segunda-feira, 18 de abril de 2011

ALIANÇA


Ontem senti a ressurreição de um sorriso
Senti uma suave brisa a falar docemente
Construí um abrigo no deserto da emoção
Encontrei na areia duas gotas de agua dormente

Eram lágrimas soltas dos olhos de uma criatura pura
Por momentos fechou-se a alegria na Terra
Contei sete pedras no meio das ondas
E fechei os olhos, imaginei-te Anjo em suave espera

Os vales são as ruas de um deus
Mãos de seda percorreram o espaço
Soltaram-se as raízes do bem
Num único e sentido abraço

Como um caminho coberto de azul
A terra prendeu-me um sonho sonhado
No julgamento dos meus fracassos
Venci tempestades com este vento de braço dado

Embriaguei-me na minha solidão
Vi nos teus olhos a fragilidade da espuma
Subi com o olhar o voo dos pássaros
Perdi-me na procura da paixão no meio da bruma

A tua beleza mora no feliz pensamento
Palavras que irromperam aos ouvidos, tantas
Escolhi algumas numa oração e lancei-as ao mar
As ondas trouxeram-me verdades tamanhas

Um grito brotou da alma
Em surdina alcançou-me a alma
A dor verteu diamantes de sal
Plena és em doce chama

Já tinha proibido a fé de entrar em meu peito
Porque selaste a tua alma à ternura?
És o pio de ave na procura do ninho
Um ribeiro de sentires da água mais pura

Que distância pode alcançar a verdade?
Pelos dias das minhas noites de magia
Pela alma de duas criaturas vibra a luz
Que se perpetua para lá do dia

E no encontro do coração na sua manhã
Segui o curso de um errante espírito na esperança
Fechei os olhos e a alma às palavras
Neste silêncio firmei uma...Aliança...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O PALHAÇO


Olá mininos e mininas, pais...
Senhoras e Sinhores vai começar a função
Este é o palhaço poeta
Que faz tudo o que não quer o coração

Vejam! Faço magia!
Com esta caixinha de simples cartão
Não se iludam, nem pombas ou coelhos
Não há truque...perdão!?

E então?! Que emoção
Encontrei algo aqui neste bolso esquecido e roto
Espera aí o que é isto meus senhores?!
Ah...! É uma pedra mágica que pensei ter dado em mar revolto

E vou cantar uma adivinha
Vou desenhar uma ideia minha
Vou inventar uma musica em surdina
Vou dançar sem bailarina

Vou fazer três pinotes
E enganar a gravidade
Equilibrar um prato sem partir
Vou servir nele pão e saudade

Uma trompete, um trombone
Um serrote que chora as notas
Sapatos fora da medida
Encarnados e de solas rotas

Mas ainda nada fiz de palhaçada!?
Pare os protestos minha senhora!
Segure esta rosa encarnada na mão
Espere...espere, não se vá embora!

Foi-se embora...
As mulheres adoram virar as costas
Dizem que amam eternamente num dia
Até juram isso de mãos postas

Estava a brincar!
Credo ninguém ri, era uma piada cheia de gosto
Muito bem foram-se todos embora
Aqui ficarei firme até ao Sol-posto

E vou brincar com esta vida
Daquilo que fiz, vou fazer...ou faço
Pinto a cara para ninguém saber quem sou
Meu nome...O Palhaço...

sábado, 2 de abril de 2011

INSPIRAÇÃO


Rasguei o mar com estas mãos
É de pedra este sentido do sentir
Enjaulei as minhas asas em troncos de giesta

Para que o corpo não se entregue ao partir

Contemplei o espelho desta lagoa
Perdi-me no templo de esquecimento
Vacilei na ironia de um acaso
Recordei com mágoa um passado momento

Mordi a terra, senti a frescura de uma conteira
Aprisionei entre os dedos um rosário sem contas
O silêncio tem a cor de uma perdida lembrança
A tua vontade obedece ao vento e a ideias tontas

Ao meu silêncio chegou um riso
E mais um tímido toque de tambor
O meu dorido peito rejeitou
Uma ave de fogo gerado da paixão e do amor

Estou parado no embalo de mil vagas
Mergulhado na imensidão deste mar de contradições
Leme,velas, vontade navegante
Alma que levita nas mais puras sensações

Ainda é humano face às pedras da ilha o que sou
Este frio orvalho pacificou a minha loucura
Através da ressurreição de um sorriso
Fica à vista um lembrada formosura

As casas são pedras abrigando pedras
As pedras são o campo árido onde nasce a quimera
As pedras às vezes são cais de partida
São espera, são muro de lamentos que a vontade encerra

Escutei o pranto e o riso
Procurei o lugar onde começa o começo
Paguei com ouro esta viajem sem fim
E mais um poema que nunca pôs preço

Dormi entre a tempestade e as pedras da ilha
Dobrei a vontade em desalinho
Revela-se na tristeza e na palavra
Este pranto cereal esmagado pelo rodar de moinho

Libertei as asas, quero voar para fora desta gaiola de palavras
Encontrar no limite das almas a satisfação
Quedo-me no infinito caminho do sonho
E encontro esta tão minha...inspiração...

sábado, 26 de março de 2011

A MINHA ESTRELINHA



Fui até ao horizonte
Descobri que não há infinito
Descansei no meio de um deserto
E emudeci este profundo grito

Calei a alma
Aprisionei o sentir deste estúpido coração
Mergulhei o corpo em agua dormente
E lembrei-me de uma esquecida oração

De quantas palavras se faz a melodia?
Para onde caminham os passos de uma criatura perdida?
O que será que pensa um homem caído?
Para que serve a verdade incontida?

Perdi a vela do meu barco de papel
Mil tempestades assolaram-me à alma
Abandonei o leme ao deus dará
E encontrei uma deusa em lágrimas, de perdida chama

Quem és?
Nesta tua demanda de contradição
Porque achas que o sentido existe ao amanhecer
Porque a noite te rouba a razão?

Este poeta não presta
Este poeta perdeu a palavra certa
Este poeta não acredita mais
Este poeta traçou à navalha a poesia e deixou-a incompleta

Mundo de cinzas pintado!
Fui ao mar alto na procura de uma afogada dor
Encontrei-me na pessoa só que sempre fui
Senti frio, não procurei o calor

Plantei hoje uma semente de futuro
Lembrei-me que as vinhas de folhas se cobriram
Este cálice de amargo vinho, bebi-o de um trago
As andorinhas do mar comigo partiram

Uma andorinha do mar
Sem pedra para poisar
Sem pena de penas perdidas
Voando sem procura do encontrar

E olho para este céu escuro como breu
Há um aguaceiro que se avizinha
Na procura do que julguei ser a claridade
Apagou-se...A Minha Estrelinha...

segunda-feira, 21 de março de 2011

ESTE LUGAR DENTRO DE MIM


A espuma de uma onda breve
Cobre o negro basalto do fim da ilha
Deixa a palavra saudade tatuada
Em sal azul de nostalgia

Mil silêncios percorrem este deserto
Uma casa olha-me no olhar de entreaberta janela
Um papagaio faz de conta que sabe falar
Gagueja a preceito a palavra amar

Encontrei hoje o dono do assobio
Ausentou-se do caminho o louco caminhante
A chuva voltou envergonhada para as nuvens
O relógio marcou o futuro adiante

As raízes de uma camélia
Prenderam-se aos trincos da minha memória
Lancei as sortes ao celeste cheio de fé
Caíram no correr de um ribeiro que chora

Um valsa valsou descontrolada
Um Arlequim riu que se fartou
Uma dama tonta perdeu a máscara
O Absinto num cálice ao chão tombou

O feitiço e o homem
O cruel chicote estalando no ar
Um barco navegando ao contrário
Fugindo ao sitio onde mora o chegar

Alma desencontrada
Entre este mundo e...a existência verdadeira
A mim chegam os lamentos
Da partida derradeira

Esta força, este meu peito que ameaça explodir
Este querer não querendo, este não saber sabendo
Esta sede que me arroxa o beber
Estas palavras ditas tantas que não entendo...

...Que percorrem o caminho entre a alma e a desventura
Brotam de uma plantada formosura
Vêm envoltas numa lágrima fugida ao sentimento
Que saiu de um coração da cor da ternura

Que loucura é esta que que sinto
Que me faz caminhar entre todos os princípios na fuga do fim
Toda ela transformada em amor e dor
Guardada...Neste Lugar dentro de mim...

segunda-feira, 14 de março de 2011

ESTE MUNDO NÃO É MEU


Cobri o meu mundo com um negro manto
Gerado na minha alma
Julguei que ele me entendesse
Mas não, soprei finalmente uma réstia de acesa chama

Apaguei a luz que criei em sortilégio
Gritei mudos pesares e lancei ao mar
Os destroços de mil sonhos
Espero nunca ninguém os possa encontrar

As sereias zombeteiras soltam gargalhadas em despudor
As gaivotas voam tristemente sobre a ilha
Quem disse que este rochedo era belo
Quem confundiu o degredo com a maravilha?

Quem se enganou na procura do amor
Quem tristemente inventou a paixão
Quantas palavras de verdade te direi
Para chegar ao teu terno coração?

Nenhuma!
As palavras são areia perdida na areia
São asas soltas de pássaro mudo
São a parte do som que acho mais feia

Morrem as flores na noite
Errantes aromas toldam-me a lembrança
Arranquei estas vestes de frio agasalho
Enterrei num buraco sem fundo esta tonta esperança

Estrondosamente caminha a vida
A estupidez deu frutos de sabor amargo
Ungi uma pena com água salgada
Não sou um santo tampouco um mago

Sei lá o que sou
Se assim é quem saberá?
Mas a quem interessa saber
Sou uma alma por quem nunca ninguém chorará

Ainda bem!
Já ensaiei tantas vezes a partida
Tenho os olhos cheios de almas errantes
Tenho a certeza que a minha nunca andará perdida

Sei de onde vim, para este lado
Conheço todos os karmas até o de um ateu
Que pena ninguém nunca ter sabido quem eu era
Neste Mundo...que não é Meu...

terça-feira, 8 de março de 2011

A PONTE PARA O DESTINO


Pedra sobre pedra
Sobem os muros ao encontro do azul
Ouvi um pio de profundo chamamento
Pareceu-me vir dos lados do sul

Um Milhafre
Uma Ave tão cheia de mistério
Penas planando do alto da ilha
É tão profundo o amor, tão sério

De penas vesti as minhas dores
Cruzei mares, enfrentei tempestades
E percorri meio mundo na procura do encontro
Sonhei lendas numa baía das Sete Cidades

Vesti mil roupagens
Usei os disfarces que encontrei no meu baú
Pintei o rosto das cores da verdade
Perdida no meio das vestes uma foto, eras tu

Toquei este roto tambor
Soprei uma corneta desafinada
Dancei uma dança sem sentido
E com tudo isso não senti quase nada

Mas o que esperava sentir
Este poeta sem penas de espanto
Talvez um arlequim triste
Que mistura a água da chuva com pranto

Máscaras
Às vezes dá jeito tapar o rosto
Às vezes fica sentada no tempo uma alma
No anunciar de um Sol-posto

E chove, o verde continua a sorrir
As vagas chegam de longe, um rumor
Uma gaivota perdeu-se do ninho
Um santo olha-me com pena do alto do andor

Andei, nunca contei meus passos
Nunca falhei um rumo no pensamento
Nunca parei para olhar as estrelas
Nunca dormi na sombra por um momento

E em passo estugado caminhei firme
Sou alguém que vive em constante desalinho
Na procura do que a minha alma ordena
Atravessarei esta...Ponte para o Destino...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

SETE VIAGENS E UM SEGREDO


Um coração segue em silêncio
Este silêncio tem a cor do perdido sentimento
Vacilei na ironia do tempo
Fiquei parado no Mundo por um breve momento

Senti este fogo fresco
Mordi este pão de cereal ouro
Secretamente a noite invadiu o dia
Guardei um pensamento como se fosse um tesouro

Ao meu silêncio chegou um riso
O meu desejo mora no limite da razão
Roubando os segredos do corpo
Lembro as tuas mãos como uma torrente de emoção

Lembro que enchi o vazio da tua alma
Enjauladas as asas morrem de dor
A beleza é um momento eterno
É o espelho de água onde se contempla o amor

Esta minha alma navegante
Leme,velas, bússola partida
À deriva navego no tempo
Entre a chegada e uma incontida ida

Majestoso céu
Contei todas as estrelas que deu para contar
Senti que esta lua cheia de hoje
Estava prestes a chorar

E não é que se soltaram gotas do celeste
Esta é a estação onde brilha o coração
Caminhei no escuro envolto em nadas
Senti no meu peito a força serena da paixão

Quanta viajem, tanta emoção
Dia, campos, estações esquecidas
Todos os sonhos que inventei para sonhar
Guardei numa caixa de dores perdidas

A caixa de Pandora!?
Não! A minha é apenas de gasto cartão
Guarda a memória de mil emoções
E uma carta escrita à mão

Mas o Mundo conhece os meus passos
Esta ilha tem sido paraíso e degredo
Na procura de ser feliz
Fiz Sete Viagens em puro segredo...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

ORGULHO E PRECONCEITO


Continua a chover no mar
Água na água, sentimento molhado
O Sol que desponta com a manhã
Tráz nos seus raios um luminoso segredo

As camélias brotam em formosura
Um milhafre tomou de assalto o meu olhar
A saudade saltou nas penas de um atrevido pardal
Senti o meu ir na procura do voltar

Não quero sentir o sentir de mais ninguém
Às vezes a dor de alguns é lança afiada
Que me trespassa o peito em agonia
Às vezes fico parado no mundo do nada

Às vezes sou o maior de cá e arredores
Cavaleiro de espada e escudo de lata
Demiurgo de uma história incompleta
Um jogador que perde ou empata

Às vezes dói ouvir a dor
Lavada por lágrimas de água pura
Às vezes morre um anjo na terra
E nasce mais um canteiro de ternura

Ouvi uma voz ontem cantar a despedida
O anúncio de uma fatal partida
Julguei uma voz dar amor em singela canção
Numa emoção tão grande e incontida

Fechei os olhos e ouvi com a alma
Senti um coração bater docemente
Não há raiva no caminho do amor
Uma Mãe partirá suavemente

Um estalo marcará a saída
A confusão é sempre a mesma na passagem
Na espera os anjos têm rosto
Conheço tão bem o percurso desta viagem

Conheço este livro dos sete destinos
Li cada página que me passou ao olhar
Prendi cada gota de orvalho que cai
É mais um sonho solto do reino do sonhar

E sigo adiante nas asas do querer
Rasgo a amargura que me assaltou hoje o peito
Varro da minha cabeça esta tempestade de sentires
Quedo-me neste...Orgulho e Preconceito...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

ENTRE DUAS MARGENS


A música percorre este corredor de silêncio
O mar mesmo ali ao lado parece adormecido
Assaltou-me um sorriso ao pensamento
Uma nota parou em meu peito e ficou comigo

Estou sentado virado para o mundo
As estrelas hoje não iluminaram a ilha
O vento percorre um caminho inverso ao meu
Este pano de cena fechou-se à maravilha

Um catraio inventou uma brincadeiral
Deixou voar um encarnado balão
Nele escreveu um desejo aos anjos
Vi-o perder-se no aceno de mão

Um disco riscado gira aos soluços
Ficou preso numa sofrida nota de violino
Ninguém deu por isso, neste apressado viver
Acho que apenas eu, vivo em desalinho

Acho que nunca achei a minha procura
Acho que às tantas nunca lá chegarei
Será que dentro de mim está tudo
O que ainda não enxerguei?

Alma essa, alma minha, sortilégio
Um bondoso deus assim quis
Que pintasse a loucura e a razão
Não sei se foi isso que fiz

Não sei, nunca soube porque foge a saudade
Porque permanece no peito, nunca morre
Porque a minha é imensa e incontida
Porque me arroxa alma no peito, explode...

...Tanta vez
Parti numa viagem para tanto além
Nunca tive espera em cada cais de chegada
Nunca parei a viagem também

Às vezes tenho vontade de fechar a porta ao sentir
De adormecer o pensamento e voar feliz
Às vezes solto os braços ao vento
Corro no mundo pelos olhos de um petiz

E olho o horizonte para lá do mar
Sei que me esperam mil viagens
No encontro e desencontro com o amor
Fico preso...Entre duas margens...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

LONGA TRAVESSIA


Tenho os olhos molhados da chuva
Tenho um sonho preso no fundo de uma lagoa
Tenho uma saudade que rói no meu sentir
Tenho uma saudade que sei ser boa

Hoje pintei mar
Naveguei nas cores que o sal deixou
Sorri sete vezes de contentamento
Até que uma pincelada ao acaso me ensombrou

Lavei a tela em água pura
Ficou azul e perdeu a formosura
Fiz o papel de deus pequenino
E retornei ao tema com a mão segura

Uma demanda!
Esta minha paixão pelas cores
Pintei tanta ilusão na vida
Pintei amor, contradição, dores

Fica estranha uma criatura
Quando convive apenas consigo
Quando olha para dentro de si
Quando vê em si o melhor amigo

Esta cabeça do poeta é um caso sério
Esta força que me força o sentimento
É lava que corre rubra para o mar
É uma paixão em infinito momento

É tambor que toca pela madrugada
É navio abraçado às ondas
Sou um leme que prende o norte
Sou mais uma de tantas criaturas bisonhas

Anjo, demónio, um arlequim mal-pintado
Um homem que alguns acham sortudo
Uma ribeiro desenfreados de sentimentos
Uma comédia de enganos de um filme mudo

Fotograma verdade, fotograma mentira
Holofotes de ausente luz
O amor vence sempre no fim
A paixão a tudo seduz

Hoje deu-me para escrever esta maluqueira
Ainda bem que chegou o fim do dia
Nesta viagem em que procuro o alcanço
Sei que será...Uma longa Travessia...

sábado, 8 de janeiro de 2011

O TEMPLO DA SOLIDÃO


Acenderam-se os luzeiros no céu
Sussurra a noite a um doído coração
Não há fios que prendam o desencanto
Não há certezas às duvidas de um coração

Nada detém a maré da paixão
És um estuário da minha certeza
No céu há uma estrela para cada um
Na terra uma alma que esconde a beleza

Bruscos sentires os meus
Hoje vacilei na ironia do tempo
Encheste os meus olhos de presentes
Hoje apenas guardo no peito um simples lamento

No silêncio total mora a razão
Ah esta sombra que me invade a alma
A tua vontade obedece ao vento
Neste mar imenso aprisiono a chama...

...Esta lava incandescente
Derramada em meu peito
Faz de mim um pateta diferente
Que nem amar o faz com jeito

Hoje mordi a terra
Senti a frescura deste eterno verde
Senti os aromas dispersos da vida
Este amor orvalhado de feliz pranto...a verdade

Fui ver o mar em chamamento
Depositei o pensamento no alucinante tombo de uma vaga
Através da ressurreição de um sorriso
A oração afugentou uma praga

Descanso na paixão, caminho nela
Quantas estações tem o coração?
Esta pedra angular que piso
Tem tatuada o mapa para a união

Sou um tecelão de sentires
Uma alma inquieta em forma de pedra
Uma folha levado pelo vento
Um insignificante flor que na areia medra

Deste-me sonhos para sonhar
Uni as ondas do mar à tua paixão
Pela terra da minha lembrança
Ergui...O Templo da Solidão...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A NOITE MAIS LONGA


Não há fogo que aqueça
Esta alma tão cheia de contradição
Não há tormenta que conheça
Não há para um louco a palavra não

O vento enlouqueceu por estes dias
Ah este negro manto que cobre a ilha
Este nevoeiro cegou o meu querer
Esta vida que teima em ser, vida perdida

A dor assaltou-me o corpo
Percorreu uma triste viagem
Passou pelo meu coração, molhou-me os olhos
Fechei-os por um momento, senti uma doce aragem

Lembrei-me de tanta coisa
Esta lembrança tão perdida na minha cabeça
Vi tanta gente com ar sofrido de dor
Vi gente que desconheço, que talvez conheça

Há sempre tanta palavra perdida num triste olhar
Há sempre dentro de nós um pouco de Jesus
Há sempre um Anjo que vela por cada um
Há sempre na espera uma sublime luz

E eu que nada sou...
Alguém que apenas em si confia
Nasci pobre tal como Jesus

Até se chamavam, meus Pais, José e Maria

Mas que poema triste dirão
Porque está dorido o poeta!
Talvez por sentir demasiado a dor
Ou ser um simples pateta

Talvez porque as luzes não brilham
Como estes luzeiros plantados no céu
Talvez porque este denso nevoeiro
Deixou em minha alma um frio véu

Percorro passo a passo este caminho
A ilha acordou com com um presente de bruma
O Mar deixou em toda a sua costa
Um colar feito de espuma

E a noite chegará outra vez
Esta é a minha viagem transformada em saga
Sento-me, fecho os olhos e vejo
Uma intensa luz...Nesta Noite mais Longa...

sábado, 11 de dezembro de 2010

MELODIA INCOMPLETA


Ó viola toca bem
Faz vibrar as tuas cordas em dor
Ó viola de dois corações
Não partas o do tocador

Julguei ouvir no tamborilar da chuva
Uma musica esquecida
Julguei que aos meus ouvidos
Tinha chegado uma sonata sofrida

Quem me dera ter um tambor
Para arrebentar com isto tudo
Apenas me deram um tamborim
Que teima em ficar mudo

Mas mesmo que quisesse tocar em sorte
Mesmo que em tocador me fizesse
Seria mais um triste desafinado
Por muito que tentasse, que quisesse

Mas porque raio vejo em tudo
A musica sempre presente
Porque umas vezes me faz triste

Outras me deixa contente?

E fui cantador de prosas sem rima
E fui tenor de palavras sem sentido
Cantei invenções e perdidos sonhos
E nisto não fui um cantador contido

Cantei-te a vida que vivi
As coisas que me fazem sofrer
Neste palco ninguém morre
No aplauso julguei esquecer...

...Quem sou
Nunca me encontrei na letra de uma canção
Nunca toquei duas notas seguidas em harmonia
Mas perdi-me às vezes na ilusão

Reencontrei-me com o amor
Amargura mora sempre com a razão
Um mágico nem sempre acerta
No seu golpe de mão

Mas fiz mil tentativas nesta viola
Nenhuma nota bateu-me certa
Sou um triste e patético tocador
Desta...Melodia Incompleta...

domingo, 5 de dezembro de 2010

ALIANÇA


Procurei hoje um secreto sitio
Que mora à muito na minha imaginação
Onde nasce cada arco-íris?
Talvez do fundo de cada coração

Percorri o caminho das águas
Caminhei em percursos cheios de escolhos
Às vezes o azul pinta este imenso céu
Às vezes dá lugar ao cinza de nuvens aos molhos

Às vezes da terra é retirado o verde
Lança as tuas redes ó pescador
Afaga a madeira ó carpinteiro
Molda o teu barro oleiro em gesto de amor

Dançam as folhas ao sabor da fresca brisa
A manhã acordou no adormecer da tempestade
O dia não pára na sua vertiginosa viagem
Inventei uma casa singela numa perdida cidade

Inventei castelos sem ameias
Barcos voando a prumo
Crianças de risos constante
Gente com a certeza do seu rumo

Inventei-te, inventei-me...
Como Columbina e Arlequim
Dancei numa praia vazia
E pedi que o acaso viesse a mim

A sorte é regada de mil esperanças
O horizonte fica sempre distante
Uma semente é pronuncio de vida
A viagem acaba um passo adiante

Nunca acaba esta torrente de emoções
Nunca dorme este meu imenso sentir
Nunca encontrei este sonho pleno
Nunca sei se a chegada é o principio do partir

Parto em cada acabar de uma pintura
Parto na ausência da formosura
Parto sempre que o querer não me quer
Parto às vezes pela mão de uma palavra mais dura

Mas na viagem paro um instante e olho o céu
Vejo um arco-íris que me envolve em esperança
Fecho os olhos imagino-te Deusa dos Deuses
E faço aos lagos uma eterna...Aliança...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

AS FILHAS DE NINGUÉM


Hoje olhei o Mar sem o ver
Defendi o sentimento sem cavalo e espada
Hoje falei da verdade das coisas mais uma vez
Olhei sobre as rochas estas águas e não vi nada

Deambulei pelas ruas que encontrei
Contei as pedras de sete metros de calçada
Recolhi um trevo de quatro folhas
Que me chamou atenção na relva molhada

Na viagem do norte vi Santa Maria
Uma lembrança invadiu-me o pensar
Na fronteira entre duas verdades
Há sempre uma mentira que anuncia o chegar

Hoje pensei na loucura das pessoas
Numa criança que pede a ternura e um naco de pão
Na fome de um abraço sem rosto
Na ignorância largada ao meio do chão

Imaginei o que será viver na ausência da razão
Na procura do norte sem Sol e estrelas
Porque é que Deus se distrai às vezes
Porque teima em não querer vê-las?

Porque sinto, sentindo desta maneira
Amarro este contido grito
Porque arroxo esta força que me trespassa
Porque oiço sem palavras um murmúrio aflito

Murmuraste-me as palavras que sei de cor
Ó Anjo de asas de penas penadas
Disseste-me que este Mundo não é bom sitio para morar
Que há almas mal-amadas

Que a justiça é mulher da má-vida
Que os homens não crescem sem virtude
Que às vezes as ribeiras correm ao contrário
Que o querer nem sempre rima com verdade

“Que “puta-de-vida-esta”!
Foi o que me assaltou às palavras
Às vezes o absurdo mora na casa do lado
Quando ouvi uma história feita apenas de mágoas

Às vezes a Lua não aparece de vergonha
Às vezes não olhamos os outros como convém
Às vezes a aurora destapa o manto da noite
E solta no Mundo...As Filhas de Ninguém...

sábado, 13 de novembro de 2010

PRANTO DE AMOR


Recolho do mundo o sentimento
Gerado por um coração sincero
Acolhi em minha alma um soluço
Em cais de espera há uma vontade de espero

Só, um coração bate sentido
Uma boca pede o beijo em contradição
O abraço fica suspenso no pesar
Uma mesa fica vazia do aroma de pão

Percorri todos os caminhos que me encontraram
Pisei os presente doirados deste Inverno
Subi a um céu para procurar um anjo
Tortuosa viajem que desemboca em inferno

Mar, montanhas, buganvílias rubras
Chuva que inunda e afoga o grito
Na procura da verdade
A palavra não sai, apenas um murmúrio aflito

Derramei as tintas numa fria pedra
Parti estes pincéis enlouquecidos
Juntei sete desejos e sete cores
E libertei das amarras todos os sentidos

Soltei a fúria que guardava no peito
Olhei o nada na procura de coisa alguma
Clamei pela paz neste dia de cinzas escuros
E gravei numa alma uma chama, mais uma

Um violino escorreu pelos meus ouvidos
As notas envolveram-me em lembrança
Os tempos retornaram do esquecimento
Alguns tocaram-me a alma em em golpe de lança

Quantos dias têm dois anos
Quantas noites têm a companhia da Lua
Quantas casas têm o o amor aprisionado
Porque não fazes o mesmo com a tua?

Quantas dores pode um coração conter
Será que a saudade só nasce na distância
Serei um Arlequim sem graça, patético
Ou um pedinte na rua da esperança?

Tudo isso vi reflectido
Num rosto de rara beleza cheio de dor
Soltou-se um irreal azul sal
Em puro...Pranto de Amor...

domingo, 7 de novembro de 2010

O DONO DOS CÉUS


O choro de uma criança
Voou numa toada de vento
O silêncio tomou conta do mundo
O querer pode ser um doce momento

A manhã veio envolta em errantes aromas
A terra fria e prenhe gerou mais uma flor
A noite perdeu-se em escuros abismos
Sonhei com um anjo sorrindo em resplendor

Sonhei com Querubins zombeteiros
Com um Arcanjo em eterna luta com o mal
Sonhei que a chuva era o pranto dos deuses
Sonhei que o amor tem um caminho fatal

Descobri que as nuvens são carruagem de água
Que os anjos afinam as harpas de madrugada
Que as gaivotas em terra são pronúncio de borrasca
Que a razão de um justo não vale quase nada

Que falar ao nada pode ser loucura
O amor sincero tem a cor da ternura
Um alegre ribeiro tem um cantar diferente
Quando em seu ventre corre a água mais pura

Mergulhei as mãos na macieza da leiva
Lavei meu rosto na singeleza das águas
Meus olhos soltaram um mudo chamamento
Soltei dos braços antigas mágoas

Ao compasso de um tambor
Marchei ao encontro de uma demanda eterna
Não fui cavaleiro, não encontrei uma montada
Não levei espada, escudo, nada

De peito aberto percorri todos os caminhos
Inventei lutas, cidades perdidas, um moinho de velas
Levou-me o vento as melhores estratégias
Era o meu plano de luta, fiquei sem elas

Fiquei nu no meio do nada
O frio e calor lutaram por me ver sofrer
Calei as cordas desta viola inventada
Cerrei os olhos para melhor ver...

...Quem era eu nesta patética vida
O que fazia nesta terra de sete véus
Autorguei-me o rei do país das mil e uma ilusões
Serei pois...O Dono dos Céus...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

HERDEIROS DOS SETE VENTOS


Areia foi aplanada pela maresia
A madrugada instaurou a claridade
Um barco parte para o mar-alto
Leva tatuada no casco a palavra saudade

Uma gaivota olha com olhar perdido
Perdidamente um golfinho salta no azul
Perdi à muito o rumo que me levava
Ao amor que habita um sitio no sul

O Mundo agita-se na costumeira loucura
Olhos vazios na procura do nada
Passos incertos em rumo por inventar
Uma criança que chora presa a mão dada

E o vento lá bem no alto
Varre as nuvens ao encontro do mar
Sopra adiante uma vontade inventada
Solta de um amante que procura o amar

E eu aqui no alto
Fiquei com vontade de ensaiar o voar
Um Milhafre olha-me zombeteiro
O melhor é deixar-me ficar

Fecho os olhos
Procuro o silêncio desejoso da alma
Mas este vento não pára, não se aquieta
Reacendeu no meu peito uma mortiça chama

Em labaredas soltou-se a lembrança
Os sonhos espreitaram envoltos em chamas
A paixão ganhou cor em seu esplendor
Soltei as dores, as mais tamanhas

Mas este vento enlouqueceu
Dançam as árvores em furioso passo
Agitam-se as águas adormecidas
Um pássaro vagueia num curto espaço

Tem feitiço este vento
Feiticeiro do vento, montado em corcel
Serei eu o culpado desta demanda
Ou apenas um boneco de amarrotado papel

Demiurgo de causa perdida
Com a alma emaranhada em mil talentos
Não, sou apenas uma aragem de passagem
Um dos...Herdeiros dos Sete Ventos...

sábado, 9 de outubro de 2010

O IMPÉRIO DA BRUMA


Varre a ilha uma cortina de chuva miúda
A água aprisionada em mil gotas
Tal como as minhas mais profundas mágoas
Que em minha alma se encontram soltas

O Mar enlouqueceu
Ameaça galgar esta perdida ilha
O verde continua sorrindo
Ostentando a cor da eterna maravilha

Eterno é este nevoeiro gerado na noite
Por um deus colérico e sedutor
O mesmo que quando se cobre de Sol
Gera em cada passo o amor

Assaltou-me o sentimento
Soube que um amigo partiu por um celeste caminho
Um homem bom nunca morre
Só se afasta um bocadinho

E eu, neste palco
Pinto mil e uma emoções
Luzes, as pancadas de Molière
O aplauso, tantos sorrisos, contradições

Inquieta alma esta
Vivendo entre a o amor e a dor
Voando para além do sonho
Nas asas de um viajante Açor

Viajeiro das perdidas madrugadas
Navegante de barcos de papel
Preso aos brandais desta Nau da esperança
Afugento a fome com pão e mel

Mato a sede na saliva das tuas palavras
Tempero o sentir com o sal das tuas lágrimas
Recolho uma flor que eclodiu do basalto
Gerado num vulcão de sete chamas

Sete vezes, sete abraços, sete suspiros
Sete notas, uma balada de pasmo encanto
Uma lamparina a iluminar um santo
Sete pedras de incenso para o quebranto

E eu no meio deste desatino de vento
Faltaram-me as palavras sem coisa alguma
Caíram-me sete folhas à cabeça
Fui coroado o rei do...Império da Bruma...