sexta-feira, 22 de julho de 2016

QUANTAS VEZES, AMOR


Não me digas a hora da partida
Não desvendes o momento da chegada
Traz o perfume de setembro
Veste-te de folhas, vem sem mais nada

Sabes quantas vezes amei sem te ver?
Toquei-te e a minha vida reacendeu-se
Reinas sobre mim como fogueira no mar
Habitas lagoas como Lua sorridente

Tenho perguntas teimosas
O amor tem um sorriso azul
Está tatuado em toda a ilha
O amor é diadema de espuma dos mares do sul

Sabes...?!
A claridade das coisas também se constrói
O pão e a pomba são céu e terra
Sabes?! Sou o teu guerreiro em santa guerra

Imagino uma casa
Com trepadeiras dos teus cabelos
Nem que seja de sonhos e lata
Com hortênsias azuis em novelos

Imagino-te sentada nas pedras do mar
Com um vestido de ar, “sol brilhante”
Luz que entra numa roseira florida
Com os olhos devorados pela sombra, imagino-te

Imagino-te nas tardes púrpuras
Adormecida num castelo coroado de neblinas
Em Homero com gestos misteriosos
Imagino-te vinda do mar com um colar de roladas pedras

Na ilha o silêncio é verde
As borboletas atravessam o meio dia
As algas o ninho das gaivotas
Celebramos com pão e vinho num copo de nostalgia

Nesta ilha que há em ti
Virão radiantes dias balanceados pelo mar
Nada devia dividir a paixão
Dir-te-ei...QUANTAS VEZES, AMOR...

quarta-feira, 13 de julho de 2016

BALOIÇANDO NO INFINITO


Não funciono bem como ser humano
A não ser que esteja a escrever, a pintar
Na tua inquietude encontrei paz
No teu coração encontrei o amar
Já te revivi tantas vezes
Já sonhei acordado na realidade
Sinto tanta emoção ao olhar para ti
Tenho uma casa colorida na minha inventada cidade

A solidão pode enlouquecer-nos um pouco
Porque pintamos os barcos de branco?
Porque os pintamos da cor das casas?
Porque somos tão tristes na voz que devasta o coração mudo?

Este vegetar de palavras, este poema
Este esperar da ferida
Esta maldade de manha louca
Esta minha silenciosa espera, rouca

A fonte que jorra a sede
A sombra vasculhando a dor da rosa
O espaço provável do vazio encontro
Todos os dias acordo perdoando a demora

Enlouqueci...
Violando o pensamento
Risco o Mundo
Digo a verdade mentindo

Pois...
Contemplemos as paixões lúcidas
Nas ruas escuras pela luz
Nas irreprimíveis asas dos anjos

Deixem-me ser pássaro apreciando a noite
Ser golfinho de crista de onda
Deixem-se ser milhafre sem poiso na ilha
Ser pedra do mar rolada

Deixem-me mesmo ser louco
Por acreditar tão pouco
Deixem-me voar com asas faz de conta
Deixem-me ficar...BALOIÇANDO NO INFINITO

segunda-feira, 11 de julho de 2016

ABENÇOADO POR DEUS


Acredito que nesta Terra imperfeita, em que todos estamos em fases diferentes da evolução dos nossos espíritos, ainda com lições por aprender, é possível que todos nos confrontemos com um ato imperdoável cometido por alguém que não se encontra numa fase avançada como nós. Quando isso acontece - como aconteceu comigo -, a resposta não passa por nos culpabilizarmos, nem oferecermos um perdão que não é sincero, o que levará as outras pessoas a sentirem-se melhor, mas nos deixará a consumirmo-nos no ressentimento. A resposta passa por, seja de que modo for, permitirmo-nos seguir em frente e fazê-lo de modo elevado. Se isso conduzir ao perdão, ótimo. Sendo esse perdão demasiado para este meu coração terreno, coloco nas mãos de Deus e apelo a Ele, seguindo o meu caminho, respeitando a minha carta de vida.
Quando o perdão está para lá das nossas capacidades, colocamos nas mãos de Deus...

“É TÃO TRISTE QUANDO O CORAÇÃO É POBRE E A MENTIRA SE TRANSFORMA NA VERDADE DAS PESSOAS PEQUENAS”





























sexta-feira, 8 de julho de 2016

OUTRA ESTRELA NÃO TENHO


Ser é existir apenas em amar-te
Em tu me amares
Ser é a esperança em cada riso
É a crença deste caminho que percorro

“O que quer que ames ama-te”
Com o teu amor
Acendeste-me a luz da alma
Vivo, amo, porque a morte é o ato de regressar

Tenho um sol inteiro
Um castelo altaneiro
A saudade do amor primeiro
Tenho tanto, nada, rosa, sal fogo

Secretamente
Entre a sombra e alma
Existes como a brisa que passa
Como a água muda de vestido em chama

Reverberante
Sais do mar com as ondas na cabeça
Vestes-te de sal e sol
Por saber de ti esta ilha vestiu-se de azul

Saberás
Quantas vezes te amei sem ver
Quantas vezes te procurei estrela por estrela
Sabes, nos sonhos sou apenas uma criança perdida

Não faças das feridas
Um edifício de dor e firmeza
Nunca serei um mar desmentido
Apenas a flor final do dia

Sabes quantos azuis celestes há nas hortênsias?
Sabes quantos segredos escondem a espuma?
Sabias que tudo o que arde num peito é estrela?
Sabias que tenho a verdade numa mão nua?

Por onde passamos
Em nós nunca se instaurou o outono
Entre tantas raízes este coração perdido
Na terra...OUTRA ESTRELA NÃO TENHO...

sexta-feira, 1 de julho de 2016

IMPROVÁVEL


Não me esqueças, lembra-te que te amo
Faltou-me tempo para celebrar os teus cabelos
Enquanto o Sol não sobe às colinas da ilha
Tu repetes a multiplicação das ondas

Já vacilei pelas ruas, pelas coisas
Já dormi em túneis habitados pela Lua
Tudo era alienavelmente alheio
E tudo ardeu no céu azul desta alma nua

O Mundo é dos outros e de ninguém
Os teus olhos no reino dos pássaros um altar
A ilha o poiso dos anjos
Devias ser a primeira palavra do verbo amar

Sabem?
Fui uma criança pobre
Tive fome, frio, dor
Sabem?! Já mendiguei amor

Sabem?
Já senti a navalha e o frio do chão
Tive medos, bateram-me, feriram-me o corpo
Sabem?! Já fui condenado pela mão de um mentiroso

Sabem?
Deixei de querer ser pessoa
Deixei de acreditar nos homens
Sabem?! Há homens que são merda, não coisa boa...

Também mulheres para que conste
Algumas, muitas, todas...
Não! Há mulheres anjo, estrelas doces, deusas
Há também no mar alforrecas

Há ribeiros tristes
Mulheres alegres vomitando maldade
Há um coração nobre que se ergue ferido
Nesta inventada cidade

Há um menino no inverno de uma janela
Nasci nu sabiam...?!
Pedi pão, enxotaram-me com gesto de mão
Já enchi de presentes muito duro e frio coração

Já me deram o papel de vil criminoso
Já me chamaram artista notável
Já fui pássaro de asa ferida
Derrotado é... IMPROVÁVEL...

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O PERFUME


Apaguei as luzes para acender as estrelas
De repente as paisagens tombaram de aridez
Os pássaros inesperados morderam o tempo
Uma sombra jaz no chão presa a uma cruz

A morte e a maldade têm um olhar louco
As portas fecharam-se nas casas de areia
A estupidez gelatinosa escorre da parede e um rosto
Maquinalmente escondida entre mãos de pedra...

...Há almas onde só o pecado medra
Jamais anoitecerá neste coração
Jamais o ódio vencerá a paixão
“Meu Deus perdoo-vos a todos nessa perversa contradição”

No amanhecer voraz da ignorância
Vivem entidades negras, negras pedras
No meu coração vive uma dor que passará
Uma grandeza que o negrume não engolirá

Fui julgado pelos homens, pela vida
Pela leitura de uma estranha alucinação
Num vento insidioso por cima de cérebros ansiosos
Já me tinha julgado Deus que concedeu o seu perdão

Amei o mundo, as pessoas
Amei filhos que Deus pôs à minha guarda
Amei quem me amou com tanta alegria
“Amei-te vida porque amar pessoas não vale nada”

Os homens não sabem amar
O amor é uma palavra tonta numa estante quieta
Uma história, um verso à espera dum fim apropriado
Uma página incomensurável do delírio de Neruda

Descobri a eternidade do ódio á ilharga de Dante
Descobri que Judas era boa pessoa
Descobri a arte mágica de viver livre
Descobri que um burro não ladra à toa

As hortênsias empalideceram
Perderam a cor neste inverno de sol e solidão
Rasguei estes versos e espalhei pela minha inventada cidade
Restam apenas lembranças...O Perfume...

sexta-feira, 24 de junho de 2016

SOBRE O ROSTO


Rente aos olhos a água
Orvalhada manhã sem dor
Rente aos olhos o gume do espinho
Rente à pele o amor, o teu passar

Rente ao homem
Olhos cansados, dedos doridos
Sono infinito, canteiros vazios
Tanta pena, dois palmos do dia um poema

Papel sem palavras
Estou cansado deste inverno
Do trevo sem sorte, das danças macabras
Da demora da morte, das palavras sem sentido

Enquanto o tempo não anda na ilha
Sou o homem mais impuro
Estou cansado das facas nas rochas
Forjando a maldade no negro futuro

Estou cansado dos homens
De dentes cravados ao coração
Estou tão cansado de te abrir os braços ao abraço
De te pedir amor como quem pede pão

Na primavera não há pardais viúvos
Nunca me encobri com o calor da tristeza
Quem sou?
A presença de um nome, rosa deus, a pobreza

Um pintor...
Um ator sem guião nem palco
Um rei de coroa de lata
Um barco sem nome, um pássaro solto

Mas há uma cidade a construir-se dentro de mim
Bela como um jardim abandonado
Com pássaros voando na sombra da palavra
Contigo abraçar-me e dizer a maldade basta!

Hoje quero lembrar quem me amou
Quem me cantou no adormecer do sol posto
Hoje quero apenas lembrar-te cintilante estrela
Com a luz do amor...SOBRE O ROSTO...