terça-feira, 30 de maio de 2017

ENSEADA DE PALAVRAS


Ouvirei passos de vento
Virão ao meu encontro gaivotas azuis
Trago no peito uma hortênsia fresca de junho
Trago na mão uma verdade que empunho

Quando as aves cantam ao entardecer
Fico-me pela ramagem da nostalgia
Sinto os prodígios da música feliz
Este homem, este poeta, este petiz

Correm nas horas palavras como amoras
Um rosto atravessa isolados prados na vida
Deixei de plantar carinho, quando não me querem
Fechei a ternura numa caixinha devolvida

Quem és!?
Para onde correm os teus anseios?
Os meus olhos apenas recolhem cânticos de silêncio
Já não navego na Baia de todos os medos

Uma pequena pedra, a sorte...?!
A fé que me guia e me dá norte
Pedra na voz de uma menina
Não há melancolia, recomeçarei, não há morte!

Nos bolsos de um espantalho encontrei
Um papel que dizia assim:
“Nesta ilha descobri teus olhos
No acreditar voltarás para mim”

Se falassem estas mãos diriam
Ouve a voz imensa da terra
Que nunca morra a saudade
Que se instaure uma real verdade

São brancos os meus sentires
É alva a minha dorida alma
Que ninguém me trate mais como: “és mesmo assim”
Que se fechem os impuros corações que se lembram de mim

Eu já existia na ausência do teu nome
Sou um menino sem revolta ou mágoas
Nestas ultimas e felizes horas
Habitei numa...Enseada de Palavras...

sexta-feira, 26 de maio de 2017

TEMPLO SE SILENCIO

Um fogo brando, um céu que hás vezes é azul, outras negro como os pássaros de infeliz pena. A força da minha voz nunca se ouvirá para além deste rochedo. As valas e grotas nunca se fecharam para me deixarem passar. Por gaivotas, por maldições aqui o Mar rouba o som do bater dos corações e o corpo é apenas haste ou ramo de loureiro poupado ao vento e ao tempo, na sorte e misericórdia de Deus, se existe?! Às vezes penso que somos apenas pó e água moldados por mão perversa implorando um pedaço de pão, o fogo, a fome caminhando na palidez dos dias. Aramos a terra com as unhas em sangue, como quem arranca o trigo ceifando raivas. Como barcos náufragas. Soçobramos ao anoitecer, criamos epitáfios de dor, ao calor da fogueira contamos mil vezes a mesma lenda. Quando a tarde vem o medo da noite enche-nos de arrepios, de repugnância pela solidão que nos ocupa por dentro de um vazio triste. Olhos manietados junto às sombras indecifráveis passeando pelas paredes de pedra nua enquanto ventos estranhos rebentam com as memórias do que somos, com a fé, com as esperanças aprisionadas a esta frágil existência. Meu Deus, Deixai-me com meus filhos vagar pelas montanhas, pela lã das ovelhas, pela ventania “ “Deixai-me no meu grito, construir um Templo de Silêncio”

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A DOR DE UMA RENUNCIA


Na solidão do crepúsculo
Verticalmente duradouro
A despedaçada boa vontade de amar por amar
O balanço do pensamento
O tempo certo do feliz momento
Uma palavra que se recolhe amarga
No cerne imperceptível duma canção
Porque estando em si ri-se o homem mais infeliz
Na chama das palavras tudo se pode sentir
Num cais de esperas também se pode partir
A sorrir num chorar dolente
O sol sorri na ilha
Se fosse inverno
Se alguém reclamasse um sussurro
No vazio da voz imensa
Uma criança quando chora não pensa
Por tudo isso
Sinto nos poros um calor mais suave
Não espero cartas de fora
Voarei no voo da gaivota
Devorando todos os beijos possíveis
Risco o mundo
Deixando as esperanças à tua porta...


segunda-feira, 8 de maio de 2017

CONTEMPLAÇÃO


Corri, caminhei, orei, chorei
Senti o vento brincar no mar
Vi pássaros a cantar
Vi gaivotas descansando o voar
Não tenho Mãe para oferecer uma flor
Sei que lá do alto nunca me falta em amor
Protegem-se as pedras e a saudade
Nesta vida...
Plantei flores, nasceram limões
Há palavras ditas singelas sem contradições
Quando se diz a palavra amo-te às vezes unem-se corações
Nestes dias, faltou-me sempre a bondade
O cuidado que me fazia feliz
Nestes dias de raiva, maldade e esperança
Nestes dias subo para uma folha e papel
Para tentar ungir palavras de confiança
Pintor, navegador de Mares coloridos
Passos perdidos
Perdi anos, risos, abraços e até o amor
Perdi alegria, ganhei alentos e voei em sete ventos
E quando achei que já sabia e tinha tudo
Descobri que ser feliz só é possível em breves momentos...
E porque este é o tempo das flores
O tempo dos namorados patetas
Deu –me para pintar uma tela “UMA OFICINA DE BONECAS”

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A RUA DAS ILUSÕES PERDIDAS


Num salão mal iluminado
Desenhei pernas de mulher que suspiram
Uma ave das sombras e luzes baratas
Um sonhador andar em quatro patas
Uma pose cheia de maneiras
Um chapéu de coco e sete pulseiras
Para afugentar os espíritos
Apenas os bons
“Não há maus espíritos”!
Apenas gente gorda expelindo um ar cansado molhado
De rendas e suor
Este poeta na boca de gente da treta
É apenas um estupor
E se pensam que repenso o passo
Esperem pacientemente num traço (do Pintor)
Farei uma sangria com alecrim
Sobreviverei ao nevoeiro das manhãs eternas
Embriagado de satisfação e cansaço admito aos quatros ventos
Não aguentar-me nas pernas
Porque sou apenas um pássaro, um pardal
Sem canto, sem penas...

sexta-feira, 14 de abril de 2017

HAMLET



Sentimos
Que os rios estarão sempre lá
Que as pedras apenas se movem pelas ondas
Que o Inverno acabará por chegar
O amor nem sempre é por amar
Sentimos
Que a liberdade é um bicho
Vive no mato e arreganha os dentes
As mãos procurando
O espaço branco do leito
Os dedos pressionando a noite
A mulher de boca molhada
Indicando o barulho da cidade
A poesia não tem idade
Mas tem asas
Rasgando a transparência das unhas
Uma estrela do mar
Um bailinho levantando o pó
A sangria da terra na espera da chuva
A vida puta e dura
Uma mulher que se coseu às paredes
Para evitar o largo das sombras
Serei pois um delinquente da palavra
Uma obra já gasta
Uma peça por acabar
Ou apenas a ironia do verbo amar
Embriagado de satisfação e cansaço
Admito aos quatro ventos
Viver amor e paz em mil momentos

Boa Páscoa
Armando Moreira

sexta-feira, 31 de março de 2017

A DEUSA DA LUA BRILHANTE




Nunca serás esquecida
Na desordem da marés
Nessa fotografia ruída pela luz
No olhar de gaivota presa a um convés
Numa distancia infinita mora a tua lembrança
Não posso dar-te a mão: cheguei tarde
Não canto aos deuses da madrugada
Entre ruinas habita o crepúsculo deste coração que arde
Tu és pássaro de voos do olhar
Jardim de todas as estações
Azulejo pintado a carmim
Dois corações
O meu e um que não adivinho os contornos
Porque do lume de ti nunca me aparto
Porque de ti já tentei parir mil vezes, na chegada fico
Nunca parto
De encontro à noite, mãos de viúva
Bordas com fios de luar
Desenhos de saudades
Sonhos de aconchegar
Adormeces, sonhas com um poeta necromante
Voas num céu com capa e véu
Deusa da Lua brilhante




quinta-feira, 23 de março de 2017

O DIÁRIO DO NOSSO FUTURO


Fazes-me sentir nervoso
Faço-te sentir calma
Fazes-me sonhar em acesa chama
Faço te soletrar a palavra ama
Este sol entrou em meu peito com ecos de verão
O odor solar brusco das nêsperas maduras
O meu coração no bater das ondas contra a tarde
A verdade...
Fotograma verdade, fotograma mentira
A vida a preto e branco
Nunca escolhi um barco para descobrir o horizonte
Vez agora na neblina as pegadas das aves do mar
Os degraus de pedra esculpidas no céu
Uma noiva sem véu, uma gaivota branca, uma pomba negra
Na translúcida serenidade de uma manhã de Março
Vi borboletas molhadas em mãos de chuva
Sete passos de água, cabelos soltos na sua claridade
Uma porta antiga abre-se, entras, acordas no silencio da memória
És protagonista de uma mágica história, calada, ouvindo os dias que se foram
Que roupa despiste para amar, para outro corpo em ti entrar?
Na tua alma alva, livre na brancura dos sentidos
Tenho os lábios secos de tanta palavra, na madrugada da melancolia
Nos cânticos do silencio atravessas a rua, mudas a cor do mundo
Do meu...
É tão inocente a idade de plantar sonhos impossíveis
Nos inaudíveis segredos da terra sinto-te em mim
Pedra a pedra a música da tua voz
Este marinheiro em casca de noz
Vim dali sabes, da cidade das memórias perdidas
Subi para te ver um imenso e frio muro
Tenho uma folha branca em minha mão...
O DIÁRIO DO NOSSO FUTURO...

sexta-feira, 17 de março de 2017

PRIMEIRO NOME DE UMA MULHER


Ainda há pouco
Passei num jardim de negra pedra
Dei às palavras a infância da água
Ainda há pouco olhei-me ao espelho e vi-me louco...

Entre mim e as palavras há sempre uma promessa
Entre mim e ti uma eterna espera
Entre mim e Deus uma Santa guerra
Entre mim e o sonho apenas uma quimera

Já ouvi a respiração das estátuas
Um peixe voador sem temor
Já ouvi uma gaivota chorar
Já chorei apenas por te amar

Neste êxtase fugidio
Um milhafre perdeu o pio
Nos pátios da solidão
Um poeta perdeu o coração

Vivo, morro, nasço e voo em cada instante
Às vezes faço cara de importante
Ardo no destino em desatino
E perco o rumo quando caminho

Quando te lembrares de mim
A tua alma voltar a voar
Quando um soluço parar o teu coração
Quando o vazio tocar a tua mão

...já pedi mil vezes perdão
Para quê?
A mágoa tem a cor da chuva ou da sarça
“Só não ama quem não vê”

Entre o fogo e o abraço inapagável
Levarás para sempre a ilha escondida
No imutável, revolto pó das sombras
Procurei a minha alma perdida

Atirei uma pedra à melancolia das pedras
O naufrágio da voz errante, o que Deus quiser
Do mar às vezes regressam barcos
Com o...PRIMEIRO NOME DE UMA MULHER...

quinta-feira, 9 de março de 2017

O SENHOR DOS SONHOS


Na ilha dançam sombras musicais
Há vulcões escondidos em pálpebras vidradas
Um sonho de barco partindo sem fim
Um lago transparente onde choram as mal-amadas...

...Gaivotas perdidas do mar
Na encruzilhada de um perdido horizonte
Para ser um caminho que se escolhe
Quando o amor fala nos olhos do ultimo sobrevivente

Era longe, muito longe o lugar
Onde me perdi de ti
Se soubesse jamais havia uma recordação
Se soubesse mandava calar o coração

Um inerte cobertor de folhas verdes
Um rosa coberta de manhãs de nevoeiro
Plantei uma roseira no lugar de um desgosto
Esperei por ti nas ramagens absurdas do sol-posto

Há flores sem futuro
Há maçãs amargas no escuro
Há um copo cheio de saudades e dor
E há um coração eternamente ligado ao teu em amor

Trespassado pela monotonia do mar rasgando as rochas
Sorri para uma mulher de negro de mãos-postas
Aguardando serenamente no lugar da tua ausência
Para em cada passo erguer os braços aos céus mais infinitos

Tu
Não és mais do que luz
Um poema magnifico como o silêncio
Um anjo que os meus olhos seduz

Tu és Princesa sentada no cais do lago azul
O erguer da madrugada em esplendor
Um milhafre triunfante rasgando o ar
O amor plasmado no verbo amar

E o que sou eu?
Um poeta na espera ou um simples ateu
Um homem fugido aos seres bisonhos
Não! Apenas...O SENHOR DOS SONHOS...

sábado, 4 de março de 2017

SEMENTES DO OLHAR


O voar de uma gaivota varrendo a penedia
Uma singela flor que eclodiu no dia
Um campo de esperanças sem nostalgia
Esta singela alma que em Deus confia

Quero descer estes degraus da vida
De mansinho
Quero falar-te de todos os meus sonhos
Prender-me a ti em amarras de carinho

Libertei-me das grilhetas da maldade
Dei às palavras a infância da água
Numa fátua conivência do meu coração com o teu
Atirei ao mar a dor, a mágoa

És o verbo que evoca o oiro mais raro
Pássaro que canta a feliz memória
Um azul vespertino com mantos ardentes
A parte terna de uma emocionante história

Descalço-me frente das tuas ultimas palavras
Por este tempo
Por elas passaram gaivotas famintas
Não recolhi os frutos caídos deste outono

No êxodo dos instantes escrevo
À vezes amo o que não vejo
E no sussurrar desta irreverente poesia
Quero apenas plantar em ti alegria

Entre mim e as palavras há apenas amor
Um sentimento de fragor mais claro
Descanso o olhar sobre a tarde do mundo
Porque amar deve sempre habitar o mais profundo

Entrego-te
Partes de mim como uma profecia
Na lonjura onde o coração se consome na ausência
Continuo a ser apenas um miúdo pobre que em Deus confia

Um poeta louco
Perdido na distancia do amar
Porque a flores que crescem no coração
São de...SEMENTES DO OLHAR...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O FEITICEIRO DE OZ


O espaço provável do voo de uma gaivota
O peso da idade inadiável
O lembrar do Sol em cada grito
O crescer como quem devora um destino de aflito

Estas mãos metidas no papel
Vasculhando na sombra a dor da rosa
A vos que devasta a canção do mudo
Abortando em cada manha raivosa

Os sapatos num canto
Os presentes de outono
O segredo das águas de Abril
O contar dos sonhos, são mil

O carnaval dos tolos
Um palhaço que não ri
Um poeta mais vivo que morto
Com uma imensa saudade de ti

Um arlequim sem Columbina
Um archote de fogo brando
Uma dama duvidosa piscando o olho
O gesto obsceno de um malandro

Sabes...?!
Já fui palhaço sem rubro nariz
Já escapei da morte por um triz
Já fui criança e gente feliz

Sabes...?
Já fui santo e pecador
Já misturei a verdade com a dor
Já fiz coisas boas, já fui ator...

...Carteirista, arrivista, salteador
Fui golfinho, rei de um país sem gente
Até já fui um pobre pedinte de amor
Até com um sorriso teu fiquei contente

Sou o que sou!
Já fui o ultimo num desafio derradeiro
Já mergulhei onde o mar despeja a sua ira
Vejam bem, até já fui um ...OZ DE FEITICEIRO...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

NÃO É FÁCIL PERDER-ME DE TI


Habitei o sitio onde o grito se enrola nas lágrimas
Vou abandonar este inverno de dor
A caminho do verão ouvindo o mar
Vou, quero ir a lugar nenhum, não quero ficar

Inexplicáveis desertos
Golfinhos morrendo de tristeza
Gaivotas famintas
Viver sem certeza

Uma mentira cai contra a parede do mundo
Uma sereia decide deixar o mar profundo
A sombra de uma vida tombada
Nos pátios da solidão, perdi o coração

Não...!
Foi arrancado por cruel mão
Esbracejo vencido sobre olvidadas folhas sem tinta
Como raízes de uma árvore extinta

Apetece rebentar na cabeça o silêncio
Fugir de mim numa viagem sem fim
Ir ver a maneira como morre o sol
Morrer, perder-me de mim

A noite aproxima-se hesitante
Há sempre em cada esquina, numa porta por fechar
Dentro da sombra
Um punhado de amor esperando o despertar

Recolho na hipnose dos sons
O meu sangue perdido entre dois mundos
Sonhos moribundos
Sou apenas o rei dos vagabundos

Um suspiro definitivo
A palavra que se recolhe amarga
Sou o vencido, não espero o abraço
Exigindo um nome, perdoando a demora

Uma criança que chora
Um poeta que já não sorri
Sabes?! Mesmo que eu queira partir
...NÃO É FÁCIL PERDER-ME DE TI

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

UM TRAGO DE AMOR


Nos degraus da vida
Sentas-te na cadeira do mar
Numa fátua convivência com os anjos
Soletrando o verbo amar

Corres cortinas
Recolhes o sol ao regaço
Com os pés descalços sobre instantes
Com a dança feliz de apenas um passo

Podia ser apenas uma fotografia
Uma pintura de Renoir
Sobre as rosas do silêncio
Na virgindade das folhas, num pensamento

Esta ilha esteve sempre perto do mar
Este mar esteve sempre tão preso a mim
Esta grande e impenetrável noite
Um sorriso de luar sem fim

Sussurro-te:
Quero-te assim
Levanto a água dos teus cabelos
Com as nuvens faço novelos

Estou de regresso de infindáveis agitações
Os lugares imanavam outra existência
Onde algures água pode chegar
Tento ao ritmo do teu sonhar

No teu coração desenhei o limite das montanhas
O saborear a terra de flores frescas
O recolher a sombra do teu corpo de Sol
O tingir dos sons das divinas festas


Não há nenhum barco pronto a partir
Na solidão do crepúsculo da voz aflita
Verticalmente duradouro
Nos olhos cerrados da manhã infinita

No balanço do pensamento
Na noite respingou um suspiro de dor
Ergui este cálice de mágico absinto
Bebi a esperança...NUM TRAGO DE AMOR...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

UM SONHO MAIOR QUE AS PALAVRAS


Estas mãos prenderam-se ao teu perfume
Estas emoções partiram-me o coração
Estas quatro estações sem luz
Esta pedra na tua voz que me seduz

Uma revoada de nuvens brancas
Uma revoada de pássaros
Um mar com ondas de gaivotas
Um vale de esperanças já mortas

Um torpor da terra em teu coração
Um cheiro de solidão
O voar de uma canção
O amarrar a respiração

Uma mulher vestida de neve
As pedras solares de longínquos pátios
Uma espera vestida de quimera
O gesto no fogo, suaves murmúrios

Se falasse de ti diria:
És um céu de utopias
As inalcançáveis estrelas
Um canteiro de frescas margaridas

De mim não falarei
Estou perdido na mudez da neblina
Nas pegadas das aves do mar
Nas penas de um anjo de água

Este duro ar da saudade
Esta inútil verdade
Estas penas que ardem quietas
Esta silenciosa cidade

Cortam o carinho
As mãos urgentes do pecado
Uma alegria arde com as sombras
A triste música das pedras se erguendo

Um condenado, um tolo chapado
Uma alma transbordando as magoas
Já perdoei quem me feriu a alma
Ficou... UM SONHO MAIOR QUE AS PALAVRAS...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O SILENCIO DO AMOR


Este vento quieto da alma
Uma sombra jaz no chão amordaçada
A morte tem um olhar louco
Despedaçando a luz na voz calada

E de repente as paisagens tombaram
Enquanto a poesia se desprende dos livros
Uma mulher perdida na multidão
Uma rosa breve atirada ao chão

O eco de uma voz de sabor taciturno
A força da palavra num coração livre
Um anjo que morre na terra nua
O encontro dos desencontrados no fim da rua

Todos os dias
Provo ao mundo a razão de ser
Quando falo pelos olhos do ultimo sobrevivente
Pela sombra devastadora ensombrando o querer

O gesto amado da mão do pintor
Há algo em ti que me fala da magia, das constelações
Mulher do mar, amantíssima de oceanos
Mulher que sente o bater feliz de dois corações

Já fui caminhante sobre a espuma
Já fui arquiteto de castelos de areia
Já fui domador de baleias
Já fui pássaro alado na lua cheia

Tudo isso
No verso extenso escondido no horizonte
Nos estios de planícies cobrindo árvores
Preenchendo um qualquer vácuo descontente

Fosse porque fosse vivi sempre preso ao mar
Na branca imensidão de uma página inteira
Fosse porque fosse na caminhada de sóis e dos gentios
Voei nas nuvens, chorei nos rios

Já sonhei ao doce sem violinos encantados
Já vi negarem a oferta de uma flor
Já amei no lugar sem fronteiras onde as coisas fazem sentido
No...SILENCIO DO AMOR

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O DOMADOR DE BORBOLETAS


Nestas palavras
Corres pela água do mar
Arregaças alegria da vida
És gaivota com penas de voar

Perguntas:
O que é a distância do sonhar
A palavra por falar
A fonte do amar?

Vi-te crescer nas estações do crepúsculo
Vi-te não responder ao eco do teu nome
Vi-te absorta deixar cair sementes de dor
Vi-te rosa breve sem cor

Cheguei numa manhã cheirando a hortelã
Lancei sementes de esperança num primeiro olhar
Vim sem memórias, sem histórias para contar
Vim apenas sentir nos dedos o sabor do mar


Vim nu
Um sorriso veste de sol o rosto de qualquer um
Observei nos olhos de uma mulher o mundo
E senti que os sentimentos moram num azul profundo

Divagações da alma
Pobre poeta em cais de espera
Ausente do seu nome
Sem ver, os frutos da infância por colher

Tenho saudades latejantes, quentes
Este pássaro mudo pateta
Este ser que se veste de vento
Esta viagem num luar de volta completa

Não rezo aos deuses na madrugada
Do lume de mim nunca se aparta a alegria
Já dancei só entre as ruínas
Já adormeci num manto de nostalgia

Já amei, tive raiva, odiei
Já fiz desenhos de sonhos no mar
Já andei de mão dada com a loucura
Já amei gente de alma tão dura

Nasci nesta ilha onde se voa no olhar
Já dei nesta vida 7 voltas completas
Já tive mil ofícios absurdos
Até já fui...Domador de Borboletas...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SUAVE VENENO


A voz que nasce nestas águas
Tenho nos dedos a sede do teu corpo
Tenho o teu riso recolhido ao meu olhar
Tenho no peito uma palavra que pulsa, amar

Este pescador de estrelas do mar
Domador de ventos
Este fazedor de sonhos impossíveis
Este construtor de ingénuos sentimentos

Como te apago do coração arroxado?
Sentimento amarrado ao ignavo arder do corpo
Um cíclame que cresce entre sombras
As falésias tangidas de um pecado já morto

Já fechei as portas da casa da memória
Abri janelas às anémonas da madrugada
Ensinei uma gaivota a voar
E descobri que é igual ao poder amar

E voei...
Feliz para as primeiras amoras
Senti os prodígios da terra
Jurei não ser guerreiro em santa guerra

Jurei...
Sobre o teu nome ausente da ilha
Na voz de uma menina voando sobre o orvalho dos frutos
Jurei ter visto em ti a saudade e a maravilha

Os fascínios do mar
O torpor da terra lavrada
A tua respiração
Um beijo na boca calada

No outro lado da luz
Um cheiro de solidão
Os paços leves de uma garça
O afago de Deus numa mão

Este imperturbável vento
Os cabelos soltos na sua claridade
Sabem lá o que sente este poeta
Sabem lá o que é amor e verdade

Na translúcida serenidade desta casa
Hoje apeteceu escrever mais cedo

Não sei se falei de amor, dor ou paixão
Ou derramei no papel um... SUAVE VENENO

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

ESTE ESGOTAR NOS LÁBIOS


Fria, a manhã cresce
No longo sono das hortênsias
Esta lava escura do inverno
Serena com os meus olhos colhendo

Este lembrar de ti a cada segundo
Este acaso clamando um novo dia
Aqui a terra fechando-se em volta de tudo
Uma canção presa á boca de um mudo

Um desejo
A poesia infinita de um beijo
A verdade que rasga os olhos
A voz que devasta o coração, tudo

Nos vossos corações
Deixai-me criar epitáfios
Uma voz calada
Mais vibrante que esta branda fala

Já enlouqueci
Passeei os olhos pelas sombras de uma parede nua
Já deixei um abraço suspenso
Numa fria rua

Contigo...
A entrega dos sentidos
No pousar dos lábios sobre a carne
Com a vida a chamar-me à realidade

Encontrei...
Segredos escondidos na penumbra
Um amar com feições novas
O desejo da pedra, o conhecimento da espera

Este compasso febril do coração
Esmagando os medos do silencio sem ver
Sabes, o choro não rasga horizontes
Nem a saudade é fácil esconder

O teu silencio
É o nosso murmúrio surdo das árvores
E assim o sonho se perde no esquecimento do mar brincando
E assim o mundo para quando o amor se solta de um coração chorando

Bifurcando os contornos deste ano que começa
Olhei-me de mil formas nesta sala de espelhos
Já proferi mil palavras de amar
...ESTE ESGOTAR NOS LÁBIOS...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

POR AMOR


Plantei o vento numa manhã de bonança
Inventei a água num triste olhar
Prendi um sol ao meu coração
Pintei estrelas para te encontrar

Desenhei a transparência da música
Prendi o mar numa caixinha de segredos
Fiz amor numa noite de Lua cheia
E fui guerreiro valente, sem medos

Vi a manhã desbaratar o nevoeiro
Contei as vagas de uma paixão perdida
Rezei aos deuses e pedi um sinal de ti
E entre fundações de luz bebi absinto e morri

Renasço no orvalho da aurora que resvala no silêncio
Suspenso no monótono cantar das gaivotas
Ao ver recolher os ígneos vultos do mar
Ensaudecido pelos acordes das fragas coando os ecos

Não digas a ninguém que uma ilha é um barco
Que ninguém procura ouro num charco
Que a paixão é a seta num arco
Que a saudade não se desenha num trapo

Já percorri um jardim de maçãs
Já enxuguei os olhos num avental
Já me vesti de palhaço e Arlequim
E já me convenci que o amor vivia em mim

Sou um convencido, não sou!?
Um roubador de ninhos de verão
Já fui espantalho num campo árido
Já remexi nos bolsos sombras e assombração

“Já me vesti de amor para te amar”
Usei um avião de papel para te encontrar
Já escrevi na areia a palavra amar
Já perdi o coração no teu olhar

Sei lá o que já fiz
Só não fui herói por um triz
Sei lá se sou o vilão que por aí se diz
Ou apenas o sonho de amor de gaivota feliz

Não sei bem quem sou
Sei apenas que sou golfinho azul
Conteira perfumada
Andorinha do Mar voando para sul

Sei tanto, tão pouco
Um génio ou louco
Um bom homem ou estupor
Sei apenas que tudo faço... POR AMOR...