser ar puro
De dizer que sem palavras juro
Está no tempo da mansidão dos sonhos
Do sortilégio, do esconjuro

Por amor criei frutos de beleza imparável
Cada um tem a sina que tem
Cada um tem a força do amor presa às mãos
Os caminhos são sempre de alguém

Estou num pranto comedido
Este céu está tão perto da minha alma
Esta força, “meu deus”, esta incontida esperança
Esta dor que esmorece a chama

Gente sem rosto a bater palmas
No acaso lavrei esta peça sem nome
Nunca alguém saberá realmente o que sinto
Na verdade, alguém terá dito que minto

É noite, já adormeceram os milhafres
A Lua escondeu-se em desprezo
Nem uma estrela me iluminou o ver
Não quero ninguém no abraço, não sinto o querer ter

Amordacei as raivas
As humilhantes palavras numa caixa de cartão
Liberto todas as noites este amarrotado espirito
Tanta frieza tenho sentido em tanta mão

Tanta incompreensão, tanto virar de costas
Nada de ninguém mais quero, abandonei o espero
Consumi todas as crenças e esvaziei este coração tonto
Este corpo açoitado por…Fogo e Ferro…

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

INTERMITÊNCIAS

Caminho dentro da carcaça de um homem
Sou barro mal-parido, consciência cruel
Sou verdade e mentira em guerra eterna
Sou o doce do mel transformado em fel

- Mas quem és tu ó Poeta necromante?
Porque teimas em achar-te o maior da tua rua?
- Sou apenas um deserdado do amor
Sou ninguém que segue por uma estrada nua

- Ninguém!
Já me haviam dito que a tua presunção de mataria
Já se adivinhava que a tua estupidez desse à costa
Uma mesa sem pão, sem vinho, sem estar posta

- Cala-teeeeeeeeeeeeee!!!!!!!!!!!!!!!!
Consciência estúpida e vil
Tenho sede, tenho fome, tenho frio de raiva
Tenho na lembrança os filhos da puta que foram mil

- E tenho o dicionário da merda que diz
“Que filhos da puta é calão”
E tenho, penas tantas, que metem dó
Tenho a minha sombra perdida no meio do chão

- Quero lá saber da tua opinião
Sai da minha alma, deixa-me ser apenas humano meu cabrão
Deixem-me chorar sangue até à última gota
Quero ser excluído da absolvição

- Já quis tudo!
Já naveguei por desertos aos encontrões
Já caí na fundura de sete abismos
E lutei contra moinhos de vento em contradições

- Sei lá por onde andei
Não consigo arrancar da cabeça estas malditas consciências
Será este o rosto da vil loucura?
Ou apenas uma vida com…Intermitências…

domingo, 20 de janeiro de 2013

ENSAIO SOBRE A LOUCURA

Hoje acordei num mundo novo
Pensei ter deixado para trás os fazedores do ódio
Hoje senti a lembrança da pura ternura
Hoje senti que minha alma já não era tão dura

Ontem vi chorar uma pessoa
Estou cheio de lágrimas que não consigo verter
Hoje uma estranha calma tomou-me em torpor
Juro que tenho vontade de nunca te mais ver

Mas esta foi também uma noite alucinada
Onde o sonho foi como rajada de emoções
Acordei algumas vezes em total aflição
Já não usas o meu nome, é de pedra negra um coração

Foi sonho, um, dez, mil, um milhão
Pintei o rosto de negro, lavei as mãos à raiva
Prendi uma corda e enforquei a fraqueza
Ainda reverbera em minha alma a tua aspereza

Percorri o absurdo, quebrei os trincos da memória
Cozi as feridas de sete punhais
Fugi de todas as ruas que encontrei
Navegarei preso à verdade dos brandais

Puta da vida, árvore tombada para a morte
Desejo-vos um paraíso de ilusões, muita sorte
Um caminho repleto de dourados presentes
Desejo-vos que a tormenta seja pouco forte

Já não acredito em ninguém
Já não o quero fazer também
Já não plantarei mais as minhas bondades
Já não quero dar seja a quem for as minhas verdades

Pois que morra e se enterre o poeta bondoso
Que alguns chamam de mentiroso e sem formosura
Este escrito é um grande monte de trampa
É o rosto de uma amiga, um Ensaio sobre a Loucura…

sábado, 5 de janeiro de 2013

PINTOR

Quando de vi a primeira vez
Senti imediatamente que serias importante para mim
Quando me sorriste a primeira vez
Pensei que que o principio fugia ao fim

Enchi a alma de presentes
Falei todas as noites com gente tão minha em saudade
Que vive para lá desta cinzenta vida
Falei, ouvi, corri, desfaleci, perdi-me numa inventada cidade

Atropelei os pensamentos impuros
Chamei à vida a paixão que me resta
Mordi todas as raivas que plantaram em meu peito
Fechei os olhos e vi uma deusa em festa

Velei os mortos esquecidos num cais
Carreguei um fardo de gastas palavras
Gritei a um surdo de sorriso parvo
Afoguei em água benta as últimas mágoas

Afoguei-me no pranto de sete deusas
Fiquei sem pernas para correr no partir
Ouvi o impossível do acreditar
Chorei tanto que matei o rir

Este poeta perdeu a pena
Levei tempo para encontrar-me na poesia
Lavei, levei o sentimento do descrédito
Achei que as tuas palavras nada tinham de certo

Hoje pacifiquei-me com as cores
Hoje pintei de sol a sol
Hoje fiz uma oração de traço fino
E ouvi uma música em si bemol

Hoje vi uma nuvem transformar-se em aguaceiro
Vi uma árvore despida com uma breve flor
Vi todas as realidades presas à contradição
Hoje quis ser apenas …Pintor…

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

FALSO GRAAL

Inventei a ironia numa toada de vento
Roubei as asas a uma gaivota azul
Colei-lhes um poema cheio de penas
E enviei-o para uma tonta do sul

Inventei um mar numa bola de sabão
Roubei uma corda forte e boa
Atei um rol de mágoa à mesma
E afoguei-as nas águas de uma lagoa

Inventei uma criatura de nome amor
Roubei-lhe a maldade por tempo indeterminado
Pintei suas vestes com as cores do arco-íris
Achei-a feia e fiquei pasmado

Já chega de invenções…
Todas elas saídas de contradições
Apenas uma era verdadeira
Porque foi gerada de mil emoções

Está maluquinho o poeta zinho…!?
Deixou de funcionar este ser em desalinho
Recolheu do prato um ramo de amarguras
Meteu pernas à lonjura do caminho

Andou às voltas até ter dores nas costas
Sacudiu a alma e bebeu um pedaço do céu
Fechou os olhos e sem querer pisou um falso fantasma
Que fez um terrível escarcéu

Eu não dizia que isto são mesmo maluqueiras
E quando assim é só pode dar para o torto
Este poeta pateta já não aguenta com gente
Já parece estar meio-morto

E para fechar a loucura com chave de ouro
Fiquei convencido de ter encontrado um tesouro e coisa e tal
Era apenas uma estranha criatura, qual Eva
De rosto lindo espelhado num…Falso Graal…

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

MARGENS OPOSTAS

Tacteei minha sombra caída
Os ramos de uma magnólia cedem ao vento
Ergui num deserto um castelo de raivas
Segui numa distância infinita ladrilhada de mágoas

Já não posso dar-te a mão, cheguei tarde
Entre ruinas procuro o sentido, a razão
Já não canto aos deuses, não rezo
Já esqueci o sabor do desprezo, não desprezo

Tracei um círculo de solidão
Ausente do meu nome está o chamamento
Jazem mudas as folhas de silêncio
Errantes brumas ao sabor do vento

Percorri um longo e tortuoso caminho
Moro numa casa da memória no topo da saudade
Prodígios de mil cores espalhei pelo caminho
Pintei almas, mentiras, girassóis e singelas verdades

Talvez seja apenas nevoeiro desmoronado pela luz
Um grito ecoando num mar inebriado
Um plantador da sublime palavra
Um arcanjo em luta eterna com o diabo

Lutei tanto por ti…
Luto com espadas de fogo e esperança
Não há idades para amar com amor
Não há barco que nos leve no fugir à dor

Oiço uma soluçante chuva
Uma menina de destroçado coração
Oiço um pássaro chato cantar todas as manhãs
Li gravado num banco de jardim a palavra perdão

Rumores incendiados, céu menstruado de paixão
Mãos urgentes afagam estátuas incompletas
Neste rio de furiosas águas sonhado pelo pintor
Quedo-me só eu e a estupidez em…Margens Opostas…

sábado, 17 de novembro de 2012

AS FILHAS DE UM FALSO DEUS

Imensa funda e impenetrável noite
Onde as trevas soltam gigantes feitos de sombra escura
Caminheiro, caminhante, sem rumo ou vontade
Teu coração e alma serão ungidos com água pura

A virgindade perdida ao travo do cigarro de uma puta
Um marinheiro tonto de arrogante atitude
Duas maçãs podres atiradas à sargeta
Um sorriso estupido a cantar uma peta

Olá deusa Grega caçadora de orgasmos mentais
Olá gente estupidamente contente
Há tanta estupida pessoa que me acha louco
Algumas dizem coisas que me deixam menente

Mas, que é isto?
O poeta descalçou-se em frente à palavra
Mete-me raiva mulheres agrupadas
Não quero ser semente de perversa lavra

Observado pelo mundo ficou ausente o meu nome
Dispersos pedregulhos de silêncio empurraram-me o ficar
Insondáveis são as teias da maldade
Levanto-me todas as manhãs ausente do amar

Na passagem, vi a memória ausente dos teus olhos
Respiro uma estação já morta
No êxodo das manhãs escrevo a raiva
Há um castelo azul com o azar preso à porta

Uma criptoméria tomba contra a fundura do tempo
Escrevo para que não oiçam o clamor desta nua alma
Escrevo para que ninguém se ache nestas palavras
Escrevo para que nunca esmoreça esta minha chama

No caminho do inverno ouvi o grito do bravio mar
Sentei-me de olhos fechados e lembrei alguns pecados meus
Lembrei pessoas que não mereceram o abraço
Lembrei algumas…Filhas de Um Falso Deus…

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

PEDRA e ÁGUA

Hoje um espelho envelheceu a minha alma
Devorei de raiva o pão da pobreza
Calei-me para melhor ouvir os dias
Escrevi na areia duas palavras, melancolia e tristeza

Desnudei-me à frente das tuas últimas palavras
Ouvi a respiração das eternas estátuas
Entre mim e o teu coração há o clangor das espadas
Conheço o teu nome, a verdade das tuas mágoas

Cinco letras…
Cinco pontas de cadente perdida na aurora
Na loucura de alguns instantes escrevo
Descalço vou adiante num ir longe, embora

Solto das mãos murmúrios sussurrantes
Do basalto explode um bando de pombos bravos, alguns negros
Há um livro branco apenas com a palavra ausência
Há uma carta de marear para um rumo de mil segredos

Flores de solidão crescem em pedaços de fria lava
Um espantalho saltou-me do bolso a remexer
Uma sombra desceu a janela e tocou-me
Cerrei olhos para sentir o que não queria ver

Cobri-me no lume das noites frias
Arderam quietas minhas emoções pungentes
De pássaro me transmutei em alquimia
Num ritual enterrei no barro meus anseios ardentes

Sou um pescador de calmarias
Um apagado trovador perdido da sua sombra
Raras são as pulseiras de pedaços de estrelas
Raras são as palavras de verdade que minha alma lembra

Eles não sabem que “Este Eu” é uma ilha de nostalgia
Uma casa de memória prisioneira da mágoa
Correndo entre o rumor do Mar e a fria bruma
Feito de cru barro, prisioneiro da…Pedra e Água…

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

AMARGO NOVEMBRO

São mudas as neblinas nesta ilha
É de pobreza o pão que alimenta o meu sentir
Oiço o mar com os meus próprios dedos
Parti do desencontro dos meus derradeiros medos

Parti e deixei no cais mil dúvidas
Lembrei tempos que corri feliz pelas amoras
Nesses dias bebi sofregamente a vida
Nesses dias a minha alegria era incontida

Estou ausente do amor e desta terra
As memórias secaram numa lagoa inventada
Este barco que me carrega em solidão
Sem trégua será o resto desta história inacabada

Entre mim e o amor existe dúvida e dor
Frias são as pedras de uma casa sem o branco da cal
Este Inverno espalhou presentes dourados sem valor
Este fogo sem chama, este ardor, este frio de falso calor

Sou uma Garça perdida na areia
Anoiteceu no meu olhar
Perdi as penas, perdi-me na terra das ilusões
Perdi-me no mar num sonho que não quero acordar

Já não há música para fazer crescer alegria dos meus gestos
Já não há cores para fazer obra que preste
Já não há alma guerreira para ouvir o que dizem os dias
Já não há lembrança de Primavera neste vento agreste

Eriçado matagal de espinhos
Olá pobreza das estéreis vinhas
Olá gente descrente deste desbotado retrato
Olá palco onde deixei tantas emoções minhas

Apenas resta a brancura dos meus sentires
E pequenas coisas que ainda lembro
Quero apenas ter nos olhos o silêncio
E adormecer neste…Amargo Novembro…

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonhei que sou um cavaleiro andante
Por passos e pancadas estremecendo
Por sois e mares de ausente cor
Sonhei que carregava do mundo toda a dor

Sonhei com multidões e risos
Com folhas secas espalhadas na boca
Com um arpão vestido de morte
Sonhei com quatro folhas de um trevo sem sorte

Sou um pobre sonhador…
Atormentada mente no esquecimento do mar brincando
Desnudando palavra a palavra
Da narrativa de um amor perdido

Sou apenas um pássaro de silêncio
Gente, pessoas, gritos, contradições
Cólera, mentiras e falsas verdades
Esta raiva, este peito envolto em negras orações

Não acredito em ninguém!
Perdi sentimentos, sinto tão pouco
Porque será que todos acham que não valho nada
Que sou apenas um pobre louco

Pois, que angústia esquelética
Insano é este tempo que me fala da traição
Violentas são as palavras de um poeta caído
Desbotadas estão as cores da paixão

As ruas estão escuras da luz
As pedras choram aos pés deste caminhante
São de revolta as pétalas de uma rosa breve
São de pano-cru as vestes desta alma de nigromante

Mais uma vez divaguei pelas palavras que encontrei
A loucura afugentou o que restava da ternura
Coroei-me de rei-bobo em pose de tolo
E adormeci no…Palácio da Ventura…

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

CREPUSCULO

Não voam anjos pelos cantos da tua casa
Não preciso inventar mais a terra
Sopram ventos de melancolia
Transparente é o cinza que a tua alma encerra

A minha pobreza é a falta de um par de asas
Encontrei um lugar de reinvenção das sombras
Pensei virar as costas ao tempo e ao deslumbramento
E aí houve estranhamente o amanhecer das minhas palavras

Procurei na memória corredores esquecidos
O esquecido segredo das penumbras
Mas há palavras que me aprisionam à realidade
Este arrochar de alma, estas frias brumas

O orvalho das manhãs é poesia de água
Soltei um grito preso na força da minha voz muda
Deixai-me criar epitáfios em barcos naufragados
Deixai-me ser o personagem sem rosto de uma perdida lenda

Por maldições meu corpo é árvore solitária
Ventos fortes, mares estranhos, perdidas águas
Quero esculpir o ruído do silêncio
E fazer um rosto de cravadas mágoas

No canto da rua sou vagabundo bebendo a vida
Uma hortência que se inclina sobre a terra nua
Uma oração nos olhos parados de um homem sentado
Uma casa de branca cal de uma ausente rua

Há quem beba a vida de um só trago
Este absinto tem a sabor do fel
Não há sol que aqueça o terror da solidão
Não há no sal da maresia a quentura do mel

Este é o poema que a mim mesmo não prometi
Escrevi-o no primor do escrito maiúsculo
No Palácio carbonizado do poema
Gravei o último raio de um perdido...Crepúsculo...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

EU PESSOA ME CONFESSO

Se o mar adormecer em desvario
As ondas não mais se formarem
Se as gaivotas se perderem do ninho
As árvores mais altas tombarem

Se o dia não encontrar a manhã
As nuvens deixarem de chorar água pura
Se as pedras da ilha roubarem a cor ao verde
As tuas palavras deixarem de ser raiva dura

Tantos “ses”
Tanta loucura encoberta em preconceito
Tanta lama vertem certas bocas
Tanta pequenês vestida de despeito

Isto hoje nada bate certo
Este poeta sem rima não passa de uma cabeça esperta
A poesia sem nostalgia é apenas palavra seca
Um número vezes dois às nem sempre é conta certa

Pois é, a metáfora pregou-me uma partida
Decidiu dar uma volta por achar que esta poesia era torta
Jamais terei vontade de me encontrar com a ternura
Na puta da vida nunca encontrei gente pura

Encontrei negromantes, máscaras e outras tontices
Gente ornamentada de tolices e outras mafarriquices
Gente contente por ter a alma cheia de vento
E um gajo enganado no rumo certo

Encontrei-me com aquilo que julguei ser o amor
Desencontrei-me na voragem da maldade
Juro que nunca marquei encontros com a estupidez
Juro pelas alminhas que perdi o rumo da saudade

Sem rumo mas com altivez e aprumo
Com uma caixinha minha e não de pandora
Onde guardo um pacto divino
Onde permanece apenas um sentimento que nunca foi embora

Que raio de lenga-lenga urdi para aqui
Ás vezes o que sou esqueço
Hoje deu-me para esta disparateira
Eu Pessoa me Confesso

sábado, 24 de março de 2012

A LOJA DAS TENTAÇÕES



São de açúcar os sonhos de uma criança
São de algodão as nuvens que vi esta manhã
São de sal os diamantes do colar que te dei
São verdadeiros os sentimentos que pareceram palavra vã

Uma boneca de olhos que abrem de espanto
Um cavalo de madeira perdido do carrossel
Um cálice cheio de berlindes de vidro
Uma mascara de palhaço pintada a pincel

Um pião que ganha vida
Uma corda para saltar bem comprida
A trotineta jaz num canto partida
Um coração recorda uma dor esquecida

E abre-se uma caixinha de madrepérola
A bailarina rodopia imponente mais uma vez
A melodia despertou a ternura
Uma alma desnudou-se para mostrar ser pura

O amor floresceu no sótão
Um colo foi conforto de imensa saudade pura
Uma cópula foi intensa vertigem
Umas unhas cravaram-se num misto de luxúria e candura

Os braços de madeira abraçam com força
Um pai natal caiu de uma prateleira
Vale meio tostão uma estúpida opinião
Vale um milhão, uma lembrada sensação

Não vale nada a puta da vida!
Às vezes tenho um profundo ódio pelas pessoas
Às vezes dou por mim a comparar
Às vezes há pessoas à venda para comprar

Agora sem querer senti raiva
Já voltei à condição de bom rapaz
Passou depressa essa sensação
Voltei a encher a alma de paz

Estava a falar de brinquedos de criança que não tive
Tive estaladas, muita luta na viagem e alguns sermões
Mas tive e tenho todos os sonhos para sonhar
Embora às vezes pare na montra da…Loja das Tentações…

domingo, 18 de março de 2012

DAMA DE OUTONO


O meu pranto escondeu as sílabas de uma palavra
O meu céu não precisa de Sol para ser azul
A minha emoção transbordou nesta clara manhã
Tal como as incontidas águas que correm para sul

Este Inverno que o meu querer instaurou
Tem o rosto coberto por densa bruma
Tem a força de todas as marés esta emoção
Que devolvi hoje à espuma

Soltei os sentidos na procura do sentir
Agarrei as crinas de uma teimosa ventania
Cavalguei uma nuvem que adormeceu no alto de uma cumeeira
Parei para chorar uma árvore que no chão jazia

As flores despertaram mais cedo
De um sono aprisionado em mil noites de solidão
Aromas selvagens inundam a ilha
Evocando uma perdida paixão

Apaixonadamente um pássaro cantou na madrugada
O aplauso das folhas obedece ao querer do vento
Onde dormem as gaivotas ao fim do dia?
Onde dormem os barcos em que há tempos eu partia?

Parto em cada anseio
Numa viagem com o nome de solidão
Não sei se são de mortas folhas este caminho
Só sei que é de frio barro este chão

E rio, soltando uma louca gargalhada
E voo sem medo do cair
E aprisiono uma amargura sem sentido
E sinto que a distância é o fim do partir

E fico ficando sem querer ficar
Fecho os olhos e vejo a cor do desengano
No vestido de perdidas cores
De uma…Dama de Outono…

domingo, 11 de março de 2012

LUZ DA VELA


Hoje criei um passo de Cristo
Solicitei uma Verónica à canção
Senti a emoção de uma multidão
Olhei uma Virgem de destroçado coração

Que conversa poética dirão ou pensarão
Mas foi assim que tudo aconteceu
Pediram-me para fazer um espectáculo
Em que o artista era Jesus e a vida perdeu

Hesitei mil vezes na coreografia
Um Romeiro repetia que a cruz era para arrastar
Os soldados para maltratar
Maria Madalena para amar

Amar…
Amei cada palavra da canção que decidi
Cada movimente de actores puros
Um misto de emoção e alegria senti

Amar…
Esta é uma espécie de sina ouro
Sentir a vida como um pássaro
Que colhe uma semente como tesouro

A banda tocou tristeza acompanhar
As opas eram de cor púrpura
Quanta devoção meu Deus
Na alma de gente que a fé procura

Às vezes perco a fé
Às vezes a demanda é maior que o guerreiro
Às vezes chego depois de ter passado a maldade
Às vezes a dúvida chega primeiro

Mas sou feliz, às vezes como um petiz
Foi assim que hoje me senti ao encenar
O encontro de uma Mãe e um filho
Que transformaram dor em verbo amar

A procissão passou no longe
Abandonei aquela Vila, mas antes orei numa capela
Pedi que o meu sonhar voasse para lá da maldade
Num altarinho bruxuleava a…Luz da Vela…

segunda-feira, 5 de março de 2012

QUATRO ESTAÇÕES


São de sol os limões de Abril
As águas correm na sua eterna viagem
Este azul que pinta a ilha tem cores mil
O tempo engole a vida em alucinada voragem

Uma estação para cada ano
Um ano para cada paixão
Um voo para o horizonte e mais além
Um firme bater de apenas um coração

Nunca dorme o Mar
A luz é companheira da aurora
Sempre soube que a saudade não morre da idade
Às vezes fico na vontade de ir embora

Às vezes sinto uma força divina
Uma fome de trigo e utopia
Às vezes caso os sentimentos com a terra
É no mar que adormeço na maresia

E foram quatro, oito, sete
E foram finais e fins do dia
Foram campos de uvas doces
Foi felicidade de alma que só sofria

Atirei mil raivas ao céu
Rasguei o azul desta tela desbotada
Enfrentei os receios da morte ao passar por mim
Caí, mas ergui-me de corpo e alma amarrotada

Quantas estações tem um coração?
Há gente que vive num longo e infinito inverno
Há gente que diz que não valho grande coisa
Que importa o que dizem deste poeta terno

Serei demiurgo de uma comédia escrita por tontos?
Nada sou, serei nada no vazio de uma estação qualquer
Quanto ódio às vezes sinto brotar de seres vazios
Quanta gente que não sabe ser homem, mulher

As vezes choro só
Faço brotar a cada lágrima sonhos aos milhões
Pinto de todas as cores o caminho que percorro
Porque é a penas uma a paixão em…Quatro Estações…

quinta-feira, 1 de março de 2012

MÃOS QUE TOCAM


Toquei a entrada para um labirinto
Bebi num trago um cálice de absinto
Senti o frio de uma pedra negra
E uma criatura convencida que minto

Vendei meus olhos para sentir melhor
Briguei com a minha vontade furiosa
Há um tempo em que tudo irradia luz
Há quem sem ser sente ser esposa

Há quem ame sem saber a razão
Há um perdão para cada pecado
Há uma absolvição para o justo
Há um coração que nasceu assombrado

E depois vem apressada a vida
Encostando à alma um cínico relógio
São sete os minutos para um homem provar ser deus
São de pedra alguns corações ateus

Uma cortina de luz percorre o instante
Um relâmpago rasga o profundo descrédito
Um mar calmo aprisiona a solidão
Um tanso diz “no amor acredito”

Vejam lá isto que de poesia nada tem
Um poeta a falar de si ou de alguém
A loucura não tem como alvo a razão
Uma boca impura tem o sabor a desdém

Mas espera aí
As minhas palavras decidiram ser elas próprias
A minha alma uma porta que perdeu a chave
E a poesia ser traços sem cor em folhas já mortas

Há sempre alguém no encontro destas palavras
Há sempre um encontro no desfazer do labirinto
Há sempre alguém que se veste de contradição
Há sempre alguém que engole o sim para dizer não

E há o amor
Dito em palavras que da alma escapam
Há um infinito sentir que tão poucas vezes acontece
Há tanta verdade em umas…Mãos que Tocam…

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

VISIONÁRIO


Sou um descrente de gente
Um ser apressado na rota da vida
Alguém que não sabe exprimir alguns sentires
Que no peito arrocha esta dor sentida

Segui o balanço deste barco de papel
Segui uma gaivota a caminho do norte
Segui uma vaga que me salpicou com espuma
E desisti deste seguir numa toada de vento forte

Fechei os olhos para ver os contornos de uma lembrança
Lembrei os aromas de uma manhã em branca areia
Senti as cores de uma acácia rubra
Senti no corpo as águas de uma maré cheia

Mergulhei num Mar de lusas lembranças
Encontrei um cavalo marinho de chapéu de coco
Fez-me uma vénia de escárnio
Esqueci o respirar no encontro de uma baleia boto

E a loucura, minha fiel companheira
Empurrou-me mais fundo para o vale do absurdo
Veio ao meu encontro um anjo-do-mar
Tocou-me a razão e fiquei mudo

Também já não lidava nada bem com a palavra
Os sons ferem-me a alma ao seu toque
Deixei que me descobrissem de todos os pesares
E uma raia acordou-me desta coisa tonta com um forte choque

Com toda esta confusa demanda nem sei onde fui parar
Que importa o sítio quando não se quer chegar
Que importa abrir a alma a um descrente
Que não constrói um mantra por não saber rezar

Que importa deixar de fazer da palavra uma construção
Uma corrente que se desprende da palma de uma mão
Se as grilhetas não tocam numa alma livre
Se a verdade é mentira e a dúvida a máscara da razão

Às vezes dá-me para isso
Escrevo sem tino nas águas de estuário
Espero que ninguém me ligue ou dê importância
Sou apenas um pobre louco…Visionário…

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

TABU


Soltam-se os trincos da memória
Apagou-se um sorriso na minha lembrança
O dia perdeu-se na noite em assombração
As ondas no mar pararam sua dança

Às vezes o meu olhar enche-se de certezas
No meu peito pára este apressado querer
As mãos mergulho em água fria
Esta sede está morta sem saber

Morrem as mágoas na areia
Uma mortalha de espuma cobre um último pesar
Uma boca foi cosida a ferro rubro
Para não mais soltar a palavra amar

Corri num manto verde numa procura
Tropecei num Duende medroso mais morto que vivo
Desventrei a terra na procura de um peixe azul
E encontrei com quatro folhas um rubro trevo

Estou sempre a encontrar coisas estranhas
Uma vez encontrei um anjo alucinado
Uma mulher que disse ser dona da paranóia
E até uma fogueira de fogo acabado

Encontrei as cores todas que o olhar permitiu
Um ser que mostrou os dentes e nunca riu
Um monstro de sete cabeças irado
E um barco afundado que nunca partiu

Encontrei aquilo que achava ser o amor numa aurora
Fiz amor com amor como se fosse demanda
Fiz uma peça em que no fim ninguém ficava
Encontrei uma criança feia que achei linda

Tive um encontro com um Deus colérico
Que me falou no cínico ser que eras tu
Fechei a porta do vale dos lamentos
E fiz deste poema um… Tabu…

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A DESCRENÇA DE UM DEUS


Nem sempre vemos passar a virtude
Nem sempre a estupidez tem rosto
Nem sempre a saudade dura para sempre
Nem sempre a paixão acaba em desgosto

Cumprimentei hoje um assobiador
Ouvi uma voz cantar a minha música
Abri a alma à emoção contida ao lembrar
Que a escrevi numa tarde de calmaria

Passei por uma criatura de mãe estendida
Há bocas que pedem pão em oração
Há gente que vira as costas de forma tonta
Há gente que tem uma falsa emoção

Há crentes e descrentes
Palhaços, fantoches e foguetes para arraial
Caminho para caminhadas e erva para fumar
Um sentimento de pena que nada leva a mal

Barracas, bandas e outras tangas
Vigaristas disfarçados de gente séria
Professores disfarçados de professores
Uma riqueza que foge à miséria

E há os meninos de coro
Os bestiais que detestam as bestas
Olhos que choram sal sem cor
Peitos vazios de puro amor

Encontrei três anjos no caminho de casa
Um triste, um alegre e outro adormecido
Colhi de uma árvore morta
O sentimento não querer estar contigo

Agarrei na pena e amarrotado papel
E lavrei estes desabafos meus
Descri hoje mais uma vez das cores do Mundo
E vi no rosto de um pedinte…A descrença de um Deus…

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

PINTOR


Pintor nascido na ilha
Pintas Anjos negros e céus de rubra cor
Os olhos que choram não mentem
Um coração sincero transborda a dor

Hoje o céu menstruou ao findar do dia
O sul sossegou em calmaria
Há tanto que não te ouvia
Neste chegar adormeci e sonhei que partia

Um cavalete na espera de alva tela
Uma paleta com as cores do rubor
Um corpo nu, presente de uma deusa
Que faz do sortilégio um momento de amor

Negros intensos, terras aprisionadas num tubo
Olhos que reflectem um dom
Já me disseram que tinha um, talvez mais um
Não sei se é mau ter algo assim, ou bom

Tenho na alma um cofre de palavras
Tenho uma palavra que nunca direi a ninguém
Tenho uma janela entre dois mundos
Tenho um sonho em que nunca vejo o rosto de alguém

Conheço a assobiadora força do vento
Um caminho secreto onde não há marca de passos
O ribombar da vaga na pedra submissa
Um mágico que transforma um sorriso em dois palhaços

Conheço amargura, tem a cor da terra pura
A tristeza com pinceladas de incerteza
Um arco-íris feito de sol e chuva de uma perdida nuvem
Uma tela só com desenho ao calha, mal talhado em beleza

Rasguei esta tela onde pintei sete vidas
Sete corações a latejar em manto de cetim azul
Sete orações que aprendi numa igreja de negra pedra
Sete casas, uma delas, virada a sul

E derramei todas as cores no Mar
A espuma prendeu apenas uma cor
As outras foram engolidas pelo azul
Amordaçou as mãos e o querer, este…Pintor…

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A ETERNIDADE E MAIS UM DIA


Chove de mansinho no barro
Frios são os pensamentos neste fim de dia
A ilha escureceu em sobressalto
A bruma envolveu tudo num manto de nostalgia

Os acordes de uma guitarra afagaram meu peito
Um pássaro esqueceu-se de voltar ao ninho
Uma Mãe olha embevecida um catraio
Que acolhe em sua boca um seio que transborda carinho

É uma incontida força o amar
Amor é palavra usada sem preconceito
Umas vezes usada apenas pelo desejo
Às vezes nem eu a sei usar de jeito

Eu não uso a palavra amar
Não sei amar de palavra vestido
Sei apenas que quando amo
Solto o imenso, o todo

Sei lá o que sei!
Parece-me saber muito sem saber porquê
Sei mundo, céus e pequenos infernos
Sei sabendo de olhos cerrados o que a alma vê

As pedras são mesmo pedras
Quando alguém as atira para magoar
As flores são sempre belas
Quando dão cor ao verbo amar

Vou esperar por uma onda que sei
Vir do norte em busca da pedra que sou
Vou esperar pelas buganvílias rubras
Vou sentir o sal da maresia no sítio onde estou…

Numa restinga de negro basalto
Onde as gaivotas fazem ninho
Onde as tempestades adormecem
Onde já vi dois amantes envoltos em carinho

Vou ajudar uma alma aprender a sentir
Uma paixão ganhar cor sem ter companhia
Vou ensinar uma criança pobre a sorrir
E transformar…A Eternidade em mais um dia…

domingo, 15 de janeiro de 2012

SOM DO CORAÇÃO


Não sou um pintor
Apenas um salteador das cores perdidas
Não sou um artista como dizem
Apenas alguém que dá forma às dores sentidas

Imagino um mundo onde existam mil cores
Um céu que as derrama aos olhos
Um mar onde os peixes se pintem a seu bel-prazer
Um campo com papoilas negras aos molhos

De negro se pintam às vezes certas almas
A ausência da cor é o abandono ao amor
A noite aprisiona-as em seu manto
Na noite os passos não deixam rasto nem dor

E estes sons que me entram à alma
Estes chilreados estridentes na manhã
Esta melodia breve e triste
Esta letra sem voz, palavra vã

Esta rubra lava que transborda meu sonhar
Este verde que conheço de tantos tons
Esta canção perdida no cofre da lembrança
Este nevoeiro da lagoa de sete tons

Nunca serei um tocador
Nunca sentirei a vibração das cordas ao ouvido
Nunca desisti de tocar a vida à minha maneira
Nesta minha pauta de letras que duvido

Talvez um cantador, rasgando madrugadas
Talvez uma pálida estrela na procura de perdida cor
Talvez o fruto amargo de uma árvore sem flor
Talvez os sons de uma balada de desamor

Talvez…
Eu que sou alguém de sim ou não
Eu que me esqueço às vezes de sentir
Esta minha musica…O Som do Coração…

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

MARÉ DE FOGO


Cheguei ao lugar onde se cruzam as palavras
À casa dos desejos que ninguém acreditou
Sentei-me numa cadeira inventada
Aprisionei meu pensamento e aqui estou

Aqui estou no limiar do credo nas pessoas
Na condição de justo vestido de injusto
No rosto uma máscara inventada por alguém
Arrochando ao peito a razão a muito custo

A poesia às vezes sabe-me a porcaria
As palavras a uma estúpida melodia
As convicções a um negro céu em ironia
E tu a uma farsa que me pareceu magia

Quando digo tu, falo de mim, para mim
Nada de confusões nesta indigestão poética
Hoje a musica sabe a desafinanço enlouquecido
Gerado numa alma patética

Pois é, palhaço ou profeta
Escolha lá se faz favor meu senhor
Umas vezes sou o génio cá da rua
Outras um perfeito estupor

Um anátema preso num baú
Um actor mudo que chora de si
Uma comédia de enganos menor
Um ir, voltar, o longe, o aqui

Conheço todos os verdes da ilha
O lado escuro da maravilha
Uma saudade que se perdeu com a idade
Uma aurora que morreu de velha

Conheço também uma história engraçada
De um homem que durante toda a vida não disse nada
Quando morreu não soube onde era o céu
Ficou na ilha como alma penada

De penas pois se vestem certas almas
Uma verdadeiras, outras um logro
Dormitei para aí cerca de um minuto
E acordei nesta…Maré de Fogo…

domingo, 8 de janeiro de 2012

O NOME DA ROSA


O relógio marca o tempo que passou
Suas engrenagens são rodas de magia
Um alquimista tenta enganar o tempo
Um profeta arrocha no peito a nostalgia

Sonhei com uma criança de mão estendida
Vi em seus olhos mais falta de amor do que de pão
No acordar procurei desvendar esse sonho
Não consegui, talvez algo guardado no coração…

…Este coração
Esta força que há em mim guardada em meu peito
Esta chama incandescente
Este desajeitado ser imperfeito

Este homem que olha o amor envolto em bondade
Este fazedor de tempestades de saudade
Este caminhante sem cavalo ou espada
Esta espera pintada de serenidade

Esta maçã presa na garganta
A procura do pecado pela absolvição
Este mar negro sem fundo de esperança
Esta maré que renova a paixão

A maresia continua bonita na tempestade
Sinto que um dia voarei feito vento
Ainda sinto na mão a frieza dos brandais
Ainda sinto que no tempo farei tanto mais

Farei das palavras um universo de vida
Farei tocar todos os sinos da terra
Cavalgarei estrelas e aportarei planetas
Serei paladino em santa guerra

Vou mudar o curso do relógio
Retroceder até uma pequena e humilde casa
Ouvir uma meiga voz dizer, meu armando, meu amor
E lembrar por fim…Do Nome da Rosa

domingo, 1 de janeiro de 2012

A TORRE DOS DESEJOS


O Mar não parou no troar dos foguetes
O céu ficou mais pobre com a subida da falsa luz
Um anjo acordou de um sonho divino
Na terra um olhar falso encena o seduz

Nunca acaba o amor impossível
Dura uma eternidade
Reverbera em todas as constelações
E viaja num barco com asas de nome saudade

Nunca acaba a chegada de uma nova onda
O vento volta sempre a este lugar
Uma vela bruxuleia iluminando o caminho da fé
Um coração soletra baixinho o verbo amar

Quando cai uma estrela a Lua esmorece
O morrer de um dia é prenúncio de nova aurora
O atravessar de um caminho fugindo à ternura
É um ficar na página de um livro de mágica história

Não há magia na crueldade de umas mãos
Nunca encontrei verdades num caminho de soltas pedras
Nunca naveguei no estuário de uma lagoa
Nunca esculpi a palavra nestas areias negras

Sou um insano sonhador de profecias patetas
Paladino do amor, força e fraqueza anel ante
Mensageiro que guarda a mensagem ao descrédito
Homem, arcanjo ou necromante

Sei lá!
Eu que tudo sei e invento o não saber
Eu que solto todos os dias a alma ao colo da brisa
Eu que percorro o “Cosmos” sem ter de correr

Eu que partilhei o sopro da vida com algumas almas
Recebi na viagem, verdadeiros e falsos beijos
Ergui com palavras de suprema melodia uma construção
E aprisionei a alma…Na Torre dos Desejos…

domingo, 25 de dezembro de 2011

MAR MANSO


A simplicidade da chuva
Uma folha de papel que rejeita a letra
Uma mão que teme o afago
Uma palavra solta que em minha alma entra

Tão calmamente corre esta viagem
A terra anda devido ao amor
O que é isso de amar com amor?
O que é isso de o perder sem dor?

O que é isso de acreditar
Às vezes Deus carrega ao colo um justo
Às vezes uma reza acende o Sol a meio da noite
Às vezes duvido acreditando a custo

Abracei o mundo este natal
Lembrei passados desvanecidos
Senti aromas que pensei perdidos
Senti que a vida me infligiu mil castigos

Senti que a solidão era a porta para a razão
Que era uma criatura sem grande importância
Senti que ainda não tinha traçado todos os rumos
Que não há longe perto da distância

Tenho no celeste uma estrela como minha
No contar das vagas formulo sempre um desejo
Acredito em tanta coisa estranha para outros
Sabem lá o que sinto toco e vejo

E falo sem que queira a palavra como resposta
E voo nas maravilhas que minha alma cria
E vivo na magia que me foi oferecida
Choro quanto pinto com as cores da alegria

Que Mundo este onde me colocaste Deus
Que vertigem esta procura apaixonante e sem descanso
Sei que as estrelas são teus luzeiros e olhos
E a minha estrada este…Mar Manso…

domingo, 18 de dezembro de 2011

O ELIXIR DO AMOR


A lembrança cruzou meu pensamento
A dor tomou-me de assalto
Lembrei-me caído no frio chão
A olhar um chamamento do alto

Lembrei o turbilhão de vida que me passou
Alma que de leve se separava do corpo
Vida que confirmava mil sentidos
Derramada do fundo de um copo

Lembrei…
Este poeta sempre em combate com a lembrança
Este homem desprendido do preconceito
Esta puta vida entre o mar revolto e a bonança

Esta ânsia contida em peito de basalto
Atravessei o mundo nas asas do impensável
Fui apelidado te tanta coisa feia e triste
Por vezes de ser notável

Mas fui sempre eu…!
Viajeiro temeroso fingindo valente
Enfrentando na noite a borrasca
Na aurora sorrindo contente…

…Com as suas belas cores
Sou um apaixonado por elas
Carrego no tempo tantas impressões
Algumas…São mesmo belas

Amei, amo a beleza
Tropecei muita vez na incerteza
Transformei miséria em realeza
Ri de contente e de tristeza

Ri para os olhos que me deram amor
Ri para o mar onde pesquei ilusões
Ri em cada partida e chegada
Que fiz numa vida de contradições

Procurei o segredo da verdade feliz
Percorri o caminho do vento cheio de ardor
Uma gaivota entregou-me uma concha cheia de mar
Era…O Elixir do Amor…

domingo, 11 de dezembro de 2011

ENTRE O CORAÇÃO E A VIDA


Esta Lua seguiu-me os passos
É triste ter asas sem poder voar
É fria a cor do vestido da noite
É de pedra esta jangada do meu prantear

Terra molhada de assombro
Olhos famintos de pão e sorriso
Boca que desfaz a palavra feliz
Mulher que abre o corpo ao esposo

Mulher fecunda, pão por cozer
Hesitante entre a entrega e a raiva surda
Fogo eterno que a água ateou
O suspiro da terra vibrando nos seios de uma muda

A fúria da paixão…
Vento fugindo à calmaria
Mordi uma azeda maçã
Nesta peça era o actor que nunca morria

Morri mil vezes em outras tantas
Usei sempre o mesmo traje, da mesma cor
Chorei os dramas, que não eram para chorar
Fui um deserdado do desamor

Fui Arlequim sem Columbina
Fui peça infeliz de carnaval a duas cores
Dancei com princesas inventadas
Inventei na vida falsos amores

Inventei uma ilha feita de nuvens
Um relógio que fazia o tempo andar para trás
Inventei a verdade mesmo a sério
Sei sonhar inventando sem saber como se faz

Fiz…
Das cores os sonhos mais belos
Das palavras a esperança sempre à minha espera
E dei vida a uma perdida quimera

Cobri com um abraço a descrença
Olhei de frente a desconfiança
Recolhi lágrimas de água pura e fiz um Mar
A que dei o nome de azul esperança

E fiz um cais
Apenas de chegada e proibi a partida
Sentei-me nas pedras que uni
E Juntei o…Coração e a Vida…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

HÁ PALAVRAS QUE SÃO COMO FAZER AMOR


Um brinquedo perdido num baú
Uma cortesã cheia de vontade de servir
Um desejo mesquinho acende o perverso
Uma mulher vestida de verdade acabou de mentir

A chuva que escorre para o alto
Uma ribeira perdeu o cantar da água
A saudade já não mora no cais
A janela do sonho tem um cortinado de mágoa

Uma besta diz que é bestial
Uma criança chora de medo
Absolvição foge da alma do justo
Um coração derrama no chão um segredo

De amor…
Envolto num manto denso de bruma
O sangue de um golfinho foi sacrifício
Que um deus derramou na espuma

Do mar…
Onde lancei uma pedra desencontrada de outra
As pedras também sentem amor
Não infligem apenas dor

Sou uma pedra…
Lava mal talhada pela tosca ternura
Escultura que o sentimento ergue
Sem pingo de beleza ou formosura

E tu quem és?
Cultivadora em canteiro de ódios profundos
Rainha sem reino que trai o rei
Ave perdida entre dois mundos

Ah este poeta das confusas palavras
Cantador de todas as canções de tristeza
Trovador vestido de arlequim trapeiro
Fazendo vénias a uma imaginada realeza

Que diz palavra sobre palavra
Às vezes fica mudo com um olhar de dor
Dos seus lábios escorrem sons sem sentido
Porque…Às Vezes Há Palavras Que São Como Fazer Amor…

HÁ PALAVRAS QUE SÃO COMO FAZER AMOR


Um brinquedo perdido num baú
Uma cortesã cheia de vontade de servir
Um desejo mesquinho acende o perverso
Uma mulher vestida de verdade acabou de mentir

A chuva que escorre para o alto
Uma ribeira perdeu o cantar da água
A saudade já não mora no cais
A janela do sonho tem um cortinado de mágoa

Uma besta diz que é bestial
Uma criança chora de medo
Absolvição foge da alma do justo
Um coração derrama no chão um segredo

De amor…
Envolto num manto denso de bruma
O sangue de um golfinho foi sacrifício
Que um deus derramou na espuma

Do mar…
Onde lancei uma pedra desencontrada de outra
As pedras também sentem amor
Não infligem apenas dor

Sou uma pedra…
Lava mal talhada pela tosca ternura
Escultura que o sentimento ergue
Sem pingo de beleza ou formosura

E tu quem és?
Cultivadora de canteiro de ódios profundos
Rainha sem reino que trai o rei
Ave que perdida entre dois mundos

Ah este poeta das confusas palavras
Cantador de todas as canções de tristeza
Trovador vestido de arlequim trapeiro
Fazendo vénias a uma imaginada realeza

Que diz palavra sobre palavra
Às vezes fica mudo com um olhar de dor
Dos seus lábios escorrem sons sem sentido
Porque…Às Vezes Há Palavras Que São Como Fazer Amor…

sábado, 26 de novembro de 2011

PIANO


Apetece-me escrever uma carta ao Mar
De repente senti que Deus se distraia
De repente a terra parou de rodar
De repente o Mundo parou no meio-dia

Nesta ilha caminhei num chão movediço
Fui embalado pelo grito constante de um sismo
Nesta terra viajada descansei o sonhar
Fiz tréguas à ternura, aprisionei o amar

Habituei-me às orações
Aos santos aprisionados ao altar
As velas que ardem ao fim do dia
São milagre e pecado, o encontro do me encontrar

Um dia alguém disse ser eu um milagre
Um dia descobri que via para lá dos olhos
Um dia toquei um fruto podre caído
Nasceram de imediato mil flores aos molhos

Fiz nascer lembranças envoltas em bonanças
Cortei os espinhos a uma roseira infeliz
Reguei com sal um canteiro de tontas mágoas
Gritei alto um chamamento que a alma quis

Limpei as rezas atiradas ao chão de uma Igreja
Vi uma bordadeira fazer nascer uma pomba branca
Vi uma alma perder-se na noite escura
Li um poema já lido de Florbela Espanca

Li na água os caminhos para um lago enfeitiçado
Merendei miolos de pão amassado em agonia
Segui ao alto o salto de uma criptoméria
Larguei a espada e o pincel ao fim do dia

Continuei pintando memórias de cor
Rasguei tudo o tinha emoção e dor
Adormeci já tarde no tempo
Sonhei que tinha sido abolido o amor

Voei neste sonhar num mar de pranto
Em espanto tracei uma batalha, um plano
Montei um cavalo feito de vento
Acordei entre duas notas de um…Piano…

domingo, 20 de novembro de 2011

AMOR LUXÚRIA E FINGIMENTO


Um pano de alva cor
Que a bordadeira pontilha a crivo
Linho que um tear uniu fio a fio
Em desenho de um azul vivo

O cantarolar da chuva
Marca o ritmo do pensamento
Um vento que varre os presentes de Outono
Um Sol que aquece o Inverno por um momento

Um vaidoso que se despoja da roupa
Fauno que se mira e gosta
-Vejam suas putas o que perdem!?
Sou inteiro, isto é só uma amostra

Um relâmpago ribomba no ar
Solenemente solta seu raio
Uma flor breve abana, entristece
Um homem é boneco de palha no mês de Maio

Uma cama amarrotada pela passagem do amor
Lençóis que aprisionam o calor
Suspiros espalhados pelo chão
Uma imagem santificada sustenta o louvor

Uma pecadora ungida pela chuva
A sorte e a morte em bravata eterna
As ave marias que uma boca vomita
Para no céu ser, clemente a sua pena

Já não há xailes negros na ilha
Já ninguém liga a agoiros
O mar continua açoitar a costa
Deixando despojos, tesouros

Encontrei um búzio e senti o ouvir
Tudo é deixado no reino do esquecimento
O sentimento é sal, sangue do mar
Hás vezes…Amor, Luxúria e Fingimento…

domingo, 13 de novembro de 2011

O VOO DE UM OLHAR


Os olhos que choram
Não sabem mentir
As mãos que me tocam
Levam à alma o sentir


O abraço sincero
Aplaina meu corpo frio
Veste-me de sol ardente
Solta meu sonho em azul rio

Os sonhos perdidos
As juras e promessas que fazia
Guardei-as num cofre
Lancei à maresia

O vento adormeceu
Ávida terra de assombro
Trigo de ouro, pão
Olhar de fome em amor sobre o ombro

Os tempos plantados
Na parte de trás do horizonte
Uma bailarina feita de nevoeiro
Rodopia no alto de um monte

Um olhar…
O chegar, o partir sem ir
O ficar, uma ilusão perdida no mar
Um homem no chão, o cair…

…O cair
A luta da luz com a escuridão
Passou-me tanta vida num minuto
Perdi-me de mim, ou da salvação?

O não querer, a descrença
Como se os pensamentos fossem acções
Como se um olhar fosse o mensageiro do amar
Como se não indo adivinho o chegar

Como se o ódio fosse nevoeiro desvanecido
Como se as palavras mordessem o falar
Como se milhafre fosse sentinela no azul
Arrancando de mim…O Voo de Um Olhar…


Para uma pessoa muito muito especial

O VOO DE UM OLHAR


Os olhos que choram
Não sabem mentir
As mãos que me tocam
Levam à alma o sentir

O abraço sincero
Aplaina meu corpo frio
Veste-me de sol ardente
Solta meu sonho em azul rio

Os sonhos perdidos
As juras e promessas que fazia
Guardei-as num cofre
Lancei à maresia

O vento adormeceu
Ávida terra de assombro
Trigo de ouro, pão
Olhar de fome em amor sobre o ombro

Os tempos plantados
Na parte de trás do horizonte
Uma bailarina feita de nevoeiro
Rodopia no alto de um monte

Um olhar…
O chegar, o partir sem ir
O ficar, uma ilusão perdida no mar
Um homem no chão, o cair…

…O cair
A luta da luz com a escuridão
Passou-me tanta vida num minuto
Perdi-me de mim, ou da salvação?

O não querer, a descrença
Como se os pensamentos fossem acções
Como se um olhar fosse o mensageiro do amar
Como se não indo adivinho o chegar

Como se o ódio fosse nevoeiro desvanecido
Como se as palavras mordessem o falar
Como se milhafre fosse sentinela no azul
Arrancando de mim…O Voo de Um Olhar…

Para uma pessoa muito muito importante na minha vida

sábado, 29 de outubro de 2011

AS COSTAS DE UM CORAÇÃO


Solenemente uma árvore cede ao vento
O limite de um sonho é a palavra não
Os deuses habitam num castelo de nuvens
A mentira desbota a cor da paixão

As palavras que uma boca proferiu
As chuvas que caem na noite fria
As pedras que não erguem uma casa
A maldade impressa em alma que se esconde no dia

Uma figueira
Árvore que não dá flor
Chão estéril com pegadas nuas
Ò deusa do desamor

Ò veneno bebido de um trago
Absinto de gosto amargo
Braços que pedem a ternura pura
Barco que navega na ilha ao largo

E um passarinho canta alegremente
Uma donzela olha um amante docemente
Um corpo estremece de luxúria
Um anjo não é homem nem mulher certamente

Uma lagoa não é oceano
O céu nunca será limite meu
Já fui crente de muita palavra
Agora oiço-as com coração de ateu

Agora fiquei preso na palavra
Agora lembrei uma esquecida formosura
A distância percorrida por um anseio
Às vezes tem mil passos de amargura

Às vezes dou por mim a pensar
Porque há gente que vive o amor em contradição
Tudo isso me ocorreu agora num instante
Nunca saberei pintar…As Costas de Um Coração…

domingo, 23 de outubro de 2011

MANHÃS DE INQUIETO MAREAR


Senti nos pés o pulsar da ilha
Um farol avisa o longe do perto
A lava encoberta na costa dormente
Sete rumos e apenas um certo

Neste Mar senti a vontade de prantear
A nudez da noite no encontro do silêncio total
Encobriu meu pranto das estrelas
Uma zombeteira Lua marcou no dia o encontro final

Finalmente vi a vil desventura
O rosto cínico com máscara de formosura
As pessoas soltam tanta palavra vazia
Triste é a viagem de alguns de corpo e alma em secura

Atirei todos os pensamentos às ondas
Devolvi um búzio recolhido à maré vazia
Encontrei uma garrafa sem mensagem
Mas que tinha dentro um sorriso de alegria

Soltei às mãos uma corda cheia de nós
Desamarrei dois sonhos de incerteza
Apanhei das pedras uma flor impossível
Tinha um vestido branco de rara beleza

Uma noiva do Inverno
No vale dos Milhafres reina a ventania
Uma chuva agreste lava a terra fecunda
Uma criptoméria ostenta um ar de fidalguia

Sonhei que era carregado nas asas de borboleta
Por entre gotas de fino orvalho azul cristal
Todas as manhãs vêm coroadas com a esperança
Há mãos que deixam escorrer a dor total

Há almas que se esvaziam em ligeireza
Há uma boca que pede pão, um corpo o aconchegar
Passou-me todo este filme pelos meus fechados olhos
Numa…Manhã de Inquieto Marear…

domingo, 16 de outubro de 2011

A LÂMINA E O CÁLICE


O tempo corre em sua em sua invisível viagem
Um Santo nunca dorme no altar
Um barco sobe e desce cada onda do Mar
Um cais de partida também acolhe o chegar

São tantos os mistérios que encontrei na vida
Cruzei com gente desconhecida que conhecia bem
Falei e falo com gente que partiu desta vida
Sinto tanto aroma perdido que este tempo guarda e tem

Cruzei mares com baleias, tempestades e sereias
Furacões, monstros e adamastores
Fiz peças de imensa mágoa e nostalgia
Fiz o amor ser feliz num tear de desamores

Pintei e pinto coisas que me tocam fundo
O pincel nem sempre obedece ao meu querer
Quantas cores terei que juntar à ternura
Para ao fundo da tua alma poder descer?

Almas…
Um corpo que se liberta em cada noite escura
Mãos que tocam e transformam a pedra em ouro
Alquimista sem manto, aspergir o destino com água pura

Não procuro o Graal…
Sei que “Ele” está algures numa gruta desta ilha
Já lá estive e “O” contemplei
Às vezes volto lá para alimentar a alma com a maravilha

Pois é, tão simples são às vezes certos caminhos
A fé dos homens é feita de verdade e mentira
A terra protesta e sussurra-me um rumor
Não rezo, mas, já segurei nas mãos a imagem de Nossa Senhora…

…Dos Anjos
O que senti só se encontra na palavra que do alto desce
Uma cruz derramou em minhas mãos dois pedaços de pedra
Olhei para o céu e vi…A Lâmina e o Cálice…

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A SACERDOTISA


Uma alma é campo de batalha
Onde o ódio é vilão e a paixão protagonista
Palco de gigantescas refregas
Onde vive e morre o amor a cada conquista

E uma mulher disse:
O coração parte, no número das emoções
Uma mulher não tem estações para amar
Tem apenas no lado esquerdo mil contradições

As mulheres…
Não gosto de pessoas, do escuro, da maré cheia
Da taça que me oferece às vezes a vida
Da caminhada no barro agreste em tarde feia

Não gosto do feitiço sem sentido
Na busca procuro uma coisa para além da revelação
O amor não conhece a sua verdadeira profundeza
Senão no momento da separação

O vento açoitou os ramos num mar de súplicas
Enquanto o tempo esquadrinha os horizontes
Uma solidão infinita sela o desencanto
Param no seu curso as águas de sete fontes

Sete Cidades inventadas
Sete sortilégios para afugentar o agoiro
Sete palavras de magia branca
Um cálice de sangue que desfaz o ouro

Quero fundir-me e ser um regato corrente
Conhecer a dor da excessiva ternura
Acordar de manhã com o coração solto do corpo
Beber da fonte onde o sentimento é coisa pura

Quero, querer querendo
Ser carpinteiro que a madeira afaga e alisa
Sacrifício em cerimónia num altar de basalto negro
Pelas mãos de uma…Sacerdotisa…