quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O FEITICEIRO DE OZ


O espaço provável do voo de uma gaivota
O peso da idade inadiável
O lembrar do Sol em cada grito
O crescer como quem devora um destino de aflito

Estas mãos metidas no papel
Vasculhando na sombra a dor da rosa
A vos que devasta a canção do mudo
Abortando em cada manha raivosa

Os sapatos num canto
Os presentes de outono
O segredo das águas de Abril
O contar dos sonhos, são mil

O carnaval dos tolos
Um palhaço que não ri
Um poeta mais vivo que morto
Com uma imensa saudade de ti

Um arlequim sem Columbina
Um archote de fogo brando
Uma dama duvidosa piscando o olho
O gesto obsceno de um malandro

Sabes...?!
Já fui palhaço sem rubro nariz
Já escapei da morte por um triz
Já fui criança e gente feliz

Sabes...?
Já fui santo e pecador
Já misturei a verdade com a dor
Já fiz coisas boas, já fui ator...

...Carteirista, arrivista, salteador
Fui golfinho, rei de um país sem gente
Até já fui um pobre pedinte de amor
Até com um sorriso teu fiquei contente

Sou o que sou!
Já fui o ultimo num desafio derradeiro
Já mergulhei onde o mar despeja a sua ira
Vejam bem, até já fui um ...OZ DE FEITICEIRO...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

NÃO É FÁCIL PERDER-ME DE TI


Habitei o sitio onde o grito se enrola nas lágrimas
Vou abandonar este inverno de dor
A caminho do verão ouvindo o mar
Vou, quero ir a lugar nenhum, não quero ficar

Inexplicáveis desertos
Golfinhos morrendo de tristeza
Gaivotas famintas
Viver sem certeza

Uma mentira cai contra a parede do mundo
Uma sereia decide deixar o mar profundo
A sombra de uma vida tombada
Nos pátios da solidão, perdi o coração

Não...!
Foi arrancado por cruel mão
Esbracejo vencido sobre olvidadas folhas sem tinta
Como raízes de uma árvore extinta

Apetece rebentar na cabeça o silêncio
Fugir de mim numa viagem sem fim
Ir ver a maneira como morre o sol
Morrer, perder-me de mim

A noite aproxima-se hesitante
Há sempre em cada esquina, numa porta por fechar
Dentro da sombra
Um punhado de amor esperando o despertar

Recolho na hipnose dos sons
O meu sangue perdido entre dois mundos
Sonhos moribundos
Sou apenas o rei dos vagabundos

Um suspiro definitivo
A palavra que se recolhe amarga
Sou o vencido, não espero o abraço
Exigindo um nome, perdoando a demora

Uma criança que chora
Um poeta que já não sorri
Sabes?! Mesmo que eu queira partir
...NÃO É FÁCIL PERDER-ME DE TI

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

UM TRAGO DE AMOR


Nos degraus da vida
Sentas-te na cadeira do mar
Numa fátua convivência com os anjos
Soletrando o verbo amar

Corres cortinas
Recolhes o sol ao regaço
Com os pés descalços sobre instantes
Com a dança feliz de apenas um passo

Podia ser apenas uma fotografia
Uma pintura de Renoir
Sobre as rosas do silêncio
Na virgindade das folhas, num pensamento

Esta ilha esteve sempre perto do mar
Este mar esteve sempre tão preso a mim
Esta grande e impenetrável noite
Um sorriso de luar sem fim

Sussurro-te:
Quero-te assim
Levanto a água dos teus cabelos
Com as nuvens faço novelos

Estou de regresso de infindáveis agitações
Os lugares imanavam outra existência
Onde algures água pode chegar
Tento ao ritmo do teu sonhar

No teu coração desenhei o limite das montanhas
O saborear a terra de flores frescas
O recolher a sombra do teu corpo de Sol
O tingir dos sons das divinas festas


Não há nenhum barco pronto a partir
Na solidão do crepúsculo da voz aflita
Verticalmente duradouro
Nos olhos cerrados da manhã infinita

No balanço do pensamento
Na noite respingou um suspiro de dor
Ergui este cálice de mágico absinto
Bebi a esperança...NUM TRAGO DE AMOR...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

UM SONHO MAIOR QUE AS PALAVRAS


Estas mãos prenderam-se ao teu perfume
Estas emoções partiram-me o coração
Estas quatro estações sem luz
Esta pedra na tua voz que me seduz

Uma revoada de nuvens brancas
Uma revoada de pássaros
Um mar com ondas de gaivotas
Um vale de esperanças já mortas

Um torpor da terra em teu coração
Um cheiro de solidão
O voar de uma canção
O amarrar a respiração

Uma mulher vestida de neve
As pedras solares de longínquos pátios
Uma espera vestida de quimera
O gesto no fogo, suaves murmúrios

Se falasse de ti diria:
És um céu de utopias
As inalcançáveis estrelas
Um canteiro de frescas margaridas

De mim não falarei
Estou perdido na mudez da neblina
Nas pegadas das aves do mar
Nas penas de um anjo de água

Este duro ar da saudade
Esta inútil verdade
Estas penas que ardem quietas
Esta silenciosa cidade

Cortam o carinho
As mãos urgentes do pecado
Uma alegria arde com as sombras
A triste música das pedras se erguendo

Um condenado, um tolo chapado
Uma alma transbordando as magoas
Já perdoei quem me feriu a alma
Ficou... UM SONHO MAIOR QUE AS PALAVRAS...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O SILENCIO DO AMOR


Este vento quieto da alma
Uma sombra jaz no chão amordaçada
A morte tem um olhar louco
Despedaçando a luz na voz calada

E de repente as paisagens tombaram
Enquanto a poesia se desprende dos livros
Uma mulher perdida na multidão
Uma rosa breve atirada ao chão

O eco de uma voz de sabor taciturno
A força da palavra num coração livre
Um anjo que morre na terra nua
O encontro dos desencontrados no fim da rua

Todos os dias
Provo ao mundo a razão de ser
Quando falo pelos olhos do ultimo sobrevivente
Pela sombra devastadora ensombrando o querer

O gesto amado da mão do pintor
Há algo em ti que me fala da magia, das constelações
Mulher do mar, amantíssima de oceanos
Mulher que sente o bater feliz de dois corações

Já fui caminhante sobre a espuma
Já fui arquiteto de castelos de areia
Já fui domador de baleias
Já fui pássaro alado na lua cheia

Tudo isso
No verso extenso escondido no horizonte
Nos estios de planícies cobrindo árvores
Preenchendo um qualquer vácuo descontente

Fosse porque fosse vivi sempre preso ao mar
Na branca imensidão de uma página inteira
Fosse porque fosse na caminhada de sóis e dos gentios
Voei nas nuvens, chorei nos rios

Já sonhei ao doce sem violinos encantados
Já vi negarem a oferta de uma flor
Já amei no lugar sem fronteiras onde as coisas fazem sentido
No...SILENCIO DO AMOR

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O DOMADOR DE BORBOLETAS


Nestas palavras
Corres pela água do mar
Arregaças alegria da vida
És gaivota com penas de voar

Perguntas:
O que é a distância do sonhar
A palavra por falar
A fonte do amar?

Vi-te crescer nas estações do crepúsculo
Vi-te não responder ao eco do teu nome
Vi-te absorta deixar cair sementes de dor
Vi-te rosa breve sem cor

Cheguei numa manhã cheirando a hortelã
Lancei sementes de esperança num primeiro olhar
Vim sem memórias, sem histórias para contar
Vim apenas sentir nos dedos o sabor do mar


Vim nu
Um sorriso veste de sol o rosto de qualquer um
Observei nos olhos de uma mulher o mundo
E senti que os sentimentos moram num azul profundo

Divagações da alma
Pobre poeta em cais de espera
Ausente do seu nome
Sem ver, os frutos da infância por colher

Tenho saudades latejantes, quentes
Este pássaro mudo pateta
Este ser que se veste de vento
Esta viagem num luar de volta completa

Não rezo aos deuses na madrugada
Do lume de mim nunca se aparta a alegria
Já dancei só entre as ruínas
Já adormeci num manto de nostalgia

Já amei, tive raiva, odiei
Já fiz desenhos de sonhos no mar
Já andei de mão dada com a loucura
Já amei gente de alma tão dura

Nasci nesta ilha onde se voa no olhar
Já dei nesta vida 7 voltas completas
Já tive mil ofícios absurdos
Até já fui...Domador de Borboletas...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SUAVE VENENO


A voz que nasce nestas águas
Tenho nos dedos a sede do teu corpo
Tenho o teu riso recolhido ao meu olhar
Tenho no peito uma palavra que pulsa, amar

Este pescador de estrelas do mar
Domador de ventos
Este fazedor de sonhos impossíveis
Este construtor de ingénuos sentimentos

Como te apago do coração arroxado?
Sentimento amarrado ao ignavo arder do corpo
Um cíclame que cresce entre sombras
As falésias tangidas de um pecado já morto

Já fechei as portas da casa da memória
Abri janelas às anémonas da madrugada
Ensinei uma gaivota a voar
E descobri que é igual ao poder amar

E voei...
Feliz para as primeiras amoras
Senti os prodígios da terra
Jurei não ser guerreiro em santa guerra

Jurei...
Sobre o teu nome ausente da ilha
Na voz de uma menina voando sobre o orvalho dos frutos
Jurei ter visto em ti a saudade e a maravilha

Os fascínios do mar
O torpor da terra lavrada
A tua respiração
Um beijo na boca calada

No outro lado da luz
Um cheiro de solidão
Os paços leves de uma garça
O afago de Deus numa mão

Este imperturbável vento
Os cabelos soltos na sua claridade
Sabem lá o que sente este poeta
Sabem lá o que é amor e verdade

Na translúcida serenidade desta casa
Hoje apeteceu escrever mais cedo

Não sei se falei de amor, dor ou paixão
Ou derramei no papel um... SUAVE VENENO

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

ESTE ESGOTAR NOS LÁBIOS


Fria, a manhã cresce
No longo sono das hortênsias
Esta lava escura do inverno
Serena com os meus olhos colhendo

Este lembrar de ti a cada segundo
Este acaso clamando um novo dia
Aqui a terra fechando-se em volta de tudo
Uma canção presa á boca de um mudo

Um desejo
A poesia infinita de um beijo
A verdade que rasga os olhos
A voz que devasta o coração, tudo

Nos vossos corações
Deixai-me criar epitáfios
Uma voz calada
Mais vibrante que esta branda fala

Já enlouqueci
Passeei os olhos pelas sombras de uma parede nua
Já deixei um abraço suspenso
Numa fria rua

Contigo...
A entrega dos sentidos
No pousar dos lábios sobre a carne
Com a vida a chamar-me à realidade

Encontrei...
Segredos escondidos na penumbra
Um amar com feições novas
O desejo da pedra, o conhecimento da espera

Este compasso febril do coração
Esmagando os medos do silencio sem ver
Sabes, o choro não rasga horizontes
Nem a saudade é fácil esconder

O teu silencio
É o nosso murmúrio surdo das árvores
E assim o sonho se perde no esquecimento do mar brincando
E assim o mundo para quando o amor se solta de um coração chorando

Bifurcando os contornos deste ano que começa
Olhei-me de mil formas nesta sala de espelhos
Já proferi mil palavras de amar
...ESTE ESGOTAR NOS LÁBIOS...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

POR AMOR


Plantei o vento numa manhã de bonança
Inventei a água num triste olhar
Prendi um sol ao meu coração
Pintei estrelas para te encontrar

Desenhei a transparência da música
Prendi o mar numa caixinha de segredos
Fiz amor numa noite de Lua cheia
E fui guerreiro valente, sem medos

Vi a manhã desbaratar o nevoeiro
Contei as vagas de uma paixão perdida
Rezei aos deuses e pedi um sinal de ti
E entre fundações de luz bebi absinto e morri

Renasço no orvalho da aurora que resvala no silêncio
Suspenso no monótono cantar das gaivotas
Ao ver recolher os ígneos vultos do mar
Ensaudecido pelos acordes das fragas coando os ecos

Não digas a ninguém que uma ilha é um barco
Que ninguém procura ouro num charco
Que a paixão é a seta num arco
Que a saudade não se desenha num trapo

Já percorri um jardim de maçãs
Já enxuguei os olhos num avental
Já me vesti de palhaço e Arlequim
E já me convenci que o amor vivia em mim

Sou um convencido, não sou!?
Um roubador de ninhos de verão
Já fui espantalho num campo árido
Já remexi nos bolsos sombras e assombração

“Já me vesti de amor para te amar”
Usei um avião de papel para te encontrar
Já escrevi na areia a palavra amar
Já perdi o coração no teu olhar

Sei lá o que já fiz
Só não fui herói por um triz
Sei lá se sou o vilão que por aí se diz
Ou apenas o sonho de amor de gaivota feliz

Não sei bem quem sou
Sei apenas que sou golfinho azul
Conteira perfumada
Andorinha do Mar voando para sul

Sei tanto, tão pouco
Um génio ou louco
Um bom homem ou estupor
Sei apenas que tudo faço... POR AMOR...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

AS PALAVRAS QUE NUNCA TE DIREI


Ri palhaço
No rosto da ardida terra
No traço áspero do silencio
Numa dor que o coração encerra

Derrama o riso
No amor imutável
Partes de mim como profecia
Na lonjura onde o coração se consome na ausência

Sorri poeta pateta
No encontro das tristes garças de Dezembro
Esta ilha foi sempre a minha vida
Trago sementes de água nos olhos quando amo

Na cálida leveza de uma manhã qualquer
Imprevisíveis tempestades, insondáveis esplendores
A incandescência dos anjos no teu corpo de mulher
Aceno-te de longe com um lenço de água, sem magoa

Debruçados sobre esta vida minha
Ondeiam inúmeros clamores, páginas de esquecimento
“Meu Deus, perdi tanta vida na desordem das marés”
Perdi tanto sonho, procurei ser feliz num momento

Pergunto pelo céu que me esqueceu
Com os dedos adejando sobre a solidão
Pergunto por ti...
Tanta pergunta neste pobre coração

Partirei um dia, tudo parte
Neste coração que arde na saudade
Não consigo responder ao eco do meu nome
Aqui perdido nesta inventada cidade

Passarão Natais e coisas que tais
Acordarei sempre nas estações do crepúsculo
Nestas infindáveis agitações, procuro um sinal no pó
Este Natal convidei a minha Mãe, se não vier estarei só

Que importa...
A minha alma mostra-me um templo
Sei que o meu sonho é sempre maior que as palavras
Agora vejo na nudez da neblina a minha viagem no mundo

Estava para ser uma carta de amor este poema
Uma esperança de um destino que nada sei
Um dia terei coragem para escrever
AS PALAVRAS QUE NUNCA TE DIREI

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A DIVINA COMÉDIA


As pessoas grandes disseram-me um dia:
Para eu deixar de desenhar sonhos
Para eu deixar de inventar cidades e dor
Para eu deixar de querer pão, rir, chorar e amar

Vieram ao meu encontro guitarras chorosas
Gaivotas cansadas da vastidão do mar
Vieram nuvens de uma saudade infinita
Veio um anjo que me disse: nunca deixes de amar

Por aqui, nesta íngreme falésia de palavras
Sente-se nos olhos a humidade das mãos dos anjos
Talvez eu seja apenas um peregrino no mistério da partida
Ou apenas uma semente que brota na melancolia

Por aqui sente-se o sereno afagar os degraus
Um homem amarrado ao ignavo arder do corpo
Elevando os braços ao destino
Uma aura de segredos felizes anunciar um novo caminho

Nunca se apaga o canto dos pássaros da manhã
Agitando os trovadores da sombra
Este homem arde contra a noite com saudades do mar
Estendendo pétalas alvas no teu caminhar

Vim dali, sabes?!
Vivi numa casa de memórias da tua presença
Viajei no topo do vento, nas anémonas madrugadas
Como dois pássaros que se cruzam sem dizer palavras

O recorte deste Dezembro de descontentamento
O recordar de um doce momento
A tua presença constante em pensamento
Nos cânticos do silencio da cor do mundo

Já desenhei o teu nome numa pedra
Já ensaiei uma peça de quimera
Já percorri a esperança com o coração em guerra
Já andei em frente com a alma em espera

Este poema são palavras para os teus olhos colhendo
Numa casa vazia tão perto agora
Sente os inaudíveis segredos da terra
Neste palco, nesta...A DIVINA COMÉDIA...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O TEU CORAÇÃO É A MINHA CASA


Escrevo para que oiças um pássaro
Mas as palavras ardem mudas
Escrevo para que oiças a canção do mar
Mas o teu coração fica mudo no meu chegar

Um azul vespertino enredado no verde
Um olhar dos anjos diurnos
Dispo-me frente às ultimas palavras
Ouvindo a respiração das estátuas

Entre mim e ti
Há o tinir de punhais
Há o Sol e a Lua
Há uma casinha de chocolate no fim da rua

Há um pássaro falador falando de amor
Há um jardim com sonhos plantados
Há uma cerca feita de nuvens felizes
Há uma pomba branca de penas e raízes

Entre o fogo e o abraço inapagável
Ouve o meu silêncio, esta lágrima de dezembro
Quando te lembrares de mim no rumor deste inverno
Saberás que o amor quando é amor, é eterno

Quero atravessar a ilha nos olhos de uma gaivota
Deixar-te no cabelo uma coroa de cintilações
Acenar-te com um lenço de água rente à nostalgia
Na cálida leveza de um olorento fulgor, prender o amor

Subir aos píncaros do poiso
Este pássaro conor
Com o amor todos os poderes renascem afinal
Tal como das pedras às vezes nasce uma flor

Já te senti
Como Mulher que se levanta de manhã antes de amar
Com um espanto de pétalas nos olhos de chuva
Com o canto das cigarras na boca húmida

Se ergueres nos mares castelos
Plantares flores nas lagoas
Se me quiseres de alma pura e nua
Se te abrir os braços no fim da rua

Todas as gerações do vento dançarão
Do céu descerá um lençol de luz espesso
As cigarras cantarão felizes
Neste jardim dos regressos

Então uma secreta mão pintará um doce murmúrio
Os ribeiros cantarão na cintilação da espuma
Numa distancia infinita saberás onde moro
...O TEU CORAÇÃO É A MINHA CASA...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O PEREGRINO


O tempo ressoa nas sementes da terra
Este sussurrar da poesia
Este tinir de espadas, lagos ardentes
Falem-me da música das estrelas sem nostalgia

Uma existência que emana amor
Uma mulher que sorri em flor
Uma paixão a fugir à dor
Um homem que navega sem temor

Um poeta
O crepitar melódico das ausências
Rumores incendiados de uma tristeza
Nos longínquos parques das marés a tua beleza

Queria tanto que minha alma não esquecesse
No torpor da terra, na respiração
Queria tanto sentir de novo, no meu
O terno bater do teu coração

Vivi entre as ruinas da luz
Segui em ti nos voos do olhar
Fui caminhante numa volta completa da Lua
Pergunto pelo inverno adormecido nas mãos do amar

Olhos de água da memória
Um pássaro charlatão ouvindo o mar
A cálida leveza das rosas de Maio
Um barco que traz o teu nome no chegar

E fui navegante sem Mar
Caminhante, caminheiro perdido do achar
Buscador de sonhos no te encontrar
Uma boa nova por chegar

Caminhei com golfinhos por estradas lisas
Bati de mansinho numa muda porta
Voei nos olhos de uma garça de pena torta
Escrevi num lenço de água “ já não importa”

A vida...sem ti...
Contei todas as estrelas que vi
Por não te ver mil vezes morri
Na incandescência dos Anjos o amor senti

Caminhei sobre as ondas
Nos desocultos fascínios do Mar
Tracei rumos de sonho e fantasia no meu destino
Fui, serei apenas...UM PEREGRINO...

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

DOCE NOVEMBRO


Nas folhas das hortências ouve-se o silencio da ilha
Sente-se a humidade dos olhos de um anjo
Chuva miúda, a respiração das acácias
Já perdi de vista o ardente e talhado rosto de Setembro

Um sino cansado, o tremor da tarde
O regresso de uma saudade
Um copo de destino fresco
Celebrando as núbeis virgens de uma inventada cidade

O cicio e a aura dos segredos
Que ilha descubro nos teus olhos?
Gaivota poisada entre as palavras e o branco rumor do mar
Tu que 7 vezes disseste não me amar

Se falasse das tuas mãos
Diria que afagam o adeus no sentir que fica
Se falasse do teu coração
Diria que arroxa uma incontida paixão

Nas lagoas dançam estrelas breves
No espelho de água, ressoam os passos leves das garças
Nas cume eiras o rumor do musgo
As mãos que soltam borboletas molhadas


Nunca vi a sombra de uma estrela
Aqui o silencio cresce como uma rosa
A tua voz orvalho solto das conteiras
Os teus olhos ardentosos da poesia sem prosa

Por ti
Calquei presságios, soltei sonhos
Regressei de outras infindáveis agitações
Por ti plantei no mar todas as minhas emoções

Como se as gaivotas soubessem ouvir o sonho
Como se te vestisses com a túnica de um anjo
Como se corresses entre o fim da memória e o rumor do mar
Como se não soubesses soletrar o verbo amar

Encontrei-te num jardim de água
Com a cor do medo no olhar
Descalça nas crespas águas da dor
“Nunca sabemos a distancia entre o amar e o amor”

Vi-te crescer nas estações do crepúsculo
Deixando cair na água sementes do olhar
Todos os dias do teu sorriso e voz lembro
...Queres ser o meu... DOCE NOVEMBRO?

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O APANHADOR DE ILUSÕES


Uma vez acordei com uma voz doce
Que me disse:
Desenha-me uma ilusão, uma ilusão
Levantei-me num salto, terei tinta que baste
Neste dorido coração?!

A mesma voz insistiu
Se não puderes, se não souberes
Então: deixa que a tinta tome conta da tua mão
Só tens que deixar sair a paixão

Uns olhos esbugalhados de criança
Trapos tapando o Sol da esperança
`Pés descalços no barro da terra
Um pequeno guerreiro que na vida espera

Nas réstias de luz que confundem o passado
Vi teus ternos olhos a chorar
Vi junto a ti um anjo tocar-te o rosto e sorrir
“Os olhos que choram não sabem mentir”

E pintei o Mundo no gesto sereno e demorado
Pintei com noticias das saudades ausentes
Revelei o paredume invicto das descobertas e labirintos
E a cada pincelada enchi a alma de presentes

Sabem lá as coisas que pintei
Sabem lá como esta alma sentiu o voar
Sabem lá o que fiz para te poder ver
Desde a noite, até ao ruído das gaivotas ao amanhecer

Talvez seja um comovido marinheiro de outras eras
Talvez habite o sitio onde as crianças buscam o sonho
Talvez tenha recolhido do mar um molho de esperas
Talvez tenha ouvido mal palavras sinceras

Só sei que o amor é uma palavra apenas
Que tal como as montanhas que se desfazem devagar
Nem sempre quem o sente é capaz de amar
Penso que o que sinto é diferente, deixem lá, não digo
Eu que até sou um poeta que tem a mania que é gente

Fiquemos por aqui onde há um coração rubro
Batendo ao ritmo das ondas brancas
Chegando-se sempre mais ao calhau redondo
Preso ao mar cheio de âncoras cansadas
Lembremos apenas que a cor não define o objeto
Antes o limita no contexto da paisagem na lentidão dos olhares
Eu hoje só queria falar dos suspiros de pássaros breves
Este...APANHADOR DE ILUSÕES

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A COR PURPURA OU O POETA QUE ENSINOU UMA MULHER A VOAR


Nasceste ao mesmo tempo que o sol
No anunciar da voz mansinha da flor
E nasceu o sonho
A fonte da saudade, o amor

Tenho uma carta que nunca abri
Tenho uma paixão suspensa por ti
Sou um palhaço que nunca ri
Tenho guardado um sentimento que já senti

Por isso, vem apenas
Sem dor, sem penas
Como se não houvesse mais nada
Vem vestida da palavra na voz calada

Mas vem sem perguntares pelo amanhã
Pelos abismos que abrem fronteiras nos nossos corpos
Com a lucidez dos espelhos e a espuma inquieta do mar
Vem apenas com um sorriso de amar

Vem, docemente, como um papagaio de papel-de-seda
Em tardes de vento brando
Fala-me de fadas, de castelos, de gaivotas felizes
Como se fosse-mos apenas aves sobrevoando o mundo

Mas diz-me coisas sobre a verdade
Fala-me de ti, no amor, na vontade
Deixa-me morrer na tua lembrança
Existir na tua inventada cidade

Deixem-me ser levado pelo vento
Como se partisse para sempre
Numa manhã cinzenta com as gaivotas gritando
Nas tempestades desta ilha algures perdida no tempo

Fala-me de um mar
Onde alguma vez pudemos navegar
Como se voássemos no mesmo bater de asas
“Fala-me do significado da palavra amar”


Mas vem, como se partíssemos para sempre
Num novo dia ao encontro dos desencontrados
Num sonho de navios partindo numa viagem sem fim
“Vem com a alma sorrindo em olhos fechados”
Voarão anjos pelos cantos do salão pela minha mão
Vestirei uma capa de cor púrpura para te ver dançar
Serei pois o mais feliz dos homens
Ou apenas...O POETA QUE ENSINOU UMA MULHER A VOAR...

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

NAS MARGENS DO AMOR


Não devo acariciar a melancolia
Algures na entrega de tudo
Está o pouco que se pretende
Não se deixa vencer pela noite este louco

Atrás de todas as vestes
Esconde-se o medo, a escuridão
Nas margens do silêncio habita um pássaro
Este poeta também tem coração

Um homem atravessa a montanha
Faz um filho, ama o retrato, morde o chão
Vende ao longe a esperança, o que Deus quiser
“Só o vazio ocupa o lugar de uma Mulher”

O teu, o teu, o de ninguém...
Com as cinzas da tarde
As mãos e as palavras estenderam-se sobre a mesa
Então de repente surge um grito sussurrante

O teu, o teu, o de ninguém...
Enquanto do tempo não há noticia
Como se de outro mundo viessem
Atrás das portas, as flores escutam-se mortas

E algures sonhamos com o mar
Vestindo um fato negro com a alma ao pescoço
Serei pois uma gaivota sorridente
Ou a sombra de um bêbado coxo?

Nunca serei
Desalento amorfanhado no silencio
Um bailarino rodopiando em salões vertiginosos
O sereno que beija o asfalto

Este lembrar do sol
Este lembrar de ti
Este sentir imenso
Este não saber se parti ou morri


Esta fresta que rasga os olhos
Esta beleza que faz de ti flor
Este poeta que se perdeu
NAS MARGENS DO AMOR...

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O PRINCIPEZINHO


Sabes... quando se está muito, muito triste
É bom ver o por do Sol com mil prazeres
Sabes...num planeta pequenino basta subires uma cadeira
Verás quantos crepúsculos quiseres

Já vi um Rei vestido de púrpura e arminho
Já vi uma gaivota mirar-se num espelho de água
Já vi uma mulher dar o peito ao marido faminto
Um golfinho fazer nas ondas um ninho

Já pintei ovelhas brancas
Anjos tristes aprisionados á bondade
Pintei um sorriso de olhos de sol
Já amei mentindo, construindo a verdade

Será que as estrelas obedecem a um Rei?
Que as sereias cantam o feitiço
Será que o teu coração bate terno por mim
Ou o teu amor perdeu-se num fim?

Cá estou eu bifurcando a alma
Numa barca navegando no olho da cidade
Quero fechar este livro antigo de culpas
Quero repetir-te mil vezes uma verdade

Amo-te...!
Recordando o tempo de menino
No esquecimento do mar brincando
Nas escadas de um ancoradouro

Para te encontrar
Caminho no alcance do horizonte
Para além das suas muralhas te ver
Sabes...somos a consciência do amanhecer

Já nos rimos na madrugada extensa
O choro é uma certeza, não rasga horizontes
Como se o mundo não soubesse de tudo, de nós
Desmontando a misterioso fia de mil afastamentos

Nunca serei um guerreiro vencido pela maresia
Contigo no coração nunca estarei sozinho
Saber do teu amor
Faz-me sentir...Um Principezinho...

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

SOLSTÍCIO DE AMOR


Ou será esta uma proposta de encantamento?!
Azul é o tempo que fala de búzios novos
De ventos ansiosos percorrendo os caminhos lentos do amor
Sabes: é possível dilacerar as fronteiras do sentir

És mulher
Vem sem violentares as palavras
Ninguém repara mas, o teu sorriso ficou em mim para sempre
Como tugúrio na paisagem, solta voz, fogo devorando a lagoa, mágoas

Talvez seja um arbusto inquieto
Encolhido num regaço fértil, sem me conheceres
Poeticamente cheio de amor
Preparando todos os amanheceres

Nem tudo o que faço pode estar errado
Nenhum amor pode estar fechado
Por entre o tempo incolor averbado
Na tua distância sempre tão perto

Podia ser apenas uma palavra aflita
Derramado em finos segmentos
Habitando o lado negro da Lua estranha
Algures no despertar da sombra cativa

Esta solidão grave incompartilhada
Pobre poeta, mendigo dos seus desgostos
Chorando e rindo desalmadamente da madrugada extensa
Este homem que sente, respira e pensa

Como a caricia serena do mar
Como o orvalho transparente das manhãs
Como este outono com gosto de vento nesta ilha
Como o teu amor envolto em maravilha

Este herói desconhece o fim da batalha
Recolhendo na hipnose dos sons os passos do teu chegar
No cerne imperceptível do papel branco
Há um punhado de amor esperando o despertar

Um trevo de quatro folhas, a voz calada da ternura
Uma rosa breve singela flor
O gemido de um cego, o cálice que embebeda o louco
Uma oração neste...SOLSTÍCIO DE AMOR...

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

DIÁRIO DE UMA SAUDADE


Escutei nos teus cabelos as ondas
Como se os abismos do mar trouxessem o eco
Numa cama de algas amei uma sereia
Recolhi o sal de uma onda e espalhei uma mão cheia

Percorri
Reinos de silencio quebrando o encanto
Na água exposta à luz dos espelhos
Encontrei Neptuno com cara de espanto

“Tenho o corpo eternamente abraçado na tua lembrança”
Tenho uma eterna espera num lugar possível
Tenho no a rota do sol dos pássaros
Tenho a sensação de que sorri teu coração...

...No meu passar
Sim é possível escutar as ondas batendo
Na rocha macia dos teus cabelos soltos ao vento
Parar o tempo, amar-te em pensamento

Mulher com aroma de erva
Corpo de garça
Memória de Eva
Pranto azul
Suor maduro
Estátua grega
Menina brincando á cabra-cega
Pomba com partículas de fogo
Água soberba na enchente dos rios
Incendio da carne no calor dos estios
Hortênsia cantante no Sol de abril
Um símbolo, uma lembrança, um ritual
A paixão vestindo o desejo de afeto
Corsa com os ombros nus
Olhos apelando à saliva quente
Fêmea de pele macia
A noite mansa despida sob o lençol
Esperando que jamais se faça dia

Vem. Imagina-te no centro de todas as minhas esperas
Trás o perfume de outras eras
Em que fomos felizes com verdade
Vem. Escrever mais uma página do... DIÁRIO DE UMA SAUDADE...