sexta-feira, 7 de outubro de 2016

ENTRE NÉVOAS


Dormi nas pétalas orvalhadas e frágeis
Uma hortênsia acordou nesta manhã de outubro
A fonte do irreal inimaginável belo
O cristal da lágrima em tua face descubro

Às vezes partimos aos poucos para lugar nenhum
Partimos como partem os vagabundos, os pássaros do mar
Partimos às vezes para na viagem ficar a alma pura
E acordamos de manhã devagar com o cheiro da outra loucura

Suavemente nas asas de uma sombra obscura
Ouvi alguém partir de mim
Não sei se era eu ou tu
Era apenas um deus irónico anunciando um fim

...Da paixão, do amor ou da contradição?!
Sentado na areia molhada
Contei ondas atormentadas
Cantei orações na noite calada

Deixei o mar tomar conta do meu corpo
Lavei da alma um sonho já morto
Agarrei a brisa num sopro
Dancei com uma sereia num tempo lento

Este medo de estar por cansar
Este sol que cega o cego
Este grito que devasta o mudo
Vasculhando a sombra, a dor, a rosa em esforço

E o pescoço torço
Nas mãos metidas no papel
Umas vezes serviram-me absinto
Outras muitas puro fel

Esta solidão baloiçando no infinito
Este mudo grito
Esta criança impossível de sorrir
Este querer ficar e partir

As flores adormeceram na ilha
Os amantes aguardam em mil esperas
Sento-me no meio deste adormecido vulcão
Ente dores... ENTRE NÉVOAS...

2 comentários:

luar perdido disse...

Como podem as flores adormecer na ilha onde um poeta se deixa embalar pelas ondas de um mar de espanto e descoberta? Deixa que o sorriso floresça nessa "criança" dorida e magoada; povoa-lhe a cabeça de sonhos de golfinhos encantados, e gaivotas de asas brancas, e de hortensias a florir. De brumas a brincar de esconde-esconde com as lagoas e as nuvens. Deixa que o sorriso ilumine o rosto dessa "criança", liberta-a do medo, da dor e das lágrimas frias do desassossego.
O mar tomou o teu corpo e as ondas, de azul profundo, lavaram um sonho morto.... Será? Ou o poeta ainda chora?
Espreita por "entre as névoas", vê-lhes o encanto e a magia... Quem sabe no meio delas, bem lá no topo do vulcão adormecido, o sol não rasga, intenso e vibrante, a neblina? Quem sabe o que podem esconder as névoas....
Quem me dera, poeta, que não te sentasses no meio de dores, ou que, por um passe de mágica da minha varinha de condão, elas se transformassem em manhãs de mansidão....

Doce e misterioso, de uma nostalgia expectante lindíssima.
Beijo de luar

Célia Rangel disse...

Versos intensos e tocantes... Carregado de emoções...

"Suavemente nas asas de uma sombra obscura
Ouvi alguém partir de mim
Não sei se era eu ou tu
Era apenas um deus irônico anunciando um fim"

Impossível ficar indiferente a tão belo poema!
Abraço.