sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O PEREGRINO


O tempo ressoa nas sementes da terra
Este sussurrar da poesia
Este tinir de espadas, lagos ardentes
Falem-me da música das estrelas sem nostalgia

Uma existência que emana amor
Uma mulher que sorri em flor
Uma paixão a fugir à dor
Um homem que navega sem temor

Um poeta
O crepitar melódico das ausências
Rumores incendiados de uma tristeza
Nos longínquos parques das marés a tua beleza

Queria tanto que minha alma não esquecesse
No torpor da terra, na respiração
Queria tanto sentir de novo, no meu
O terno bater do teu coração

Vivi entre as ruinas da luz
Segui em ti nos voos do olhar
Fui caminhante numa volta completa da Lua
Pergunto pelo inverno adormecido nas mãos do amar

Olhos de água da memória
Um pássaro charlatão ouvindo o mar
A cálida leveza das rosas de Maio
Um barco que traz o teu nome no chegar

E fui navegante sem Mar
Caminhante, caminheiro perdido do achar
Buscador de sonhos no te encontrar
Uma boa nova por chegar

Caminhei com golfinhos por estradas lisas
Bati de mansinho numa muda porta
Voei nos olhos de uma garça de pena torta
Escrevi num lenço de água “ já não importa”

A vida...sem ti...
Contei todas as estrelas que vi
Por não te ver mil vezes morri
Na incandescência dos Anjos o amor senti

Caminhei sobre as ondas
Nos desocultos fascínios do Mar
Tracei rumos de sonho e fantasia no meu destino
Fui, serei apenas...UM PEREGRINO...

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

DOCE NOVEMBRO


Nas folhas das hortências ouve-se o silencio da ilha
Sente-se a humidade dos olhos de um anjo
Chuva miúda, a respiração das acácias
Já perdi de vista o ardente e talhado rosto de Setembro

Um sino cansado, o tremor da tarde
O regresso de uma saudade
Um copo de destino fresco
Celebrando as núbeis virgens de uma inventada cidade

O cicio e a aura dos segredos
Que ilha descubro nos teus olhos?
Gaivota poisada entre as palavras e o branco rumor do mar
Tu que 7 vezes disseste não me amar

Se falasse das tuas mãos
Diria que afagam o adeus no sentir que fica
Se falasse do teu coração
Diria que arroxa uma incontida paixão

Nas lagoas dançam estrelas breves
No espelho de água, ressoam os passos leves das garças
Nas cume eiras o rumor do musgo
As mãos que soltam borboletas molhadas


Nunca vi a sombra de uma estrela
Aqui o silencio cresce como uma rosa
A tua voz orvalho solto das conteiras
Os teus olhos ardentosos da poesia sem prosa

Por ti
Calquei presságios, soltei sonhos
Regressei de outras infindáveis agitações
Por ti plantei no mar todas as minhas emoções

Como se as gaivotas soubessem ouvir o sonho
Como se te vestisses com a túnica de um anjo
Como se corresses entre o fim da memória e o rumor do mar
Como se não soubesses soletrar o verbo amar

Encontrei-te num jardim de água
Com a cor do medo no olhar
Descalça nas crespas águas da dor
“Nunca sabemos a distancia entre o amar e o amor”

Vi-te crescer nas estações do crepúsculo
Deixando cair na água sementes do olhar
Todos os dias do teu sorriso e voz lembro
...Queres ser o meu... DOCE NOVEMBRO?

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O APANHADOR DE ILUSÕES


Uma vez acordei com uma voz doce
Que me disse:
Desenha-me uma ilusão, uma ilusão
Levantei-me num salto, terei tinta que baste
Neste dorido coração?!

A mesma voz insistiu
Se não puderes, se não souberes
Então: deixa que a tinta tome conta da tua mão
Só tens que deixar sair a paixão

Uns olhos esbugalhados de criança
Trapos tapando o Sol da esperança
`Pés descalços no barro da terra
Um pequeno guerreiro que na vida espera

Nas réstias de luz que confundem o passado
Vi teus ternos olhos a chorar
Vi junto a ti um anjo tocar-te o rosto e sorrir
“Os olhos que choram não sabem mentir”

E pintei o Mundo no gesto sereno e demorado
Pintei com noticias das saudades ausentes
Revelei o paredume invicto das descobertas e labirintos
E a cada pincelada enchi a alma de presentes

Sabem lá as coisas que pintei
Sabem lá como esta alma sentiu o voar
Sabem lá o que fiz para te poder ver
Desde a noite, até ao ruído das gaivotas ao amanhecer

Talvez seja um comovido marinheiro de outras eras
Talvez habite o sitio onde as crianças buscam o sonho
Talvez tenha recolhido do mar um molho de esperas
Talvez tenha ouvido mal palavras sinceras

Só sei que o amor é uma palavra apenas
Que tal como as montanhas que se desfazem devagar
Nem sempre quem o sente é capaz de amar
Penso que o que sinto é diferente, deixem lá, não digo
Eu que até sou um poeta que tem a mania que é gente

Fiquemos por aqui onde há um coração rubro
Batendo ao ritmo das ondas brancas
Chegando-se sempre mais ao calhau redondo
Preso ao mar cheio de âncoras cansadas
Lembremos apenas que a cor não define o objeto
Antes o limita no contexto da paisagem na lentidão dos olhares
Eu hoje só queria falar dos suspiros de pássaros breves
Este...APANHADOR DE ILUSÕES

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A COR PURPURA OU O POETA QUE ENSINOU UMA MULHER A VOAR


Nasceste ao mesmo tempo que o sol
No anunciar da voz mansinha da flor
E nasceu o sonho
A fonte da saudade, o amor

Tenho uma carta que nunca abri
Tenho uma paixão suspensa por ti
Sou um palhaço que nunca ri
Tenho guardado um sentimento que já senti

Por isso, vem apenas
Sem dor, sem penas
Como se não houvesse mais nada
Vem vestida da palavra na voz calada

Mas vem sem perguntares pelo amanhã
Pelos abismos que abrem fronteiras nos nossos corpos
Com a lucidez dos espelhos e a espuma inquieta do mar
Vem apenas com um sorriso de amar

Vem, docemente, como um papagaio de papel-de-seda
Em tardes de vento brando
Fala-me de fadas, de castelos, de gaivotas felizes
Como se fosse-mos apenas aves sobrevoando o mundo

Mas diz-me coisas sobre a verdade
Fala-me de ti, no amor, na vontade
Deixa-me morrer na tua lembrança
Existir na tua inventada cidade

Deixem-me ser levado pelo vento
Como se partisse para sempre
Numa manhã cinzenta com as gaivotas gritando
Nas tempestades desta ilha algures perdida no tempo

Fala-me de um mar
Onde alguma vez pudemos navegar
Como se voássemos no mesmo bater de asas
“Fala-me do significado da palavra amar”


Mas vem, como se partíssemos para sempre
Num novo dia ao encontro dos desencontrados
Num sonho de navios partindo numa viagem sem fim
“Vem com a alma sorrindo em olhos fechados”
Voarão anjos pelos cantos do salão pela minha mão
Vestirei uma capa de cor púrpura para te ver dançar
Serei pois o mais feliz dos homens
Ou apenas...O POETA QUE ENSINOU UMA MULHER A VOAR...

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

NAS MARGENS DO AMOR


Não devo acariciar a melancolia
Algures na entrega de tudo
Está o pouco que se pretende
Não se deixa vencer pela noite este louco

Atrás de todas as vestes
Esconde-se o medo, a escuridão
Nas margens do silêncio habita um pássaro
Este poeta também tem coração

Um homem atravessa a montanha
Faz um filho, ama o retrato, morde o chão
Vende ao longe a esperança, o que Deus quiser
“Só o vazio ocupa o lugar de uma Mulher”

O teu, o teu, o de ninguém...
Com as cinzas da tarde
As mãos e as palavras estenderam-se sobre a mesa
Então de repente surge um grito sussurrante

O teu, o teu, o de ninguém...
Enquanto do tempo não há noticia
Como se de outro mundo viessem
Atrás das portas, as flores escutam-se mortas

E algures sonhamos com o mar
Vestindo um fato negro com a alma ao pescoço
Serei pois uma gaivota sorridente
Ou a sombra de um bêbado coxo?

Nunca serei
Desalento amorfanhado no silencio
Um bailarino rodopiando em salões vertiginosos
O sereno que beija o asfalto

Este lembrar do sol
Este lembrar de ti
Este sentir imenso
Este não saber se parti ou morri


Esta fresta que rasga os olhos
Esta beleza que faz de ti flor
Este poeta que se perdeu
NAS MARGENS DO AMOR...

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O PRINCIPEZINHO


Sabes... quando se está muito, muito triste
É bom ver o por do Sol com mil prazeres
Sabes...num planeta pequenino basta subires uma cadeira
Verás quantos crepúsculos quiseres

Já vi um Rei vestido de púrpura e arminho
Já vi uma gaivota mirar-se num espelho de água
Já vi uma mulher dar o peito ao marido faminto
Um golfinho fazer nas ondas um ninho

Já pintei ovelhas brancas
Anjos tristes aprisionados á bondade
Pintei um sorriso de olhos de sol
Já amei mentindo, construindo a verdade

Será que as estrelas obedecem a um Rei?
Que as sereias cantam o feitiço
Será que o teu coração bate terno por mim
Ou o teu amor perdeu-se num fim?

Cá estou eu bifurcando a alma
Numa barca navegando no olho da cidade
Quero fechar este livro antigo de culpas
Quero repetir-te mil vezes uma verdade

Amo-te...!
Recordando o tempo de menino
No esquecimento do mar brincando
Nas escadas de um ancoradouro

Para te encontrar
Caminho no alcance do horizonte
Para além das suas muralhas te ver
Sabes...somos a consciência do amanhecer

Já nos rimos na madrugada extensa
O choro é uma certeza, não rasga horizontes
Como se o mundo não soubesse de tudo, de nós
Desmontando a misterioso fia de mil afastamentos

Nunca serei um guerreiro vencido pela maresia
Contigo no coração nunca estarei sozinho
Saber do teu amor
Faz-me sentir...Um Principezinho...

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

SOLSTÍCIO DE AMOR


Ou será esta uma proposta de encantamento?!
Azul é o tempo que fala de búzios novos
De ventos ansiosos percorrendo os caminhos lentos do amor
Sabes: é possível dilacerar as fronteiras do sentir

És mulher
Vem sem violentares as palavras
Ninguém repara mas, o teu sorriso ficou em mim para sempre
Como tugúrio na paisagem, solta voz, fogo devorando a lagoa, mágoas

Talvez seja um arbusto inquieto
Encolhido num regaço fértil, sem me conheceres
Poeticamente cheio de amor
Preparando todos os amanheceres

Nem tudo o que faço pode estar errado
Nenhum amor pode estar fechado
Por entre o tempo incolor averbado
Na tua distância sempre tão perto

Podia ser apenas uma palavra aflita
Derramado em finos segmentos
Habitando o lado negro da Lua estranha
Algures no despertar da sombra cativa

Esta solidão grave incompartilhada
Pobre poeta, mendigo dos seus desgostos
Chorando e rindo desalmadamente da madrugada extensa
Este homem que sente, respira e pensa

Como a caricia serena do mar
Como o orvalho transparente das manhãs
Como este outono com gosto de vento nesta ilha
Como o teu amor envolto em maravilha

Este herói desconhece o fim da batalha
Recolhendo na hipnose dos sons os passos do teu chegar
No cerne imperceptível do papel branco
Há um punhado de amor esperando o despertar

Um trevo de quatro folhas, a voz calada da ternura
Uma rosa breve singela flor
O gemido de um cego, o cálice que embebeda o louco
Uma oração neste...SOLSTÍCIO DE AMOR...