Domingo, 12 de Julho de 2009

A COR DA CLARIDADE

Quando aqui cheguei
Era diferente este Mundo
No celeste havia mais estrelas
No Mar o azul era mais profundo

Adormeci na partida
Foi uma viagem pelo impensável
Flutuei num mar feito de carinho no tempo
No embalo de canções de voz amável

Mundos!
Entre os dois se faz a claridade
Moldado ser de barro cru
Uma parte sonho a outra verdade

Esta roda onde ganho forma
Tem a frieza do Inverno dos anos
Gira entre o dia e cada noite
Numa comédia de desenganos

Mas esta lava incandescente
Derramada no meu peito
Faz de mim um ser ardente
Que o amor o faz completo

A chuva não pára
Novelos de hortênsias pintam a ilha
São pingos do céu solto dos olhos
De um deus que proclama a maravilha

Pedras desenham o caminho
Conheço os dons da terra
Este verde inunda-me os olhos
Esta alma declara uma guerra…

…Ao meu querer!
Dias noites, estações esquecidas
Inventei sonhos para sonhar
Lavei mágoas, dores perdidas

Uma árvore toca as águas da lagoa
O nevoeiro faz desenhos nas cumeeiras
Um Melro negro solta um pio ao acaso
A palavra quero-te diz-se de mil maneiras

Quero-te simplesmente!
Mas apenas uma soa à verdade
Entre dois mundos vive em espera
Que soltes da alma a…Cor da claridade…

Domingo, 5 de Julho de 2009

OLHOS DE EVA

Nos caminhos que a vida oferece
És pedra tosca rejeitada pela ilha
Uma comédia de enganos
Num palco de actores em agonia

Água em mar morto
Barco sem rumo nem sorte
Mensageira de cínica novidade
Coração onde o amor está preso à morte

Na rua que percorres
Há um garoto de riso cheio de verdades
Um justo largado ao Mundo
Um carrilhão de igreja tocando trindades

As vagas chegam uma a uma
Cais de basalto negro e frio
Tua alma é deserto onde não medra o carinho
Teu colo tem o agreste do leito seco de um rio

Vendes o corpo à ilusão
Tens a fé dos homens ateus
Uma cor perversa estampada nos olhos
Que reflectem o vazio dos sonhos teus

Sonhos!?
Talvez negros, hediondos
Neste Astral onde viajas
Acompanhada de seres bizonhos

Mas os golfinhos continuam felizes
A cavalgar ondas de madrepérola
A Lua sorri tristemente e pensa
Haverá alguém mais perverso do que ela?

Haverá?! Há sempre uma deusa perdida
Nos labirintos da contradição
Há sempre alguém que usa a palavra amor

Soprando doce veneno ao coração

Há sempre alguém que nos diz coisas tontas
Há sempre alguém que afugenta a Saudade
Há sempre alguém que nos marca a ferro frio
Há sempre uma alma ausente da verdade

Alma inquieta, casa sem tecto
Mesa fria sem aroma do pão
Mãos estéreis de afago
Rainha da ilusão

Corpo que proclama o faz de conta
Inverno onde constantemente neva
Tens a frieza de uma noite de tormenta
Estampada nos teus...Olhos de Eva...

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

VACILEI NA IRONIA DO TEMPO

Há um espaço aberto para a virtude
Não há fios que prendam o desencanto
Os pesares dividem marés bravias
Olhos que geram o sal do pranto

Este tempo que corre
Em suas rodas invisíveis ao sentir
Chega ao fundo de mim
Esta ânsia de aprisionar o partir

Este Vento furioso
Esta tempestade de anseios
Esta bruma tecida no fim da ilha
Este vale de mil degredos

Uma paixão desapaixonada
Uma razão desencontrada
Uma palavra vazia de sentido
Uma inquietação gerada do nada

A calmaria é o fim da tempestade
Ou será o princípio da tormenta?!
As velas recolhem o vento
Minha alma acolhe o que o coração inventa

As cores do arco-íris
Uma manhã pintada de azul-turquesa
Um pássaro de penas refulgentes
Uma flor expõe a sua beleza

Solta um aroma selvagem
Uma pétala voa na brisa
Pés que tocam a terra nua
Fruto que alimenta a incerteza

Relógio imparável marca adiante
Rege o dia, a noite, o princípio do fim
Sinos que tangem ave-marias
Pobre vontade que diz que sim

Que diz que não!
Que fecha os braços ao abraço
Que esconde olhar ao sentimento
Que foge ao rumo do fracasso

Venci esta demanda
Mil derrotas, coração limpo
Nesta peça não morri no fim…
…Vacilei apenas na Ironia do Tempo…

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

FOGO FRIO

A bruma desaparece no sorriso da aurora
Deixa um manto de orvalho azul
A terra recolhe a virtude das águas
De um aguaceiro vindo do sul

Chegou ao fundo de mim
A melodia da chuva miúda
Lavou-me a alma, a saudade
Nasceu uma planta gerada do nada

Nasceu!
Nascem a todo o instante
Os sentires vindos da alma
Tatuados a cada semblante

Um beijo na tua procura
Um abraço fica suspenso
Um sorriso desponta da tristeza
Um olhar prende o momento

Onde moram os pássaros?
De quantas rezas se faz a promessa?
Um coração segue em silêncio
Bate suave para que o amor aconteça

Bate forte!
Neste vendaval de sentimento presente
Uma gaivota plana suspensa
Solta-se o riso de uma criança contente

Solta-se o gesto
Solta-se a palavra fecunda
Solta-se um querer que a vontade ordena
Solta-se uma lágrima de mágoa profunda

Neste fogo que arde brando
Gerado por sete Sóis
Tantos quantos as promessas
Que os amantes fazem a dois

Porque dois é amor
Às vezes contradição
Magia que acontece
Com a cumplicidade da ilusão

E cada momento é um presente
Na indomável força das águas de um Rio
Ateou-se em teu peito o lume da paixão
Navegas num Lago de…Fogo Frio…

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

REI DE PALMO E MEIO

Olhos bem abertos para o Mundo
Galgas muros, pontapeias amargura
És herói dos golos inventados
Tem jeito de pássaro de alma pura

Não há longe, teu mundo a ilha
Tens andar gingão mesmo à maneira
O verde é manto que te afaga os pés
O mar é o teu azul por cabeceira

Passos ao encontro
Alma cheia de cor e ilusão
Braços abertos à aventura
O mundo na palma da mão

Mãos postas!
No Céu moram as divindades
No Templo o incenso arde
Espalhando aroma de verdades

Uma bandeira de cor rubra
Debruada à vontade pura
Uma pomba branca ao meio
Lábios que a tocam em sublime jura

Os cânticos soam imensos
Um Padre abre os braços ao sortilégio
Uma fila de pequenas almas acontece
Uma Mãe aponta um sorriso em elogio

Ele é o Pai que está no Céu
Ele é o Filho de Deus
Ele é o Espírito sempre presente
No brilho que irradiam os olhos teus

Ó meu querido Espírito Santo
Ó Luz que me invade os sentidos
Ó Ilha de doce encanto
Ó caminhos de encontros perdidos

Uma última reza ao Senhor
Hoje não és menino feio
Uma coroa do Divino em tua cabeça
Outorga-te…O Rei de Palmo e Meio

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

ALMA NAVEGANTE

Leme, velas, bússola
O alucinante tombo de furiosa vaga
A deriva aprisiona o pensamento
Este mar sobe ao céu, a vontade galga

As tábuas que te sustentam
Neste navegar de dor
Foram sacrifício de humilde árvore
Testemunha de um beijo de amor

Tatuados dois corações
Pela mão de apaixonado amante
Uma flecha atravessa os dois
Outorga uma jura de doce instante

Este vento foi tomado pela loucura
Este vento cava nas ondas a tempestade
Uma gaivota plana no seu abraço
Uma alma reza na procura da eternidade

Um golfinho salta, voa
Um búzio é tocado pelo vento
Uma andorinha-do-mar sacode as penas
Uma sereia solta um feiticeiro lamento

Um areal morno acolheu
Teus passos ávidos da chegada
Caminhas na procura das marcas
De uma espera desencontrada

Calmaria!
A bonança reivindicou o Sol no celeste
Uniram-se os pedaços de rasgada vela
Tua alma retomou o sonho adiante

O sortilégio mora entre o princípio e fim
Da tempestade dos teus anseios
A quietude assalta os teus sentidos
Entrega à noite os teus maiores receios

Mas a manhã a tua vontade assalta
Teu olhar fixa um inventado instante
Solta as amarras deste teu peito inquieto
És filha do Mar…Alma Navegante…

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

100 ANOS DE ILUSÃO

Percorro um caminho de terra fria
Penhascos, a loucura do voo ostentam
Sem asas és apenas um ser pobre
Que estas pedras os pés atormentam

Um passo de cada vez
Mil e muitos na inconstante procura
Onde moram os esquecidos?
Numa cidade inventada, a Desventura?

Ribeiro de ausentes águas
Uma sede que seca o sentir
Um gesto preso a nuas mãos
Uma vontade que impede o partir

Mil caminhos
Esta viagem sem velas nem vento
Este barco na bolina das ondas
Esta chuva miúda transborda sentimento

Amarras prendem o gesto
Arrocham um coração que bate incerto
Uma gaivota retoca as penas com espuma
Levanta voo em rumo concreto

Uma flor não morre
Adormece apenas no abandono da Primavera
Uma alma reluz com o nascer de nova aurora
Um coração bate forte na doce espera

Pensamento de difusas formas
Olhos na procura inventada
Braços famintos do abraço
Corpo frio de mal-amada

Cabelos dançando no vento
Pés na procura de esquecido rumo
Chuva de contradição perversa
O castigo de um sol alinhado a prumo

Luz prisioneira da sombra
Ribeiro correndo ao contrário
Folha ausenta da árvore
Pedra falsa de relicário

Coração pulsante
Coração arrochado pela mágoa
Coração que embala a vida dos sonhos
Coração perdido nas águas de uma Lagoa

Assim é o teu, assim és tu
Rainha coroada pela solidão
O tempo parou em teu olhar
Tatuou em teu peito…100 Anos de ilusão…