sábado, 18 de setembro de 2010

OS TRINCOS DA MEMÓRIA


Uma aragem de fresca brisa
Agitou os loureiros adormecidos
Veio do mar do norte
Tal como a minha vontade em passos perdidos

Adormecidas estão as hortênsias
As manhãs vêm vestidas de frio
Vi uma garça no azul desencontrada
Vi minhas dores serem engolidas por um furioso rio

Desaguei com o olhar na busca do mar
Sequei a água dos olhos solta de um revés
Pisei as águas limpas de uma baía
Adormeci ao fim de sete marés

Sonhei
Com mares, com uma longa travessia
Desfraldei uma vela alva
Naveguei na chegada, na partida morria

Sonhei que era um cavaleiro andante
Por dias de inquietante perdura
Avistei um vagabundo num espelho de água
Era a minha alma talhada em pedra fria e dura

E fui criança de esvoaçante riso
Pássaro embriagado pela cor
Busquei em gestos enlouquecidos
Aquilo que pensava ser o amor

Descalço senti a dureza das pedras
Navalhas afiadas percorrendo o pensamento
Às vezes o sangue fecunda a terra
Às vezes o mundo pára por um momento

Quando era criança pensava
Que se o relógio parasse, parava o tempo também
Pensava que o rosto da felicidade
Era uma deusa vestida de branco vinda do além

Pensava que que meu mundo era apenas a ilha
Que as asas eram a cor da santidade
Que o pensamento atravessa todas as grades
Que um caminho da felicidade tem ladrilhos de verdade

Hoje deu-me para divagar
Estava para escrever uma história
Escorreguei na fronteira do pensamento
E rompi com...Os trincos da Memória...

domingo, 5 de setembro de 2010

SONETO DE AMOR


Um pio percorre este vale onde respiro
Um milhafre plana no azul
Olhos nos olhos, ave e homem imperfeito
São de basalto negro os caminhos do sul

Carrego metade deste eterno céu
Na noite os luzeiros são estrelas
As sombras apenas uma parte de escuro
E as flores não são tão belas

Mas tu brilhas na noite
És firmamento onde mora uma constelação
Que marquei firme em rumo certo
No lado esquerdo, na janela para a ilusão

Ergui muros, calei dúvidas
Plantei saudades, colhi esperanças
Reguei a terra onde mora a incerteza
Soltei um grito, voaram no espaço incandescentes lanças

Soltei as mãos
Procurei a tua virtude na espuma
Construí um diadema de gotas de mar
Voei pela brisa sem pensar coisa alguma

Pintei as montanhas de carmim
Um melro-negro fez-me lembrar o branco
Procurei na paleta uma cor que havia perdido
Descobri que não tem cor o verdadeiro pranto

Descobri que nua és pura como a natureza
Que o teu sonho inundou o meu
Este crente não reza para afastar o pecado
Nem se veste na pele de ateu

Descobri que teus seios são Luas
O teu corpo, casa com mesa de afecto
Tua boca nascente de mil desejos
Teus olhos o começo de um chamamento

Ouvi teu chamamento em canto de pássaro
Abri os braços e ensaiei o voar
Subi o mais alto que pude
Enfeitiçado pelo teu chamar

Encontrei um ninho feito de fina bruma
Coberto por pétalas de azul flor
Fechei os olhos e brotou a poesia
Neste...Soneto de Amor

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ÁGUA


Desceu do celeste pela noitinha
Veio em gotas de puro cristal
Matou a sede a um deus bom
Aspergiu e afugentou o anjo do mal

Matou-me a sede a mim
Lavou da minha alma as dores
Rasgou a terra na procura do mar
Abençoou o eclodir de mil flores

Aprisionou-me olhar
Em sua magnética visão
Tomou-me de assalto o corpo
Molhou-me o querer até ao coração

Eterna é esta água
Eterno é o mar que adormece na areia
Eterna é a noite em seu orvalhado pranto
Será o choro da Lua cheia?

Entrei neste molhado mundo
Desejei para sempre lá ficar
Senti-me pássaro em azul profundo
Planei, sorri neste voar

Um vermelho peixe olhou-me de soslaio
Um golfinho parou, pareceu-me sorrir
Rodopiou à minha volta
E decidiu partir

Subi à tona, estava plano o mar
Dançava alegre uma gaivota
Olhei perplexo à minha volta
Não vi terra, nem desenho da costa

Nadei em furiosas braçadas
Sem rumo, sem frente no adiante
Nesta louca e alucinante viagem
Duvidei de querer descobrir o avante

Só, sou ilha plantada no Oceano
Açoitada por ventos de paixão
De manto verde me deito em seu colo
Esperando descobrir na bruma o rosto da contradição

Descobri uma singela e simples coisa
No meio daquilo que pensei ser mágoa
Que depois de separar o sal de uma lágrima
Ficou este ser feito de...Agua...

sábado, 14 de agosto de 2010

CASTELO DA ILUSÃO


Vi numa nuvem o teu rosto
De cor fogo porque era manhã
Chamei-te sem dizer seja o que fosse
Não quis que voasse a palavra vã

Vi esta nuvem desfazer-se em orvalho
Senti o beijo da chuva miúda no rosto
Tinham o perfume dos deuses as gotas
Passos de um dia perdidos no Sol-posto

E veio a noite salteadora da luz
Roubou das hortênsias o azul
Os passos que me levam ao absurdo
São sempre na procura do sul

Às vezes perco-me na lembrança
Às vezes busco algo que me dê sorte
Às vezes entro neste infinito de pensamento
Labirinto que me faz perder o norte

Mas o tempo que me deu um Mestre
Quando decidi aqui vir uma vez mais
É tanto que deu para ver meio Mundo
Em barco de brisa colada aos brandais

Vi tanta alma a andar no meu caminho
Vi partir gente apressando a chegada
Dei todos os abraços que pude
A quem me disse ser mal-amada

Descobri que a tolice não é roupa dos tolos
Descobri que o sofrimento é escolha
Descobri que o sal de uma lágrima
Lava uma alma, um coração molha

Senti a verdade ausente das palavras
Senti que a vida corre em vários sentidos
Senti ausência do amor na palavra dita
Senti na caminhada alguns passos perdidos

E continuo esta caminhada infinita
Aventura ainda vai no livro a meio
Voarei neste sonho sem limites
Caminharei sobre este mar sem ter receio

E vou adiante sentindo o toque da tua mão
O rumo é feliz quando encontra o coração
Subi cada degrau feito de lava e contradição
E dei por mim bem alto no...Reino da Ilusão...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O PAGADOR DE PROMESSAS


Hoje navego em mar de prata
Uma suave brisa enfola este navegar
Hoje não quero olhar o rumo
Não quero ver no horizonte o chegar

O deuses descansam no Olimpo
Gozam sentados num real tesouro
Recolho este sal da maresia
Sal, prata, incenso, ouro

Paixão, palavras, uma flauta
A ternura a orvalhar os corações
Mil amantes de costas viradas
Um encontro na procura dos meus perdões

A chuva veio ver-me rir
Soltei as penas que me engasgavam
Soltei também as dores lembradas
Aprisionei as mágoas que em minha cabeça viajavam

Sacudi a cabeça
Abri os braços e dançou o amor
Com passos hesitantes
Lá partiu uma ultima dor

Escondida estava
No lado esquerdo do sentir
Uma leveza invadiu-me o corpo
Voei na certeza entre a chegada e o partir

Jurei aos lagos sete juras
Colhi todas as mandrágoras que encontrei
Desenhei uma estrela de sete pontas
Fechei os olhos e em ti pensei

O sortilégio acontece
Quando fica ausente a razão
Quando se parte um compromisso
Há sempre um despedaçado coração

Há sempre um ritual num beijo
Há sempre um doce amargo no desejo
Há sempre algo que fica gravado
Há sempre na espera um verdadeiro ensejo

Há sempre algo que nos prende à Terra
Só sei que a mim tu não te confessas
Serei eu um justo pecador
Ou apenas...Um Pagador de Promessas...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

UMA RAIVA INCONTIDA


Onde param as minhas ilusões?
Para onde me conduziram estes passos?
Porque as pessoas teimam em não saber
O significado do meu abraço?

Maldigo este Sol encoberto
As nuvens roubaram o azul
Invejo o vento errante
Algo me impele a olhar a sul

O Mar perdeu a magia do sal
Os golfinhos partiram para outras paragens
Este lago está deserto da virtude das águas
Tem penas de garça soltas nas suas margens

A pessoas passam de olhar vazio
Como se vazia esteja a sua alma
Os pássaros soltam tímidos pios
O fogo é feito de fria chama

Já não ardem as cores na manhã
As auroras ficaram pardas
As hortênsias perderam-se do azul
As mágoas andam perdidas

Perdi-me!
Na lonjura que minha alma ditou
Passei a mão pelos olhos
Um deus perverso a ultima lágrima roubou

Houve um tempo que chorei as coisas
As boas e as más em emoção
Houve um tempo em que tinha sempre
Descoberto meu sofrido coração

Este tempo perde-se como chuva miúda
No pó que encobre mil vontades
Tem mil anos e outras tantas Luas
A procura das minhas verdades

Tem mil vidas a minha viagem no Cosmos
Tem apenas um rosto a minha procura
Tem um canto que reverbera ao meu sentir
Tem apenas um momento a real formosura

Hoje senti sentimentos de tristonho sentir
Hoje senti a minha alma perdida
Hoje gritei em grito mudo bem alto
E soltei...Uma raiva Incontida...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

PERDIDO NO TEMPO


Nada é mais lindo do que o despontar da aurora
Nos dias em que os meus olhos voam
Têm asas os primeiros sentires
No acordar com estes sinos que entoam

Sonhei que as estrelas se alinhavam
O celeste ficou cheio de formas estranhas
Contei tantas coisas que me ditou a razão
Descobri mil luzeiros de formas tamanhas

Descobri que a Lua sorria de desdém
Ao falso amor de paixão crua
Descobri que na volta do Sol
A cor volta com ele à minha rua

Volta também uma gargalhada de criança
O cheiro a farinha transformada em pão
Uma mulher que oferece o leite morno do seu peito
Adocicado pelo seu terno coração

Vi a nudez da alma em pés descalços
Vi um louco fugir à razão
Vi o engano despertar no Mundo
Vi a felicidade perdida no chão

Fechei os olhos para não ver mais
Continuei vendo ainda mais claro
Vi-me rodeado por gente sem rosto
Que me olhavam como um bicho raro

Pelos ouvidos entraram as cores
As notas de uma sinfonia encheram-me os olhos
Um aguaceiro surgiu do nada
No céu as nuvens juntaram-se aos molhos

No meio de toda a confusão
Pareceu-me ver um anjo aflito
Despertei desta loucura toda
Quando uma gaivota soltou um grito

Retirei o orvalho do rosto
Ordenei aos sentidos que tivessem calma
Como não tenho mão neles
Lá teve que me valer a alma

Caminhei, caminhante galgando mais um dia
Parei e olhei à minha volta por um momento
Esta bruma que volta sempre atrás do dia
Deixou-me...Perdido no Tempo...

terça-feira, 6 de julho de 2010

CHEIO DE PENAS


Roda a vida em sua roda invisível
O mundo desperta na claridade da manhã
Um pio primeiro é pronúncio de canto
Uma boca solta uma palavra vã

O nevoeiro partiu no dia
Uma árvore solta os seus dourados presentes
Um ribeiro acolhe o cantarolar das águas
Um coração arroxa de repletos sentimentos

Esta ilha não tem fortuna
Trocou-a por um curioso mistério
Este irreal e intenso verde
Que inunda o olhar mais sério

Nesta ilha há um beijo na tua procura
Nesta ilha as pedras não têm idade
Nesta ilha as juras são lançadas à maresia
Nesta ilha o sonho é janela da verdade

Por isso e por muito mais
É feliz o cantador
Canta melodias feitas ao acaso
Tecidas dos fios da sua dor

Tear que range em protesto
Tecelão de fio branco e negro
O que guarda este manto de mágoa
Onde guardas este precioso segredo?

Onde poisam as gaivotas ao fim do dia?
Porque volta sempre esta suave maré?
Porque presenteia as pedras com colar de espuma?
Porque navegas à bolina sem olhar p'rá ré?

Porque me sinto tão longe do mundo?
Porque sei, sabendo, que perversa é esta viagem
Será que imaginei, imaginando-te?
Será que o teu sorriso é difusa miragem?

Sigo adiante, mesmo em contemplação
Sinto bater no peito mil saudades
Sinto a vida acolher-me em azul sorte
Sinto que fui criança em sete idades

E em sete vezes parti no chegar
Vi rezar na promessa muita alma em novenas
Meu coração chora no embalo do embora
Deito o corpo na noite, adormeço...cheio de penas...

terça-feira, 22 de junho de 2010

O FEITIÇO QUE HÁ EM TI


Este sol que vence o nevoeiro
Recolhe as gotas do sereno da manhã
Este grito que se perdeu na noite
Transformou-se em palavra vã

Aromas errantes soltos no ar
Esta terra molhada tem a promessa de pão
As uvas são amargas em Julho
O Setembro é pintado da cor do coração

As palavras nem sempre são bem ditas
Nem sempre vindas do profundo da alma
Umas caem por terra estéreis
Outras envolvem o sentir da calma

Julguei ser a ilha um navio à deriva
Sem velas, sem vento nos brandais
Julguei-me numa viagem perpétua
Inventei um grande e colorido cais

Que roubei às asas de uma brisa brincalhona
Tracei as formas que me ditaram a vontade
Não saiu à primeira, talvez aí por volta da nona

Pois é, a loucura tem um fraquinho por mim
Entra e sai a seu belo prazer
Às vezes penso ser gerada por um irado deus
Que faz tudo para me roubar o ver

Vi!
Estou sempre a ver coisas estranhas
Estou sempre a sentir à minha volta
Uma roda de dores tamanhas

Estou sempre na mira do pensamento incomum
Estou sempre tão cheio de comoventes verdades
Estou sempre a chorar o lado escuro do mundo
Estou sempre na procura de um partir sem saudades

E parto no embalo do fim do dia
Não levo bagagem para o viver dos sonhos
Levo apenas esta força imensa
Que ofusca até os seres bisonhos

São tantos os caminhos que percorro
Neste infinito mágico há algo que senti
O deslumbramento preso a um sorriso
Gerado no...Feitiço que há em Ti...

sábado, 5 de junho de 2010

O COMEÇO DA ETERNIDADE


O Sol reflecte seus raios
No espelho de água desta Lagoa
Tal como pássaro em voo diurno
Tens em ti uma alma que voa

Voa sobre este verde de emoção
Da terra brota o azul hortênsia em cabeleira
Este teu sono de sonhar na ilha
Tem o Mar por cabeceira

Ah esta ilha, qual barco à deriva
Velas silenciosas, mastros a prumo
Esta bússola enlouqueceu
Tem a marca de enganoso rumo

Sete distantes destinos
Sete vontades expressas
Em sete mágoas por dizer
Na resposta a sete promessas

Sete!
Desci às Sete Cidades e inventei mais uma
Na Baía do Silêncio celebrei uma jura
Envolto numa suave bruma

Feiticeiro da dor
Fazedor destes constantes nevoeiros
Ao cais nenhum amor chegará
No anoitecer dos dias primeiros

As pedras têm esculpidas em si
Mil fúrias de esquecidas tempestades
Desenhos de azul sal
Fazendo lembrar cidades

Casas sem janelas
Portas abertas de par em par
Uma árvore com frutos de pão
Na espera do chegar

Ensaiei a partida a cada dia
Contei as pegadas de toda a amargura
Vi cada por-do-sol incendiar o céu
Vi nas nuvens as formas da vil loucura

Preparei a alma para receber o infinito
Enchi o coração da mais pura verdade
E descobri que o verdadeiro amor
É...O Começo da Eternidade...

domingo, 23 de maio de 2010

OS TEUS OLHOS


Sinto a frescura deste orvalho
Bebi na sede, seca do brilho do Sol
Pisei o pó desta terra estéril
Apanhei no olhar um lago de água feito lençol

Não sei porque as vagas vindas de longe
Transportam este sal que me escorre no rosto
Não sei porque uma lágrima tem o mesmo sal
Que mergulha minha alma no Sol-posto

Espadas que ferem um corpo nu
Pano sem cor, talhado a cru
Chicote de revolta, assombração
Uma prece, uma mágoa, tu

Tu, saberás que as manhãs não podem ser interrompidas
Que um relógio quando pára, foge o tempo
Que a saudade é degredo de todas a emoções
Que a felicidade se mede apenas por um momento

Eu nada sei
Nem sei se soube saber quem sou
Sei sabendo apenas o rumo
De uma alva graça que em mim poisou

Na minha procura de rumos
Encontrei aquilo que penso ser o Graal
Por isso pinto a cada momento
O belo para afugentar o mal

Pintor, alquimista da cor
Crente do amor, companheiro da dor
Anjo perdido entre a terra e o celeste
Pétala esvoaçante de uma rubra flor

Hoje perdi-me na cidade do pensamento
A vida correu-me na frente em corropio
Hoje um pássaro descobriu o voar
Hoje senti na emoção a força de um rio

Segui para nascente fugindo à noite
Inventei um cavalo branco voador
Despi-me da obrigação de ser outro
Afastei da viagem a sombra do desamor

O verde ficou mais verde
As hortências caíram do céu aos molhos
O celeste vestiu-as do mais puro azul
Tudo isto transbordou das janelas...dos teus olhos...

sábado, 8 de maio de 2010

PENITÊNCIA


Um foguete rasga o azul
Um anjo acorda repentinamente
O incenso vagueia em errante aroma
Uma reza faz-se ouvir perdidamente

Perdi os acordes tangentes do sino
Que ecoaram na madrugada
O Templo teve o calor de mil almas
Em fervor de reza assombrada

Uma vela arde, outra e outra
Chama que guia no caminho da fé
Cruzei sentires com caminhantes
Soltei um surdo grito e pôs-me de pé...

Para ver passar a procissão
Murmurei uma reza de encontro ao andor
Percorri este rio de imensa mágoa
Pedi, o perdoei, que me dará o Senhor

Estranho!
Os pássaros vestiram-se de silêncio azul
Será que o Santo os aprisionou na viagem?
Será que este ano a chuva cairá a sul?

Hoje ofereci as cores da minha paleta
A uma amiga na sua dor
Ouvi seu choro ao meu ouvido
No fatalismo do desamor

Hoje o sono acordou-me
A nostalgia agitou suas asas cinzentas
Esqueci no acordar o ultimo abraço
E contei as nuvens que eram tantas

De joelhos vi gente percorrer um caminho
Por juras e perdão prometidos à muito
Vi sangue sangrando do peito
De uma Mãe de olhar muito aflito

Vejo tanta coisa que ninguém vê
É uma sina tatuada na estrada que piso
O basalto frio toca-me em arrepio
Neste mundo às vezes paro, outras deslizo

Para onde terei eu mais que ordenar o passo
Há um combate em mim de raiva e sapiência
Coloco as mãos postas e ergo este cálice
E verto toda a paixão desta...Penitência...

terça-feira, 27 de abril de 2010

ONDE MORAM OS ANJOS


Uma aragem vinda do sul
Percorre o labirinto do erguido verde
Uma melodia trina nas folhas
Um pássaro ensaio o voo primeiro a medo

O mar continua enraivecido
Neptuno decidiu perpetuar a dança das ondas
E mesmo com o vento adormecido
A tempestade varre este cais de mágoas

Hoje o Sol abandonou a vontade da luz
As nuvens são a capa de um gigante
Os pássaros esconderam o canto
Uma deusa de barro chora o amante

Hoje deu-me para voar
Cavalgar as palavras sem destino
Quisera abraçar a liberdade das asas
Voltar a olhar o mundo pelo ver de menino

É tão pequeno este Mundo
Gostaria de inventar um novo azul
Às vezes as estrelas soltam-se do celeste
Voam rasante as casas do sul

Às vezes sonho com infinitos
Onde a música veste cada criatura
Às vezes fico a pensar baixinho
Às vezes fecho os olhos à formosura...

...Mas abro a alma para acolher
O errante perfume da palavra sincera
Que nasce de um olhar de amor
No derradeiro instante de uma espera

Não me lembro da última espera
Perdi o vapor de uma madrugada passada
Perdi-me no Mundo dos desencontros
Fui dar a uma praça cheia de nada

Sentei-me bem no meio, na terra batida
Soltei pesares guardados em mil anos
Desenhei no barro os meus anseios
Afastei de vez os meus frios desenganos

Olhei para alto e indaguei em voz alta
Lancei à Lua uma mão de beijos
E ocorreu-me perguntar-lhe uma tolice
Será que sabes...Onde Moram Os Anjos...?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O APANHADOR DE ESTRELAS


Este vento que me toca bravio
Esta chuva miúda ensopa e acalma
Esta cor cinza no celeste
Esmorece a minha pobre alma

Pobre poeta!
A palavra ficou vazia de cor
A rima foi levada numa rajada
Ficou em teu peito, apenas uma fria dor

Dorido coração!
Percorrendo uma rua vazia
Nesta cidade inventada por mim
A noite aprisionou o dia

Eram azuis os dias que inventei
A casa dos meus sonhos feita de chocolate
A criançada nunca esgotava a gargalhada
Um cão de meigo olhar não fala, mas late

Uma gaiola dourada
Uma papagaio papagueando sem parar
O amor tatuado em cada canto
Para teres a certeza, no teu chegar

Mas a calmaria acontece
Estende o tapete à magia que virá
Olhos brilhantes, ávidos da ternura
Uma cartola, um coelho azul a procura achará

Estrelas!
Quantas contará o meu olhar
Tenho uma feita de cartolina branca
Que me esqueci de te enviar

Escrevi numa das pontas paixão
Na outra a palavra quero-te tanto
A terceira “É mesmo verdade”
As outras duas deixei-as em branco...

...Para que derramasses nelas o teu querer
Na volta, recebi algo como um novelo
A estrela tinha presa a ela
Uma madeixa dourada do teu cabelo

Tudo isso inventei numa mirada
No espelho de água de uma poça de mar límpida como as janelas
Era na altura uma criança que tinha um sonho
Ser...Um Apanhador de Estrelas...

sábado, 3 de abril de 2010

ENTRE O CÉU E ESTA ILHA


Algures entre este verde de desesperança
E este cinza celeste que me envolve a alma
Há um lugar onde moram os sonhos
No espelho de água de uma lagoa calma

Algures sei que te vou encontrar no desencontro
Numa rua ladrilhada de contradições
Com pedras de basalto duro e frio
Onde habita o desalento de dois corações

Uma viola de dois corações
Tem doze cordas que guardam as notas
Ansiando pelos dedos do tocador
Na espera de serem soltas

Mas hoje apenas se ouvem ave-marias
Saídas da boca quem tem a fé mais pura
Um bordão no amparo do corpo
Uma viagem que no coração perdura

Cantei à Virgem Nossa Senhora
A Jesus Cristo o Omnipotente
Deixei marcas tatuadas em cada passo
Deixei de mim a dor presente

Deixei que me vissem a humildade
Abandonei a vaidade tonta
Expurguei os pecados que pequei
E deixei a alma limpa e pronta

Para partir!?
Partimos sempre para algum lugar
Chegamos sempre a uma chegada
Um morrer será apenas um parar?

Às vezes paro para olhar em frente
Às vezes paro no teu olhar
Às vezes chego a nenhuma razão
Porque o meu querer quer aqui estar

Barco à deriva esta minha alma
Sem velas, sem o amparo do rumo
Procuro um Sol que me ilumine e aqueça
E encontro o astro sorrindo a prumo

Procuro a razão deste sentir na alegria e dor
Pinto a vida com uma coroa de maravilha
Porque no adormeço deixo sempre a esperança
Que habita...Entre o Céu e Esta Ilha...

terça-feira, 23 de março de 2010

ALMA POR ALMA


Procurei a minha perdida ilha
Por mares e ares, numa demanda
Será Antília, será uma senhora de nome Atlântida?
Que me deu em sonhos esta carta de marear estranha

Na bolina enganei o Vento
Seguro firme este leme que não largarei mais
Tatuei meus sonhos na brandura das velas
Fiz juras de amor junto aos brandais

Conferi o rumo com um golfinho zombeteiro
Uma baleia branca sorriu em brancura
Um bando de voadores peixes cruzou comigo
Um peixe-anjo subiu na vaga e sorriu com ternura

Contei cada vaga que me afagou o olhar
Lancei em sorte uma esperança esquecida
Quanto sal tem a beleza da maresia?
Para onde viajam os sonhos de uma gaivota adormecida?

Para onde vão as palavras bonitas
Para onde partem os corações sem rumo?
Para onde caminha um Poeta louco
Quando o Sol se põe a prumo?

Não sei!
Nunca saberei domar esta maldita razão
Que me invade esta enganosa paz
Que enlouquece a pena em minha mão

E depois a noite, mãe das sombras
Tudo pára no adormeço, solta-se o medo
Apenas uma réstia de vigília em meus olhos
Brota do fundo de mim um antigo segredo

Uma bizarra história!
Com duas marionetas em palco nu
Uma que foi levada nas asas dum ceifeiro de almas
E eu que fiquei neste mundo frio e cru

Porque era preciso um fito acabar
Encher mil corações de sublime luz
Lavrar as palavras em cristal água
Escrever a magia que me seduz

Então partiste sobre o meu choro
Mas invadiu-me uma estranha calma
Já sabia que teríamos em sorte o imenso
Uma troca divina...Alma por Alma...

sábado, 13 de março de 2010

O VALE DOS VENDAVAIS


Estarão loucos os deuses?
A calmaria tomou o verde de assalto
Ai este céu que arroxa a ilha
Um milhafre decidiu voar bem lá no alto

O vento enfureceu na noite
Escutei os sons do embalo árvores
A manhã chegou ao som de um tímido pio
Era um pássaro que anunciava mil dores

O caminho afagou-me os pés
O acaso tomou como sua a razão
O sentimento decidiu fazer-se sentir
Deslumbrou-me a alma, contraiu meu coração

Soltei a palavra adormecida
Chamei a deusa da poesia para me abençoar
Cantei as virtudes da alegria
Vi o poiso da garça no fim do voar

Vi, vejo tanta coisa que ninguém vê
Imagino-te plena de radiosa luz
Com um vestido feito de ar
Com este olhar que me seduz

Imagino o canto maternal das baleias
Como doce e sentida balada
Imagino um beijo na procura
De uma fugidia criatura amada

Um domador de ventos e tempestades
Uma viagem de aventuras repleta
Serei eu um herói de comédia de enganos?
Ou apenas um pobre e louco poeta

Serei, sou qualquer coisa
O Mundo conhece este meu dom
Inundar a vida dar cor ao sonho
É a sina de um anjo bom

Sempre me atraíram os anjos pintados de negro
Sempre achei aconchegante um xaile da mesma cor
Sempre achei que o negro que veste a noite
É pano de cena para o amor

É pedra que sustenta um cais de espera
É capa de mágico, é nevoeiro escuro nos brandais
É a minha alma em dia chuvoso
É meu errante coração no...Vale dos Vendavais

domingo, 28 de fevereiro de 2010

ALIANÇA


O Mundo não pára
O tempo corre em louca vertigem
O sortilégio da luz inunda o dia
A água corre na sua eterna viagem

Saberás que o encantamento
Que um olhar de amor liberta todas as mágoas
Saberás que a plenitude é miragem difusa
No espelho de água de sete Lagoas

Folhas de mandrágora colhidas ao coração da noite
Feitiço feito de mil quereres depositados no sonho verdadeiro
Coração de Arlequim, lágrima presa ao canto do olho
A paixão maior nasce sempre do amor primeiro

A primeira vez, a primeira dor
A primeira ida, a chegada primeira
Uma tempestade assola as casas do sul
Um coração decide calar-se em batida derradeira

Um arco-íris aponta a morada dos seres feitos de água
Os jardineiros da terra suspiram de pena
Uma gaivota soltou as penas, cancelou o voo
Que actor sou, deixei muda e esta sentida cena?

Soluços de gotas caídas do alto
Estão mudas as estrelas, o vento parou um momento
As pedras da ilha estão brancas de maresia
Uma mulher abre a alma e solta um lamento

Ou será um chamamento?
Esta constante procura do sitio da paixão
Esta flor de sal doce de travo triste
Esta falta de ti envolta em solidão

Caminhante, caminheiro, assombração
Poeta rimando o passar das horas
O errante perfume das rosas toldou-me o pensamento
Porque ris de mim, porque ris com riso e por dentro choras?

Palavras, escrevo tantas
Que fervor é este meu Deus
Porque me enlouquece a alma às vezes
Porque sinto o mundo pintado de pecados meus?

Talvez por te ter e não ter
Talvez seja apenas um ser de esperança
Talvez lá bem fundo perdida no tempo
Ainda floresça uma...Aliança...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

PERDIDAMENTE


Um aroma selvagem inundou a manhã
São de fogo as auroras de Abril
Uma nuvem adormeceu no celeste
Um bando de pardais soltam trinados mil

Um relógio canta os quartos
Uma flor acolhe a irreverência da abelha feliz
O feitiço da luz envolve o verde
Que acolhe os pés descalços de um petiz

Apetece-me pintar a musica
Que me afaga a alma, desperta os sentidos
Apetece-me pintar-te o sorriso
Unir-te aos meus anseios antigos

Uma tela, universo ávido de um deus
Será o pintor o criador da cor do dia?
Um salteador das sombras da noite?
Ou apenas um semeador da nostalgia

Vibrantes pinceladas tomam de assalto o branco
Alvas são as partidas para a pureza dos sonhos
A paixão nasce sempre do lado esquerdo do sentir
O amor também abraça os seres bisonhos

Que ser é este que abre os braços ao vento?
Voa sobre o mar na procura de perdida ilha
Vê em cada criatura a esperança renovada
Uma estrela criada por deus que ainda brilha

Pedras brancas, negras são as noites sem Lua
As gaivotas são sentinelas de Neptuno o rei
São mensageiras da chegada tempestade
São anjos num reino em que a bondade é lei

Divagações deste louco poeta
Hoje não acerto com a história prima
A pena enlouqueceu não obedece à alma
Apenas se diverte cavalgando a rima

Esta era para ser uma história de amor
Uma tela de apaixonada paixão
Um arrebatador grito de exaltação
Uma viagem pelo sublime da sensação

Uma lagoa de marés vivas
Um fechar de olhos de forma dolente
Um dizer-te simplesmente
Que te sinto...Perdidamente...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O MUNDO AO CONTRÁRIO


Chove no Mundo
O céu envolveu o verde com seu manto
Será que os Anjos andam a brincar com as nuvens
Ou é apenas um deus que verte seu pranto

Chove no Mar, água na água
A maresia ostenta um diadéma de sal azul
Uma bruma envolve o meu querer
Há um pronúncio de saudade vinda do sul

O caminhante não tem medo da chuva
A loucura não teme a razão
O ódio é tão parecido com o amor
A palavra amar mora na casa da paixão

Mas...
O estranho tomou-me de assalto
A noite tomou conta do dia
A lua e o Sol enlouqueceram no alto

Atirei a mão na procura do gesto
As Estrelas decidiram morar no Mar
Um anjo descobriu o caminho secreto dos pássaros
O mesmo que levei sete dias para encontrar

Sete são as maravilhas
Sete são os sortilégios encontrados
Sete serão os teus anseios perdidos
Sete são as cidades dos mal-amados

Lagos de fogo e luz
Um golfinho tocador de bandolim
Uma baleia branca a rodopiar no areal
Um cavalo marinho a galope no princípio, zombando do fim

Um homem branco vestido de branco
Um homem negro com desgosto de ser preto
Uma mulher a fazer de conta que o amor é bom
Um homem que não se importa porque lhe dá jeito

E solta-se o desatino
O gozo fugiu de um corpo faminto
Boca que deixa fugir um pedaço de dor
O tempo para por um momento

A quietude invadiu a alma deste pobre poeta
Na passagem beijei a mão a um Vigário
Acordei em sobressalto com amargo gosto na alma
Sonhei que...O Mundo Estava ao Contrário...