sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O APANHADOR DE ILUSÕES


Uma vez acordei com uma voz doce
Que me disse:
Desenha-me uma ilusão, uma ilusão
Levantei-me num salto, terei tinta que baste
Neste dorido coração?!

A mesma voz insistiu
Se não puderes, se não souberes
Então: deixa que a tinta tome conta da tua mão
Só tens que deixar sair a paixão

Uns olhos esbugalhados de criança
Trapos tapando o Sol da esperança
`Pés descalços no barro da terra
Um pequeno guerreiro que na vida espera

Nas réstias de luz que confundem o passado
Vi teus ternos olhos a chorar
Vi junto a ti um anjo tocar-te o rosto e sorrir
“Os olhos que choram não sabem mentir”

E pintei o Mundo no gesto sereno e demorado
Pintei com noticias das saudades ausentes
Revelei o paredume invicto das descobertas e labirintos
E a cada pincelada enchi a alma de presentes

Sabem lá as coisas que pintei
Sabem lá como esta alma sentiu o voar
Sabem lá o que fiz para te poder ver
Desde a noite, até ao ruído das gaivotas ao amanhecer

Talvez seja um comovido marinheiro de outras eras
Talvez habite o sitio onde as crianças buscam o sonho
Talvez tenha recolhido do mar um molho de esperas
Talvez tenha ouvido mal palavras sinceras

Só sei que o amor é uma palavra apenas
Que tal como as montanhas que se desfazem devagar
Nem sempre quem o sente é capaz de amar
Penso que o que sinto é diferente, deixem lá, não digo
Eu que até sou um poeta que tem a mania que é gente

Fiquemos por aqui onde há um coração rubro
Batendo ao ritmo das ondas brancas
Chegando-se sempre mais ao calhau redondo
Preso ao mar cheio de âncoras cansadas
Lembremos apenas que a cor não define o objeto
Antes o limita no contexto da paisagem na lentidão dos olhares
Eu hoje só queria falar dos suspiros de pássaros breves
Este...APANHADOR DE ILUSÕES

3 comentários:

LuísM Castanheira disse...

ler poesia como esta, "rasgada no peito", é uma profecia cumprida:
as emoções solta-se...
e o profeta encontra-se na "terra prometida".
um abraço

luar perdido disse...

Apanha as ilusões e transforma-as em telas de magia - como só tu sabes -, poeta dos mares azuis. Como só tu podes, profeta das brumas, perenes e oloroas, das lagoas que te coroam os sonhos. Ninguém sabe o que pinta um poeta; Ninguém pode descobrir o que a sua alma desenha e pinta até que a tela mais sublime esteja pronta.
Dos olhos de criança esbugalhados de sonhos, húmidos de desencanto e enevoados de ânsias - que o anjo da guarda beija-, emanam as tintas com que pintas esta tela de ilusão. Mas, poeta, não digas que o amor é uma palavra apenas: ou todos os presentes que pões na alma (de eterna gaivota saudosa) perdem a essência, perdem o brilho. Deixa as esperanças, que colheste no mar, serem as cores da tela, deixa o coração bater, rubro, nas brancas ondas desse oceano que é a cor da tua alma.... Levanta-te poeta! " deixa que a tinta tome conta da tua mão. Só tens que deixar sair a paixão"....

Mais uma pérola de poesia como só teu génio criador é capaz.
Beijo de luar

Célia Rangel disse...

Há um conceito de que nas ilusões busca-se o elixir da vida... Nessa poesia há conteúdo que torna a paixão pela vida, suprema e desmistifica a dor de amar!
Abraço.