sábado, 24 de janeiro de 2015

PRISIONEIRO DE SONHO INTERROMPIDO


Hoje decidi dar rumos ao rumo
Hoje acordei do adormecimento inadiável
Resolvi descobrir o meu céu das penumbras
Perder-me nesta ilha de verde e brumas

Hoje decidi relembrar rostos distantes
Resolvi tocar seus corações no perto
Decidi alegrar todos os anjos tristes
Caminhar num caminho de rumo incerto

Este meu crepúsculo de ti é lento
Há um Sol que teima em não ir embora
Recolhi uma rosa em pântanos indescortináveis
Seu aroma era de saudade que chora

Serei como ilha infatigavelmente prostrada no meio de horizontes
Mareante trespassado por ecoante mar rasgando as rochas
Qual gaivota serena e muda chegando do nada
Qual alma que em arrepio suspira, mal amada

Apenas porque os barcos levam nomes de mulheres
Acariciei um sonho carregado de melancolia
Atravessei montanhas, fiz um filho, amei teu retrato
Percorri caminhos de lâminas afiadas com o olhar já gasto

Não há vazio que ocupe o lugar do amor
Atiraram o meu ás vidraças da escuridão
O importante é rir-me de pena de mim
É espantar-me com o avanço dos dedos fugidos da mão

Loucura...!?
Pois, o poeta pateta agora é louco
Nesta festa da vida serei clandestino
Ou apenas demiurgo fugindo ao destino

Andei por aí numa fúria magoada
Recolhi escárnios e sorrisos trocistas
Balas, dardos despedaçando coração vazio
Mergulhei em águas geladas de perverso rio

E rio...
De mim, triste e tonto Arlequim
Com folhas secas espalhadas pela boca
Numa a frase “tinha que ser assim”

O melhor é matar estas palavras de susto
E abrir os braços ao vento de alma e corpo despido
Adormecer neste atol de estranhos contornos
...PRISIONEIRO DO SONHO INTERROMPIDO

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

PROMETESTE-ME


Fui até onde as emoções renascem
Não há mares nem ventos em corações vazios
Fui até onde a escuridão acaba
Não há amor quando não se sente amor...nada

Anjos, gárgulas, roda a vida numa eterna atafona
O pio de pássaro saltimbanco no desabar da tarde
Contei pedras atormentadas, saudades desencontradas
Neste coração que arde

E de repente tombaram os sonhos no meio dia de sábado
Elevou-se um abismo negro em direção ao céu
E na transparência de véus pesados
Deixei de ver o teu rosto desenhado em negro véu

Talvez seja um pássaro inesperado mordendo a vida
Uma sombra atirada ao chão presa a uma cruz
Um anjo despedaçando nuvens de tempestade com asas de lata
Um deus menor que o tempo seduz

A mentira foi projetada pela luz do pecado
As portas das casas fecharam-se com fragor
A morte desenganou-se e perdeu-se na areia
Encontrei em luminoso e breve momento o teu amor

Olhos...
Uma lágrima perdida de confusa saudade
Este inquietante vento nascido na alma
Este coração triste e louco “Merda de vida”!!! Não se apaga a chama!

Tragam-me todos os livros que falam do amor
E nunca mais me digam que: “Ser Poeta é ser mais alto”
Porque este, ama assim perdidamente!
Perdidamente, alma e sangue e vida em mim, dizê-lo a toda a gente

“Por favor não me magoem mais”
Prometo, não incomodo ninguém com mais nada
Porque em cada passo que dou em busca do sonho
Porque este espelho só me mostra um ser bisonho

Lembra-me...
No tempo que em doce abraço...encontraste-me
Navegando em rios mansos de ausente dor
Fecha os olhos e lembra...Prometeste-me...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O ESTRANHO PODER DO SILÊNCIO



Percorro esta ilha de Norte a Sul
Há tanto de intemporal nas hortências adormecidas
As marés são pronuncio do choro dos deuses
São de cartão certas mágoas perdidas

Naveguei na calmaria de um ano de esperanças
Lancei meu coração na procura de um rumo
Abracei o meu querer aos brandais
E afastei no olhar um Sol a prumo

Na viagem fui encantado por sereias
No canto doce de verde olhar
Foram sete todas as esperanças
Cinquenta e duas luas para aqui chegar

Sortilégios de um irónico deus
Alquimia fugindo ao olhar de tolos terrenos
Bravata entre Arcanjos e o mal
Eternamente no encontro entre o amor e desamor...

Mas esperem um momento
O espetáculo ainda não começou
Pancadas de Molière...
Para muitos a guerra findou

Este Arlequim de fato de cetim
Rosto pintado a preceito
Sorri...
É tão agreste ás vezes o caminho, estreito...

E o Mar, sempre o Mar
Para onde voam as Gaivotas ao fim do dia?
Para onde correm os anseios deste Poeta Tolo?
Serão as estrelas habitantes perdidas no azul sal?...nostalgia...

Que confusão Nossa Senhora da Agrela, que não há santa como ela!
Estava a pensar um poema daqueles de encantar até chorar
E vejam a coisa malparida que daqui saiu
Até o papagaio se riu

Mas deixem lá o rapaz desatinar
Passou-me ao nariz o aroma do incenso
Fiquei endrominado, e a única coisa, que aqui escapou
Foi o titulo... O ESTRANHO PODER DO SILÊNCIO

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A BELA E O MONSTRO


Lembro Setembro
Uma flor num altar imaculado
Lembro entre os olhos um sorriso
Uma lembrança um querer ceifado

Como ilha perdida, desapareceu um sonho
Sou bisonho...
Para alguns...
Sou apenas um pintor, a parte triste de um sonho

Tive gente que me pintou de navalha
Disseram que era mau, maltratava pessoas
Tive gente que pintou de negro este poeta, gente canalha

Fui posto na rua de uma casa onde construi sonhos
Fui tido como pessoa que neste Mundo não deve existir
Fui demiurgo de todas as comédias de desenganos
Fui desenho, desenhado com o rumo do partir

Fui...!
Sei o que sou!
Sabes quem sou!
Estupidamente a traição num coração se instalou

Serei...!
Aquilo que este dorido coração comandar
Continuarei a plantar a beleza
Vou regar novos sonhos e pintar o amar

Começarei por mim
E darei um sorriso a este triste Arlequim
Abrirei os braços ao abraço
Abraçarei quem acreditou um pouco em mim

Foram poucos, alguns...
Vivi tão só, assim quis, não tenham dó
Tive tanta saudade da minha Mãe, do meu Pai
Do Céu caíram sorrisos, foram alento, afinal não estive só

Perdoo neste dia todos os que me quiseram mal
Pacifico-me com as pessoas e tiro da alma o desencontro
E digo-vos com dez assombração
Haverá sempre uma bela para um terno e bondoso Monstro...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A CANÇÃO DAS MARÉS



Do céu libertaram-se as águas infinitas
É verde o coração dos Poetas
Olhos de nuvem, coração de pensamento
Uma ideia de um sonhador, um doce momento

Gosto das pedras
Ás vezes são lâminas de gume afiado
Amo-te, menina que pertences ao mar
Rezei hoje para te encontrar, neste triste navegar

Encontrei-te, fugidia...
Como quem sabe que o amor é algo fatal
Nunca serás o fim do meu infinito
Um canto de pássaro, espantando o mal

Tenho os olhos presos na mesma gente
Tenho o coração dorido pelo desencontro que vi
Tenho um abraço, aberto sem te ter dentro dele
Tenho a alma infinitamente presa a ti

Tenho uma saudade de mãos cansadas
“Gostava que coubesse no teu coração um poema inteiro do meu sentir”
Espero o recolher de todas as sombras
Descalças correm as cores que me impedem o partir

Tens ondas indizíveis no teu cabelo
Há uma noite que se aproxima hesitante
A chama das palavras por falar
Um punhado de amor esperando o despertar

Uma dor que cristaliza o balanço do pensamento
Entretanto ri-se de si o homem mais infeliz do Mundo
Este dia respingou um suspiro definitivo
Esqueci uma melodia, por tristeza, sem motivo

Pois muito obrigado todos aqueles que me querem mal
Não tem de quê, seu tonto, papalvo
Na memória só restam uvas azedas
Fechei os olhos á raiva, já não sou o abatido, nem alvo

Sei lá o que sou!?
Um homem caminhando trôpego, trocando os pés
Assobiando uma melodia incompleta
Tirada da...Canção das Marés...

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O MILAGRE DA SAUDADE


Depois de te prender por segundos o olhar
Com a alma te tocar
Uma lágrima teimar voar
Fui com este coração doído ver o Mar

Um gesto amado...
Senti o frio da espuma em arrepio
O Sol beijou-me
O mundo rejeitou-me, tu não...confio

Que tempos meu Deus
Plantei esperanças todos os dias e este querer nunca acabou
Aqueci-me com lembranças nas noites frias
“Meu Armando, meu amor” só uma pessoa assim nesta vida me chamou

Por estes dias...
São longos os dias, desajeitados os quereres
Pensei no amor, morte, pensei com pena
E nunca mais adormeci numa conversa amena

Penso estupidamente tanto
Rio quando me rasga no peito o pranto
Há uma história que se interrompeu abruptamente
Há sempre uma gaivota voando a poente

O murmúrio das árvores
Uma pedra molhada pela chuva, ou maresia?
Todos os dias sinto uma obstinada fé
“Desculpa, perdoa, confia”

Fosse porque fosse, sentimos sempre mais além
Derramados sentires, opacidade da penumbra
“Acho que os pássaros não dormem, ficam apreciando a noite”
Tenho varrido deste coração tanta bruma

Fiquemos pois onde bate o coração, de emoção
Desenhemos os contornos de uma história feliz
São tão estranhas as pessoas quando decidem odiar
São tão ténues os pedidos, o chamar

Uma chama...
Não recuo até ás portas do céu, sem fim, sem idade
Hoje aconteceu o que esperava já não existir
“O Milagre da Saudade”

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O JARDIM DOS REGRESSOS


Não voam anjos na bruma da Ilha
Oiço palavras gritantes de um olhar doce
Derramei sonhos num vale de assombração
Tenho tanta saudade de te dizer amor, dar a mão

Guiado pelo esplendor dos poentes
Segui o aroma suave das buganvílias
Parti aos poucos nessa minha caminhada por dentro
Acordo nas manhãs, perdido dos horizontes, incompleto...

...Por não te ter...
Sabes meu amor, há um lugar onde as coisas fazem sentido
Há um lugar onde partimos como vagabundo
Há um lugar onde chegamos expulsos do Mundo

Ninguém espera pela noite na chegada do Sol
Ás vezes viro a cara ao tempo e ao deslumbramento
Ás vezes sento-me a olhar em volta como fosse louco
Ás vezes dou tanto, recebo tão pouco

Os escutantes do perverso afinam a parte negra da alma
Nestes dias o verde é de tal forma irreal
Há uma hora das portas fechadas
Há sempre um coração vazio, banal

Sou o inventor da luta entre o silêncio e a palavra
É nesse exato momento que algo exulta
Será que sabes da importância que dou aos grandes acontecimentos?!
Será que ainda reverbera a música de raros momentos...

És como o nascer da manhã inevitável
Sou um olhador de sorrisos sinceros
E todavia fez-se penumbra no decorrer do dia
E todavia o tempo desapareceu devagar, no teu chegar

No teu olhar aconchegam-se as maresias do Outono
Um ramo de misteriosas camélias
Hoje decidi fixar nuvens nos ventos
Decidi abrir a alma aos mais belos momentos

Hoje decidi ter respostas sem fazer perguntas
Decidi ser eu mesmo, sem inventar, processos
Sentei-me pois neste banco feito de folhas e frutos
Neste meu...Jardim dos Regressos...