quinta-feira, 23 de março de 2017

O DIÁRIO DO NOSSO FUTURO


Fazes-me sentir nervoso
Faço-te sentir calma
Fazes-me sonhar em acesa chama
Faço te soletrar a palavra ama
Este sol entrou em meu peito com ecos de verão
O odor solar brusco das nêsperas maduras
O meu coração no bater das ondas contra a tarde
A verdade...
Fotograma verdade, fotograma mentira
A vida a preto e branco
Nunca escolhi um barco para descobrir o horizonte
Vez agora na neblina as pegadas das aves do mar
Os degraus de pedra esculpidas no céu
Uma noiva sem véu, uma gaivota branca, uma pomba negra
Na translúcida serenidade de uma manhã de Março
Vi borboletas molhadas em mãos de chuva
Sete passos de água, cabelos soltos na sua claridade
Uma porta antiga abre-se, entras, acordas no silencio da memória
És protagonista de uma mágica história, calada, ouvindo os dias que se foram
Que roupa despiste para amar, para outro corpo em ti entrar?
Na tua alma alva, livre na brancura dos sentidos
Tenho os lábios secos de tanta palavra, na madrugada da melancolia
Nos cânticos do silencio atravessas a rua, mudas a cor do mundo
Do meu...
É tão inocente a idade de plantar sonhos impossíveis
Nos inaudíveis segredos da terra sinto-te em mim
Pedra a pedra a música da tua voz
Este marinheiro em casca de noz
Vim dali sabes, da cidade das memórias perdidas
Subi para te ver um imenso e frio muro
Tenho uma folha branca em minha mão...
O DIÁRIO DO NOSSO FUTURO...

sexta-feira, 17 de março de 2017

PRIMEIRO NOME DE UMA MULHER


Ainda há pouco
Passei num jardim de negra pedra
Dei às palavras a infância da água
Ainda há pouco olhei-me ao espelho e vi-me louco...

Entre mim e as palavras há sempre uma promessa
Entre mim e ti uma eterna espera
Entre mim e Deus uma Santa guerra
Entre mim e o sonho apenas uma quimera

Já ouvi a respiração das estátuas
Um peixe voador sem temor
Já ouvi uma gaivota chorar
Já chorei apenas por te amar

Neste êxtase fugidio
Um milhafre perdeu o pio
Nos pátios da solidão
Um poeta perdeu o coração

Vivo, morro, nasço e voo em cada instante
Às vezes faço cara de importante
Ardo no destino em desatino
E perco o rumo quando caminho

Quando te lembrares de mim
A tua alma voltar a voar
Quando um soluço parar o teu coração
Quando o vazio tocar a tua mão

...já pedi mil vezes perdão
Para quê?
A mágoa tem a cor da chuva ou da sarça
“Só não ama quem não vê”

Entre o fogo e o abraço inapagável
Levarás para sempre a ilha escondida
No imutável, revolto pó das sombras
Procurei a minha alma perdida

Atirei uma pedra à melancolia das pedras
O naufrágio da voz errante, o que Deus quiser
Do mar às vezes regressam barcos
Com o...PRIMEIRO NOME DE UMA MULHER...

quinta-feira, 9 de março de 2017

O SENHOR DOS SONHOS


Na ilha dançam sombras musicais
Há vulcões escondidos em pálpebras vidradas
Um sonho de barco partindo sem fim
Um lago transparente onde choram as mal-amadas...

...Gaivotas perdidas do mar
Na encruzilhada de um perdido horizonte
Para ser um caminho que se escolhe
Quando o amor fala nos olhos do ultimo sobrevivente

Era longe, muito longe o lugar
Onde me perdi de ti
Se soubesse jamais havia uma recordação
Se soubesse mandava calar o coração

Um inerte cobertor de folhas verdes
Um rosa coberta de manhãs de nevoeiro
Plantei uma roseira no lugar de um desgosto
Esperei por ti nas ramagens absurdas do sol-posto

Há flores sem futuro
Há maçãs amargas no escuro
Há um copo cheio de saudades e dor
E há um coração eternamente ligado ao teu em amor

Trespassado pela monotonia do mar rasgando as rochas
Sorri para uma mulher de negro de mãos-postas
Aguardando serenamente no lugar da tua ausência
Para em cada passo erguer os braços aos céus mais infinitos

Tu
Não és mais do que luz
Um poema magnifico como o silêncio
Um anjo que os meus olhos seduz

Tu és Princesa sentada no cais do lago azul
O erguer da madrugada em esplendor
Um milhafre triunfante rasgando o ar
O amor plasmado no verbo amar

E o que sou eu?
Um poeta na espera ou um simples ateu
Um homem fugido aos seres bisonhos
Não! Apenas...O SENHOR DOS SONHOS...

sábado, 4 de março de 2017

SEMENTES DO OLHAR


O voar de uma gaivota varrendo a penedia
Uma singela flor que eclodiu no dia
Um campo de esperanças sem nostalgia
Esta singela alma que em Deus confia

Quero descer estes degraus da vida
De mansinho
Quero falar-te de todos os meus sonhos
Prender-me a ti em amarras de carinho

Libertei-me das grilhetas da maldade
Dei às palavras a infância da água
Numa fátua conivência do meu coração com o teu
Atirei ao mar a dor, a mágoa

És o verbo que evoca o oiro mais raro
Pássaro que canta a feliz memória
Um azul vespertino com mantos ardentes
A parte terna de uma emocionante história

Descalço-me frente das tuas ultimas palavras
Por este tempo
Por elas passaram gaivotas famintas
Não recolhi os frutos caídos deste outono

No êxodo dos instantes escrevo
À vezes amo o que não vejo
E no sussurrar desta irreverente poesia
Quero apenas plantar em ti alegria

Entre mim e as palavras há apenas amor
Um sentimento de fragor mais claro
Descanso o olhar sobre a tarde do mundo
Porque amar deve sempre habitar o mais profundo

Entrego-te
Partes de mim como uma profecia
Na lonjura onde o coração se consome na ausência
Continuo a ser apenas um miúdo pobre que em Deus confia

Um poeta louco
Perdido na distancia do amar
Porque a flores que crescem no coração
São de...SEMENTES DO OLHAR...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O FEITICEIRO DE OZ


O espaço provável do voo de uma gaivota
O peso da idade inadiável
O lembrar do Sol em cada grito
O crescer como quem devora um destino de aflito

Estas mãos metidas no papel
Vasculhando na sombra a dor da rosa
A vos que devasta a canção do mudo
Abortando em cada manha raivosa

Os sapatos num canto
Os presentes de outono
O segredo das águas de Abril
O contar dos sonhos, são mil

O carnaval dos tolos
Um palhaço que não ri
Um poeta mais vivo que morto
Com uma imensa saudade de ti

Um arlequim sem Columbina
Um archote de fogo brando
Uma dama duvidosa piscando o olho
O gesto obsceno de um malandro

Sabes...?!
Já fui palhaço sem rubro nariz
Já escapei da morte por um triz
Já fui criança e gente feliz

Sabes...?
Já fui santo e pecador
Já misturei a verdade com a dor
Já fiz coisas boas, já fui ator...

...Carteirista, arrivista, salteador
Fui golfinho, rei de um país sem gente
Até já fui um pobre pedinte de amor
Até com um sorriso teu fiquei contente

Sou o que sou!
Já fui o ultimo num desafio derradeiro
Já mergulhei onde o mar despeja a sua ira
Vejam bem, até já fui um ...OZ DE FEITICEIRO...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

NÃO É FÁCIL PERDER-ME DE TI


Habitei o sitio onde o grito se enrola nas lágrimas
Vou abandonar este inverno de dor
A caminho do verão ouvindo o mar
Vou, quero ir a lugar nenhum, não quero ficar

Inexplicáveis desertos
Golfinhos morrendo de tristeza
Gaivotas famintas
Viver sem certeza

Uma mentira cai contra a parede do mundo
Uma sereia decide deixar o mar profundo
A sombra de uma vida tombada
Nos pátios da solidão, perdi o coração

Não...!
Foi arrancado por cruel mão
Esbracejo vencido sobre olvidadas folhas sem tinta
Como raízes de uma árvore extinta

Apetece rebentar na cabeça o silêncio
Fugir de mim numa viagem sem fim
Ir ver a maneira como morre o sol
Morrer, perder-me de mim

A noite aproxima-se hesitante
Há sempre em cada esquina, numa porta por fechar
Dentro da sombra
Um punhado de amor esperando o despertar

Recolho na hipnose dos sons
O meu sangue perdido entre dois mundos
Sonhos moribundos
Sou apenas o rei dos vagabundos

Um suspiro definitivo
A palavra que se recolhe amarga
Sou o vencido, não espero o abraço
Exigindo um nome, perdoando a demora

Uma criança que chora
Um poeta que já não sorri
Sabes?! Mesmo que eu queira partir
...NÃO É FÁCIL PERDER-ME DE TI

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

UM TRAGO DE AMOR


Nos degraus da vida
Sentas-te na cadeira do mar
Numa fátua convivência com os anjos
Soletrando o verbo amar

Corres cortinas
Recolhes o sol ao regaço
Com os pés descalços sobre instantes
Com a dança feliz de apenas um passo

Podia ser apenas uma fotografia
Uma pintura de Renoir
Sobre as rosas do silêncio
Na virgindade das folhas, num pensamento

Esta ilha esteve sempre perto do mar
Este mar esteve sempre tão preso a mim
Esta grande e impenetrável noite
Um sorriso de luar sem fim

Sussurro-te:
Quero-te assim
Levanto a água dos teus cabelos
Com as nuvens faço novelos

Estou de regresso de infindáveis agitações
Os lugares imanavam outra existência
Onde algures água pode chegar
Tento ao ritmo do teu sonhar

No teu coração desenhei o limite das montanhas
O saborear a terra de flores frescas
O recolher a sombra do teu corpo de Sol
O tingir dos sons das divinas festas


Não há nenhum barco pronto a partir
Na solidão do crepúsculo da voz aflita
Verticalmente duradouro
Nos olhos cerrados da manhã infinita

No balanço do pensamento
Na noite respingou um suspiro de dor
Ergui este cálice de mágico absinto
Bebi a esperança...NUM TRAGO DE AMOR...